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POR EM 20/01/2010 ÀS 10:06 AM

Historiador denuncia a indústria do Holocausto

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Tachado de opositor ideológico de Israel, Norman Finkelstein sustenta que o Holocausto nazista foi “recriado” para defender Estado judeu e enriquecer instituições judaicas

Norman Finkelstein

Condenado a três anos de prisão, na Áustria, por negar o holocausto, o historiador David Irving, nos seus primeiros enfrentamentos, sustentou que as câmaras de gás em Auschwitz eram ficção (teriam sido construídas por poloneses) e garantiu que a Noite dos Cristais, perseguição pioneira de Hitler aos judeus, não havia sido executada pelos nazistas. Agora, o pesquisador advoga outra posição: “Não sou um negacionista do Holocausto. Minha opinião mudou. A História evolui constantemente. Quanto mais alguém aprende, mais documentos ficam disponíveis e mais se aprende. Aprendi muito desde 1989”. Depois de dizer que foi condenado por declarações feitas há 17 anos, Irving acrescentou: o Holocausto é uma “tragédia judaica da Segunda Guerra Mundial”. No Brasil, pelo menos, Irving é apresentado como doidivanas. Gordon Craig, um estudioso sério, pondera: “Seu livro ‘Hitler’s War’ (...) permanece o melhor estudo que temos do lado alemão na Segunda Guerra Mundial e, como tal, indispensável para muitos estudiosos deste conflito”.

Há um consenso: o Holocausto é um fato da história do século 20, mas há um debate permanente, um poço sem fundo, sobre o número de judeus assassinados pelos nazistas. O mais importante historiador do Holocausto nazista, Raul Hilberg, autor do livro “A Destruição dos Judeus Europeus”, clássico publicado em 1961 e citado por todos os pesquisadores sérios, conclui que a estatística mais justa sobre o número de mortos judeus é 5,1 milhões. É uma estimativa conservadora. A mais citada, porém sempre questionada, é 6 milhões. O historiador Michael R. Marrus, autor do livro “A Assustadora História do Holocausto” (em inglês o título exclui a palavra “assustadora”), observa, baseado em dados nazistas: “O Holocausto tirou as vidas de algo entre 5 milhões e 6 milhões de pessoas — aproximadamente dois terços dos judeus europeus e um terço da população judaica mundial. Seis milhões continuam a ser o total popularmente aceito — o número mencionado pelo Tribunal Militar Internacional de Nuremberg em sua sentença final e citado por um assessor de [Adolf] Eichmann — usando as próprias palavras de Eichmann em agosto de 1944 — como o número total de judeus mortos. Desses, supõe-se que 4 milhões morreram nos campos e o restante em outros lugares — principalmente fuzilados na União Soviética ou de fome e doença nos guetos da Europa Oriental” (página 364). 

O historiador marxista inglês Eric Hobsbawm, em “Era dos Extremos — O Breve Século 20 (1914-1991)”, pergunta: “Seria menor o horror do Holocausto se os historiadores concluíssem que exterminou não 6 milhões (estimativa original por cima, e quase certamente exagerada), mas 5 ou mesmo 4 milhões?” (página 51). 

A Alemanha não é o berço do anti-semitismo europeu. Marrus ressalva: “George Mosse destacou que se na década de 1890 alguém perguntasse o nome do país da Europa mais perigoso para os judeus, muito provavelmente a resposta seria a França. (A Rússia czarista também seria uma boa candidata.)”. Sahan Ann Gordon, citada por Marrus, observa que “‘surpreendentemente poucos dos principais líderes nazistas eram virulentos anti-semitas antes de 1925’, com exceção do próprio Hitler, de Alfred Rosenberg e Julius Streicher. Nem Goebbels nem Himmler, Göering, Frank, Hess, os irmãos Strasser, ou mesmo Adolf Eichmann, parecem ter ingressado no Partido Nazista em função do anti-semitismo”. Marrus acrescenta, por conta própria: “O anti-semitismo era algo central porque Hitler determinou que assim deveria ser”. O líder nazista transformou “sua intensa antipatia pessoal em uma questão de Estado. Sem Hitler, sem holocausto”. 

