revista bula
POR EM 24/12/2012 ÀS 01:09 PM

Existem realmente nenúfares, samovares e caravançarais?

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Se não é exatamente um consolo — ler muitas vezes machuca —, a literatura talvez seja o mais eficaz instrumento de um adulto para sobreviver relativamente são neste imenso cenário de dementes que é a saga humana

Para Laryssa Nogueira, com esperança de que os livros de viagem me (nos) consolem pelas viagens que não fizemos


Continuo a minha famigerada — não no sentido rosiano — lista de melhores livros de 2012. Relendo o que escrevi na primeira parte, percebo que maltratei os exauridos leitores: mais de 5 mil páginas sobre a Segunda Guerra, calhamaços como “Ulysses” e os vários volumes de “A Comédia Humana”. Bem, é preciso um refrigério, até porque dezembro, e não abril, é o mais cruel dos meses, e portanto deve-se dar rédeas à imaginação para que se possa superá-lo incólume. O negócio é o seguinte: o camarada se cansa do ramerrão das vistas da planície da prosa em excesso e resolve espairecer. Apóio a estratégia, ou, como diz um amigo, adiro ao plano. Assim, como a Companhia das Letras publicou coletâneas de Rainer Maria Rilke, Adonis e Elizabeth Bishop, recomendo esses poetas para quem quiser tomar novos ares nos píncaros da poesia (ando lendo poesia goiana, daí o uso de “píncaros”), pois não é possível viver como um Esteves sem metafísica. Àquele que não gosta de poesia, apenas digo: precisas mudar de vida.

Há também os relatos de viagem, talvez o tema literário mais em ascensão do momento (ao lado do sado-masô soft, é claro, e dos livros em que filósofos são usados para ajudar os atrapalhados leitores nas mais diversas atividades, tipo “Cozinhando com Sêneca” ou “Aprendendo a Vender com Heidegger”). Nos países de língua inglesa é uma tradição respeitada, pois histórias de viagem têm um apelo imediato para nós, é certo, já que estamos sempre palmilhando vagamente — ou planejando palmilhar — uma estrada pedregosa de Minas. Leio esses relatos com a avidez de quem não conseguirá fazer todas as viagens que planeja. Mas, sobretudo, leio-os porque é preciso confirmar a existência de Isfahan — realmente existe ou esse nome apenas surge inesperado dos entulhos acumulados das minhas leituras da adolescência? E existem também nenúfares, samovares e caravançarais, palavras que me perseguem dos mesmos debris de leituras absurdas e lembranças improváveis? Onde, afinal, encontro cimitarras e seljúcidas? Cheio de dúvidas desse tipo, constato que surgiu material de qualidade neste ano, como “Dias de Mel: uma História de Amor, Guerra e Pratos Deliciosos”, de Annia Ciezadlo (Paz e Terra), que, apesar do título de livro de auto-ajuda amorosa (“auto-ajuda” agora é com ou sem hífen, Santa Maricotinha dos Transtornados Com a Nova Ortografia?), é um retrato preciso da vida em Bagdá e Beirute. Já a Companhia das Letras pôs no mercado “Nove Vidas: em Busca do Sagrado na Índia Moderna”, de William Dalrymple, um dos mais prestigiados autores de travelogue, como se diz em inglês. É um livro de grande erudição, mas segue uma onda que me desagrada: todos agora voltaram a viajar para o Oriente em busca de um Graal que a corrompida civilização ocidental supostamente não mais poderia fornecer, fato que me causa estranheza e pena: é preciso avisar a essa turma que está procurando por Katmandu com cinquenta anos de atraso. Confesso que hippies tardios e o Oriente, às vezes, ou quase sempre, me exasperam (“O Oriente”, disse-o algum sábio, não sei se Kant ou Cantiflas, “é o ópio do ocidental decadente e desocupado”). Meu cosmopolitismo de pobre anseia por Paris, Madri, Londres e Roma, o que me fez ler com esperanças de novas viagens “Paris Sobre Trilhos: Viajando de Trem Pela História da França”, de Ina Caro (Leya), esposa de Robert Caro, o grande biógrafo de Lyndon Johnson. Por fim, um livro curioso: “A Construção do Brasil na Literatura de Viagem dos Séculos XVI, XVII e XVIII: Antologia de Textos (1591-1808)”, de Jean Marcel Carvalho França (José Olympio e Unesp).

