revista bula
POR EM 08/12/2008 ÀS 02:27 PM

Nigerianos roubam U$ 242 milhões de banco brasileiro

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O his­to­ri­a­dor e jor­na­lis­ta in­glês Mis­ha Glenny es­cre­veu um li­vro mui­to bom, “McMá­fia — Cri­me Sem Fron­tei­ras” (Com­pa­nhia das Le­tras, 440 pá­gi­nas), no qual o Bra­sil fi­gu­ra co­mo um dos per­so­na­gens prin­ci­pa­is. Não é pre­ci­so es­que­cer as má­fi­as ita­li­a­nas e ame­ri­ca­nas, mas o pes­qui­sa­dor mos­tra que há mui­tas ou­tras má­fi­as no mun­do que de­vem ser co­nhe­ci­das e, so­bre­tu­do, com­ba­ti­das. Uma de­las é a ni­ge­ri­a­na.

No ca­pí­tu­lo 8, “O te­a­tro do cri­me”, Glenny con­ta a his­tó­ria do gol­pe que um gru­po de cri­mi­no­sos ni­ge­ri­a­nos apli­cou no Ban­co No­ro­es­te, das fa­mí­lias Si­mon­sen e Cochra­ne, en­tre 1995 e 1997. Jun­tas, fo­ram sur­ru­pia­das por afri­ca­nos es­per­tos em 242 mi­lhões de dó­la­res e só com mui­to cus­to con­se­gui­ram re­a­ver par­te do di­nhei­ro. Na ver­da­de, se­gun­do o li­vro, con­se­gui­ram blo­que­ar a gra­na. Mas gas­ta­ram uma for­tu­na pa­ra ten­tar re­to­má-la, pois ti­ve­ram de con­tra­tar es­pe­cia­lis­tas ca­rís­si­mos pa­ra fa­zer a ope­ra­ção de “re­tor­no”. Des­mo­ra­li­za­do, o ban­co aca­bou ven­di­do pa­ra o San­tan­der.


Nelson Saka­gu­chi, ví­ti­ma de uma frau­de mo­nu­men­tal


A his­tó­ria do gol­pe é sur­pre­en­den­te, e co­me­çou pe­lo fax e, de­pois, pe­la in­ter­net. O exe­cu­ti­vo Nel­son Saka­gu­chi, res­pon­sá­vel pe­las ope­ra­ções do Ban­co No­ro­es­te nas Ilhas Cayman, re­ce­beu um fax de Ta­fi­da Wil­li­amns (na ver­da­de, Bless Oke­reke), di­re­tor de Or­ça­men­to e Pla­ne­ja­men­to do Mi­nis­té­rio da Avi­a­ção da Ni­gé­ria. Wil­li­ams ex­pli­cou que o go­ver­no, que iria cons­tru­ir um no­vo ae­ro­por­to in­ter­na­ci­o­nal em Abu­ja, a no­va ca­pi­tal, pre­ci­sa­va de in­ves­ti­men­tos.

Saka­gu­chi, ho­mem do mer­ca­do fi­nan­cei­ro, fa­re­jou uma gran­de opor­tu­ni­da­de de in­ves­ti­men­tos. Ar­ti­cu­lou um en­con­tro com Pa­ul Ogwu­ma, di­re­tor do Ban­co Cen­tral da Ni­gé­ria. Os ni­ge­ri­a­nos in­for­ma­ram que o go­ver­no que­ria 50 mi­lhões de dó­la­res pa­ra cons­tru­ir o ae­ro­por­to.

