revista bula
POR EM 14/09/2012 ÀS 07:58 PM

A epopeia de nossas depravações numa ilha deserta

publicado em

Philip Roth

A Publifolha lançou em 2003 um pequeno livro, “Ilha Deserta: Livros”, no qual sete escritores — Bernardo Ajzenberg, Carlos Heitor Cony, Contardo Calligaris, Manuel da Costa Pinto, Maria Rita Kehl, Moacyr Scliar, Nina Horta e Nuno Ramos — escolhem e comentam os dez livros que levariam para uma ilha deserta. E houve também um livro sobre discos (“Ilha Deserta: Discos”) e outro sobre filmes (“Ilha Deserta: Filmes”, é claro). O livrinho, de leitura rápida e saborosa, me fez imaginar quais livros eu levaria a uma ilha — e também me torturou: como levar apenas dez?

Pensar em livros que sejam indispensáveis numa ilha deserta é pensar em listas, e há sempre quem reclame da ideia de fazer listas de “melhores”. São uns chatos: a leitura de qualquer lista é uma das grandes diversões de um adulto, figurando entre assistir a desenhos animados e jogar “War” numa lista — mais uma — de melhores atividades. E ninguém, quando convidado a fazer a sua listinha, se furta à tarefa. Dou um exemplo: o livro “The Top Ten: Writers Pick Their Favorite Books” é uma grande coletânea de listas de melhores livros feitas por dezenas de escritores. Estão no livro alguns craques: Paul Auster, John Banville, Julian Barnes, Michael Connelly, Paula Fox, Jonathan Franzen, Norman Mailer, Joyce Carol Oates, Francine Prose, James Salter, Tom Wolfe. (Uma curiosidade: A.L. Kennedy colocou “Sargento Getúlio” em nono lugar e Michael Griffith listou “Dom Casmurro” em sétimo.)

Há mais, muito mais. Heloísa Seixas, em “O Prazer de Ler”, faz também a sua lista de livros que levaria para o nosso lugar-comum, a ilha deserta. No ótimo “O Frenesi Polissilábico”, Nick Hornby faz análises mensais de livros comprados e livros lidos; já em “10 Livros que Abalaram meu Mundo”, vários autores listam os livros seminais de suas vidas. Olhando de relance para minhas mesas e estantes, vejo ainda “1001 Books You Must Read Before You Die”, “501 Grandes Escritores”, “501 Must-Read Books”. Nada de novo sob o sol, portanto.

Pois então faço também a minha lista pensando na famosa pergunta sobre a ilha deserta. Evidentemente, gostaria de levar para uma ilha Scarlett Johansson ou Kate Knightley. Mas a revista é séria e não permite que eu discorra sobre minhas razões para essas escolhas. Deixo-as de lado — sob protesto! — e fico com os livros.

Algumas explicações, porém, antes de irmos ao primeiro livro da lista:

1 — Milton Ribeiro está publicando a sua antologia pessoal dos 50 maiores livros em seu ótimo blog. Fiquei com inveja e plagiei a ideia.

2 — Não sou arrogante e presunçoso por fazer listas; sou arrogante e presunçoso por outros motivos.

3 — Faço listas porque não tenho olhos verdes e não sou alegre nem sou triste. E também não sou poeta.

4 — É claro que tenho minhas próprias opiniões em altíssima conta, do contrário não faria listas. Aliás, Flávio Paranhos já explicou que eu e ele estamos sempre certos em artigo publicado na Bula, “Por que eu e Marcelo Franco estamos certos e os comentadores da Bula e do Facebook que discordam de nós não só estão errados, mas são também intelectual e moralmente inferiores”.

5 — Como a lista é minha e um livro é pouco, escolhi levar cem livros para a tal da ilha. Ou, caso os opiniáticos leitores fiquem contrariados, levarei um livro diferente para cem ilhas.

6 — Leiam os textos se quiserem e comentem se assim desejarem, mas, pela memória de São Vitinho Protetor dos Leitores de Livros, não façam comentários do tipo “quem o autor julga que é para dar sua opinião sobre tal livro?”, que gerariam as automáticas respostas semelhantes: quem o comentador julga que é para opinar sobre o meu texto? De qualquer modo, sou alfa e ômega, o princípio e o fim, o Grande Irmão. E, quando de a romper não mais me esquivava, a máquina do mundo se entreabriu para mim — por isso, estou realmente correto em minhas opiniões.