Não nos esqueçamos dos livros de história, pois não queremos repetir o passado por não conseguir recordá-lo, não é mesmo? Tenho afeição especial por eles. Na velha casa de minha família no Setor Sul, depois de ter assaltado a sabedoria e o prazer nos livros que eram mantidos num cômodo nos fundos do lote (muitos livros acumulados por meus pais, ambos leitores infatigáveis), foi aos livros de história que voltei para as primeiras releituras. Gostava tanto deles que até copiava trechos enormes, criando um hábito de leitura que, não sabia à época, ira se transformar em razão de vida. Ai de mim.

Pois foram muitos e bons os livros de história em 2012. Logo no início do ano apareceu “As Famílias que Construíram Roma: um Guia Histórico e Cultural”, de Anthony Majanlahti (Seoman). Estou apenas iniciando sua leitura, mas ele já evocou lembranças da leitura antiga de “Amor a Roma”, do grande Afonso Arinos de Melo Franco, e dos desvãos da minha memória surgem sombras de histórias dos Chigi, Collona, Della Rovere, Borghese e de outras famílias romanas tradicionais, e daí me imagino com Lucrécia Bórgia envenenando com cantarela algum Orsini conspirador — afinal, civis Romanum sum. Leitura obrigatória, como percebem. (Para os que apreciam: saiu em DVD a primeira temporada da série “Os Bórgias”, que tem Jeremy Irons tentando interpretar o Papa Bórgia, Alexandre VI, mas conseguindo ser apenas Jeremy Irons.)

Para o alto e avante. Por conta do aniversário da quase centenária Semana de Arte Moderna, tivemos “1922: a Semana Que Não Terminou”, de Marcos Augusto Gonçalves (Companhia das Letras). E gostei especialmente de dois livros sobre a vida durante a Segunda Guerra em duas cidades que me emocionam: “Paris, a Festa Continuou: A Vida Cultural Durante a Ocupação Nazista, 1940-4”, de Alan Riding (Companhia das Letras), e “Lisboa, 1939-1945: Guerra nas Sombras”, de Neill Lochery (Rocco). Já Timothy Snyder, em “Terras de Sangue” (Record), compara os regimes de terror de Stálin e Hitler — não o li, mas voto no russo.

Para confirmar se o passado é mesmo um país estrangeiro onde as coisas são feitas de modo diferente, também aguardam na minha fila de leituras planejadas: “O Chapéu de Vermeer: o Século XVII e o Começo do Mundo Globalizado”, de Timothy Brook (Record), uma surpreendente análise da globalização a partir de quadros de Vermeer; “A Bandeira Vermelha: uma História do Comunismo”, de David Priestland (Leya); e “No Jardim das Feras: Intriga e Sedução na Alemanha de Hitler”, de Erik Larson (Intrínseca), sobre o período em que o embaixador norte-americano William Dodd serviu na Alemanha nazista (Dodd, assim como Churchill, não se deixou enganar pelo Hitler dos primeiros anos de governo nacional-socialista).

Há atualmente livros de história sobre todos os temas imagináveis: cidades, doenças, emoções, amizades — longe está o tempo em que só se historiavam guerras e reinados. Neste largo campo, ao menos duas obras-primas apareceram em 2012, ambas pela Companhia das Letras: “Atlântico: Grandes Batalhas Navais, Descobrimentos Heroicos, Tempestades Colossais e um Vasto Oceano com um Milhão de Histórias”, de Simon Winchester, e “O Imperador de Todos os Males: Uma Biografia do Câncer”, de Siddhartha Mukherjee. Mas também sugiro a leitura de “Reagan e Thatcher: uma Relação Difícil”, de Richard Aldous (Record), sobre a dupla que nos livrou da ameaça comunista, e “Mentes Apaixonadas”, de David Bodanis (Record), história do amor entre Voltaire e Émilie du Châtelet. Em “O Diabo na Água Benta ou A Arte da Calúnia e da Difamação de Luís a XIV a Napoleão”, publicado pela Companhia das Letras, Robert Darnton analisa, com erudição assombrosa, o papel da literatura difamatória em eventos históricos — no fundo, um estudo sobre a força da palavra.

