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POR EM 11/12/2012 ÀS 05:11 PM

Michelet: um poeta inventa a história

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A Revolução Francesa é filha do Iluminismo e o cânone da sua história foi definido por meio do mito e do romantismo, graças ao talento de Jules Michelet, o poeta que, ao resgatar os eventos da ruptura do povo em armas contra a monarquia, criou uma narrativa também de ruptura

O truque narrativo de Jules Michelet no seu clássico “História da Re­volução Francesa — Da Que­da da Bastilha à Festa da Fe­deração” ainda pode ser encontrado hoje no cinema americano: o herói só radicaliza depois que sofre a brutalidade dos inimigos, depois que se decepciona, quando sua boa fé vira do avesso e se transforma em arma de guerra. Trata-se de uma visão romântica e ao mesmo tempo moderna da história, uma ciência hoje em crise de identidade, abordada neste livro com a oratória poética do mito. Lendo sua obra com olhos livres e com o apoio de Lucien Febvre e Jacques Ran­cière, pode-se identificar os elementos principais deste livro, sua gênese e atualidade. Vamos seguir o conselho de Ma­rio Quintana, que respondeu à pergunta de uma professora “O que é preciso ler para entender Shakespeare?” assim: “Leia Shakespeare”.

A razão vence a loucura

O povo foi convocado pela aristocracia para as eleições de 1789. O objetivo era servir de massa de manobra no jogo político da corte. Michelet destaca a inocência do povo, que atende ao chamado votando maciçamente, de maneira correta, nos eleitores certos, esperando deles a solução para os problemas gerais. O texto tece essa inocência para imantar o povo — que ao agir atrai para si a razão. O povo jejuava — com a crise — e aguardava pacientemente, pois tinha esperança nos Estados Gerais.

O instrumento do povo era o Terceiro Estado, que tradicionalmente sempre fora modesto, respeitoso, adestrado para concordar com o poder. Mas, desta vez, a população comportou-se de maneira diferente, elegendo, no interior, os padres aguerridos, que eram contra os bispos. E, para desespero de Robert Darnton, que insiste, na sua obra, em subestimar a importância do Ilu­minismo na Revolução, “o povo das cidades, um pouco mais preparado, tendo recebido alguns lampejos da filosofia do século, mostrou um admirável ardor, uma viva consciência do seu direito”. Essa determinação definiu dois polos opostos: a nação de um lado, o privilégio do outro. A nação estava unida entre povo e burguesia, mas dividida entre letrados e iletrados. Vemos assim que Michelet identifica as raízes da Revo­lução Fran­cesa como consequência direta do Iluminismo, uma visão épica que hoje virou moda desmoralizar.

“A Assembleia seguinte seria um Messias; bastava que ele falasse e as pedras se transformariam em pão.” Ou: “Ah! Quem não ficaria comovido à lembrança desse momento único, que foi nosso ponto de partida? Durou pouco, mas permanece para nós o ideal a que sempre tenderemos, a esperança do futuro”. A emoção do historiador e a ética do comportamento popular costuram o texto todo o tempo. Ao longo do relato, o povo é honesto, revoltado, firme e esperançoso.

A oposição é entre o povo, que está na legalidade — e, portanto, se distingue da populaça, dos arruaceiros — e a aristocracia, que encarna a ilegalidade do privilégio: “Os nobres da Bretanha haviam dado o exemplo de perturbação das operações legais dos Es­tados provinciais, agitando os camponeses, lançando contra o povo uma populaça entremeada de lacaios”. O povo encarna a lei, que tem legitimação divina e que será hegemônica no futuro. Segundo Mi­chelet, o privilégio está de um lado, o direito do outro. É direito do povo transformar o Terceiro Estado em Assem­bleia Nacional soberana. Com isso, a Revolução toma impulso e torna-se irreversível. E o povo representa toda a nação e não apenas parte dela.

O Terceiro Estado significava o advento da lei. Ele era uma massa de homens — onde não se destacava nenhum grande inventor, nenhum herói — que representava a pátria acima de todas as classes. A paixão e a audácia do Terceiro Estado o­punha-se à repulsa, ao ódio e à arrogância da aristocracia. O comportamento da nobreza é fonte de fraqueza, e o do povo, de força. O rei teve uma chance nesse momento, de aliar-se ao povo contra a nobreza, mas ignorou-o, apesar dos esforços do Terceiro Estado em manifestar lealdade. O rei aliou-se aos privilegiados da nobreza e com isso decretou a própria sentença. Ele não encarna mais a nação, mas apenas o privilégio, ou seja, a fraqueza, a ilegitimidade. Com a radicalização do processo, a Revolução começa a sua trajetória, como um navio em direção ao futuro. Ou seja, a irreversibilidade da vitória da nação nasce desse antagonismo não resolvido.

