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POR EM 08/05/2009 ÀS 01:20 PM

A honestidade como ficção

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A corrupção está, e essa é a verdade, por toda parte. Particularmente em agosto de 1954, está nas forças armadas mas também na imprensa, na imprensa mas também na indústria, na indústria mas também no governo, neste mas também na oposição. Não é um problema do parlamento e do governo, mas de toda a sociedade

Rubem Fonseca

Na madrugada de 24 de agosto de 1954, o então presidente da República, Getúlio Vargas, sacramentou com o próprio sangue a fama de raposa política. Houve uma crise institucional no país, e quando ninguém mais imaginava uma saída e se acreditou que a oposição enfim chegaria ao poder, Vargas conseguiu, uma vez ainda, e de forma trágica, surpreender seus golpistas. Para compensar o cadáver do major da aeronáutica Rubens Florentino Vaz e desequilibrar o jogo em favor já não de seu governo, mas de um estrategista excepcional, o presidente tomou a corajosa decisão de fazer de si próprio outro mártir. Matou-se com um tiro no peito. Tal como deve ter previsto a raposa, sobreveio a comoção de seus “filhos” e o ódio das ruas contra seus inimigos do presidente, o mais popular da história do Brasil até aquele ano. Vargas virou a mesa. Mais do que isso, virou fantasma. A União Democrática Nacional dançou pela segunda vez: perdeu a oportunidade de dar o golpe, fracassaria uma segunda vez nas eleições de 1954 e finalmente naufragaria no barco furado de Jânio Quadros, em 1961.

A União Democrática Nacional foi um excrescência da burguesia urbana brasileira, em meados do século XX. Tinha um grave problema de índole: o golpismo. Era um partido conservador, mas definido ideologicamente como liberal e profundamente antipopular. Nunca na história do Brasil os moralistas foram tão imorais, os honestos tão corruptos e os homens de bem tão malignos como no caso desse partido. Em retrospecto: a UDN surgiu em 1943 para se opor ao Estado Novo; depois de 1965 seus quadros transferiram-se para a Arena, um dos dois partidos artificiais criados pelos milicos (o outro foi o MDB). Em 1979, com a reforma partidária de Golbery do Couto e Silva e Petrônio Portella, a Arena recebeu o nome de PDS, de cujo ventre sairia, em 1985, o PFL, conhecido pelos eleitores contemporâneos como DEM. Um sensacional mutismo de epiderme. Vê-se pelo exemplo que nomes de partido não querem dizer quase nada, no Brasil: os democratas costumam ser autoritários, os nacionalistas tantas vezes entreguistas e os pretensos revolucionários não passam de golpistas.

Tenhamos apreço pela verdade, todavia: a UDN não foi uma voz isolada do golpismo, no Brasil. O golpismo é uma tradição mais antiga da república brasileira, sendo inaugurada precisamente a 3 de novembro de 1891 pelo gabinete Lucena, na última etapa do malfadado governo de Deodoro da Fonseca, o mesmo que instituiu o novo regime. O golpismo é também, infelizmente, uma tradição e uma mácula das forças armadas do nosso país, em particular do exército, cuja tutela sobre os civis encerrou-se há apenas 24 anos. É uma longa e tumultuada história, protagonizada entre outros pelo próprio Getúlio Vargas. O ex-presidente acendeu ao poder depois de um golpe, a chamada Revolução de 1930, sendo derrubado em 1945 também por um golpe, orquestrado pelo general Góis Monteiro, seu ex-ministro da Guerra. Rasgar constituições sempre foi uma tradição tupininquim. O desrespeito à lei, de modo geral, é próprio da cultura nacional: saia à rua durante uma hora e possivelmente testemunhará alguma infração e, se brincar, algum crime flagrante. É um mal da nossa sociedade, da qual a política é apenas o reflexo. Costumo dizer: os políticos são o bode-expiatório do mau-caratismo – mal ubíquo.

