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POR EM 13/01/2010 ÀS 10:08 AM

Clarice Lispector descartou influência de Virginia Woolf e Sartre

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Clarice Lispector“Clarice,” (Cosacnaify, 648 páginas), de Benjamin Moser, é uma biografia do balacobaco. Clarice Lispector, a mulher e a escritora, sai maior. Ou com a estatura devida. Apesar da simpatia confessa do pesquisador americano, não se trata de hagiografia. Uma das vantagens da biografia é que Moser recolhe as melhores interpretações (esquecendo algumas) da obra da autora e oferece ao leitor as próprias leituras, quase sempre pertinentes e originais. Ele escarafuncha a vida e, paralelamente, a obra. Muitas vezes, o envolvimento com a obra é muito superior à apreensão da vida de Clarice.

Em 1919, quando tentava escapar das perseguições dos comunistas na Ucrânia, a mãe de Clarice, a judia Mania Lispector, foi estuprada e contraiu sífilis. Aparentemente para tentar se curar, ficou grávida e, na fuga pelo território ucraniano, nasceu Chaya Pinkhasovna Lispector, em 10 de dezembro de 1920 (na época, pensava-se que uma mulher doente, com certas doenças, poderia se curar se ficasse grávida. Recentemente, em busca de informações sobre a família Lispector, Moser visitou a Ucrânia e descobriu que a crença persiste entre as mulheres do povo). Chaya significa “vida” em hebraico. No Brasil, o nome foi trocado para Clarice. Os pais, Pinkhas (mudou o nome para Pedro) e Mania (virou Marieta), chegaram ao Brasil, em 1922, com as três filhas, Elisa (o nome era Leah), Tânia e Clarice. Moraram em Maceió, Recife (paixão de Clarice) e Rio de Janeiro.

Aos 23 anos, Clarice publicou “Perto do Coração Selvagem” — obra de gênio (sua prosa não me entusiasma tanto, mas tenho de reconhecer a magnitude da escritura da autora) que entortou a cabeça dos críticos — os prós (menos) e os contras (mais). A recepção foi positiva, mas houve quem, como Álvaro Lins, atacasse com certa fúria. Talvez não tenha compreendido a “forma” do romance.

O escritor português Lobo Antunes, possivelmente numa leitura redutora, disse, numa entrevista publicada no livro “Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes” (Porto Editora, 496 páginas), que a escritora surrupiou trechos da obra da inglesa Virginia Woolf. Lobo Antunes não diz quais são os trechos. A versão de Clarice, morta em 1977, aos 47 anos: “As críticas não me fazem bem. A do Álvaro Lins [...] me abateu e isso foi bom de certo modo. Escrevi para ele dizendo que não conhecia Joyce nem Virginia Woolf nem Proust quando fiz o livro, porque o diabo do homem só faltou me chamar ‘representante comercial’ deles”. Mais tarde, voltou ao assunto: “Não gosto quando dizem que tenho afinidade com Virginia Woolf (só a li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro): é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até o fim”.

Moser relata que “A irmã de Shakespeare”, texto de Clarice, é uma “reelaboração de um conto de Virginia Woolf sobre a hipotética Judith Shakespeare. ‘Quem’, Clarice citava a célebre frase de Woolf, ‘poderá calcular o calor e a violência de um coração de poeta quando preso no corpo de uma mulher?’”.

Clarice também rejeitava a comparação com a literatura de Jean-Paul Sartre, o de “A Náusea”. “Minha náusea é diferente da náusea de Sartre, porque quando eu era pequena não suportava leite, e quase vomitava o que tinha que beber. Pingavam limão na minha boca. Quer dizer, eu sei o que é a náusea no corpo todo, na alma toda. Não é sartriana”, frisou a autora de “O Lustre”. Ao comentar este romance, Moser escreve: “... o mundo exterior, para Virgínia [personagem do livro], não existe. A propósito, essa é outra razão pela qual as comparações de Clarice Lispector com Sartre são tão descabidas: o mundo da política, do ‘novo homem’, da revolução e da ideologia, é totalmente alheio a ela. (...) A liberdade de Virgínia vem somente de dentro.” Clarice, por sua própria história, não era, não tinha como ser stalinista ou engajada. Seu engajamento, se se pode assim, era mais literário, embora não fosse afeita a correntes estéticas. Não era missionária. Ou, se era, integrava uma “igreja” de um único membro. Era uma rebelde cuja causa era sua literatura.

