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POR EM 05/01/2010 ÀS 07:13 PM

Cuba era ‘dona’ da revolução brasileira

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Para se defender, Cuba financiou a revolução em países como o Brasil. Militantes da ALN contestam a subordinação de Carlos Marighella, mas há evidências do dirigismo castrista

José Dirceu, Fidel Castro e Carlos Marighella

No terceiro capítulo de “O Apoio de Cuba À Luta Armada no Brasil — O Treinamento Guerrilheiro”, a historiadora Denise Rollemberg discute o apoio financeiro e logístico de Cuba à Ação Libertadora Nacional (ALN), ao Grupo da Ilha, à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e ao Movimento Revolucionário — 8 de Outubro (MR-8). O incentivo se dá a partir de 1967, após o “fracasso” das Ligas Camponesas e do Fidel brasileiro, Leonel “El Ratón” Brizola. O ano de 1967, aponta Denise, “foi marcado tanto pela Conferência das OLAS, em julho e agosto, grito de guerra do projeto de exportação da revolução, quanto pela derrota do projeto de Che Guevara na Bolívia, em outubro”. O Fidel brasileiro passa a ser Carlos Marighella (“Vai, Carlos, vai ser Marighella na vida”, como dizia o poeta).

“A ALN foi a organização que mais enviou militantes para o treinamento. Em setembro de 1967, foi formada a primeira turma, chamada de I Exército da ALN, que treinou 16 militantes até julho de 1968, e, em seguida, formaram-se o II Exército (30 militantes treinados entre julho de 1968 e meados de 1969), o III (33 militantes treinados entre maio e dezembro de 1970) e o IV (13 militantes treinados entre fins de 1970 e julho de 1971)”, conta Denise. Outras organizações participaram dos treinamentos em Cuba.

Os guerrilheiros (ou futuros guerrilheiros), em geral jovens da classe média urbana, “encontravam muitas dificuldades para acompanhar as atividades físicas e o treinamento é lembrado como um esforço penoso”, relata Denise. “Todo mundo saiu com uns dez quilos a menos do treinamento”, diz Mário Japa.

Daniel Aarão Reis Filho, hoje historiador, ressalva: “Nós fomos para lá [Cuba] acreditando que íamos encontrar um treinamento que nos desse as condições próximas às que teríamos na guerrilha rural no Brasil. Mas nada disso ocorreu. Nós ficamos num barracão de madeira, onde havia uma cama para casa um, era uma coisa rudimentar, mas havia. As refeições eram todas servidas por caminhões do exército. Até para tomar banho, tinha um cano... era um acampamento! Nós protestamos contra isso. Tentamos ganhar os cubanos para o fato de que nós queríamos dormir no mato todos os dias, por mais que isso fosse terrível... Porque aquilo ali era uma brincadeira. O próprio Zé Dirceu [da ALN] dizia que o treinamento era um teatrinho de guerrilha e o pior, um vestibular para o cemitério”.

Domingos Fernandes, do IV Exército da ALN, endossa a versão de Daniel Aarão: “O Vladimir [Palmeira], que era do nosso grupo, conta uma história real, uma piada, mas, na verdade, uma piada de uma realidade: um instrutor chegou e começou a falar sobre o marxismo e tal. Então o Vladimir perguntou: ‘Mas, companheiro, o que é o marxismo?’. O Vladimir é um sacana... Então, o instrutor falou: ‘Marxismo... Bueno, marxismo, bueno... marxismo é del caralho!’ Quer dizer, ele não tem explicação, a formação política do, vamos chamar, exército cubano, do Partido Comunista Cubano é uma piada”. Denise acrescenta: “Longe da realidade que encontrariam na guerrilha, até as marchas eram em trilhas”. 

Teoria da dependência

Num primeiro momento, historia Denise, “o apoio de Cuba à luta armada no Brasil se restringia ao treinamento, inclusive no que se refere à ALN. No entanto, Cuba chegou a enviar, em um momento, uma quantia de dinheiro para a organização. (...) A ALN também chegou a receber, em uma ocasião, uma quantia de dinheiro da Coréia do Norte. No entanto, fora estas exceções, o apoio não significava dinheiro. Domingos Fernandes conta que saiu de Cuba, praticamente, apenas com os dólares equivalentes à passagem de Roma para Santiago do Chile. Em Roma, contou com o pintor Joan Miró, que vivia na cidade e ‘tinha uma simpatia pela guerrilha, pela revolução latino-americana’. Miró vendeu desenhos seus para conseguir dinheiro para ‘um guerrilheiro que voltava para a América Latina’”.

