revista bula
POR EM 06/04/2010 ÀS 09:50 AM

Involução de Fidel Castro pode ter fuzilado 20 mil pessoas

publicado em

Fidel Castro

A jornalista Flávia Marreiro, da “Folha de S. Paulo”, publicou reportagem de uma página, no dia 21 de março, com o título de “‘Paredón’ cubano vitimou ao menos 3.820”. A base de sua informação é o projeto Cuba Archive. Como sabe que o número é subestimado, o jornal acrescenta no subtítulo: “Dependendo da fonte, porém, fuzilamentos na ilha desde a instauração do regime castrista podem ter chegado à casa dos 17 mil”.

Os donos do principado de Cuba, Fidel Castro e Raúl “Picolé de Chuchu” Castro, certamente agradecem aos coordenadores do Cuba Archive (www.cubaarchive.org) pelo número subestimado. (Consta que as mortes foram documentadas, mas Fidel, temendo o julgamento da história, mandou queimar os arquivos. O ditador teve tempo de verificar o que aconteceu com Hitler e Stálin depois da abertura dos arquivos.) Organizado por uma associação de cubanos e americanos, o Cuba Archive não fez um trabalho desonesto, escondendo dados. Trabalhou com documentos possíveis, porque o governo da dinastia Castro se recusa a liberar documentos do que fez e faz. Fidel admite, no máximo, que manteve 20 mil cubanos nas masmorras e matou “alguns” contra-revolucionários. Marifeli Stable-Pérez, do Inter-American Dialogue, de Washington, diz que “o Cuba Archive é um bom esforço”, mas as cifras não são concretas, “porque a principal fonte é Havana, que não presta contas”. A repórter não diz, mas, após a queda do regime, a reconstituição da história dos fuzilamentos possivelmente vai levar anos, porque terá de ser feita família por família, por conta dos escassos documentos. A polícia secreta cubana, além de destruir as provas, os documentos, tem se empenhado, sistematicamente, em apagar a história dos fuzilados. As pessoas são “apagadas”, assim como o castrismo faz com as fotografias dos líderes revolucionários que caíram em desgraça.

O Livro Negro do ComunismoPor saber da incompletude dos dados do Cuba Archive — e, insisto, inconsistência não por manipulação, e sim por falta de documentos precisos —, a “Folha” cita outras fontes para aferir o número de executados pelo regime cubano.

“Cuba, Cronología, Cinco Siglos de Historia, Política y Cultura” (2003), do historiador cubano Leopoldo Fornés-Bonavía, estima que o governo fuzilou “ao menos 4.000 até o final de 1961”. O filósofo Ruy Fausto diz que não se trata do total de fuzilamentos. O historiador inglês Hugh Thomas, autor de “Cuba or The Pursuit of The Liberty”, diz que o governo matou 5.000 pessoas até 1970. O livro é de 1971 e o regime continuou matando.

A fonte mais categorizada é “O Livro Negro do Comunismo — Crimes, Terror e Repressão” (Bertrand Brasil, 917 páginas, tradução de Caio Meira, 1999), organizado por Stéphane Courtois, Jean-Louis Margolin, Nicolas Werth, entre outros. Todos pesquisadores de uma esquerda independente, crítica e rigorosa. Não são de direita, como tentaram dizer esquerdistas. A “Folha” apresenta o dado sem detalhar as informações do livro.

O ensaio “A América Latina e a experiência comunista”, de Pascal Fontaine, tem 20 páginas e é equilibrado. No final, o autor escreve que, “desde 1959, mais de cem mil cubanos conheceram os campos, as prisões ou as frentes abertas [de trabalhos forçados]. Entre 15.000 e 17.000 pessoas foram fuziladas”. Nos primeiros cinco meses da Involução de 1959 foram assassinados 600 supostos partidários do presidente Fulgencio Batista. “É possível fazer um balanço da repressão dos anos 60: entre 7 e 10 mil pessoas foram fuziladas, e avaliava-se em 30 mil o número de detidos políticos.”

Há também aqueles que morreram tentando escapar do regime ditatorial. “Cerca de 7 mil pessoas pereceram no mar durante o verão de 1994.” No total, quase 12 mil morreram ao tentar sair da ilha. Na guerra de Angola, morreram de 7 mil a 11 mil cubanos. São 40 mil mortes, sem contar os suicídios. O índice de suicídio de Cuba é um dos mais altos do mundo. Motivos: depressão provocada por fome e falta de liberdade. Cuba tem 11 milhões de habitantes e “perto de 2 milhões de cubanos vivem fora da ilha” — 20% dos cubanos estão no exílio.

A história do líder estudantil Pedro Luis Boitel, que morreu depois de uma greve de fome, é pouco contada, mas merece registro no trabalho de Fontaine. Boitel, estudante de engenharia, não aceitou a ditadura de Fidel e “foi condenado a dez anos de prisão e encarcerado num estabelecimento particularmente duro: Boniato”. Morreu, depois de 53 dias, sem nenhuma assistência médica. “As autoridades recusaram à mãe o direito de ver o corpo do filho.” Em 1972, quando Boitel morreu, Cuba era vista como o paraíso na Terra. Agora, com a morte de Orlando Zapata Tamayao, depois de uma greve de fome que durou 85 dias, e a greve de fome do dissidente Guillermo Fariñas, os protestos foram acentuados, mesmo internamente, e ganharam repercussão internacional. Os que falam em Vladimir Herzog deveriam pensar em Boitel e Zapata.