Para uma nação sensível ao gênio da palavra, é fundamental que a Revolução aproprie-se da linguagem regia para tornar visível e exercer sua legitimidade temporal. Da legitimidade divina, cuida Michelet de identificar a Assembleia com uma manjedoura de Belém. Ela nas­ce como um novo cristianismo para substituir a religião. Os locais onde a Revolução se ma­nifestou pela primeira vez são considerados sagrados pelo historiador. No processo narrado, evidencia-se a cautela da França, encarnada no seu po­vo, nos passos decisivos que está dando.

Mas chega um momento em que, de posse da legitimidade, da razão, o povo revolucionário deixa a moderação de lado e investe contra a loucura, a desrazão do privilégio. Michelet descreve como a nobreza e o rei vão perdendo todas as chances ao tentar suprimir a liberdade depois de outorgar voz a milhões de eleitores por meio das eleições. O legislador do lado da loucura, o legislador idiota acaba impelindo os acontecimentos para a violência, a força e a espada. Como diz Mirabeau: “Ide dizer àqueles que vos enviam que estamos aqui pela vontade do povo e que daqui só nos arrancarão pelo poder das baionetas”.

Pela força da sua legitimidade, por ser instrumento da razão, a Revolução tem validade universal. Assim a França, “correndo todos os riscos, acer­tava as contas do gênero humano”. Ela tinha poder para mudar os homens, a selecionar aqueles que estavam ao lado da lei e da mudança, contra os outros, que aproveitavam a confusão para defender interesses mesquinhos. Estes é que difundiam a subliteratura. Ou seja, ao contrário do que Darn­ton sustenta, as brochuras da subliteratura instigavam o povo contra a Revolução.

O movimento tinha grandeza, tinha imensidão. O povo agia de maneira transparente, contra a obscuridade da conspiração da nobreza. Com o au­mento do fosso entre as duas posições, a Revolução avançava e o povo sentia necessidade de se armar. Nessa fase, moderação era tida como traição. Era preciso ousar. A insurreição tornava-se o instrumento do patriotismo, já que a nação era o povo lutando pela liberdade. O povo armado se defrontava com os soldados estrangeiros, mercenários em oposição ao soldado cidadão, francês, que se engajava na luta revolucionária.

A tomada da Bastilha — uma “prisão do pensamento” — é uma vitória contra a anarquia moral, é um ato de fé do “povo inteiro” (a nação unida), contra a arbitrariedade caprichosa, o despotismo fantasioso, a inquisição eclesiástica e burocrática. No dia 14 de julho, a liberdade nasce num berço puro e sem mácula. Essa pureza opõe-se à má consciência encarnada na Bastilha, sua loucura que acabou minando a própria resistência.

Um historiador sem mestre

A força poética do texto de Michelet costuma contaminar a análise que se faz dele. E o que acontece com Lucien Febvre, ao decompor a gênese do historiador num curso dado em 1942. Mas a homenagem não obscurece a lucidez da análise, que está centrada na seguinte tese: a de que Michelet criou a história porque não teve mestre. Ele faz parte de uma geração cevada no silêncio sobre os eventos da re­volução: “A ruptura com o passado e a tradição foi total e não somente com a tradição do antigo regime, mas também, propriamente, com o novo. Porque, da revolução, ninguém falava jamais aos filhos que, nascidos por volta de 1795 (Michelet é de 1798), cresciam sob o império. A palavra de ordem era o silêncio”.

A ruptura deu-se na tradição oral, na família: “Guardar silêncio com os filhos é romper a tradição, quebrar o fio dos tempos”. Michelet precisou resgatar a história da Revolução do silêncio, por meio do seu amor pelos mortos e assumindo o romantismo, que surgiu como reação à aridez da razão logicista e o cálculo utilitarista do passado. Segundo Lucien Febvre, ele criou a história porque primeiro a sentiu, porque captou com maravilhosa sensibilidade, todas as correntes que cruzavam a atmosfera da sua época. Os sinais dessa revolução sentimental e moral seriam a reabilitação — e logo, a exaltação — da sensibilidade e da poesia.

Como vemos na página 121 no texto de Michelet, ele se sentia em dívida com o passado: “Ah! O tempo não andou de­pressa, as gerações se sucederam, a obra pouco avançou… Quando pusemos os pés sobre suas lajes veneráveis, a vergonha nos veio ao coração pelo que somos, pelo pouco que fizemos. Sentimo-nos in­dignos e saímos daquele lugar sagrado”. Na raiz da obra de Mi­chelet estão também as “Con­fissões”, de Rousseau. O historiador resgata a si mesmo quando resgata o passado. Ele procura conciliar os acontecimentos com sua identidade pessoal.Os sentimentos, as emoções profundas da história foram revividas por Michelet porque ele reviveu suas causas dentro de si.