A historiadora discute se Marighella era subordinado aos cubanos, pois recebia mais apoio do que outros líderes da esquerda. Os militantes da ALN negam o “controle” cubano da guerrilha brasileira. “Apesar das relações com Cuba, Marighella teria uma visão da revolução bem diferente do modelo foquista”, nota Denise, que, ao escrever “teria”, não endossa a tese da ALN. A versão de Domingos Fernandes: “Ele [Marighella] tinha contatos no Brasil inteiro. O Marighella não achava que quem faria a revolução seriam esses grupos que tinham organizado na ALN. Ele achava que em um determinado momento iria haver uma conflagração geral. Vários militares da ativa, com que ele tinha contatos, iriam passar para o outro lado e se estabeleceria um processo insurrecional. Esse processo insurrecional iria dar condições objetivas para se criar um tal exército de libertação... (...) ele era uma liderança nacional, até internacional, conhecido, tinha carisma... (...)”. Como historiadora, Denise não diz, mas não resta dúvida de que não há outra palavra, senão delírio, para definir a “análise” de Domingos Fernandes. Ou o comportamento de Marighella.

Adiante, Domingos Fernandes delira menos, mas, com certeza, equivoca-se: “Para o Marighella, esse negócio de Cuba era o seguinte: bota as pessoas lá, elas aprendem a atirar e manda de volta. (...) O sentido que ele dava a esses cursos era isso. Não tinha nenhum sentido político-militar”. Se foi assim mesmo, Marighella levou Cuba na brincadeira, o que parece não ter qualquer procedência. O que parece óbvio, mas Fernandes não percebe, é que Marighella não poderia dizer, nem aos seus seguidores, que sua “revolução” era subordinada a Cuba. Por dois motivos: não era do interesse de Fidel, que provocaria uma crise internacional se admitisse publicamente que estava dirigindo revoluções noutras nações, e não era de Marighella, que não poderia caracterizar a guerrilha brasileira como determinada externamente. Se aceitasse a tese da intervenção externa, Marighella estaria defendendo a invasão do país, o que teria sido utilizado politicamente. Depois da morte do líder da ALN, com a ascensão de Joaquim Câmara Ferreira, a dominação cubana cresceu. “Os cubanos sempre tentaram intervir na ALN, o que significava, então, influenciar os rumos da revolução brasileira. Como, por exemplo, designar comandantes, à revelia da organização”, escreve Denise.

O hoje músico Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz — o comandante Clemente, da ALN —, diz, nas palavras de Denise, que os “comandantes era cooptados através de um jogo de sedução: valorização de supostas qualidades guerrilheiras, privilégios materiais, convites para recepções oficiais de embaixadores de países socialistas, presença nos palanques das festas oficiais ao lado de dirigentes partidários, inclusive Fidel Castro, e até mesmo facilidades de acesso ao líder revolucionário, fazendo-os crer em uma amizade. Diante de tal tratamento, orgulhoso da condição de comandante da revolução do maior país da América Latina, convicto de que os cubanos só podiam ajudar, o militante acabava passando informações reservadas da organização ao governo”. Segundo Carlos Eugênio, “na prática, os cubanos infiltravam a organização”.

Mas, segundo alguns militantes, os chamados comandantes fabricados não eram aceitos pela esquerda armada. Denise conta uma história interessante: “Um dos casos mais polêmicos foi o do ‘comandante Raul’, treinado no II Exército, alçado à condição de comandante da organização (ALN) e preparado para voltar ao país para liderar a luta. Sérgio Granja conta que Marighella teria ficado revoltado com a designação e decidido não enviar mais ninguém para o treinamento, mas logo em seguida morreu”.

No Brasil, com dinheiro cubano no bolso, mas sem apoio da ALN, Raul desistiu da luta e, considerado traidor em Cuba, pediu asilo à Suécia.

Cuba e massacre

Apesar da resistência, o governo cubano não desistiu de controlar a revolução brasileira, o que, registra Denise, revelou-se uma tragédia. Mal informados sobre as reais condições do Brasil, em 1971, os integrantes do III Exército foram massacrados pela repressão.