7 — Bem, não vou ler de qualquer maneira os comentários. São escritos com letras muito pequenas e, chegando aos 40 anos, estou com presbiopia em grau avançadíssimo. Mas, fossem as letras maiores, tampouco os leria: não sai nada daí.

8 — Não escrevo como crítico ou acadêmico e sim como leitor comum, mas não se poupem os leitores: podem me elogiar e dizer que sou melhor do que críticos estabelecidos.

9 — Na verdade, escrevo estes textos para mim mesmo e só vou publicá-los porque o Carlos Willian Leite não para (agora é sem acento, certo?) de me torrar a paciência para escrever de novo aqui na Bula.

10 — Já mostrei que a prática de fazer listas é bastante difundida. Portanto, não reclamem disso — é como aquela história do cara que critica alguém por esquecer a torneira vazando água e se esquece de reclamar de quem deixou a pororoca aberta.

11 — A ordem dos livros não corresponde à sua importância para mim, mas apenas reflete a rapidez com que os achei nas minhas atulhadas estantes.

12 — Ando com pouco tempo e por isso os textos serão publicados ao longo dos próximos quarenta e cinco anos. Ou a série pode ser interrompida, mas sem direito a indenização.

Para o alto e avante. Começo com Philip Roth, meu candidato a Nobel preferido. Seu “O Teatro de Sabbath” causou furor à época da publicação. E eu não conseguia ler o diabo do “Sabbath”, estava esgotado, não havia nenhum exemplar em sebos, o Euler Belém não o encontrava na sala que aluga para abrigar os seus 14.327 livros. Mas, aleluia, a Companhia das Letras relançou o danado em 2010 (ou em 2011, sei lá. Ou antes: talvez em 2009).

O livro conta a história do sexagenário Mickey Sabbath. Quando sua amante o proíbe de ter sexo com outras mulheres e depois ainda comete a deselegância de morrer, o homem entra em uma crise existencial que o acompanha até o final do livro (e dos seus dias, com certeza), agravando-se a partir daí a espiral amalucada e desenfreada de insanidades que tem sido sua vida. Para que os pudicos leitores sintam o tom do livro e abandonem desde já a leitura deste texto, a primeira frase é aquela dita por Drenka Balich, a amante, para proibi-lo de fornicação longe dela: “Ou você abre mão de trepar com as outras ou o nosso caso está  encerrado”.

Nosso homem na América era titereiro, ou seja, trabalhava com aqueles bonequinhos controlados por cordas presas aos dedos. Depois do estopim da crise, o livro segue suas aventuras mescladas com lembranças de sua vida. Claro, há muito sexo, mas só quem lê mal se importa com isso (eu jogo no time dos que gostam. Apetece-me e sabe-me bem, cândidos leitores). A propósito: é curioso que mesmo depois de “Lolita” e de “Sexus”, “Nexus” e “Plexus” ainda houvesse (o livro é de 1995) possibilidade de escândalo por causa de narrativas sexuais (Sabbath tampouco entende o ultraje que causa e a demissão de “uma escola superior de humanidades por ter ensinado uma mulher de vinte e um anos a falar obscenidades, vinte e cinco anos depois de Pauline Réage, cinquenta e cinco anos depois de Henry Miller, sessenta anos depois de D.H. Lawrence, oitenta anos depois de James Joyce, duzentos anos depois de John Cleland, trezentos anos depois de John Wilmot, o segundo conde de Rochester — para não falar de quatrocentos anos depois Rabelais, dois mil anos depois de Ovídio e dois mil e duzentos anos depois de Aristófanes”).

A vida de Sabbath é um longo acúmulo de fracassos. Ele teve uma primeira esposa que desapareceu (muitos suspeitam que ele a teria assassinado), e a segunda é alcoólatra (enche a cara por dois motivos, segundo Roth: “por tudo aquilo que não havia acontecido e por tudo aquilo que havia acontecido”. É justo, digo eu). A amante morre de câncer pouco tempo depois do diagnóstico da doença. E ele ficou artrítico, o que, para um titereiro, é uma condenação. Caiu também em desgraça ao ser gravado fazendo sexo por telefone, como dizemos atualmente, com uma jovem, digamos, bastante jovem — mas não chegou a ficar com ela “nudus cum nuda iacebat” ou “in eodem lecto”, como ensinavam meus velhos professores de Direito Penal quando explicavam o crime de adultério (a propósito de nada: sinto-me um dinossauro quando escrevo essas coisas). Roth, que não foge à luta, coloca toda a conversa entre Sabbath e a jovem em notas de rodapé ao longo de 23 páginas. Depois, socorrido por um amigo que o hospeda, ele afronta seu anfitrião de todas as maneiras possíveis e é expulso de sua casa. Por fim, no inverno de sua desesperança, Sabbath pensa constantemente em suicídio. Eis o resumo do livro de 507 páginas — a moldura, por assim dizer, do que nos é apresentado nas profundezas da escrita de Roth.

