revista bula
POR EM 31/12/2012 ÀS 03:09 PM

Bradaremos contra os hunos e seus obscuros festivais de cinema: ¡no pasarán!

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Sou pela paz, mas com essa turma de cinéfilos e leitores de quadrinhos só Guantánamo resolve. O que nos resta é proteger estes espaços para os quais podemos fugir do cotidiano massacrante, onde somos amigos do rei e podemos decretar sem contestação a superioridade da literatura

Para Cyntia Melo Rosa, amiga certa.

Retomo, tal como Sísifo, a minha tarefa de listar os melhores livros de 2012. Encerrei a parte anterior da lista com biografias e memórias; porém, mais que esses livros, é a leitura de cartas que verdadeiramente nos coloca no centro das vidas que nos interessam. Para os adeptos: “Toda a Saudade do Mundo”, correspondência entre Jorge Amado e Zélia Gattai; “Cyro & Drummond” (Globo), coletânea de cartas trocadas entre dois amigos de vida inteira, Carlos Drummond de Andrade e Cyro dos Anjos; e “Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda: Correspondência”, publicação conjunta da Companhia das Letras e da Edusp, que tem excelente estudo de Pedro Meira Monteiro sobre as cartas dos amigos paulistanos, ambos fundamentais para trazer ao século 20 o Brasil deitado eternamente em berço esplêndido.

Gosto de textos jornalísticos, mas gosto ainda mais dos textos de Paulo Francis, aquele que a esquerda adora odiar, o que me faz colocar “Diário da Corte”, coletânea de colunas jornalísticas do saudoso Francis, da Três Estrelas, como um dos grandes lançamentos do ano. Francis constantemente nos deixa boquiabertos com sua cultura (ele também chuta bastante, o que é prerrogativa de quem muito leu). Situados na fronteira entre reportagem investigativa e análise histórica, há “O Xá dos Xás”, de Ryszard Kapuscinski (Companhia das Letras), que conta a queda do Xá do Irã em 1979, e “O Fim dos Ceausescu”, de Grigore Cartianu (É Realizações), uma leitura eletrizante. Dizem que Kapuscinski costumava enfeitar suas reportagens com algumas pitadas de ficção, mas não me importo: sou adepto da Máxima de Shinbone Star: quando a lenda se torna realidade, publica-se a lenda.

O ano que termina foi mesmo excepcional na quantidade de lançamentos de qualidade superior, e nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Por exemplo, para os filósofos houve o monumento de Martin Heidegger, “Ser e Tempo”, publicado pela Editora Unicamp em parceria com a Vozes, numa versão bilíngue em alemão e português. Não o comprei, pois já li a edição em javanês. Mesclando ensaios com matérias jornalísticas, tivemos “Como Ficar Sozinho”, de Jonathan Franzen, e “Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo”, do excessivamente idiossincrático David Foster Wallace, ambos da Companhia das Letras. Lendo os livros de Franzen e Wallace, adorados pela crítica, posso dizer que, apesar de razoáveis, decaímos muito desde as gerações anteriores de Norman Mailer e Gay Talese, hoje mais citados que propriamente lidos. Mas sic transit gloria mundi é a regra imutável do jogo, e a fama literária não escapa a ela. Mais ensaios: “Espectro: da Direita à Esquerda no Mundo das Ideias”, de Perry Anderson (Boitempo), e “Tempos de Reflexão: de 1954 a 1989”, de Nadine Gordimer (Globo). No livro de Anderson encontramos ensaios reveladores sobre diversas personalidades, como Gabriel García Márquez e Eric Hobsbawm; já Gordimer passeia por assuntos variados, desde a literatura até a crítica social, dando as suas impressões precisas com mão segura de vencedora do Nobel de Literatura. Para mim obrigatórios, dois livros, por assim dizer, de “filosofia do amor”: “Amor: uma História”, de Simon Ray (Zahar), e “Em Defesa do Amor”, de Cristina Nehring (BestSeller), este último, na verdade, mais uma análise literária que filosófica, centrada nos amores e na correspondência de artistas, principalmente escritores e literatos. Se Eros é uma criança travessa e o amor, como na ópera, “est un enfant de Boheme/Il n’a jamais, jamais connu de loi”, um pouco de literatura sobre o tema talvez ajude os desafortunados, e as conclusões desses dois livros com certeza o farão, pois, para dizer pouco, são no mínimo surpreendentes.