O grupo que voltou em 1971 “ficou conhecido como o Grupo dos 28 ou o Grupo da Ilha ou, ainda, Grupo Primavera”. Denise conta que, “no dossiê do Ministério do Exército, constam os nomes de 33 pessoas, no III Exército da ALN, incluindo sete banidos (José Dirceu de Oliveira e Silva, inclusive) e mais Franklin Martins. Ou seja, o Grupo da Ilha foi formado pelos militares do III Exército, menos Franklin Martins e os banidos (mas incluindo José Dirceu): 26 militantes. Em seguida, integraram-se Carlos Eduardo Fleury e Jeová Assis Gomes, banido em junho de 1970, somando-se, portanto, 28 guerrilheiros. A cisão, em 1971, parece ter sido liderada por Lauriberto José Reyes, Antonio Benetazzo e José Dirceu”.

O objetivo do Grupo Primavera era “investir em um trabalho na área rural”. Denise faz uma avaliação crítica, o que não é frequente em seu correto trabalho, não raro excessivamente distanciado (o que talvez, em vez de defeito, seja virtude): “O que estes militantes [do Grupo Primavera] não compreendiam é que o isolamento da ALN não era decorrência de uma opção política, mas do próprio isolamento da luta armada, uma vez que a sociedade jamais se identificou com este projeto” (a guerrilha). Tanto a guerrilha estava isolada, em todos as regiões do país (ainda não no Araguaia), que, “no segundo semestre de 1972, o Grupo já estava dizimado”.

José Carlos Giannini, membro do Grupo (aderiu no Brasil), apresenta sua versão: “O movimento de massa não passou de uma intenção, uma boa intenção, mas não passou disto. (...). Houve uma tentativa de ir para o campo, para Goiás,... Mas em nenhum momento teve fôlego para fazer isso. Sempre tentando se organizar, se estruturar e criar condições materiais mínimas, mas... aí começaram as prisões, as mortes”.

O Grupo Primavera, curiosamente, era mitificado por Cuba e pelos grupos repressivos do Brasil. Acreditava-se que os guerrilheiros eram quase superdotados. A análise de Denise: “O Grupo dos 28 parecia reunir tanto as condições físicas, que, no quadro de supervalorização da ação, em uma perspectiva militarista da revolução, era importante, quanto também um outro lado, militantes com preparo político e intelectual, como Antonio Benetazzo, José Roberto Arantes de Almeida, José Dirceu, Lauriberto Reyes. Reunindo estes dois lados, parecia completar a deficiência da ALN: a sobreposição da competência militar nas discussões políticas”. Arthur Scavone, que aderiu ao grupo no Brasil, acredita que Cuba viu no Grupo dos 28 “uma possibilidade de crescimento e de recomposição de uma guerrilha que estava se desestruturando por completo. Comentava-se que o Fidel dava muita importância ao Fleury [Carlos Eduardo], tinha esperança nele e eles [do Grupo] teriam voltado para o Brasil um pouco à revelia dos acordos que Cuba tinha com a ALN. (...) Receberam documentação e apoio para voltar”.

Mesmo acreditando no projeto — uma guerrilha aparentemente só de líderes, sem comandados —, Fidel, segundo ressalta Denise, “não apoiou com dinheiro. As pessoas chegavam aqui e tinham que contar com as ações de expropriação para montar a guerrilha, sendo que a maior parte dos integrantes do Grupo, quando saiu do Brasil, tinha pouca ou nenhuma experiência de luta armada”. José Carlos Giannini faz a avaliação apropriada: “... faltava a essas pessoas o que faltaria para qualquer um: a vivência aqui. Uma coisa é você passar seis meses numa selva, como eles passavam lá, se ferrando, debaixo de chuva, comendo ou não comendo, atravessando rio, se perdendo na selva,... mas no treinamento. Outra é você passar um mês aqui clandestino, sendo perseguido, tendo de enfrentar o dia-a-dia da ação”.

O depoimento de Carlos Eugênio ainda é mais iluminador: “... houve uma evolução no nível de tensão. Inclusive essa evolução nos causou tremendos prejuízos. O companheiro saía para treinar em Cuba, em 1968, 1969, voltava em 1971... Tem um companheiro nosso que chegou e o Câmara Ferreira o colocou em contato comigo. Na terceira vez que o encontrei, ele falou o seguinte: ‘Olha, não dá, eu não consigo viver aqui, eu não vou conseguir viver essa vida. (...). Quando eu saí daqui era uma coisa e hoje em dia é outra’. Mas tinha outro que não, topava e ficava, mas fazia uma besteira atrás da outra. Você chegava e dizia: ‘Isso aqui não é mais 68 nem 69 não. Os caras usam essas táticas e isso e isso’. E o cara não entendia. (...) eles eram deslocados de uma realidade e eles não acompanhavam... O índice de sobrevivência de quem ficou aqui é muito mais alto do que o índice de sobrevivência de quem saiu e voltou, porque a gente ia acompanhando passo a passo... A tensão ia aumentando e você ia se escolando ali também, ia se adaptando dentro do meio. Agora, o cara saía em 68 e volta em 70, 71... O cara continua andando, achando que podia continuar andando nos lugares que andava antes. Achava que podia continuar a sair de noite para ir ao cinema. Achava que podia continuar fazendo uma porção de coisas que não podia mais fazer. Então, isso desarmava os espíritos das pessoas”.

