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POR EM 13/12/2012 ÀS 06:50 PM

Gente Humilde — Vida e Música de Garoto

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Biografia resgata o multi-instrumentista paulista que encantou Vinicius de Morais, Tom Jobim, João Gilberto, Baden Powell, Chico Buarque, Raphael Rabello e Paulo Bellinati

Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, quase esquecido pelo público, é uma espécie de músico para músicos. João Gilberto é entusiasta da arte do compositor de “Gente humilde” ligar “os acordes por meio de belas frases musicais”. O poderoso chefão da bossa nova disse: “Garoto é um camarada esperto, ele sabe fazer aqueles encadeamentos, ele acompanha de uma forma que fica mais bonita”. Em 1991, incluiu num CD a música “Sorriu para mim”, de Garoto e Luís Cláudio (pseudônimo de Cecy, sua mulher). No livro “Chega de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova” (Companhia das Letras, 461 páginas), Ruy Castro escreve: “Não havia um instrumento de corda que ele [Garoto] não dominasse à primeira vista. Dizia-se que, numa única canção, Garoto era capaz de alternar violão, guitarra, violão-tenor e cavaquinho, passando de um para o outro sem perder um compasso — e esta não era uma daqueles lendas que os músicos gostam de contar, porque ele costumava fazer isto no auditório da Rádio Nacional”. Depois de chamá-lo de “superviolonista”, o jornalista e crítico acrescenta, citando a cantora Sylvinha Telles, uma das primeiras vozes da bossa nova: “Cantar com Garoto era o máximo que uma pessoa podia querer”. Na esplêndida biografia “Carmen” (Companhia das Letras, 632 páginas), sobre a cantora Carmen Miranda, Ruy Castro aumenta o encantamento: “Aos poucos jornalistas que o procuraram, Aloysio [de Oliveira] disse que o Bando da Lua também vencera na América e que Garoto impressionara os americanos, que o chamavam de ‘Mr. Marvelous Hands’”. No livro “A Canção no Tempo — 85 Anos de Músicas Brasileiras” (Editora 34), Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello comentam: “Garoto tinha uma concepção musical diferente, acima da média de seus contemporâneos, bastando esta melodia [“Duas Contas”], com seus saltos inusitados, para comprovar este ponto de vista”. Com tantas referências positivas, de críticos e historiadores da música qualificados, compreende-se a necessidade de uma biografia detalhada do músico que mesmerizou Vinicius de Morais, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque e Baden Powell. A biografia está nas livrarias: “Gente Humilde — Vida e Música de Garoto” (Edições Sesc SP, 270 páginas), de Jorge Mello. Não há biografias definitivas, porque cada época reinventa os artistas, e o trabalho do professor de Física, apesar de sua enorme importância, procurando fornecer os dados principais de maneira cuidadosa, é apenas o primeiro passo. Não se trata da biografia clássica, detalhada, como as excelentes “Nelson Rodrigues — O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro, e “Chatô — O Rei do Brasil”, de Fernando Morais. Ainda assim, resgata a história de Garoto, inclusive publica seus diários.

Garoto nasceu em 1915, em São Paulo, e morreu de infarto, em 1955, aos 39 anos. Aos 5 anos tocava o violão do irmão Batista. Logo depois, ainda menor, já tocava violão, flauta, sax, bandolim, bandola, guitarra portuguesa, cavaquinho, violino e banjo. Era conhecido como Moleque do Banjo. Tomou aulas de violão com o professor Quinzinho e de violino com Arthur Busin. Tocava no violino “Piquenique trágico”, de Germano Benencase, e “Ave Maria” (não se sabe de qual compositor). Na escola, pensando mais em música, era desatento. Na aula de religião, o professor perguntou: “Sr. Aníbal Augusto Sardinha, qual foi o homem extraordinariamente dotado que Deus enviou à terra?” Distraído, mas talvez nem tanto, Garoto respondeu na bucha: “Foi Ernesto Nazareth!” O mestre gritou: “Sacrilégio! Como ousa misturar o nome de Cristo com nomes profanos? Quem é Ernesto Nazareth?” O menino respondeu: “É um compositor de choros”. O professor admoestou-o: “E por acaso falei em compositor de choros?” (o professor havia citado Jesus de Nazaré, daí a confusão). O jovenzinho não se fez de rogado: “Mas o sr. não falou num homem extraordinariamente dotado?” O lente não entendeu que estava lidando com um músico nato.