Leio-o, entre outras coisas, como uma reflexão sobre a vida e a morte, e por isso o texto é profundamente humano, demasiado humano. Sabbath, aliás, é um estudioso da morte, leitor inveterado de livros sobre o tema, e a epígrafe do livro, que vem de “A Tempestade”, de Shakespeare, recorda-nos nosso fim comum (“Próspero: a cada três pensamentos, um será dedicado ao meu túmulo”). Percebemos que a vida é uma sequência de ruínas para Sabbath e para todos nós, uma caminho certo para o pó que voltaremos a ser. Sabbath é um fracassado no amor, um fracassado profissionalmente (depois de algum sucesso) e ainda um fracassado moral. Mas, ao fim e ao cabo, todos somos fracassados. E, como grande parte da literatura de primeiro time, o livro pode ser lido também como um berro estridente de “ubi sunt?” (a saudade do irmão e da mãe perpassa algumas páginas pungentes). Só que Sabbath se diverte mais do que nós na busca do que acredita ser a vida real: libertário, farsante, sátiro, anti-herói, “admirador da incoerência humana”, demolidor de tabus, Dom Quixote que luta contra os moinhos da hipocrisia da repressão de comportamentos, manipulador (é um mestre da palavra), clínico-geral das safadezas próprias e dos semelhantes, profeta da anarquia, “evangelista da fornicação” sem qualquer ideologia política (“nada fez a favor de Israel” é o fecho do obituário que imagina para si mesmo), ele não se detém diante de nenhuma convenção. Alexander Portnoy, protagonista de outro grande romance de Roth, “O Complexo de Portnoy”, é fichinha para o desbragamento desse pregador das virtudes da fornicação que, mesmo sendo titereiro, não consegue controlar, contudo, as marionetes internas dos sentimentos e emoções (ou Sabbath seria Portnoy envelhecido?). Porém, se tudo caminha para a ruína, a pulsão vital (é assim mesmo, ó discípulos do austríaco maluco e onipresente?) ganha: o último parágrafo do livro é um credo de amor à vida (sim, amor) que constantemente repito para mim mesmo — “Não podia morrer porra nenhuma. Como é que ia deixar tudo isso para trás? Como é que podia ir embora? Tudo o que ele odiava estava aqui”. Imagino o Marquês de Sade olhando por cima dos ombros de Roth, inflado de orgulho, enquanto ele leva a sua filosofia da alcova ao extremo, e Rabelais aplaudindo os dois.

Mencionei que há muito sexo no livro, mas não se trata de literatura erótica, não é uma sequência de orgasmos. O sexo me parece mais um contraponto à morte. Que Eros e Thanatos gostam da companhia um do outro é fato conhecido desde a Antiguidade — e isso ainda não se tornou um clichê. Nunca se esqueça o desatento leitor do Teorema de Marcelo: se alguém escrever sobre sexo, invariavelmente aparecerá algum crítico de meia–tigela, como eu mesmo, para dizer que o autor está na verdade colocando no papel inspirações transcendentes sobre a indesejada das gentes. E não só é um contraponto à morte, mas, além disso, ou exatamente por isso, o sexo em “O Teatro de Sabbath” é um sexo melancólico, e alguns dos que resenharam o livro perceberam essa melancolia, que nem sempre é evidente à primeira vista. Para confirmar meu Teorema, há passagens que misturam claramente sexo e morte, pois Sabbath é dado a visitar o túmulo de Drenka, onde pratica atos não muito católicos (ou bastante católicos, a depender da perspectiva...). Note também o ordeiro e cívico leitor que, se é verdade que um nome em um romance jamais é apenas isso, os nomes dos antagonistas de Sabbath são extremamente informativos sobre quem são seus verdadeiros inimigos: por exemplo, Matthew (Mateus), filho da amante Drenka, e Christa, a jovem que seduz sua esposa (o catolicismo como barreira ao sexo livre, dizem talvez esses nomes). Em suma: há muito sexo, mas, se está amplamente estabelecida a ideia de que a sociedade burguesa existe para refrear cruelmente nossos instintos (o que ao menos nos dá desculpas para nossos comportamentos inadequados na vida adulta), Sabbath se impõe a tarefa de ser o catalisador da desordem. E não é que não haveria Roth sem Freud: sem a precedência do austríaco, o norte-americano com certeza seria uma espécie de Freud avant la lettre, um desbravador. Já Harold Bloom encontraria, se é que já não o fez, ecos de Falstaff em Sabbath.

(Sobre os excessos sexuais, uma nota curiosa: Sabbath, o especialista, aprendeu muito na nossa Bahia, que visitou quando era marinheiro. Baianos, o reconhecimento de vossa terra inzoneira — Bahia que não me sai do pensamento — como a quintessência do erotismo agora é internacional e literário!)

by André CarrilhoE Roth é, evidentemente, um narrador estupendo: escreve sempre com mestria ímpar. Publicou outros livros notáveis que talvez também me acompanhem à ilha deserta, mas “O Teatro de Sabbath” é, para mim, sua obra-prima. Há várias passagens memoráveis. A partir da página 103 da última edição da Companhia das Letras, ele descreve o ódio entre Sabbath e sua esposa, ódio que somente casais que estão juntos há muito tempo conseguem sentir. É perturbador. Depois, hospedado na casa de um amigo, ele ataca a esposa dele, equipada com todos os extras que o agradam, e mais tarde se diverte com a roupa de baixo da filha do casal, numa sequência de páginas que nos deixa tontos com sua loucura que segue num crescendo sem barreiras. Suas reflexões sobre a morte durante a visita a um cemitério são também magníficas (seu epitáfio será “Morris Sabbath. Mickey. Amado cliente de puteiros, sedutor, sodomita, corruptor de mulheres, destruidor de virtudes, perversor de jovens, uxoricida, suicida. 1929-1994”). E sim, sempre o sexo, em passagens muitas vezes mais engraçadas do que propriamente eróticas (pérola de Sabbath: “o maquinário do êxtase das mulheres teria deixado Tomás de Aquino desnorteado, caso os sentidos do santo tivessem experimentado a sua economia”.)

Para os politicamente corretos, o livro, com muito sexo e comentários sexistas, integra uma lista negra. Uma tal de Carmen Callil (a famosa quem?), editora de uma revista chamada “Virago” (!), é a bête-noire de Roth, a quem não considera como escritor. Deve ser leitora do Flávio Paranhos, que não leu e não gostou dos livros de Roth. Eu tampouco li suas críticas, mas aposto minha coleção de edições da “Playboy”: com certeza ela se ressente muito mais do heterossexualismo convicto dos personagens de Roth, como Alexander Portnoy, Sabbath, David Kepesh e Nathan Zuckerman, do que dos excessos sexuais e da linguagem sem peia de manual de anatomia descritiva. Callil com certeza foi à loucura ao ler a parte em que Sabbath se apresenta na clínica onde sua esposa alcoólatra tenta se salvar e, com discursos para todos os que cruzam seu caminho, vai confirmando, conscientemente, ser um opressor fálico. Mas a mulher desponta para o anonimato, e ela não entende (pois é, abespinhados leitores, julgo-a sem tê-la lido) que o virtuose da palavra que Roth é faz com que o livro, mais que repulsivo, seja engraçado e, vá lá, um tanto magnético (sim, há grande literatura com humor, que o digam Swift e Sterne). E Philip Roth é, com certeza, um dos escritores que com mais lucidez escrutinou os escaninhos da alma humana, o que é confirmado pelos recentes livros que escreveu sobre a velhice (às vezes não tão lúcido, pois resolveu fazer críticas de jardim-de-infância a respeito de George W. Bush). Alguém já disse que Roth é o grande notário das obsessões próprias e alheias. Com efeito: as vilezas de Sabbath encontram eco no pântano interior de nós leitores, mas, na oposição disciplina-liberdade, Sabbath fica com a liberdade para que nós possamos, tristemente, ficar com a disciplina.

É literatura de altíssimo nível, é o salto triplo carpado de Roth, é talvez o grande romance dos anos 90, mas é também a súmula de nossa hediondez e a epopeia de nossas depravações. Com certeza, é leitura obrigatória — um daqueles livros que, uma vez terminada a última página, começa imediatamente a nostalgia da leitura. E, mais do que estar entre os meus preferidos, é também um dos poucos que eu gostaria de ter escrito, rindo comigo mesmo ao pensar na artilharia pesada que receberia por publicar esse dedo inquisidor apontado para a hipocrisia perene de todos nós. Por tudo isso e por gostar imensamente da odisseia espantosa de Sabbath, o livro vai para a ilha com menção honrosa.

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