O Grupo dos 28 era uma dissidência da ALN e, na verdade, nunca teria se integrado efetivamente à organização fundava por Carlos Marighella. Essa avaliação de Domingos Fernandes, acredita Denise, “é importante na medida em que relativiza o suposto peso que os cubanos teriam tido na cisão, e recoloca a responsabilidade no próprio grupo, até como uma característica que lhe dava identidade desde o início, apesar de esta não ser a interpretação de Domingos”. O Grupo dos 28 era uma tentativa de “depurar” a ALN. Domingos avalia que o Estado cubano é responsável pela volta, no momento errado, do Grupo dos 28, ou seja, é responsável pela morte dos militantes.

No Brasil, o Grupo dos 28 se uniu a outros militantes da ALN e, juntos, formaram o Movimento de Libertação Popular (Molipo). Em março de 1971, a ALN, liderança por Carlos Eugênio, justiça Márcio Leite de Toledo. Como Márcio não era considerado delator — apenas fraquejara e não queria mais participar da guerrilha nem aceitava sair do país —, o justiçamento foi considerado assassinato. “Isto foi a gota d’água mesmo e coincidiu um pouco com a chegada dos 28”, admite Giannini. Arthur Scavone não se lembra se a morte de Márcio provocou a cisão. Denise esclarece que Márcio “estava em contato com esse setor da ALN que iria originar o Molipo”.

Na avaliação de militantes da ALN, citada por Denise, “o governo cubano, mais especificamente o serviço secreto, tenha incentivado a cisão: ‘o racha foi uma coisa criada pelos cubanos’”, segundo Domingos Fernandes.

Carlos Eugênio conta que, conscientes de como realmente estava o combate guerrilha versus repressão no Brasil, alguns militantes tentaram evitar a volta dos integrantes do Grupo dos 28, mas foram rechaçados pelos cubanos. A versão de Carlos Eugênio: “...teve um companheiro nosso que fez uma última tentativa quando conseguiu saber que, naquele dia, estava saindo a primeira turma que vinha para o Brasil. Tentou chegar à casa onde os caras estavam para tentar fazer uma última tentativa de demovê-los daquela aventura e os cubanos simplesmente o prenderam até o momento em que os caras saíram de Cuba. Chegaram a esse nível de gravidade (...). Esse cara era da ALN, Argonauta Pacheco,.... O companheiro Takao Amano,..., estava no Chile. Eles [os cubanos] retardaram a ida dele para Cuba,...., ele querendo ir inclusive para tentar demover os companheiros dessa volta. Ele recebe uma carta do Fleuryzinho, o Carlos Eduardo Pires Fleury,..., que era muito amigo do Takao Amano e manda uma carta para ele e ele percebe que o cara está embarcando naquela e tenta, fica tentando ir e os cubanos ficam segurando ele até que o Molipo inteiro saiu de Cuba e aí o deixaram ir para Cuba, para o cara não influenciar politicamente”. 

Infiltração no Molipo

Como ninguém conseguiu segurar os jovens guerrilheiros, a repressão liquidou quase todo o grupo. Escreve Denise: “A volta dos guerrilheiros do Grupo da Ilha foi dramática. À medida que chegavam, eram rapidamente pegos pela repressão e, em muito pouco tempo, o Molipo foi massacrado. Eram mortes anunciadas. Se a repressão havia condenado todos os militantes que treinaram em Cuba à morte, no caso do Grupo dos 28 parece ter havido uma determinação ainda maior para dizimá-lo. Todos os que caíram do Grupo da Ilha foram mortos ou desapareceram. Sobreviveram apenas seis, jamais presos”.