Tenho algumas estantes de livros sobre livros, é uma das minhas manias (não se apressem a explicar isso, freudianos leitores: também tenho estantes com guias de viagem para lugares aos quais jamais irei e outras com livros de amadores — à falta de palavra melhor —, tipo coletâneas de poesia de funcionários públicos, contos de velhos advogados do interior, coisas assim. Quanto mais amadora a edição e quantos mais erros de português houver, mais saborosa é a leitura). Pois bem: em 2012, Mario Vargas Llosa provou mais uma vez, com “A Tentação do Impossível: Victor Hugo e Os Miseráveis”, da Alfaguara, que, além de grande escritor, é crítico literário notável; agora lerei também “Estudos Sobre a Literatura Clássica Americana” (Zahar) para ver se D.H. Lawrence também o é. A Companhia das Letras publicou o segundo volume de “As Entrevistas da Paris Review” — as entrevistas feitas pela legendária revista ocupam lugar especial no panteão dos leitores conscienciosos. “Os Possessos: Aventuras com os Livros Russos e seus Leitores”, de Elif Batuman (Leya), mostra que é possível escrever sobre literatura com grande senso de humor. O Instituto Moreira Salles nos deu o que talvez seja o grande estudo crítico da obra de Clarice Lispector, “Clarice Lispector: Figuras da Escrita”, do português Carlos Mendes de Sousa. Qualquer livro de George Steiner é um acontecimento, e “Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker”, publicado pela Globo, ganhou destaque em minhas estantes por trazer textos sobre escritores de minha predileção, como Céline, Beckett, Canetti e Thomas Bernhard. De outro grande crítico da atualidade, Roberto Calasso, saiu “A Folie Baudelaire” (Companhia das Letras) — para o crítico italiano, “há uma onda Baudelaire que atravessa tudo. Origina-se antes dele e se propaga além de qualquer obstáculo” (eu prefiro dizer que há uma onda Montaigne, mas entendo a ideia de Calasso). E, se sobrar tempo, não se esqueçam de “Cardenio Entre Cervantes e Shakespeare: História de uma Peça Perdida”, de Roger Chartier (Civilização Brasileira).

Por falar em Freud, a Companhia das Letras segue publicando a obra completa do austríaco, agora traduzida, pela primeira vez no Brasil, diretamente do alemão. Lançou neste ano “Totem e Tabu, Contribuição à História do Movimento Psicanalítico e Outros Textos”. A tradução mostra que Freud, além de ser o pai da psicanálise, era também um magnífico escritor (o polêmico Harold Bloom colocou-o na sua lista de cem escritores geniais). “Por Amor a Freud: Memórias de Minha Análise com Sigmund Freud”, da escritora Hilda Doolittle (batizada por Ezra Pound com o pseudônimo H.D.), saiu pela Zahar — H.D. foi uma das americanas que andaram flanando pela Paris dos anos 20. Não sei se concordarão comigo os recalcados leitores, pois eu aprecio sobremaneira o tema: que me perdoem os muito sãos, mas psicanálise é fundamental — se não no divã, ao menos lendo livros sobre o assunto (apesar de que, Faulkner já o notara, Melville a Moby Dick não leram Freud).