Menino, Garoto tocava ao lado do irmão Batista na Jazz Band Universal, no Circo Queirolo. Tocava banjo e, com outros grupos, cavaquinho. Aos 13 anos, o Moleque do Banjo tocava com Canhoto e, entre outros, Zezinho do Banjo, que, como Joe Carioca, “emprestou sua voz ao papagaio Zé Carioca, criação de Walt Disney, e fez sucesso nos Estados Unidos”. Aos 15 anos, em 1930, Garoto lança seu primeiro disco, com “duas composições de sua autoria: ‘Bichinho de queijo’ (maxixe) e ‘Driblando’ (maxixe-choro)”. Toca banjo e assina-se Aníbal Cruz. No mesmo ano, toca cavaquinho no grupo Chorões Sertanejos e apresenta-se na Rádio Sociedade Record, tocando banjo, bandolim e cavaquinho, como integrante do conjunto regional da emissora, e, às vezes, atuava como solista.

Em 1931, contratado pela Rádio Educadora, Garoto passa a usar o violão tenor — “semelhante ao violão mas um pouco menor e com apenas quatro cordas, em vez de seis. Garoto atribuiu a si o batismo do instrumento: ‘O violão tenor foi lançado por mim no Brasil em 1933. Com este maravilhoso instrumento tomei parte em programas radiofônicos, teatros. Este instrumento é de origem americana, onde é conhecido pelo nome de triolin [ou triolian]. No Brasil, batizei-o de violão tenor’”. O músico e pesquisador Marcio Petracco contesta e diz que, “em 1920, o violão tenor já era denominado tenor guitar. Garoto teria feito apenas uma tradução”. Garoto também era expert com guitarra havaiana e tocava ukelele. A valsa “Desvairada”, tida como “uma das mais famosas composições de Garoto, foi apresentada”, numa rádio, “primeiro em solo de cavaquinho e, alguns dias depois, em solo de bandolim”.

Em 1932, Garoto “fez suas primeiras apresentações como solista de violão” e já recebia o maior salário da Rádio Educadora. Era integrante da Jazz Band Otto Wey e do Sexteto Bertorino Alma e apreciava tocar músicas de Ernesto Na­zareth. Em 1935, fazia sucesso, era citado como “extraordinário solista de oito instrumentos” e participou do filme “Fazendo Fitas”, de Vittorio Capellaro. Jorge Mello contesta um mito: Garoto e o violonista Aimoré não tocaram com Carlos Gardel e nem viram Django Reinhardt tocar em Paris. Mas é fato que Garoto sofreu influência musical de Reinhardt.

Em 1936, Garoto foi escalado para tocar, em São Paulo, com Sílvio Caldas, Nonô, Luís Barbosa e Aracy de Almeida. “No meio do ensaio, Sílvio Caldas viu Garoto com ‘vários instrumentos’ e perguntou: ‘Será que ele toca tudo isso mesmo’.” O estupefato cantor viu e ouviu o jovem músico tocar cavaquinho, bandolim e guitarra havaiana — sem desafinar. “A cada instrumento, Sílvio tentava impedi-lo: ‘Não toque, pode ficar mal para você’. Furioso, Garoto pegou o violão tenor, impondo-se por seu talento. Os artistas cariocas ficaram maravilhados.”

Respeitado por músicos e cantores, Garoto cresceu e gravou vários discos como solista. Pela Columbia, gravou o choro “Dolente” e a valsa “Moreninha”, ambos de sua autoria. Na Rádio Cruzeiro do Sul, conta Jorge Mello, Garoto e Aimoré “tocaram um duo de forma inovadora: o violão a quatro mãos. Usando um único violão, Garoto tocava na região mais aguda e Aimoré tocava na mais grave”.

Garoto gravou nove discos, inclusive músicas de carnaval, com Moreira da Silva — ganhando “ginga e malemolência”. O choro “Vamos acabar com o baile” teria recebido influência do rei do breque, assinala Jorge Mello. Garoto-o compositor começou a ser gravado por alguns artistas. Arnaldo Meireles, acordeonista, gravou a valsa “Suspirando” e a mazurca “Sau­dades daqueles tempos”.

Em 1938, na Rádio Mayrink Veiga, Garoto integra o conjunto Cordas Quentes, ao lado do violonista Laurindo Almeida. O músico acompanhou Sílvio Caldas na gravação de três discos. Ele e Laurindo acompanharam Carmen Miranda na gravação de dois sambas. Os dois músicos gravaram músicas de Ary Barroso.