Mesmo uma crítica positiva, feita pelo amigo Lúcio Cardoso, recebe reparos: “Gostei tanto. Fiquei assustada com o que você diz — que é possível que meu livro seja o meu mais importante. Tenho vontade de rasgá-lo e ficar livre de novo: é horrível a gente já estar completa”.

Na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, quando seu marido era vice-cônsul em Napoles, Clarice atuou, ao lado da célebre enfermeira Elza Cansanção Medeiros, no auxílio aos pracinhas. “Visito diariamente todos os doentes. Dou o que eles precisam, converso, discuto com a administração pedindo coisas”, escreveu Clarice para Lúcio Cardoso.

O suposto interesse de Clarice por mulheres não é objeto de estudo do nem sempre discreto Moser. Há uma referência velada, quando Moser se refere à paixão de Clarice pela literatura de Katherine Mansfield. A brasileira leu “Felicidade”, livro da neozelandesa, e disse: “Este livro sou eu”. A Lúcio Cardoso, escreveu de Nápoles: “Não pode haver uma vida maior que a dela, e eu não sei o que fazer simplesmente. Que coisa absolutamente extraordinária que ela é”. A versão de Moser: “... a declaração ‘Não pode haver uma vida maior do que a dela’ levanta a questão sobre o que Clarice queria dizer a respeito de uma vida que incluía amantes de ambos os sexos, doença venérea, depressão, tuberculose e morte aos 34 anos”.

O interesse de Clarice por Spinoza e a influência do filósofo holandês em sua obra mostra uma autora muito mais densa do que habituei-me a pensar. “O romance que ela inicia em março de 1942, ‘Perto de Coração Selvagem’, torna óbvio que ela lera Spinoza com atenção”, sustenta Moser. “Eles compartilhavam certas similaridades biográficas importantes.”

Os amores de Clarice aparecem, em doses homeopáticas. O primeiro amor foi o escritor Lúcio Cardoso, o “Dostoiévski brasileiro”. A intensa paixão não foi correspondida, porque Lúcio Cardoso era homossexual juramentado. A escritora disse que iria “salvá-lo”, mas Francisco de Assis Barbosa (o grande biógrafo de Lima Barreto) pôs o pingo no i: “Ele nunca vai casar com você, é homossexual”. “Em tantas coisas éramos tão fantásticos que, se não houvesse a impossibilidade, quem sabe teríamos nos casado”, escreveu Clarice. “Mas eu vou salvá-lo. Ele vai gostar de mim”, replicou Clarice. Assis Barbosa estava certo.

O diplomata Maury Gurgel Valente, com quem Clarice se casou, parece ter sido o amor da acomodação. Gurgel era mais apaixonado do que ela. Pós-Gurgel, pai de seus filhos, Clarice apaixonou-se pelo poeta mineiro Paulo Mendes Campos (“Byron, aos 23 anos”). “Por um breve tempo, Clarice e Paulinho viveram uma grande paixão. (...) Formavam um estranho casal: Clarice, alta, loura e fascinante; e Paulinho, (...) baixo, moreno e, apesar do charme, fisicamente pouco atraente” (fico com a impressão de que Moser tem um estranho ciúme de Clarice). “Em termos de neurose, os dois foram feitos um para o outro”, disse Ivan Lessa.

Irritada com a traição de Campos, sua mulher, uma inglesa, ameaçou levar os filhos para a Inglaterra. O poeta recuou e abandonou Clarice. A escritora pediu o apoio do romancista Autran Dourado, que preferiu não se intrometer. “Ela o amou até morrer”, contou Rosa Cass, amiga da escritora.