Um belo e criteriosamente pesquisado livro saiu pela Editora 34: “Os Artistas Brasileiros na Escola de Paris: Anos 1920”, de Marta Rossetti Batista. Porém, em relação à história da arte, o lançamento que deve ser comemorado é o de “Arte e Humanismo em Florença na Época de Lourenço, o Magnífico”, de André Chastel (Cosac Naify), um tour de force sobre o Renascimento e as relações entre filosofia e arte.

Sigo adiante, pois fazer listas é preciso, viver não é preciso. Dedico-me seriamente à leitura de biografias, memórias, diários e coletâneas de cartas, pois, como o degas aqui vive atarefado com picuinhas processuais, preso eternamente numa espécie de Ilha das Abelhas Diligentes (ao Google, desinformados leitores), o jeito é me desoprimir vivendo vidas alheias. Uma espécie de transubstanciação de minha vida apagada em outra, mais aventurosa e recheada de eventos feéricos, para usar um adjetivo (de modo errado, imagino) que há anos não ouço, já que a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são. Portanto, se quiserem me obsequiar, deem-me biografias, pois leio até as dos tipos mais obscuros — este vosso criado agradece. Pois bem: 2012 presenteou-me com o relançamento de livros que venho lendo e estudando há anos: a Companhia das Letras adquiriu os direitos da obra de Pedro Nava e a está publicando, tendo lançado neste ano os três primeiros volumes de suas memórias, “Baú de Ossos”, “Balão Cativo” e “Chão de Ferro”, com estudos de André Botelho, Davi Arigucci Jr. e Paulo Mendes Campos que ajudam a compreender a vastidão dos temas tratados, pois os livros são uma espécie de grande museu — um Louvre — que pede repetidas visitas. O velho Nava é minha obsessão: fecho as páginas dos seus livros e eles continuam sussurrando nos meus ouvidos. Uma sinfonia mineira e carioca, alguém já disse, ou uma sinfonia brasileira, melhor dizendo, uma vez que as memórias de Nava são as memórias de todos nós (com eles, minhas madeleines, volto à perdida Palmeiras de Goiás de minha infância, repleta de tias e tios safra entre-guerras). Quem não as conhece que trate logo de as ler e se diluir nesse cante hondo lancinante sobre a vida e a morte (Nava, ao contrário de outros memorialistas, não minimiza o seu lado escuro, pois que o tem, assim como vocês e eu – eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil).

Mas não apenas isso, já que neste campo a colheita de 2012 foi farta. A Companhia das Letras publicou as memórias de Salman Rushdie do período em que esteve condenado à morte pelo aiatolá Khomeini, “Joseph Anton: Memórias” (Joseph Anton é nome sob o qual viveu escondido). Já “Entre sem Bater: a Vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé” (Casa da Palavra), Cláudio Figueiredo narra a vida do engraçadíssimo Torelly, o nosso proto-humorista. Dois dos nossos grandes políticos ganharam minuciosas biografias que já estavam a fazer falta, ambas publicadas pela Companhia das Letras: “Getúlio: dos Anos de Formação à Conquista do Poder (1882-1930)”, de Lira Neto, e “José Bonifácio”, de Miriam Dolhnikoff. Também da Companhia é “Mahatma Gandhi e sua Luta com a Índia”, de Joseph Lelyveld, que ainda não li, mas creio ser a biografia que gerou certa polêmica por ter insinuado traços homossexuais em Gandhi. O homem que melhor compreendeu os Estados Unidos ganhou uma biografia estupenda: “Alexis de Tocqueville: o Profeta da Democracia”, de Hugh Brogan (Record). “O Príncipe Vermelho”, do historiador Timothy Snyder (Record), narra a vida fabulosa de Wilhelm von Habsburgo, que nasceu arquiduque austríaco, viu o fim do Império Austro-Húngaro, quis ser rei de uma Ucrânia ainda inexistente, passou confuso pela Segunda Guerra e morreu sob tortura soviética. Também li com imenso prazer “A Talentosa Highsmith”, de Joan Schenkar (Globo) — Highsmith, autora de aclamados romances policiais, foi outra figura de vida aventurosa.