A Solução Final, o assassinato em massa de judeus, “foi implementada”, segundo Marrus, “como plano de ação consistente somente a partir da segunda metade de 1941”. 

O Holocausto é, portanto, um fato incontestável, o que se discute, embora com menor intensidade, sobretudo entre historiadores sérios, como Raul Hilberg, Arno Mayer e Henry Friedlander, é a quantidade de mortos. Em livros de história equilibrados, a questão da capacidade dos nazistas para matar judeus, ciganos e deficientes físicos raramente (ou jamais) é posta. Porque o “maquinário” nazista, forjado para assassinar, era competente e rápido. “Nunca antes na história pessoas foram mortas em bases de linha de montagem”, escreve Raul Hilberg (ressalte-se que, mesmo reconhecendo a seriedade de Hilberg, as organizações judaicas avaliam que o número de assassinados citados por sua pesquisa — 5,1 milhões — é moderado). A morte, sob o nazismo, era produzida por um engrenado sistema industrial. Era tão fácil destruir gente quanto hoje é fácil e veloz matar frangos, gado e porcos nas grandes empresas do ramo de frigoríficos. 

Se há consenso a respeito da capacidade do nazismo para matar em larga escala, tanto 4 milhões quanto 6 milhões de seres humanos, o que se discute hoje entre judeus e judeus e entre judeus e não-judeus? A chamada “indústria do Holocausto”. É o “must”, como dizem intelectuais refinados. 

Fora do armário 

Antes de apresentar os argumentos do polêmico livro “A Indústria do Holocausto — Reflexões Sobre a Exploração do Sofrimento dos Judeus” (Editora Record, 156 páginas), de Norman G. Finkelstein, professor da Universidade de Nova York e doutor por Princeton, algumas palavras sobre o autor. Em duas resenhas para a “Folha de S. Paulo”, o jornalista Marcos Guterman busca desqualificar Finkelstein como historiador. No primeiro texto, diz que Finkelstein é “crítico histérico e raso da instrumentalização do Holocausto pelos judeus”. O segundo texto é uma resenha, publicada em fevereiro de 2001.

Nesse texto, Guterman ataca, quase no estilo de cruzado de Finkelstein: “A ausência quase completa de documentos específicos do genocídio, grande parte deles destruída pelos nazistas para tentar apagar o episódio da historia, é a base da negação do Holocausto e um dos trunfos de ‘A Indústria do Holocausto’, de Norman Finkelstein”. Guterman escreve que o polemista é visto como “anti-sionista de poucos recursos acadêmicos”. 

A questão-chave pouco ou nada tem a ver com os “parcos” recursos acadêmicos de Finkelstein, e sim com ideologias diferentes. Finkelstein é um intelectual de esquerda, muito próximo do séquito de Noam Chomsky. O leitor do livro ‘A Indústria do Holocausto’, se consultá-lo com rigor, certamente substituirá a palavra “histérico” por “exagerado” ou extremado. Nem tudo que é radical é histérico, assim como nem tudo que é moderado não é histérico. 

Mesmo que não se concorde com as idéias de Finkelstein — e esclareço, desde já, que tenho respeito pela causa judaica —, é interessante passear por sua exposição, não raro apressada e excessiva, sobre o que considera “a indústria do Holocausto”. 

Depois da Segunda Guerra Mundial, as organizações judaicas dos Estados Unidos, as mais poderosas do mundo — sempre com o apoio de publicações como “New York Times” e “Washinton Post”, os dois jornais mais conhecidos do país, além de revistas, como “Time” e “Newsweek” —, deixaram, por assim dizer, o Holocausto no armário. A tese de Finkelstein: “Elas ‘esqueceram’ o holocausto nazista porque a Alemanha — Alemanha Ocidental, em 1949 — tornou-se um aliado crucial do pós-guerra americano no confronto dos EUA com a União Soviética. Vasculhar o passado não seria útil; na verdade, era um complicador. (...) Lembrar o Holocausto nazista era etiquetado como causa comunista”. As associações judaicas chegaram a fazer vistas grossas à entrada de nazistas nos Estados Unidos. 