Ao mudar-se para os Estados Unidos, Carmen Miranda convocou o músico: “Queridíssimo Garoto, espero que você tenha gostado da ideia de vir para cá e aceite-a, pois esta terra é a melhor do mundo, só estando aqui é que acreditará. Estamos ansiosos que você venha”.

Nos Estados Unidos, Garoto gravou, com Carmen Miranda e o Bando da Lua, três discos, pela Decca. “O primeiro com as músicas South American Way (Al Dubin e Jimmy Mchugh) e ‘Touradas em Madri’, de João de Barros e Alberto Ribeiro; o segundo com ‘O que é que a baiana tem?’ (Dorival Caymmi) e a marchinha ‘Co, Co, Co, Co, Co, Co, Ro’ (Lamartine Babo e Paulo Barbosa); e o terceiro com a marchinha ‘Mamãe, eu quero’ (Jararaca e Vicente de Paiva) e o samba-embolada ‘Bambu bambu’ (Patrício Teixeira e Donga)”, relata Jorge Mello. “O grupo também atuou no cinema, na comédia musical ‘Dow Argentine Way’ [“Serenata Tropical”], filme de Irving Cummings, de 1940, estrelado por Don Ameche e Betty Grable.”

O presidente Franklin D. Roosevelt ouviu Carmen Miranda, o Bando da Lua e Garoto, na Casa Branca. “O presidente, muito camarada, veio nos abraçar, trocando impressões sobre coisas brasileiras”, revelou Garoto. Mais: Duke El­lington e Art Tatum ouviram Garoto tocar violão tenor. O organista Jesse Crawford chamou-o de “o Homem dos Dedos de Ouro”. “Aquele rapaz de 25 anos assombrou as plateias norte-americanas por sua maneira tão peculiar de tocar o instrumento.” Garoto amava a música de Ella Fitzgerald e de Bing Crosby e as grandes orquestras estadunidenses.

Em 1940, Garoto grava o choro “Quanto dói uma saudade”, um dos mais bonitos, e a valsa “Abismo de rosas” (confira uma gravação com Raphael Rabello). Dois sambas de Garoto, “Compromisso para as dez” e “Ingratidão”, foram gravados por Waldemar Reis. “Garoto ao violão e Poly no cavaquinho participaram da gravação dos dois primeiros discos daquele que viria a se tornar o ‘Rei do Baião’, Luiz Gonzaga. (...) Pela RCA Victor, Garoto e a pianista Caronlina Cardoso de Menezes gravaram o belíssimo choro de Garoto intitulado ‘Amoroso’, que mais tarde ganharia letra de Luís Bittencourt.”

Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, o músico migra para a Rádio Nacional, onde faz o programa “Garoto e seus Mil Instrumentos”. Trabalhou com o maestro Radamés Gnattali, “inovou apresentando-se com uma guitarra havaiana elétrica” e, em 1944, “passou a atuar em duo com a pianista Carolina Cardoso de Menezes nas rádios Nacional e Guanabara. Deixava até os músicos impressionados ao tocar violão, violão tenor, violão quinto (seis cordas e afinações especiais), banjo, rajão (instrumento de origem lusa, de cinco cordas, muito parecido com o cavaquinho), bandolim, violino, bandola (oito cordas e somente sons graves), cavaquinho (de quatro e cinco cordas), guitarra portuguesa, guitarra havaiana, bandolin-cello (invenção de Garoto, com quatro cordas e sons graves, para música lenta), violoncelo e contrabaixo”, registra Jorge Mello.

Obsessivo — dizia: “Ou o violão me mata ou eu mato ele” —, Garoto estudava detidamente o “Quarteto” de Haydn, tocava Chopin, Segóvia, Falla, Beethoven, Mendelssohn, Villa-Lobos, Ravel (“Bolero”) e era mestre na interpretação de “Rhapsody in blue”, de George Gershwin. Gravou com Dorival Caymmi, Orlando Silva e Ademilde Fonseca. Paralelamente ao trabalho como multi-instrumentista, continuava compondo músicas de qualidade, como o choro “Gra­cioso”, “Falsa Promessa” (gravada por Emilinha Borba), “Duas Contas” (confira na voz de Maria Bethânia). Diz a música: “Teus olhos/são duas contas pequeninas/qual duas pedras preciosas/que brilham mais que o luar”. “Gente humilde”, talvez sua música mais famosa, ganhou letras de um poeta mineiro, que não quis se identificar, e de Chico Buarque e Vinicius de Moraes (mais deste). Músicos são competitivos e Garoto fazia questão de, às vezes, mostrar que era “superior” a Jacob do Bandolim.

