revista bula
POR EM 17/01/2011 ÀS 03:49 PM

Do que não escapam os poetas

publicado em

Sumário de IncertezasPor certo que se encontra poesia nos poemas do livro de estreia de Lauro Marques, um “Sumário de incertezas” (Rio de Janeiro, Confraria do Vento, 2010) e do que, inserto, subjaz num minério de certeza: poesia ela mesma. Inserida uma linguagem algo derrisória, do cotidiano carcomido, da decomposição dos dias no tempo de todas as coisas. Do que não escapam os poetas, do que não se isenta o eu-lírico. As perdas do ser ao que se lhe dá e o que se lhe há de advir e nem carece advinhar: de certas incertezas, o certo devir: um respiro de vida ainda, a morrer, a vida, por estar viva. As palavras como símbolos ou larvas semoventes de constatações e dissolução nas entrelinhas do branco abissal que a tudo perpassa, a sensação da inutilidade de tudo, o imperioso nada que paira sobre tudo que se move, o pesponto de tudo num ponto fixo da inércia. Ou isso ou nada disso ou também isso. Canhestras elucubrações em torno do texto de Lauro Marques. Um jogo de linguagem. Um diálogo. Contíguo, análogo. Semiologia do ser. Ou fosse de um palimpsesto o pretexto para outro texto, feito casca de árvore seca, ou escama de peixe. 

 

 

“A poesia é um longo e interminável diálogo entre poetas,

no qual se entra como num rio caudaloso.

Igual perigo de afogar-se nessa corrente.” 

Senão que de tudo isso o certo das incertezas. Complexo contexto. O que é um verso senão o avesso às avessas do concreto? Será o ser, em canto de desencanto, um concerto sem conserto? Entenda-se e durma-se com um barulho desses, de versos e controvérsias. Se jogue e jogue-se com os signos. “Sumário de incertezas” catapulta-se em dois saltos: por primeiro, a “Balada para um morto”, epigrafada por Jorge Luis Borges (“Devemos entrar na morte como quem entra numa festa”) e Álvaro de Campos (“Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo”). O primo livro do semiólogo poeta Lauro Marques é quase um opúsculo, 64 páginas e um canto de lusco-fusco. E o segundo salto, no que tem de elástico, tem de minimalístico, sumariando incertezas minúsculas, todavia coesas na dimensão do que, provisório, é presa do derrisório. Uma parte em que o que vale a pena é a arte, e se não é arte, pena e peca pelo paradoxo do seu oposto. Na arte de um verso, o suporte de alguma vida. Ainda. 

Ressoa um canto de desalento, de coisas vencidas, um brilho do belo que já não empolga, não se resguarda, não se respalda. Um basta do poeta, um pedido, um querer morrer em paz com os seus demônios. “Eu quis o aço, o gosto áspero dos metais. / Não me foi dada a primavera.” Oh, quem dera o que nos dera a quimera das palavras! Há nos poemas laureanos uma aura do momentâneo. O “espírito distorcido”, que não absorve o vazio em que, “cego das coisas” (ou antes perplexo), o poeta então se avizinha. A alma em pânico, grito de socorro, um terror sem nome. “Misto de oceano e búfalo, o corpo se afoga em lágrimas.” Encharcada de tédio, a alma geme equidistante das estrelas. Ainda preso à praia, o ser emite um chamado: “Ah, venha tu, ó morte abençoada! (Faz calar a multidão dos cantores).” 

“As palavras caem da minha boca.

(As palavras já caem velhas).

Os poetas só podem ser profetas de si mesmos

e adivinhar seus próprios destinos.” 