Há livros de difícil classificação. A Editora Senac publicou “Os Hotéis Literários: Viagem ao Redor da Terra”, de Nathalie H. de Saint Phalle (que nome é esse, minha filha?). A autora conta histórias de livros e escritores que se passam em hotéis do mundo todo. É um guia de hotéis ou uma espécie de crônica literária? Leio-o com raiva porque a jornalista, que imagino francesa, furtou-me uma de minhas melhores ideias para livros que nunca escreverei, mas também com nostalgia que me faz lembrar os hotéis que já conheci, como aquele, numa das vilas de Cinque Terre, onde não encontrei a Ava Gardner que sofregamente buscava, e ainda com apreensão por causa do pouco tempo que me resta para conhecer outros, talvez aquele hotelzinho perdido nas areias quentes do Egito e no qual poderia topar com Anne Baxter enganando o general Rommel — hotel, como sabem os meus saarianos leitores, no qual se passa o filme “Cinco Covas no Egito”, o que me permite fazer uma confissão: sempre ouvia, desde novo, meu pai elogiar esse filme, o que me levou a passar anos a procurá-lo; assim, quando o consegui, senti-me como se tivesse cumprido uma etapa importante do meu crescimento. Obrigado, pai. (Ora, vejam isso, eu havia criticado os cinéfilos e agora mencionei filmes. Não tem importância: é preciso sentir tudo de todas as maneiras e ser sincero contradizendo-se a cada minuto.)  

E os piores livros? Se Lya Luft, Paulo Coelho ou Ariano Suassuna publicaram livros em 2012, procurem-nos. Imagino que sim, já que são dados à bibliorreia. Na verdade, alguns deles, como os de Lya Luft, a mais pachecal (o ne plus ultra da platitude tomada por verdade profunda), podem ser lidos com fins desopilantes, apesar da dificuldade com os seus patoás. Com certeza sabem os meus bíblicos leitores que as pragas do Egito foram dez: águas corrompidas, rãs, piolhos, moscas, gafanhotos, trevas, instalações de artistas contemporâneos, antropólogos de esquerda, sociólogos acadêmicos e escritores que escrevem e nada dizem.

É isso. Longa é a arte e curta é a vida, e talvez por isso o patrício pergunte: e o tempo para ler tudo? Pois é, atarefado leitor, tempus fugit. Matamos o tempo e o tempo nos mata. E também cotidie morimur e nihil morte certius, latinistas leitores. Bem, não sei, a leitura toma tempo e, como se sabe, thinking is a dizzy business. Cada um é cada um, deve ter sido sabiamente dito por algum técnico de futebol, mas para economia de tempo há atividades que podem ser cortadas da vida sem grandes prejuízos. Lembro algumas, mas com certeza existem outras: 1) berrar do alto de prédios depois do futebol (“Chooooora, Parmêra!”); 2) registrar no facebook a cronologia exata dos atos de higiene pessoal e o andamento da vida amorosa; 3) participar de micaretas — em matéria de fuzuê liberado, um carnaval oficial por ano basta (até porque seria muito difícil suportar duas mortes anuais da camélia); 4) fazer exercícios: como li em algum lugar, é melhor ficar com a parte de “mens sana” naquela história de “mens sana in corpore qualquer coisa” — leão não faz exercício, dizia San Tiago Dantas (estou sempre entregando a idade com esse tipo de comentário, mas não adianta fugir disso, como pessoalmente me recomendou o Autregésilo). Sim, esforcemo-nos — yes, we can. (Mas decidam-se rapidamente, prufrockianos leitores: em um minuto apenas há tempo para decisões e revisões que um minuto revoga.)

Encontrado o tempo, persistam: é que os bárbaros chegam hoje. Prego a concórdia e sou pela paz entre os homens e mulheres de boa vontade, mas com essa turma de cinéfilos e leitores de quadrinhos só Guantánamo resolve, pois já vejo as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura, famintas, histéricas e nuas. Quando os vândalos se aproximarem com algum filme iraniano cult, revidaremos declamando a longuíssima “Canção de Mim Mesmo” de Walt Whitman. Se os visigodos inimigos da palavra escrita insistirem em citar a estultícia das pretensas tiradas filosóficas de personagens de histórias em quadrinhos, leremos em voz alta o não menos longo monólogo final de “Ulysses”. Bradaremos contra os hunos e seus obscuros festivais de cinema: ¡no pasarán! Sim, unamo-nos: o que nos resta é proteger estes espaços para os quais podemos fugir do cotidiano caótico e massacrante, os nossos Yoknapatawphas, santuários onde pode prevalecer sem contestação qualquer devaneio literário, e as nossas Pasárgadas, onde somos amigos do rei e podemos decretar sem contestação a superioridade da literatura. Aux armes, citoyens! Andrada! Colombo! Mehr Licht!

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