Creio que “Agosto”, romance de Rubem Fonseca, confirma essa tese. Não digo que ela corresponda à reflexão principal do livro, mas com certeza é a que lhe torna um romance bem brasileiro, tipicamente nacional. O desrespeito à lei foi talvez o pretexto para a criação de um belo personagem, Alberto Mattos, o protagonista do romance. De sua parte fictícia, pelo menos. “Agosto” é um romance histórico (e também policial) escrito por um autor contemporâneo, e narra duas histórias em paralelo à maneira tradicional, com começo, meio e fim. São as histórias de dois assassinatos: um fictício, em torno da morte do empresário Paulo Machado Gomes Aguiar, o outro real, sobre o atentado que vitimou o major Vaz. E suponho que haja dois vasos comunicantes principais entre uma narrativa e outra: o primeiro Gregório Fortunato, personagem real, e o segundo Vítor Freitas, fictício. Gregório é um dos três suspeitos pelo assassinato de Aguiar e, na verdade, apenas o desastrado capanga de Getúlio. Freitas, senador, o elemento que faz a ponte entre o governo e esquemas de corrupção empresariais. De um lado a ficção, de outro a história, no meio a amálgama.

A parte histórica de “Agosto” é quase uma reportagem jornalística, no estilo de exposição. É uma narrativa impessoal, objetiva, salvo quando cruza com a ficção, a mais das vezes em presença do casal Pedro Lomagno e Luciana Aguiar e do dito senador pernambucano. Homem do PSD, partido do presidente, Vítor Freitas lembra nossos parlamentares atuais, pois está se linchando para a fidelidade ideológico-partidária: é um oportunista, o político-padrão do Brasil, até hoje, que utiliza da delegação popular para se enriquecer no cargo. Não vale uma pitada de fumo.

Já Fortunato é figura indignada, disposta a matar em nome do chefe abandonado pela canalha, que se locupleta às custas do seu governo. Foi talvez o negro mais poderoso em toda a República e provavelmente da história do Brasil, até recentemente. Apesar de analfabeto, foi o elo de ligação entre o Catete e uma série de interesses escusos de grande monta, exercendo o tráfico de influência, além de suas funções ordinárias. Na versão de Rubem Fonseca, o Anjo Negro fala de igual para igual com empresários que negociam altas bagatelas em troca de favores oficiais, entre eles o todo-poderoso Euvaldo Lodi, capitão das indústrias de São Paulo e suspeito de encomendar o assassinato de Carlos Lacerda. O que impressiona é outra coisa: é o fato do homem não ter sido nenhum ministro de Estado, presidente de estatal ou algo que o valha, para justificar seu enorme poder e prestígio. Era apenas um reles capitão da polícia, chefe daquilo que os romanos chamariam de Guarda Pretoriana. Nada mais (ou nada menos?).

Gregório fez com Getúlio uma dupla invulgar, unida por uma cumplicidade levada às últimas consequências. É um caso a ser investigado: enquanto personagem é digno de uma biografia, padrão Fernando Morais. É pena que ele, diretamente, apareça pouco em “Agosto”, assim como o seu chefe, que se manifesta nove vezes apenas, e nem sempre com a palavra. O presidente é quase uma sombra, da qual temos não obstante consciência da triste agonia. “Agosto” é uma via-crucis sem alarde:
 
“Dentro, no modesto quarto, vestido com um pijama de listas, sentado na cama com os ombros curvados, os pés a alguns centímetros do assoalho, estava o homem que ele [Gregório Fortunato] protegia, um velho insone, pensativo, alquebrado, de nome Getúlio Vargas.”

Detalhe sórdido, este: “os pés a alguns centímetros do assoalho”. É evidente, no romance, a simpatia de Fonseca por Getúlio; simpatia esta corroborada pelo comissário Mattos, que odeia todos os canalhas e não poderia gostar da UDN. Mas o presidente, sobretudo nessa cena, vê-se transformado numa figura ligeiramente medíocre, num pirilampo de comicidade em meio a uma tragédia. A situação do governo Vargas era de fato periclitante: pela primeira vez, em 24 anos, o chão fugia dos pés do nanico líder da Revolução de 30. O fim chega para todos, e era o seu que beirava.