Em 1952, aos 37 anos, Garoto era um músico completo, respeitado e, até onde é possível, imitado. Com Fafá Lemos (violino e canto), Chiquinho (acordeom), Garoto (violão) criou o bem-sucedido Trio Surdina, considerado o melhor trio instrumental do ano seguinte. No Municipal, participou de um concerto regido, com desagrado, por Eleazar de Carvalho. “Vejam só onde fui chegar... hoje em dia eu rejo até violão”, lamentou o maestro. “Foi a primeira vez naquele teatro que o violão atuou como instrumento solista, tendo a acompanhá-lo uma orquestra”, escreve Jorge Mello.

Em 1953, no Rio de Janeiro, não se sabe se para agradar os brasileiros, Andrés Segóvia disse que Garoto era o maior violonista do mundo.

Um dos maiores sucessos de Garoto é a música “São Paulo quatrocentão”, composta com Chiquinho. O disco vendeu setecentas mil cópias. A música também foi gravada pela cantora Hebe Camargo. Tido como profissionalíssimo, Garoto compôs músicas para os filmes “Marujo por acaso” e “Chico Viola não morreu”. O poema “Temas e variações”, de Manuel Bandeira, serviu como base para composição homônima de Garoto. O samba-canção foi feito em meia hora.

Jorge Mello afirma que a geração musical que surgiu e desaguou na bossa nova era “fortemente influenciada” por Garoto. Ele menciona Johnny Alf, João Donato, Dolores Duran, Newton Mendonça, Tom Jobim e Dick Farney. Sylvia Telles, aos 19 anos, brilhava, acompanhada, nas reuniões musicais, por Garoto, Chiquinho, Candinho, Billy Blanco, Tom Jobim, José Vasconcelos, Avena de Castro, Trio da Noite, Dolores Duran e Radamés Gnattali. A jovem era fã de Garoto. Sua primeira gravação tinha os sambas-canções “Amendoim torradinho”, de Henrique Beltrão, e “Desejo”, de Garoto e José Vasconcelos.

Em 1954, Garoto atuou com novos parceiros, Luiz Eça e Tom Jobim. “Luiz Eça, que se tornaria um dos maiores músicos do Brasil — pianista, compositor e arranjador, líder do Tamba Trio —, afirmou que Garoto foi sua primeira grande influência na música popular brasileira. Não por acaso, incluiu duas músicas de Garoto em seus dois primeiros LPs: ‘Relógio da vovó’ e ‘Felicidade’”, relata Jorge Mello. Estudante em Viena, ao fazer o exame final, Luiz Eça tocou a música “Duas Contas”, de Garoto. Levou zero. Sua obrigação era executar uma música erudita.

Garoto tocou com Tom Jobim no Clube do Cinema. Nesse dia, “Garoto compôs uma música na hora e denominou-a ‘Noite maravilhosa’”. Perguntaram a Jobim: “Tom, você incluiria Garoto entre os pioneiros da bossa nova?” O criador de “Garota de Ipanema” respondeu: “Incluiria, Garoto foi peça importante. Conheci muito o Garoto, muitíssimo. Gravei muito com o Garoto ao violão. Era considerado o maior violonista brasileiro, foi aos Estados Unidos. (...) Gosto muito das coisas dele”. Tom Jobim homenageou-o com a canção “Garoto”. Luís Bonfá dedicou-lhe “Garoto”. O crítico e pesquisador Henrique Cazes sustenta que Garoto “fez a ponte da harmonização jazzística para o violão brasileiro”, portanto, antecipando-se à bossa nova. Raphael Ra­bello, Turíbio Santos, Egberto Gis­monti, Wagner Tiso, Gui­lherme Vergueiro, Carlos Malta e Paulo Bellinati executaram músicas do compositor.

Em 3 de maio de 1955, Garoto morreu, no Rio de Janeiro, quando estava prestes a completar 40 anos. Teve um infarto. A biografia escrita por Jorge Mello, embora lacunar, o que sugere a necessidade de uma pesquisa mais ampla e de uma discussão mais detida da música de Garoto, é imperdível. É um belo trabalho de resgate, uma história amorosa. Publiquei um pálido retrato dos tesouros que escava e nos presenteia (revela outras coisas, como o fato de Garoto ser espírita).

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