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POR EM 18/09/2012 ÀS 04:58 PM

Goleiros — Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1, de Paulo Guilherme

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É consensual que o maior goleiro da história do futebol brasileiro é Gil­mar dos Santos Ne­ves. Com Pelé fazendo os gols e Gilmar impedindo os gols dos adversários, o Santos ganhou títulos nacionais e internacionais, tornando-se um dos primeiros times galácticos. Na seleção era a mesma coisa: o Brasil tornou-se bicampeão com Gilmar e Pelé. Ele foi “eleito pela revista francesa ‘Paris Match’ o melhor goleiro da história do futebol mundial”, diz o jornalista Paulo Guilherme, autor do excelente livro “Goleiros — Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1” (Alameda, 285 páginas). Sim, superou o soviético Liev Yashin, o Aranha Negra. Como era um gênio das traves, autor de pontes admiradas em todo o mundo, Gilmar era apontado como quase insubstituível. Porém, como estava “velho” e quase sempre machucado, a seleção de 1970 precisava de um “grande” goleiro. Havia Félix, que se consagrara no Fluminense, mas tinha 32 anos e “apenas” 1,76m. “Velho” e, para os padrões mesmo nacionais, “baixo”. Félix morreu há duas semanas, aos 74 anos.

Ao assumir como técnico da seleção, João Saldanha bancou Félix. Nas eliminatórias, em seis jogos, o goleiro sofreu apenas dois gols. Mas o mesmo Saldanha o afastou quando a seleção perdeu para o Atlético Mineiro por 2 a 1, alegando que não era robusto o suficiente para enfrentar os fortes atacantes europeus. Ado, alto e com pinta de galã, “ga­nhou” a vaga. Entretanto, com Zagallo no comando técnico, como substituto de Saldanha, Félix foi reintegrado à equipe e se tornou titular. Zagallo ficou com sua experiência. Ado tinha 24 anos e Leão, quase 21.

Embora “baixo”, Félix tinha elasticidade, senso de colocação e rapidez. Na Copa de 70, no Mé­xico, não envergonhou. No jogo contra a poderosa Inglaterra, atuou sob forte pressão, pois o técnico britânico havia espalhado que “não sabia sair do gol” e jornais brasileiros “compraram” a versão. O goleiro foi uma das estrelas do jogo e o Brasil ganhou.

No entanto, como o time havia sofrido cinco gols em quatro partidas, Félix (embora não tenha cometido nenhuma falha clamorosa) era visto com desconfiança. A revista “Veja”, na edição de 17 de junho de 1970, publicou: “O técnico Zagallo prefere mesmo correr riscos com a menor habilidade de Félix do que com a inexperiência internacional de seus reservas”.

Na semifinal, o Brasil derrotou o Uruguai por 3 a 1. O gol dos uruguaios resultou de uma falha do goleiro, mas Félix jogou bem e fez defesas espetaculares.

Com autorização de Zagallo, Félix não usava luvas, o que incomodava a imprensa, mas não o goleiro. Na partida final, contra a Itália, o “guarda-metas” — “só o arqueiro tem que ser infalível”, es­creveu Nelson Rodrigues —, atendendo os temerosos jornalistas, decidiu utilizá-las. Quando percebeu, o jogador Paulo César agarrou suas mãos, tentou arrancar as luvas e disse: “Você está louco? Isso vai dar azar! Tira logo isso aí!” Félix não se intimidou: “Vou entrar lá e vou ser campeão do mundo assim para provar para todo mundo que eu sei jogar de luvas!”

A Itália fez um gol, mais por culpa de Brito do que de Félix, mas o Brasil sagrou-se tricampeão e o goleiro jogou muito bem. Em nenhum jogo, apesar da estatura e da idade — compensava as “deficiências” com elasticidade, habilidade e disciplina —, comprometeu. Pelo contrário, embora goleiros raramente sejam homenageados, foi uma das estrelas da copa mexicana. Sem Félix, o Brasil possivelmente ganharia a copa de qualquer maneira, mas a segurança proporcionada pelo goleiro tranquilizou os craques Pelé, Tostão, Gerson, Rivellino, Jairzinho e Clodoaldo. “Nos 38 jo­gos oficiais de Félix na seleção, o Brasil perdeu apenas três vezes, um jogo contra a Tchecoslováquia e dois contra o México, todos em 1968”, registra Paulo Guilherme.

(Um registro pessoal: aos 9 anos, assisti todos os jogos da copa de 70 num televisor preto e branco. Os chuviscos às vezes impediam que os telespectadores enxergassem os jogadores e, sobretudo, a bola. Mes­mo assim, o nosso rádio, gigante, havia sido esquecido. Mas a força do rádio era tanta, com narradores poderosos como Jorge Cury e Wal­dir Amaral, que não raro as pessoas abaixavam o som da televisão e ligavam o do rádio. De fato, as partidas transmitidas pela Rádio Globo, então a preferida no interior de Goiás, eram mais emocionantes. Entretanto, ao assistir os jogos na tevê e ouvir a voz dos narradores do rádio, começamos a perceber que a “emoção” era exagerada, artificial. Às vezes, a bola ainda estava longe da grande área e, mesmo assim, os locutores exageravam na paixão e, se não estivéssemos vendo o jogo pela TV, ficaríamos com a impressão de que havia mesmo possibilidade de se fazer gol. Noutras vezes, diziam: “A bola passou raspando a trave”. Na verdade, a bola havia passado razoavelmente longe da trave. Quanto aos jogadores, dávamos mais importância aos atacantes, como Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivellino. Tínhamos a impressão de que eles decidiam tudo. Mas tínhamos um enorme respeito pela categoria de Gerson, o “Canhotinha de Ouro”, e de Clodoaldo e pela energia de Carlos Alberto. O respeito por Félix, que eu considerava um grande goleiro, não se traduzia em aplauso público. No fundo, era solenemente ignorado. Lembro-me que meu pai, Raul, comentava, apenas em nossa casa, que a vitória da seleção ajudaria a “ditadura militar”, mas, diferentemente de outros esquerdistas, torceu pela seleção e comprou todas as revistas que saíram em homenagem à conquista. Dois ou três anos depois, de repente e sem que a ma­ioria das pessoas entendesse a razão, o Exército instalou um quartel ao lado de nossa residência. Os soldados “treinavam” muito e, salvo en­gano, alguns eram paraquedistas. Meu pai me disse que falavam no combate à Guerrilha do Araguaia, que não era citada com este nome. Na verdade, de acordo com os cartazes que foram colados nas paredes da Prefeitura de Porangatu, onde meu pai trabalhava, os militares estavam caçando terroristas. Um dia, possivelmente entre 1972 e 1973, eu disse que os terroristas eram “perigosos”, certamente ecoando o que havia ouvido dos militares vizinhos, e fui corrigido por meu pai: “Não são. Perigosa é a ditadura militar”. Meu pai era e morreu comunista.)

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