Há um ditado que diz que todo dragão dá origem a um São Jorge, que o mata. Não direi, para não incorrer numa inversão infamante, que o jornalista Carlos Lacerda é São Jorge, muito menos que Getúlio seja o dragão, mas o fato é que este justificou a vida daquele e acabou mesmo morto. Lacerda era o encarniçado e retórico porta-voz da UDN: “Agosto” é um “mar de lama”, conforme a máxima consagrada de nosso Lucio Sergio Catilina. Mas o que está em questão não é apenas um governo, embora assim pareça. O que está em questão é que o mar de lama consome a sociedade inteira. Rubem Fonseca não tem a ilusão da maioria de que todos os males do Brasil estejam na capital da República. A corrupção está, e essa é a verdade, por toda parte. Particularmente em agosto de 1954, está nas forças armadas mas também na imprensa, na imprensa mas também na indústria, na indústria mas também no governo, neste mas também na oposição. Um dos fundamentos desse estado de coisas – certamente não o único – é o desprezo dos homens pelas regras, do cidadão pela polis e pela res publica. Não é um problema do parlamento e do governo mas de toda a sociedade. Não só em 54 como em toda a história passada e quiçá futura.

“Agosto” faz lembrar o Brasil atual, aquele que culpa o Senado mas esquece que o Senado vai além do 81 senadores da República: o Senado é também – inacreditável! – os 7.000 servidores da casa, segundo números da revista Veja do dia primeiro de abril. Parte considerável desses servidores ocupa cargos políticos, é conivente, farta de mordomias e pronta a dizer, na primeira oportunidade: “os políticos não prestam!”, como se essa maioria de falsos moralistas prestasse. Não presta. Sarney é um reflexo de Agaciel, não o contrário, pelo amor de Deus! É cômodo e ilusório pensar que o Brasil vai mudar a partir de Brasília: mas, é óbvio que a raiz não está na copa.
 


O que há de ficção em “Agosto” mescla dois estilos diferentes: uma narrativa direta, marchetada por gírias e coloquialismos, alternada com diálogos dramáticos quase sem a intervenção onisciente do autor. Se cabe falar na “pós-modernidade” do livro, o fundamento certamente será encontrado não na estrutura romanesca, mas na linguagem, na adoção desse estilo híbrido, aprofundado e generalizado nas obras da geração atual de escritores, da qual aliás, no Brasil, Rubem Fonseca é reconhecidamente um dos mestres.

Pois bem. Do “mar de lama” que é a vida nacional, só escapa um cidadão – acredito que o termo “cidadão” enaltece nosso herói -, e seu nome é Mattos, comissário de polícia e fiel cumpridor da lei, tão fiel nesse propósito que logo se prova quixotescamente desajustado. Eis, acaso, como o enxerga Rosalvo, seu assistente policial:

“Na verdade, Rosalvo tinha medo do comissário. Estava certo de que Mattos não regulava bem, as caretas que fazia, a greve maluca que tentara promover, aquela coisa de sair desarmado nas diligências, e principalmente a mania de não levar grana do bicho – porra, o cara andava de lotação, nem automóvel tinha e desprezava o levado dos banqueiros! Era preciso tomar cuidado com o homem.”

Reparem: Mattos é obra de ficção. Ao contrário, o mundo está cheio de figurinhas como Rosalvo, como o capitão Ranildo e o Major Fraga, tipos vulgares que pululam o universo ficcional de Rubem Fonseca e a realidade. Para as pessoas desse naipe, é “preciso tomar cuidado com” a honestidade. Aliás, leia “Agosto” e chegue a uma conclusão terrível: esse mundo não foi feito para as pessoas honestas. Todo honesto é um pária, uma aberração que perturba a ordem natural das coisas. Paradoxalmente, as instituições humanas são sucetíveis ao contágio da corrupção e infensas às regras. A lei – essa camisa-de-força para conter a fera que Hobbes viu no homem - parece não ter serventia ou sentido: é uma extravagância. A lei é um artifício platônico: desceu das esferas ideais para tentar conter nosso impulso desagregador.

Numa dada circunstância, o comissário Mattos, após cumprir a lei num caso ordinário, leva o romancista ao seguinte questionamento: “Ele cumpriu a lei. Tornara o mundo melhor?” Provavelmente não, mas essa negativa não visa afrouxar a correção das pessoas de bem: o mundo não melhora, em boa medida, porque a lei que temos, a despeito de sua reconhecida imperfeição, não é cumprida democraticamente por todos. Mattos é um dos poucos que tenta ser fiel às suas prescrições, e seguindo-lhe os passos aprendemos que devemos fazer a nossa parte, independentemente dos outros. No romance de Fonseca, nem mesmo a instituição policial serve à lei, coadunando com a contravenção, o lenocínio e a corrupção. Em “Agosto” como na realidade, a banda podre da polícia existe e pratica a extorsão, a violência arbitrária, o abuso de poder e o assassinato: perturbador é que, no romance pelo menos, essa banda é a instituição quase inteira. Será assim na realidade?

A questão é que o aparelho de repressão do Estado é regido pelos mesmos instintos cegos que orientam o comportamento social geral. É por tal motivo que o mar de lama está não apenas nos sistemas de dominação mais explícitos ou grandiosos: a lama vasa para as relações privadas e familiares, até chegar ao indivíduo, uma porção deles, transformada em ratos e gatunos. O indivíduo, afinal de contas, é o problema essencial, não só em agosto de 54 quanto em qualquer tempo.

Trata-se de ontologia, em último caso. A visão que Rubem Fonseca tem do bicho homem é terrível e nada edificante – em que está longe de ser original, entre os escritores. A diferença sensível está no tratamento: esse bicho, quando você tenta ressumá-lo, abstraí-lo, revela-se literalmente uma excrescência pestilenta. Apesar de toda arrogância pueril, somos feitos de fezes, urina, suor, saliva, esperma, sangue e sei lá que outros fluídos nauseabundos. O que mais importa nessa constituição é o ser sensível, a matéria, o que não deixa de ser uma fatalidade. Esse, pelo menos, é o retrato que o naturalista tardio Rubem Fonseca pinta do homem. E não é só em “Agosto”: leia os onze contos perturbadores de “Os prisioneiros” – primeira coletânea do autor - e chegará à mesma conclusão.

Talvez a figura mais humana e até mais comovente dessa história é uma personagem menor: a prostituta Salete. Salete não é exatamente namorada de Mattos, por boas razões um solitário até o fim, mas em torno de cuja hospitalidade e bom coração giram as pessoas que prestam: sua ex Alice, o velho Emílio e a própria Salete, que é alguém com quem ele trepa e se solidariza. O drama da moça é igual ao de muita gente, não apenas os pobres e discriminados pela cor quanto os infelizes que padecem uma vaidade excruciante. Sua ignorância a absolve – e a nós – da consciência terrível que martiriza o pobre comissário. Só ela nos faz rir nessa história absurda. Só ela quer saber de dar e de receber amor: Salete é Eros perambulando por esse reino de Tanatos, sumamente representado pelo casal Pedro Lomagno e Luciana Gomes Aguiar. A high society é um luxo só, em compensação... Quanta vaidade, luxúria, assassinato, corrupção de menores, ultraje ao pudor, traição. O dinheiro pode dar alguma dignidade, mas não melhora o homem. Apesar do brilho, estamos aqui diante de criaturas taciturnas, egoístas, desvairadas e repugnantes.

Rubem Fonseca, se não acredita no homem em geral, acredita que algumas pessoas em particular podem ser boas e movidas por sentimentos dignos. Surpreendentemente, o bicho homem não é apenas carne e fluidos biológicos: também pode ter valores, princípios morais, espírito quem sabe. Pode apesar de tudo conhecer a ética, a generosidade, a sensibilidade e a compaixão. O arquétipo Mattos chega a ser idealista, no afã de libertar os presos e repensar o sistema prisional. Mas Fonseca, já um naturalista espiritualizado, não demonstra otimismo por isso: seu herói se fode e é fodido, e termina fuzilado junto com Salete pelo tipo comum – aliás, o tipo comum da pior espécie, aquele em nome do qual, apesar de tudo, Mattos lutaria por justiça. Não o fez em nome de outro criminoso, Turco Velho? Faria em nome de Chicão, vulgo de Francisco Albergaria (o “F” do anel encontrado na cena do crime fictício, no edifício Deauville). Por ironia, quem acaba com o Mattos e Salete é o mesmo Chicão, assassino procurado pelo comissário desde as primeiras páginas. E assim assistimos à desforra da mediocridade contra a nobreza, do crime contra a lei, dos maus contra os bons.

O funcionamento normal do mundo é vil. “Agosto” se parece demais com o nosso mundo.
 

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