Vários homens se apaixonaram pela “belíssima” e inteligente Clarice. Um deles, Ulysses Girsoler, terapeuta que trabalhava na Suíça, ficou loucamente apaixonado. Não há indícios de que tenha sido correspondido. Pelo contrário, teve de sair de Berna, por conta de sua paixão. Ulysses aplicou “um prolongado teste de Rorschach” e os resultados foram surpreendentes mas verdadeiros (páginas 257 e 258).

Os pequenos erros não invalidam o trabalho criterioso de Moser, de 33 anos. Uma falha é mais grave: a editora não publicou as notas do capítulo 8 — “Melodrama nacional”. A assistente editorial da Cosacnaify, Flávia do Lago, disse ao Jornal Opção e à Revista Bula que houve “um erro de revisão”, a ser corrigido na segunda edição. “Para corrigir a falha, a editora disponibiliza as notas faltantes para que sejam impressas ou baixadas no computador” (aqui). Numa edição tão cuidadosa, em que se fala excessivamente da beleza de Clarice, há apenas uma fotografia. Recomendo, para os aficionados, o livro “Clarice Fotobiografia” (Edusp e Imprensa Oficial, 652 páginas), de Nádia Battella Gotlib, também biógrafa da escritora. Há belíssimas fotos de Clarice, parentes e amigos.

O cachorro Dilermando

Quando morou em Nápoles, Clarice Lispector adotou o cachorro Dilermando, encontrado na rua. “Quanto a mim, foi só olhar que logo me apaixonei pela cara dele.”

O relato de Clarice: “Apesar de ser italiano, tinha cara de brasileiro e cara de quem se chama Dilermando. Paguei um dinheiro para a dona dele e levei Dilermando para casa. Logo dei comida a ele. Ele parecia tão feliz por eu ser dona dele que passou o dia inteiro olhando para mim e abanando o rabo. Vai ver que a outra dona dele batia nele [...] Dilermando gostava tanto de mim que quase endoidecia quando sentia pelo faro o meu cheiro de mulher-mãe e o cheiro do perfume que uso sempre. [...] Ele detestava tomar banho, pensava que a gente era ruim quando obrigava ele a esse sacrifício. Como dava muito trabalhar dar banho todos os dias e como ele fugia da banheira todo ensaboado, terminei dando banho só duas vezes por semana. O resultado, é claro, é que ele tinha um cheiro muito forte de cachorro e eu logo sentia com o meu faro, porque gente também tem faro”.

“Quando eu estava escrevendo à máquina, ele ficava meio deitado ao meu lado, exatamente como a figura da esfinge, dormitando. Se eu parava de bater por ter encontrado um obstáculo e ficava muito desanimada, ele imediatamente abria os olhos, levantava alto a cabeça, olhava-me, com uma das orelhas de pé, esperando. Quando eu resolvia o problema e continuava a escrever, ele se acomodava de novo na sua sonolência povoada de que sonhos — porque cachorro sonha, eu vi. Nenhum ser humano me deu jamais a sensação de ser tão totalmente amada como fui amada sem restrições por esse cão.” Em Napoles, Clarice teve depressão.

Às irmãs Elisa e Tânia, a autora de “O crime do professor de matemática” escreveu: “Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão, ver e sentir a matéria de que é feito um cão. É a coisa mais doce que eu já vi, e cão é de uma paciência para com a natureza impotente dele e para com a natureza incompreensível dos outros... E com os pequenos meios que ele tem, com uma burrice cheia de doçura, ele arranja um modo de compreender a gente de um modo direto. Sobretudo Dilermando era uma coisa minha eu que não tinha que repartir com ninguém”.

Quando se mudou para a Suíça, teve de deixar Dilermando. “Para expiar a culpa por ter abandonado Dilermando, ela escreveu um conto, ‘O crime’, publicado num jornal do Rio em 25 de agosto de 1946. Ampliado e rebatizado de ‘O crime do professor de matemática’, esse é o mais antigo dos treze famosos contos de ‘Laços de Família’”, revela Benjamin Moser.

Trecho do conto “O crime do professor de matemática”

“Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua. Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu — como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei, refletiu. Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente, pensou o homem com carinho. Lembro-me de ti quando eras pequeno, tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. Eras todos os dias um cachorro que se podia abandonar”. (Do livro “Laços de Família”, de Clarice Lispector)


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