Mes­mo sa­ben­do que o ca­pi­tal do No­ro­es­te era de ape­nas 500 mi­lhões de dó­la­res, o bra­si­lei­ro, im­pres­sio­na­do com o es­que­ma, en­tu­si­as­mou-se e li­be­rou ime­di­a­ta­men­te 4 mi­lhões de dó­la­res pa­ra Em­ma­nu­el Nwu­de, “o mais exí­mio gol­pis­ta da Ni­gé­ria”. Saka­gu­chi foi li­be­ran­do di­nhei­ro, até che­gar à fa­bu­lo­sa so­ma de 242 mi­lhões de dó­la­res. O no­me do gol­pe é “co­mis­são adi­an­ta­da”, ou
419. Os ni­ge­ri­a­nos fo­ram pe­din­do di­nhei­ro, an­te­ci­pa­ções, e, no fi­nal das con­tas, não ha­via ae­ro­por­to, nem os gol­pis­tas eram di­ri­gen­tes do go­ver­no e do ban­co cen­tral da Ni­gé­ria.

“To­do mun­do con­cor­da que Saka­gu­chi foi ví­ti­ma de uma frau­de mo­nu­men­tal” — uma das cin­co mai­o­res do mun­do —, "mas nin­guém en­ten­de co­mo um ban­quei­ro tão ex­pe­ri­en­te caiu no gol­pe nem por que sub­traiu o di­nhei­ro de seu em­pre­ga­dor no pro­ces­so”, es­cre­ve Glenny. “Saka­gu­chi in­sis­te que foi ví­ti­ma pu­ra e sim­ples de um gol­pe e que não es­ta­va rou­ban­do di­nhei­ro do ban­co. (...) A in­ge­nui­da­de de Saka­gu­chi im­plo­ra cre­di­bi­li­da­de. Não há pro­vas de que ele es­ti­ves­se man­co­mu­na­do com os gol­pis­tas — foi uma ví­ti­ma ge­nu­í­na. Mas es­ta­va fi­nan­cian­do aque­le jo­go des­vai­ra­do com o di­nhei­ro dos ou­tros.”

Saka­gu­chi as­se­gu­ra que seus pa­trões sa­bi­am do “ne­gó­cio”, mas as fa­mí­lias Si­mon­sen e Cochra­ne ne­gam e o pro­ces­sa­ram.

Glenny re­la­ta que os ni­ge­ri­a­nos en­vi­am, to­dos os di­as, mi­lha­res de e-mails pa­ra pes­so­as do mun­do in­tei­ro com pro­pos­tas de di­nhei­ro fá­cil — mi­lhões de dó­la­res — e mui­tas acre­di­tam, en­tram em con­ta­to e são le­sa­das. Di­fi­cil­men­te con­se­guem re­ce­ber o di­nhei­ro que, na ver­da­de, de­ram de pre­sen­te pa­ra ni­ge­ri­a­nos es­per­tos. O e-mail se tor­nou um po­de­ro­so ins­tru­men­to pa­ra os ni­ge­ri­a­nos ar­ran­ca­rem di­nhei­ro dos in­cau­tos. Ali­ás, po­de-se di­zer que Saka­gu­chi, com anos de mer­ca­do fi­nan­cei­ro, é in­cau­to?

Nou­tro ca­pí­tu­lo, Glenny re­la­ta co­mo o de­le­ga­do Pro­tó­ge­nes Quei­roz (o mes­mo que pren­deu o ban­quei­ro Da­ni­el Dan­tas) des­ba­ra­tou a qua­dri­lha do chi­nês Law Kin Chong. Nem mes­mo a Po­lí­cia Fe­de­ral em São Pau­lo foi avi­sa­da da Ope­ra­ção Sho­gun.

“Os car­té­is de Ca­li e de Me­del­lín co­me­ça­ram a ne­go­ci­ar a ex­pan­são glo­bal da co­ca­í­na com re­pre­sen­tan­tes da Ir­man­da­de de Solntse­vo de Mos­cou, com tra­fi­can­tes búl­ga­ros e com inú­me­ros tra­fi­can­tes do Ca­ri­be e da Amé­ri­ca Cen­tral” por in­ter­mé­dio das fa­mí­lias Cun­tre­ra e Cu­a­ra­na. O fun­da­dor do es­que­ma, oc­to­ge­ná­rio, mo­ra, sem ser mo­les­ta­do, no Rio de Ja­nei­ro. Os fil­mes ame­ri­ca­nos es­tão cer­tos: cri­mi­no­sos con­ti­nuam fu­gin­do pa­ra o Bra­sil.

