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POR EM 09/11/2009 ÀS 07:10 PM

Editor da revista New Yorker mostra por qual razão Lennox Lewis nocauteou Mike Tyson

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Lennox Lewis nocauteou Mike Tyson

O editor-chefe da revista “New Yorker”, David Remnick, escreve perfis do balacobaco e tem sido imitado, às vezes com certo brilho, pelos escribas da revista “Piauí”, como João Moreira Salles. Seus escritos são verdadeiras aulas de bom jornalismo. Do jornalismo sem pressa, detalhista, próximo da literatura. Sua competência com palavras e temas pode ser verificada no livro “Dentro da Floresta — Perfis e Outros Escritos da revista The New Yorker” (Companhia das Letras, 575 páginas, tradução de Álvaro Hattnher, Celso Nogueira e Ivo Korytowski).

Os textos sobre Philip Roth, Don DeLillo, Soljenitsyn, Tony Blair, Vladímir Putin, Natan Sharansky e Amóz Oz são antológicos. O melhor são as 25 páginas de “As guerras da tradução”, no qual Remnick apresenta questiúnculas das traduções do russo para o inglês. A parte mais chamativa mostra a guerra entre o crítico norte-americano Edmund Wilson e o escritor russo Vladimir Nabokov. Embora não dominasse tanto o russo, Wilson disse que a tradução de “Eugene Onegin” (de Púchkin), feita por Nabokov, era ruim. Wilson não se deu por vencido, mas o autor de “Lolita” tinha razão. A polêmica é muito bem descrita no livro “Edmund Wilson — Uma Vida” (Civilização Brasileira, 681 páginas), de Jeffrey Meyers.

Um dos perfis, “O moralista: Lennox Lewis”, não é uma obra-prima, mas mostra a competência de Remnick, especialista em boxe, autor de uma biografia de Mohammad Ali.

O inglês Lennox Lewis, campeão dos pesos-pesados, deixou o pugilismo porque não tinha mais adversários à altura. Faltava motivação. Sua melhor luta não foi contra Mike Tyson, porém, como mais famosa, é a ela que o jornalista dedica 14 páginas (poucos jornalistas, exceto na “New Yorker” e na “Piauí”, têm tanto espaço para contar suas histórias).

Em janeiro de 2002, Tyson e Lewis se reuniram para divulgar que a luta seria realizada em Las Vegas. Intempestivo, Tyson iniciou uma briga “mordeu Lewis na coxa. (...) Lewis sabidamente manteve em segredo a ferida em forma de meia-lua: revelá-la seria colocar em risco uma luta pela qual ele ansiava, sem falar no prêmio de pelo menos US$ 17 milhões”.

Remnick garante que Lewis é inteligente. No boxe, os garotos, como o deslumbrado Tyson, quase sempre são desmiolados. Ao contratar Emanuel Steward como treinador, o pugilista britânico mostrou bom senso. A estratégia proposta por Steward era “sobreviver aos ataques iniciais de Tyson, defender-se dele com o jab de esquerda longo [Lewis tem 1,96m], cansá-lo e depois acabar com ele”.

Enquanto Tyson falava em “aniquilar”, participando de noitadas, o que o pudico Remnick não revela, Lewis praticava o código espartano — “trabalho, celibato, tédio e jogos — principalmente xadrez”. “Ele é o profissional consumado. Se ele tem um defeito, é pensar demais, é ser inteligente demais. Mas ocasionalmente ele muda. Quando apanha, aquilo como que o estimula. E aí ele reage”, diz Steward, numa síntese precisa de Lewis.

Se as palavras saíram da boca de Lewis, e não são transcrições reelaboradas, o boxeador é mesmo inteligente: “Mike Tyson é um problema fácil. Ele é unidimensional. Ele virá direto, como um redemoinho. Não vou precisar procurá-lo”.

Na noite da luta, Tyson, como previsto, começou no ataque. “Os socos de Tyson pareceram despertar Lewis: primeiro sua preocupação, depois seu interesse e, enfim, sua própria destreza.”

Para um peso-pesado, Tyson, com menos de 1,90m, é pequeno e não conseguia chegar perto de Lewis, por conta da maior envergadura do inglês. Nas palavras de Lewis, “pareceu que ele consumia toda a sua energia bem depressa”.

No terceiro e quatro rounds, Lewis era o dono do ringue e Tyson a caça a ser nocauteada. No corner, Steward resumia: “Você tem um homem morto à sua frente!”. No outro corner, o atordoado Tyson invectivava contra as orientações de seus segundos: “Parem com isso”.

Lewis contou a Remnick que, a partir do quarto assalto, lutou com a mão machucada. Mas Tyson, que perdera o olhar do tigre, estava morto. “Um soco de direita rápido e despercebido na mandíbula, e agora Tyson estava na lona, aturdido, esfregando de leve o sangue sob os olhos.” O boxe é poético, prova o jornalista.

Depois da luta, quando Lewis se divertia, torrando 10 mil dólares por dia num triplex do Palace Hotel, na Madison Avenue, Remnick o procurou. Sobre pessoas como Tyson, o quebra-ossos britânico filosofou: “Elas não mostram respeito até você enfiá-lo na cabeça delas”.

Tyson, que torrou sua fortuna, sintetizou-se: “Sou um camponês”. Se dissesse “sou um burro” ninguém discordaria. Camponeses são astutos.

 

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