A partir de junho de 1967, com a guerra árabe-israelense, na versão de Finkelstein, “o Holocausto tornou-se uma fixação na vida dos judeus americanos. De sua fundação em 1948 até a guerra de junho de 1967, Israel não figurou como foco no planejamento estratégico americano. (...) Para assegurar seus interesses no Oriente Médio, o governo Eisenhower apoiou tanto Israel quanto as nações árabes, contudo favorecendo os árabes”. Finkelstein acrescenta: “A indústria do Holocausto só se difundiu depois da dominação militar esmagadora e do florescente e exagerado triunfalismo entre os israelenses”.

A guerra árabe-israelense de 1973 preocupou os judeus americanos, que passaram a temer pela vulnerabilidade de Israel como Estado. “Como conseqüência, a memória do Holocausto passou então a ocupar o centro do palco. (...) O Holocausto (capitalizado) provou ser a arma perfeita para esvaziar as críticas a Israel”, aponta Finkelstein. “Não foi a alegada fraqueza e isolamento de Israel, nem o medo de um ‘segundo holocausto’, mas antes sua comprovada força e aliança estratégica com os Estados Unidos, que conduziram as elites judaicas a produzir a indústria do Holocausto, depois de junho de 1967.” A influência judaica nos Estados Unidos é considerável: “... a renda per capita dos judeus é quase o dobro dos não-judeus, 16 dos 40 americanos mais ricos são judeus”. 

Um dos historiadores mais atacados por Finkelstein é Daniel Goldhagen, autor do controvertido livro “Os Carrascos Voluntários de Hitler — O Povo Alemão e o Holocausto” (Companhia das Letras, 656 páginas, 1997++---). Goldhagen praticamente condena todo o povo alemão como anti-semita. A crítica de Finkelstein: “Não há qualquer prova histórica sobre o impulso assassino dos não-judeus”. O ensaísta volta a conectar Israel e Holocausto: “O dogma do Holocausto sobre o ódio eterno dos não-judeus serviu tanto para justificar a necessidade de um Estado judeu quanto para se beneficiar com a hostilidade dirigida a Israel”. 

Para muitos estudiosos, talvez a maioria, o Holocausto é um fato singular. Finkelstein pergunta: “Teriam sido os judeus as únicas vítimas do Holocausto, ou outros que também morreram na perseguição nazista deveriam entrar como vítimas?”. Está em discussão o Museu do Holocausto, nos Estados Unidos. O Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, líder judaico, diz que, “como sempre, eles [os perseguidores, nazistas e seus antecessores] começam pelos judeus. Como sempre, eles não param nos judeus”. Finkelstein “corrige” o respeitado Wiesel: “Mesmo não tendo sido os judeus mas os comunistas as primeiras vítimas políticas, não os judeus, mas os deficientes físicos e mentais as primeiras vítimas do genocídio nazista”. 

Os ciganos não entraram no Museu do Holocausto. “Os nazistas”, lembra Finkelstein, “mataram quase meio milhão de ciganos com perdas proporcionais iguais ao do genocídio judeu”. A prova da força judaica é o esquecimento do “holocausto cigano”. 

O banco judaico

No capítulo 3, Finkelstein promove um duro ataque aos “sobreviventes”, ou melhor, àqueles que se intitulam “sobreviventes”. O polemista diz que 1.000 pessoas saíram vivas dos guetos judaicos, campos de concentração e dos campos de trabalho escravo. “Pelo fato de o sofrimento nos campos ter se tornado o coroamento do martírio, muitos judeus que passaram a guerra em outros lugares se apresentaram como sobreviventes dos campos. Outro forte motivo por trás desta farsa era material. O governo alemão do pós-guerra compensou os judeus que estiveram em campos ou guetos. Muitos judeus fabricaram seus passados para ter direito a estas exigências”, denuncia Finkelstein, filho de sobreviventes do Gueto de Varsóvia e dos campos de concentração nazistas. 

Como tem notado seus críticos, Finkelstein por certo exagera ao tentar transformar os líderes das organizações judaicas em mercenários. Mesmo sob críticas cerradas, ele mesmo aponta algumas em seu livro, Finkelstein defende que “o surgimento das reparações [indenizações para os sobreviventes] deu um caráter único à indústria do Holocausto”. A Alemanha pagou às instituições judaicas cerca de 60 bilhões de dólares. 