O Pri­mei­ro Co­man­do da Ca­pi­tal (PCC) tam­bém é dis­cu­ti­do por Glenny, mas, nes­se cam­po, seu tra­ba­lho de pes­qui­sa é in­sa­tis­fa­tó­rio. Con­ten­tou-se em co­lher opi­ni­ões de pro­mo­to­res, um ju­iz apo­sen­ta­do e de­le­ga­dos de po­lí­cia e na­da con­ta de re­le­van­te.

Há re­la­tos in­te­res­san­tes so­bre “ra­tos” da in­ter­net bra­si­lei­ros e seus as­se­clas in­ter­na­cio­nais. Eles rou­bam mi­lhões de con­tas de ban­cos. O bra­si­lei­ro Kau, es­pe­cia­lis­ta em tes­tar se­gu­ran­ça de com­pu­ta­do­res, diz que “o úni­co com­pu­ta­dor se­gu­ro é o que es­tá des­li­ga­do”.
 
 

O intelectual errante

Antes de comprar alguns livros, leio trechos, ou eventualmente o prefácio. Não adquiri "
Mínima Mímica — Ensaios Sobre Guimarães Rosa" (Companhia das Letras, 350 páginas), da ótima crítica literária Walnice Nogueira Galvão. Li, na livraria, o ensaio "Um intelectual a contracorrente: Duglas Teixeira Monteiro" (lutei contra meu computador para escrever Duglas, pois, teimoso, corrigia para Douglas).

Trata-se de um texto amoroso a respeito do brilhante sociólogo que escreveu com rara sensibilidade sobre a revolta de Contestado. Mas não apenas a respeito do intelectual. Walnice conta a história do homem, que, a partir de certo momento, passou a usar botinas e ir para o trabalho de bicicleta.

Pesquisador infatigável, Duglas levantava-se de madrugada para assistir cultos evangélicos, pois não se interessava apenas pela teoria — queria ver de perto como se davam os cultos, como as pessoas os praticavam.

O ensaio, sensível e inteligente, vale o livro. Ressalve-se que o livro é sobre Guimarães Rosa. 
 

 

 

Jane Austen

A Editora Landmark publica nova tradução de "
Orgulho e Preconceito" (400 páginas), da escritora inglesa Jane Austen, com tradução de Marcella Furtado. A edição é bilíngüe, o que é excelente, pois permite que o leitor possa verificar a qualidade da versão e da prosa da autora inglesa.

A tradução de Lúcio Cardoso, publicada pela Ediouro, não é ruim. Mas precisa de uma revisão caprichada, pois há dezenas de erros.

Mundo globalizado

José Luís Fiori é um dos poucos intelectuais brasileiros que tentam escrever livros abrangentes sobre a economia política mundial. Um bom aperitivo é "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" (Editora Boitempo).

Biografia do Padre Cícero

Autor de excelentes biografias do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, do escritor José Alencar e da cantora Maysa, o jornalista
Lira Neto está escrevendo a biografia do Padre Cícero.

O livro terá 550 páginas, com muitas fotografias de época e fac-símiles. Lira Neto conta que teve "acesso a uma ótima documentação".
 
Cantor e algemas

O livro "
O Jovem Stálin" (Companhia das Letras), de Simon Sebag Montefiore, conta que, além de assaltante de bancos — para financiar a luta de Lênin —, o bolchevique era cantor e, durante certo período, esteve encantado pelo esperanto. No poder, baniu o esperando e prendeu quem o estudava.

"Não somos ladrões para sermos algemados", disse Stálin para um policial, antes de chegar ao poder. Ele preferia a companhia de bandidos à de revolucionários, que acha empolados, e levou alguns criminosos para o centro do poder.
 
Mensalão

O jornalista Allan Kardec envia endereço no qual se pode ler "o livro que, supostamente, foi recusado por todas as editoras:
http://www.escandalodomensalao.com.br/.
 
Poesia francesa

Leio, com raro prazer, uma das dessas maravilhas que encontramos nos sebos: "Antologia da Poesia Francesa — Do Século IX ao Século XX" (Editora Record, 462 páginas). As traduções são do especialista Cláudio Veiga, que tem o nome destacado na capa, tal a qualidade de seu trabalho, no qual une competência e sensibilidade.

Alguns dos poetas traduzidos: François Villon ("Balada dos Enforcados"), Louise Labé ("Foi predito"), Racine ("Pranto de um cristão"), André Chénier ("A Poesia"), Lamartine ("O Livro da Existência" Victor Hugo ("Mors"), Gérard de Nerval ("Artêmis"), Alfred de Musset ("Tristeza"), Baudelaire ("Spleen"), Mallarmé ("Brisa Marinha"), Verlaine ("Arte poética"), Rimbaud ("Aurora"), Jules Laforgue ("Pôr-de-sol de inverno"), Paulo Valéry ("Cemitério marinho"), Apollinaire ("A linda ruiva"), Saint-John Perse ("Neves III"), Henri Michaux ("Sai da parede uma cabeça"), René Char ("À saúde da serpente"), Yves Bonnefoy ("Envelhecemos..."). 
 

 
Omissão estranha

Nas resenhas do livro "
Stasilândia — Como Funcionava a Polícia Secreta Alemã" (Companhia das Letras, 375 páginas), de Anna Funder, não vi nenhuma referência ao livro "O Homem Sem Rosto — Autobiografia do Maior Mestre de Espionagem do Comunismo" (Editora Record, 430 páginas), de Markus Wolf com Anne Anne McElvoy.

Não entendo os motivos da omissão, pois Markus Wolf, além de criar ou recriar a espionagem da Alemanha Oriental, é um dos forjadores do eficiente sistema secreto da Cuba de Fidel Castro. Um dos segredos da eficiência do serviço secreto cubano é a tecnologia e a disciplina alemãs.

O livro de Wolf, apesar de sua vaidade extremada, talvez daí seu sucesso como espião, é um retrato impagável da espionagem stalinista. Como se sabe, os modestos e os não-vaidosos costumam ser ineficazes, pois não têm pretensões. 
 
Maiores boxeadores

Leio no site
www.boxergs.com.br a lista dos maiores boxeadores do século 20. Robert Cassidy elaborou a lista a partir da opinião de quatro grandes treinadores.

Gil Glancy diz que o maior boxeador do século foi Willie Pep (nada sei a respeito). Angelo Dundee prefere Muhammad Ali. Lou Duva fica com Sugar Ray Robinson. Emanuel Steward repete Dundee.

Cassidy lista também a principal luta em que os quatro trabalharam. Clancy diz que a luta do século ocorreu entre Joe Frazier e Muhammad Ali. "Foi o evento esportivo do século", afirma.

Dundee escolhe a batalha do Zaire, entre Muhammad Ali e George Foreman.

Duva escolhe a peleja entre Evander Holyfield e Buster Douglas. O primeiro carrasco de Mike Tyson, o sujeito que provou que era possível vencer a fera, foi derrotado por nocaute por Holyfield.

Steward cita a luta entre Hilmer Kenty e Ernesto Espana. Ele cita também as guerras entre Thomas Hearns e Marvin Hagler. Escrevi guerras, porque foram verdadeiras batalhas. Hearns e Marvelous são autênticos samurais dos tempos modernos.
 
Carlos Gracie

O poeta Carlos Willian Leite, editor do Opção Cultural, está lendo "
Carlos Gracie — O Criador de uma Dinastia" (Editora Record, 560 páginas), de Reila Gracie.

Se tivesse certeza de que viveria pelo menos 101 anos, e lúcido, arranjaria dois ou três dias e leria o livro sobre o grande Carlos Gracie.

Como não tenho certeza que chegarei aos 60 anos, dou apenas uma nota sobre o livro que conta a história do pai "jiu-jítsu brasileiro" (para ser franco, nem sei o que isto quer dizer). "O Criador de uma Dinastia" é do tipo de livro que não li, não lerei, mas gostei.
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