Estado de espírito, estado de alma. Há que estar-se pronto para tudo. “Estar pronto é tudo.” “Readiness is all.” Hamlet. Lembra-nos Exupèry: “Para tudo é preciso preparação de espírito”. Com as marcas de Marques, os poemas de Lauro. Cavalo em fuga, primaveras retorcidas. O ser agora ao pé do monte. Um querer ser outro. “Ir ser infeliz em outro canto”. Ser o si-mesmo sem ensimesmar-se de ilusão. Pária. O nada por morada. O pó. Com a alma ensolarada agora, no porto fechado e pronto para partir, sem nunca alcançar o outro lado, como se numa ida não-planejada, ou numa volta não-resolvida. Entenda-se a contenda. E daí uma desconstrução. A constatação de que se trata de falsos profetas “a embalar os homens com seus versos melodiosos”, e de que não são pássaros, “e a esses, de vez em quando, lhes perfuram os olhos para melhor ouvir-lhes o canto”. 

E, no entanto... De tudo por tudo, ao fim, “a vida não foge: vibra”. Há uma intensidade do passado (“pleno e cheio de sentido!”), a névoa e o esquecimento do presente em que só a névoa é real. E o futuro? Projeção e preenchimento do que vive no passado. No labirinto do tempo, o cão metafísico. E, pois, não é hora de retornar? A força hercúlea do retorno. “Despai desfilho cego enfim ou louco.” Negror. A palavra pulverizada. O rio, o mar. O ser como um rio acorrentado. Forçado a ir em frente, mas sendo capaz de mudar o curso, pois já não se contenta diante do espaço vazio. Por fim, a canção da água (primevo berço), talvez a última, água que a noite esfria e, todavia, não lhe esfria o verso. Advem uma elegia do outono (“Elegia, meu Deus, pra quê elegia?”), o sol no topo dos edifícios, ao pé dos quais (momento poeticamente singular, imagético e evocativo) as árvores brincam com o vento. 

O segundo salto, sumariando incertezas com as certezas do certo, tece alguns poemas minimalistas e de cunho interrogativo. De novo e sempre no mesmo ponto, e, contudo, de um modo diferenciado, “sendo diferente”. E o que muda, nesse meio tempo, entre um verso e outro? Leiam-se os poemas, e sinta. Não nos pergunte, antes se pergunte. “E porque somos agora o que restou do Natal” (diz o poeta), reconstroi-se a fala feito espelho-d´água, ali onde o ser se afunda. E se acha. “Com que tinta escrever agora que o tinteiro esvaziou?”.  Humana “tolice de quem construiu castelos de gelo no verão e rimou palavras a esmo para surdos-mudos e analfabetos numa língua morta e desconhecida desde então”. Dura e dolorosa constatação. De volta aos restos na praia: “uma botina de pescador, um pedaço de pneu velho queimado, uma tampa de vaso sanitário, ainda aberta (Quer dizer algo?).” 

“Convulsão de alma. 

A alma em pânico pede socorro e sai rasgando

as entranhas — na verdade se agarra.

 Um fio de sangue lhe aflora à boca pálida.” 

De um salto a outro, “o homem agigantou-se e perdeu a forma.” Destroços. Uma praia de arabescos. “Tudo é recomeço”, anota o poeta. Resta-nos “aquele salto que nunca damos.” Por certo que o último salto corre por conta da poesia que se impõe, senhora de si, e o poeta a ela circunscrito. Inscreve-se, escreve-se como quem morre. Vive-se a morte que nos vive. Está escrito. “Cada um se mata o suficiente para continuar vivo”, dizia o poeta Pio Vargas, que, de súbito, se matou. As palavras são artifícios, moscas e música da nossa consolação. Mas, bem sabemos — sabem-no os poetas —, o alento é provisório, o refúgio é precário, a catarse é paliativa. A poesia sobrevive, viva a poesia. “Sumário de incertezas” é o livro. Lauro Marques, o poeta.  Certo de “acostumar-se a este ofício, que não é melhor nem pior que nenhum outro, mas o único em que te sentes igual a ti mesmo e teus semelhantes, com todas as tuas garras e dentes.” 

NOTA — Lauro Marques é paraibano de Campina Grande, residente em São Paulo. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo, pesquisador de Estética e Pragmatismo. Tem trabalhos publicados na Bula e na revista eletrônica Confraria.

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