O historiador deve estar preparado interiormente para a grandeza da história. Como diz Michelet na página 134: “O ódio e o espírito do partido rebaixaram tudo isso, desfiguraram essas grandes cenas, obscureceram a história a seu bel prazer. A­pegaram-se a essa ou à qual anedota ridícula. Digno divertimento de espíritos pe­quenos! Atri­buíram-se a esses movimentos imensos não sei quais miseráveis, quais imperceptíveis causas… Ah!, infelizes, explicai então, pela palha que a vaga leva, a agitação do oceano”. Lucien Febvre reporta-se à geração de historiadores entre 1870 e 1890 que “durante anos, não cessaram de trabalhar para apequenar a história, para achatá-la em todos os sentidos da palavra, para fazê-la voltar ao ponto em que Mi­chelet a tomou”. Como se vê, a síndrome de Dar­nton é cíclica na história.

Insuflar vida aos arquivos, extrair sangue quente e vida dos papeis mortos exige exaltação, poesia. “Como eu gostaria de falar em prosa” escreve Michelet citado por Lucien Febvre. “O ritmo oratório me persegue e faz de mim um poe­ta abortado.” O poeta escolheu a filosofia como caminho para a história. Sua intenção era enfocar a evolução dos costumes e das ideias das sociedades desaparecidas. O historiador filósofo “queria romper com o espírito do século 18, com a filosofia das ideias claras e da razão seca, numa palavra, com a maneira de Voltaire”. Esse passado foi rompido pela Re­volução: “A história é filha do romantismo e da Revo­lução”, diz Lucien Febvre. “E o que fez a Revolução? Pro­moveu o povo à dignidade de agente e por conseguinte de sujeito mesmo da história.” Num arroubo de puro Mi­chelet, diz Lucien Feb­vre: “Di­gamos a palavra certa: a revolução foi a nação tomando o poder na França”.

Homens saídos do nada, como Danton, Robespierre e Napoleão, que não usurparam o poder antigo, mas se identificaram com o novo poder emergente, assomaram no cenário. Desse nada criador é que Mi­chelet tirou a história. Os professores que sua geração dispunha, do tempo do império napoleônico, eram extremas nulidades, segundo Lucien Febvre. Só depois de 1815 é que a surgiram os professores de verdade para uma França ávida por conhecimento. Nesse caldeirão o jovem Michelet começou a se destacar.

Paradoxos de uma obra moderna

O que um poeta romântico que se insurgiu contra o esquecimento e contra a aridez do passado tem de moderno? Jac­ques Rancière, a partir de Lu­cien Febvre, responde a essa pergunta, ao lembrar que este saudou Michelet como o pai fundador da Escola dos An­nales: “Face ao modelo real-empirista, Michelet inventou um paradigma republicano-romântico da história sobre a qual esta deve ainda regular-se quando quer permanecer uma história e não uma sociologia comparada ou um anexo da ciência econômica ou política”. Segundo Rancière, Michelet opera esta revolução pela qual o relato do acontecimento torna-se o relato do seu sentido. Sua modernidade, que fez Lucien Febvre transmitir seu estilo para a escola dos An­nales, provém do fato de que ele soube definir uma estrutura poética essencial do novo saber histórico. “A história não pode tornar-se ciência permanecendo história senão pelo desvio poético que dá á fala um regime de verdade.”

Isso serve de lição para os historiadores de hoje, segundo Rancière: “É no universo simbólico estruturado pelas identidades ordenadoras do corpo real, da fala divina e da musa poética que a história erudita da idade das massas deve ir buscar suas ancoragens. O problema não é, pois, saber se o historiador deve ou não fazer literatura, mas qual ele faz. O sacrifício da história à afirmação da crença cientificista levou ao fim de uma certa historicidade, o fim da crença na história como figura da racionalidade”.

Conclui Rancière: “Nada ameaça a história senão seu próprio cansaço relativamente ao tempo que a fez ou seu me­do diante do que fez a matéria sensível de seu objeto: o tem­po, as palavras e a morte. A história não tem que se proteger contra nenhuma invasão estrangeira. Ela tem necessidade apenas de se reconciliar com seu próprio nome”.

O objetivo dessas citações é relatar o paradoxo criado por um historiador que inventou a ciência histórica sendo poeta e romântico e tornou-se mais a­tual do que nunca depois de um longo silêncio que a crise da modernidade nos condenou. Resgatar a grandeza da história parece ser, à moda de Michelet, a obra atual dos historiadores.

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