Finkelstein ataca duramente a luta das organizações para recuperar o espólio judaico, “depositado em contas suíças antes e durante a guerra. (...) Desde o início se percebeu que a Suíça era uma presa fácil. Poucos iriam simpatizar com os ricos banqueiros suíços contra ‘os necessitados sobreviventes do Holocausto’. Muito mais importante, porém, é que os bancos suíços estavam altamente vulneráveis pelas pressões econômicas dos Estados Unidos”. 

O curioso é que Finkelstein atribui maior crédito aos banqueiros suíços do que às instituições judaicas. Ele afirma que os suíços “declararam que só puderam localizar 775 contas inativas e não reclamadas, valendo um total de 32 milhões de dólares”. As instituições dos judeus não aceitaram os 32 milhões e usaram a mídia e o poder americanos para atacar os suíços. Queriam mais dinheiro. Os suíços concordaram com a criação de um comitê de investigação, com a presença de judeus. Em 1997, diante das pressões, os banqueiros suíços decidiram pagar 200 milhões de dólares. Os judeus não aceitaram. As associações queriam 3 bilhões de dólares. Numa campanha intensa, segundo Finkelstein, norte-americanos, orientados pelos judeus, começaram a retirar dinheiro dos bancos suíços, sobretudo de fundos de pensão, o que deixou os banqueiros assustados. Decidiram oferecer 600 milhões de dólares. Mas, como as pressões continuaram, os suíços desabaram e aceitaram pagar 1,25 bilhão de dólares. 

As organizações judaicas exigiam pressa nas negociações em virtude, diziam, de que os sobreviventes do nazismo estavam morrendo. “Mas assim que os suíços”, denuncia Finkelstein, “liberaram o dinheiro, a urgência desapareceu como que por milagre. Mais de um ano depois de alcançado o acordo, ainda não havia um plano de distribuição. (...) a tesouraria do WJC arrecadou nada menos que ‘aproximadamente 7 bilhões de dólares’ em compensações”. 

Uma informação surpreendente, e que não deve ser atribuída a Finkelstein, e sim ao relatório do comitê do qual faziam parte três judeus e três representantes dos banqueiros, com a presidência do norte-americano Paul Volcker: “... na verdade, não foi encontrada qualquer prova de destruição sistemática de registros de contas com o propósito de ocultar um comportamento no passado”. “Ele conclui”, diz Finkelstein, “que a percentagem de registros recuperados (60 por cento) foi ‘verdadeiramente extraordinária’ e ‘ verdadeiramente notável’, sobretudo porque as leis suíças não exigem retenção de registros além de 10 anos”. Quer dizer, na versão apresentada pelo relatório, os suíços não enganaram os judeus. E as contas teriam cerca de 170 a 260 milhões de dólares — não os 7 a 20 bilhões de dólares pretendidos pelas associações judaicas. 

Agora, Finkelstein ataca os Estados Unidos: “A descoberta mais explosiva do Comitê Volcker não foi narrada pela mídia americana. O comitê observa que, tal como a Suíça, os EUA também foram um abrigo seguro inicial para a transferência de dinheiro dos judeus europeus. (...) A pergunta óbvia é: o que aconteceu com as contas inativas da era do Holocausto nos bancos americanos?”. 

Depois da Suíça e da Alemanha, o outro alvo das organizações judaicas é a Europa Oriental, denuncia Finkelstein. As reivindicações, se atendidas, podem quebrar países como a Polônia. Finkelstein diz que a suposta “ganância” — um negócio extremamente lucrativo — judaica realimenta o anti-semitismo em outros vários países. 

Finkelstein conclui que “o organizado judaísmo americano explorou o Holocausto nazista para desviar as críticas de Israel e suas políticas moralmente indefensáveis”. Ao mesmo tempo, denuncia o judeu dissidente, o Holocausto tem sido útil para enriquecer as instituições judaicas. O Holocausto se tornou, na interpretação de Finkelstein, uma espécie de “banco” dos judeus. Dos judeus organizados em associações. Já Finkelstein é tido como “um notório opositor ideológico do Estado de Israel”. De fato, embora judeu, o professor americano aproxima-se, em simpatia, mais dos palestinos. Mas cabe às organizações judaicas não desclassificá-lo, e sim refutar seus argumentos.

 

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