Dois dos maiores intelectuais das últimas décadas, ambos falecidos há pouco tempo, tiveram livros de lembranças trazidas pela proximidade da morte publicados postumamente. Em “O Chalé da Memória”, da Objetiva, Tony Judt, então já acamado por causa da doença — esclerose lateral amiotrófica — que acabaria por matá-lo, passa em revista momentos marcantes da sua vida. Já Christopher Hitchens, em “Últimas Palavras”, da Globo, relata com dignidade ímpar seus dias de doente terminal. Outro livro que apreciei bastante foi “Como Viver ou Uma Biografia de Montaigne em uma Pergunta e Vinte Tentativas de Resposta”, de Sarah Bakewell (Objetiva), que parte da análise dos ensaios de Montaigne para também contar a vida do genial francês, o primeiro homem moderno. E li fascinado “Sinatra: a Vida”, de Anthony Summers (Novo Século), pelo prosaico motivo de que não quero ser John Malkovich, quero ser Frank Sinatra.

Como escrevi, ler biografias e diários nunca é para mim perda de tempo, daí porque compro tudo o que consigo, a exemplo de “Diário da Berlim Ocupada, 1945-1948”, de Ruth Andreas-Friedrich (Globo), que me fez sofrer com o povo alemão e também me impediu de continuar sendo romano, como afirmei ali atrás — sim, Kennedy, Ich bin ein Berliner. Uma leitura feita para comprovar que nenhuma vida é inútil: “O Conde Ciano, Sombra de Mussolini”, de Ray Moseley (Globo), conta a vida de Galeazzo Ciano, genro de Mussolini e seu ministro do Exterior; Ciano era um playboy que alternava apoio a Hitler com momentos de exasperação com os nazistas, numa espécie de sístole e diástole de amor e ódio, e que viveu de modo um tanto errante e fútil, redimindo-se um pouco ao final de sua vida, quando foi executado por conspirar contra o sogro. Outra leitura, agora para provar que os mais inteligentes não permanecem apegados às teses de esquerda: “O Filho Radical: a Odisseia de uma Geração”, de David Horowitz (Peixoto Neto), um radical nos incendiários anos 60 que se tornou talvez o mais odiado ex-esquerdista dos EUA (sim, sofro de uma espécie de levofobia em relação a doutrinas políticas). Por fim, para provar que no Brasil sempre pegamos atrasados o bonde da cultura, “Martinho Lutero, um Destino”, um clássico de Lucien Febvre lançado aqui pela Três Estrelas e publicado originalmente na França no longínquo 1928.

Também estão no alto das minhas pilhas, talvez aguardando um tempo para leitura que nunca virá: “Frida: a Biografia”, de Hayden Herrera (Globo); “O Profeta da Inovação”, de Thomas K. McCraw (Record), sobre Joseph Schumpeter; “Matisse: uma Vida”, de Hilary Spurling (Cosac Naify); “Piotr Tchaikovsky: Biografia”, de Alexander Poznansky (G. Ermakoff); “City Boy: Minha Vida em Nova York”, de Edmund White (Benvirá); “A Esposa Secreta de Luís XIV: Madame de Maintenon”, de Veronica Buckley (Objetiva); e “Van Gogh, a Vida”, de Steven Naifeh e Gregory White Smith (Companhia das Letras).

Vejam só, penelopianos leitores, estendi-me novamente além do necessário e não terminei a lista. Fica para a próxima semana. Talvez vocês se perguntem: por que tanto trabalho? Pois insisto porque creio com convicção sempre renovada que vivemos, todos nós, nossas vidas cheias de som e fúria — significando nada — eternamente à deriva e esperando um Godot que nunca chegará, mas também acredito que, de algum modo, podemos ter a literatura como uma forma de explicar o mundo. Se não é exatamente um consolo — ler muitas vezes machuca —, a literatura talvez seja o mais eficaz instrumento de um adulto para sobreviver relativamente são neste imenso cenário de dementes que é a saga humana (e propósito das citações, também creio que Montaigne e Shakespeare disseram tudo o que era necessário, e o pouco que faltou foi dito por Proust, Joyce e Faulkner). Por isso não capitulo — je ne capitule pas, caros rinocerontes (ao Google, leitores!). Ademã.

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