As forças repressivas tinham muitas informações sobre os militantes do Grupo da Ilha. Não há uma resposta exata, aponta Denise. “A primeira explicação está centrada no Cabo Anselmo. Com o racha do Grupo, a volta dos guerrilheiros não se deu por intermédio da ALN. Os próprios cubanos se encarregaram de organizá-la e concretizá-la. Cabo Anselmo, com livre trânsito em Cuba, ele que já havia realizado em duas ocasiões o treinamento, estaria a par de todo o esquema, como se dizia, da volta, entregando-o à repressão. Quando da volta do Grupo, o Cabo Anselmo já estava no Brasil. (...) Outra explicação: nesta mesma época da volta do pessoal do Grupo da Ilha, houve a dissidência de um agente cubano do setor de inteligência. Este cubano era ligado, exatamente, ao treinamento de guerrilheiros latino-americanos, e teria passado as informações que dispunha, inclusive sobre o Grupo, à CIA, derrubando muitos guerrilheiros, não somente brasileiros, de volta a seus países”.

Há uma terceira explicação: “Domingos Fernandes conta uma história que envolve a queda de José Roberto Arantes de Almeida, que voltou em novembro de 1971, e que comprovaria o envolvimento dos próprios cubanos no massacre do Molipo: ‘Quando o [José Roberto] Arantes [de Almeida] chegou ao Brasil, ele tinha um barbeador elétrico. Ele trouxe no barbeador elétrico uma série de nomes. (...) Quando a gente determinava que a gente ia voltar para o Brasil, a gente começava a anotar coisas [para lembrar através de associações]. Então ele pegou isso que ele fez durante meses quando ia voltar para o Brasil, um papelzinho onde a gente anotava com letra minúscula,..., e botou embutido no barbeador. Só ele e os cubanos sabiam porque ele pediu aos cubanos o barbeador para colocar os papéis (...). Ele foi preso, passou pouquíssimas semanas no Brasil. (...) A polícia entrou na casa onde ele estava e foi direto no barbeador”.

Denise sugere uma quarta explicação: militantes, para sobreviver, aparentemente teriam feito acordo com a repressão. “Há histórias que circulam, sem que se saibam — ou se digam — os detalhes, as circunstâncias, em que pessoas dadas como mortas teriam sido vistas nas ruas de São Paulo”. No livro “Autópsia do Medo — Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury” (Globo, 650 páginas), Percival de Souza conta a história (sem citar nome nem detalhes) de um ex-militante que, depois de ter passado para o lado da repressão, fez plástica — e não é o Cabo Anselmo. Na página 543 de “Autópsia do Medo”, Percival de Souza, transcreve o que Fleury disse à namorada Lenora Rodrigues: “Anselmo não foi o único [a ser virado pela repressão]. Outro, por sinal amigo do seu irmão [o jornalista Raimundo Rodrigues, fundador do jornal ‘Movimento’], também fez operação plástica. É dado como desaparecido mas está por aí. É um ex-terrorista, ficou com uma oficina mecânica perto da Estação da Luz”. Percival de Souza, pelo menos é o que consta do livro, não revela o nome do “segundo” homem.

Denise conta que dois documentos — dos arquivos do Deops de São Paulo e do Dops do Rio de Janeiro —, que foram analisados pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos da Câmara de Deputados, “evidenciam a presença de um informante desde Cuba, que, inclusive, voltava ao Brasil, informando também sobre as pessoas que se vinculavam aqui”.

A historiadora avalia que o informante pode ter sido o próprio Cabo Anselmo, “que dispunha da confiança do governo cubano”. “Fala-se que foram mostradas fotos de pessoas do Grupo treinando em Cuba aos militantes do Molipo na prisão. Ou seja, a repressão tinha total controle das informações sobre o Grupo, desde o início. Entre os entrevistados, ninguém acredita que possa ter havido infiltração dentro do próprio Grupo dos 28”, diz Denise.

Em 1973, com a guerrilha urbana estava devastada, o líder da ALN Carlos Eugênio segue para Cuba. Na ilha, conversa com o comandante do Exército em Havana, Arnaldo Ochoa — fuzilado em 1989, sob acusação de envolvimento com tráfico de drogas —, sobre a possibilidade de voltar ao Brasil. “Ochoa tinha um plano para propor à ALN: entrar no Brasil pelo Rio Amazonas, com um barco levando cem combatentes cubanos bem treinados e todo o armamento disponível. Os militantes da ALN que quisessem voltar também se integrariam. Ochoa viria também. Era a primeira vez que Cuba propunha a entrada de cubanos no Brasil para implantar a guerrilha. A idéia era se instalar na selva amazônica, em seguida, montar depósitos de armas, abrigos, recuos da guerrilha e, em uma fase posterior, começar as ações de guerrilha no campo. Ochoa pensava poder contar com os esquemas de campo da ALN da época de Marighella”. Fidel sabia de tudo. Nas palavras de Ochoa: “O Fidel sabe e jamais admitirá publicamente”.

 

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