Cuba — Uma Nova HistóriaQuando se fala em campo de concentração, os leitores lembram de Hitler e de Stálin (os campos soviéticos inspiraram os alemães). Fontaine registra que Fidel construiu campos de concentração e de trabalhos forçados em Cuba. O francês Régis Debray anota: “Foi ele [Che Guevara, o falso romântico], e não Fidel, que[m] inventou, em 1960, na península de Guanaba, o primeiro ‘campo de trabalho corretivo”, que Fontaine chama de campos “de trabalhos forçados”. Fidel criou outros campos.

Fontaine relata que a Unidade Militar de Apoio à Produção (Umap), “verdadeiros campos de concentração”, funcionou de 1964 a 1967. Religiosos (católicos, protestantes, Testemunhas de Jeová), dissidentes e homossexuais eram jogados nesses campos. O governo tentou “curar” os homossexuais e, como não conseguiu, torturou-os e os manteve presos (quem quiser saber mais deve ler “Antes Que Anoiteça”, poderosas memórias de Reinaldo Arenas).

“Em 1964”, historia Fontaine, “foi implementado um programa de trabalho forçado na ilha dos Pinheiros: o plano ‘Camillo-Cienfuegos. (...) os prisioneiros eram destinados aos trabalhos agrícolas ou à extração nas pedreiras, sobretudo de mármore. As condições de trabalho eram muito duras, os detidos trabalhavam quase nus vestindo um simples calção. À guisa de punição, os recalcitrantes eram obrigados a cortar erva com os dentes, e outros foram jogados dentro de fossas de excrementos durante várias horas”.

Nas prisões, como Cabana, várias pessoas foram fuziladas, na década de 1980, quando a União Soviética estava se preparando para abrir o sistema. Cabana “foi desativada em 1985. Mas as execuções prosseguem em Columbo, em Boniato, prisão de alta segurança onde reina uma violência sem limites e onde dezenas de políticos são mortos de fome. Para não serem violentados pelos presos de direito comum, alguns se lambuzam com excrementos”, relata Fontaine. Muitos prisioneiros morrem em Boniato. Os poetas Jorge Valls e Ernesto Díaz Rodríguez e o comandante Eloy Guttierrez Menoyo relataram as agruras dessa prisão-cemitério. “Em Cabana, eles [os presos] deviam se apresentar nus perante a família. Os maridos encarcerados eram obrigados a assistir à revista íntima das esposas.” Um dos projetos dos Castros é “vencer” os dissidentes pela humilhação e persuadir as famílias a convencê-los que estão “errados”.

Segundo Fontaine, “no universo carcerário de Cuba, a situação das mulheres é especialmente dramática, uma vez que elas são entregues sem defesa ao sadismo dos guardas. Mais de 1.100 mulheres foram condenadas por motivos políticos desde 1959. Em 1963, elas eram encarceradas na prisão de Guanajay”. São espancadas e humilhadas. Em 1986, no campo de Potosi, havia “3 mil mulheres encarceradas”.

Mais de quarenta anos depois da morte de Hitler, o governo cubano mantinha, nos anos 80, mais de 3 mil prisioneiros no campo de concentração El Manbi, na região de Camaguey. No campo de Siboney, o governo usava pastores-alemães, como os homens de Hitler, para vigiar e cassar prisioneiros. Adolescentes que são apontados como delinquentes eram enviados para os campos Arco-Íris e Nueva Vida. “Na zona de Palos, situa-se o Capitiolo, campo de internamento especial reservado para crianças com cerca de 10 anos. Os adolescentes cortam cana ou fazem trabalhos de artesanato.”

Até 1974, pelo menos, segundo Papito Struch, fonte citada por Fontaine, “os detentos” constituíam “a principal força de trabalho de Cuba”. Fala-se em trabalho escravo no Brasil, mas o governo financiado pelos presidentes Lula da Silva e Hugo Chávez gerou um regime que escraviza seu próprio povo.

Os dados sobre fuzilamentos em Cuba são aproximações. Os trabalhos de Fontaine e do Cuba Archive resultam de pesquisas criteriosas, mas suspeita-se que o regime gerado pela Involução Cubana de 1959 pode ter matado mais de 20 mil pessoas. Porque a maioria das mortes não tem registro.

A Ilha do Doutor CastroO pessimismo em Cuba é tão intenso que muitos casais se recusam a ter filhos. Os jornalistas Corinne Cumerlato e Denis Rousseau escrevem, no livro “A Ilha do Doutor Castro — A Transição Confiscada” (Editora Peixoto Neto, 318 páginas, tradução de Paulo Neves), que “o final dos anos 90 em Cuba registrou a taxa de fecundidade mais baixa desde cerca de um século. Em 2020, a população da ilha começará a decrescer”. O número de abortos é um dos maiores do mundo: “40% das gestações terminam em abortos, um índice tão elevado que inquieta as próprias autoridades cubanas. (...) Cuba detém outro recorde pouco invejável: o país possui um dos índices de suicídio mais elevados da América Latina, com cerca de 20 suicidas para 100 mil habitantes. A média no resto do continente oscila entre oito e 12 para 100 mil pessoas”.

“O Livro Negro do Comunismo”, “A Ilha do Doutor Castro” e o excelente “Cuba — Uma Nova História” (Jorge Zahar Editor, 427 páginas, tradução de Renato Aguiar), do historiador Richard Gott, mostram que, por mais que o regime cubano seja totalitário, a oposição está se firmando como alternativa em Cuba. Há uma elite política democrática pronta para assumir o governo e o povo não suporta mais a “canga” da família Castro.

“A Ilha do Doutor Castro” e “Cuba — Uma Nova História” mostram o envolvimento do governo cubano com narcotraficantes da Colômbia. Gott detalha a falência da economia cubana. Os dois livros relatam a descrença do povo cubano, que, hoje, faz pilhérias sobre Fidel, Raúl e o regime.




É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2014 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio