revista bula
POR EM 20/02/2009 ÀS 10:01 AM

Quais os dez melhores livros que você leu?

publicado em

(Abaixo o resultado final, um trecho de cada livro e a lista de todos os votantes)

 

Listas  não são novidades. Quase todo caderno literário traz algo parecido de vez em quando. A escolha é sempre subjetiva. Afinal, não se trata de uma eleição. Mas sim, de uma indicação que envolve critérios emocionais na maioria das vezes. Diante desse dilema, e sabendo que termos como: mais importantes, indispensáveis ou imprescindíveis, podem ser avaliados de formas diferentes, tentamos nos centrar em uma pergunta que mais se aproximasse  "do gosto pessoal". Afinal, um livro pode ter sido muito importante em nossa vida, mas não fazer parte da lista dos 10 melhores que lemos. Diante disso, fizemos a seguinte pergunta para 49 convidados: Quais os dez melhores livros que você leu?.  Entre os participantes da enquete, estão editores, jornalistas, escritores, professores, críticos literários, médicos,  publicitários, sociólogos... No resultado geral, ganharam os clássicos. Na votação individual, clássicos e catastróficos se misturam. Entretanto, todos, clássicos ou catastróficos, trazem um fato em comum: o poder de inspirar as pessoas.

Carlos Willian Leite
Editor

 

Resultado final



(19 votos) Grande Sertão: Veredas — Guimarães Rosa

"NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte."

 



(16 votos) D. Quixote —  Miguel de Cervantes

"Com a alegria, contentamento e ufania que se disse, seguiu D. Quixote a sua jornada, imaginando, pela passada vitória, ser o cavaleiro andante mais valente que tinha o mundo naquele tempo; dava por acabadas e levadas a bom termo quantas aventuras lhe pudessem suceder daí por diante; tinha em pouco os encantamentos e nigromantes, não se recordava das inumeráveis pauladas, que no decurso das suas cavalarias lhe tinham dado, nem da pedrada que lhe deitou abaixo metade dos dentes, nem do desagradecimento dos galeotes, nem do atrevimento e chuva de bordoadas dos arrieiros; finalmente, dizia entre si que, se achasse arte, modo ou maneira de desencantar a senhora Dulcinéia, não teria inveja à maior ventura que alcançou ou pôde alcançar o mais venturoso cavaleiro andante dos séculos passados."

 

(15 votos) Dom Casmurro — Machado de Assis

“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios.”

 

(14 votos) Cem Anos de Solidão — Gabriel García Márquez

"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos."

 

(13 votos) Memórias Póstumas de Brás Cubas — Machado de Assis

“Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia – algumas vezes gemendo –, mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um “ai, nhonhô!” – ao que eu retorquia: – “Cala a boca, besta!”

 


(12 votos) Os Irmãos Karamazov — Fiódor Dostoiévski

"Nós temos o nosso prazer histórico, natural e imediato com a tortura do espancamento. Niekrássov tem um poema em que um mujique açoita com um chicote os "dóceis olhos" de um cavalo. Isso é corriqueiro, é o russismo. O poeta descreve como um cavalinho fraco, que recebeu uma carga excessiva, atolou com ela e não consegue arrancá-la do atoleiro. O mujique bate nele, bate com fúria, bate, por fim, sem entender o que faz, na embriaguez de bater açoita-o de forma dolorosa um sem-número de vezes: "Mesmo que estejas sem forças, arrasta, morre, mas arrasta!". O rocim tenta arrancar, e eis que ele começa a açoitar o indefeso, e açoitar seus "dóceis olhos" chorosos."

 

(9 votos) Ulisses — James Joyce

"Stephen, com o cotovelo repousando no granito pontudo, encostou a palma abaixo da sobrancelha e olhou para a extremidade da manga de seu casaco preto lustroso que começava a puir. Uma dor, que ainda não era a dor do amor, agitou seu coração. Silenciosamente, em sonho, ela viera até ele após a sua morte, seu corpo gasto dentro de largas roupas tumulares marrons, exalando um odor de cera e pau-rosa, seu sopro, que se curvara sobre ele, mudo, reprovador, um fraco odor de cinzas molhadas. Através do punho puído ele viu o mar saudado como uma grande e doce mãe pela voz bem alimentada ao seu lado. A orla da baía e o horizonte continham uma massa líquida verde opaca. Uma tigela de porcelana ficara ao lado do leito de morte dela contendo a bile que parecia uma lesma verde arrancada de seu fígado apodrecido em seus ataques de vômito e de altos gemidos."

 

(9 votos) O Apanhador no Campo de Centeio — J.D. Salinger

"Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que os meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se contasse qualquer coisa íntima sobre eles. São um bocado sensíveis a esse tipo de coisa, principalmente meu pai. Não é que eles sejam ruins - não é isso que estou dizendo - mas são sensíveis pra burro. E, afinal de contas, não vou contar toda a droga da minha autobiografia sem nada. Só vou contar esse negócio de doido que me aconteceu no último Natal, pouco antes de sofrer um esgotamento e me mandarem para aqui, onde estou me recuperando."

 

(8 votos) A Divina Comédia — Dante Alighieri

Por mim vai-se à cidade que é dolente,
por mim se vai até à eterna dor,
por mim se vai entre a perdida gente.
Moveu justiça o meu supremo autor.
divina potestade fez-me e tais
a suma sapiência, o primo amor.
Antes de mim não houve cousas mais
do que as eternas e eu eterna duro.
Deixai toda a esperança, vós que entrais.
Estas palavras em letreiro escuro
escritas vi por cima de uma porta;
e disse: ''Mestre, o seu sentido é duro''.­
Então ele, avisado, me conforta:
Convém deixar aqui temor secreto;
convém toda a vileza seja morta.
Viemos ao lugar onde o aspecto
verás, to disse, à gente dolorosa
que já perdeu o bem do intelecto.­
E quando a sua mão nas minhas pousa
com ledo rosto, e assim me confortei,
me descobriu tanta secreta cousa.
Suspiros, choros, gritos escutei
ressoando no ar baço de estrelas,
de quanto ao começar também chorei ­
Línguas várias, horríveis falas delas,
e palavras de dor, acentos de ira,
vozes altas e roucas, batedelas
de mãos com mãos, tudo em tumulto gira,
naquela aura sem tempo destingida,
como areal que um turbilhão aspira." 

 


(8 votos) Hamlet — William Shakespeare

"Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal?"

 


(8 votos) O Processo — Franz Kafka

"Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum. A cozinheira da senhora Grubach, sua locadora, era a pessoa que lhe trazia o café todos os dias por volta de oito horas, mas dessa vez ela não veio. Isso nunca tinha acontecido antes. K. esperou mais um pouquinho, olhou de seu travesseiro a velha senhora que morava em frente e que o observava com uma curiosidade nela inteiramente incomum, mas depois, sentindo estranheza e fome ao mesmo tempo, tocou a campainha. Imediatamente bateram à porta e entrou um homem que ele nunca tinha visto antes naquela casa. Era esbelto e no entanto de constituição sólida, vestia uma roupa preta justa que, como os trajes de viagem, era provida de diversas pregas, bolsos, fivelas, botões e um cinto, razão pela qual parecia particularmente prática, sem que se soubesse ao certo para o que ela servia."

 

(8 votos) O Homem Sem Qualidades — Robert Musil

"Idéias que antes possuíam magro valor engordavam. Pessoas antigamente ignoradas tornavam-se famosas. O grosseiro se suavizava, o separado se reunia, independentes faziam concessões, o gosto já formado sofria de inseguranças. As fronteiras nítidas se borravam, e uma nova capacidade indescritível de se agrupar produziu novas pessoas e novas concepções. Não eram ruins, certamente não; havia apenas um pouco de ruindade demais misturada ao que era bom, engano demais na verdade, flexibilidade demais nos significados. Parecia haver realmente uma porcentagem específica daquela mistura, à qual o mundo dava preferência; uma pequena, apenas suficiente dose de sucedâneo fazia o gênio ser genial e o talento ser uma esperança, assim como um pouco de café, e de repente todos os lugares privilegiados e importantes do espírito estavam ocupados por esse tipo de gente, e todas as decisões eram tomadas em seu sentido. "

Voto a voto

Ademir Luiz

professor

Alaor Barbosa 

escritor

Álvaro Mendonça 

sociólogo

Anderson Braga Horta 

escritor

André Gomes 

publicitário

Augusto Sérgio Bastos

professor

Brasigois Felício

escritor

Carlos Augusto Silva 

professor

Carlos Willian Leite 

editor da Revista Bula

Eberth Vêncio

médico

Edival Lourenço

 escritor

Edmar Guimarães

poeta

Enio Vieira

 jornalista

Euler de França Belém 

editor do Jornal Opção

Flávio Carneiro

escritor

Flávio Paranhos

escritor

Frederico Carvalho Felipe

músico

Gilberto Mendonça Teles 

escritor

Goiandira Ortiz 

professora

Hélverton Baiano 

escritor

Jonas Lopes 

crítico literário

José Carlos Guimarães 

professor

José Leandro Bezerra 

escritor

José Nêumanne Pinto 

jornalista

Lauro Marques 

semioticista

Leonardo Carmo 

crítico de cinema

Luciano Sampaio 

 professor

Marcela Borela 

cineasta

Marcello Rollemberg 

 jornalista 

Marcelo Costa 

editor do Scream & Yell

Marcelo Tavares  

 jornalista

Maria Clara Dunck  

estudante

Maria Virginia de Mattos 

professora

Mauro Leslie 

poeta

Menalton Braff 

 escritor

Nicolas Behr 

poeta

Paulo de Toledo 

 poeta

Paulo Sérgio Abreu 

poeta

Renata Andrada 

 publicitária

Renato Silva Schaiblich 

jornalista

Ricardo Tacioli 

editor do Gafieiras

Roberson Guimarães 

médico

Rodrigo Petrônio 

escritor

Rogério Pereira 

editor do Jornal Rascunho

Rogers Silva 

 publicitário

Salomão Sousa 

 escritor

Silvino Barros 

sociólogo 

Tainá Corrêa 

 publicitária

Valdivino Braz 

escritor 

 
 

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