revista bula
POR EM 20/11/2012 ÀS 11:03 PM

10 livros que eu gostaria de ter escrito

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Não se trata aqui, como o título deixa claro, dos melhores livros que já li ou daqueles que me transformaram. Essas seriam outras listas, talvez com poucos elementos de interseção com esta. Trata-se sim daqueles livros que me fizeram comentar, com inveja: “Putz, eu queria ter escrito isso”.

Também não são livros monumentais (do tipo “Grande Sertão: Veredas”, “A Montanha Mágica” e “Os Sertões”), sobre os quais poder-se-ia fundar uma língua, uma nação, uma geração, ou todas essas coisas de uma só vez. Essas obras parecem o fruto de uma vida de trabalho de almas gigantescas cujo tom extrapola os limites do nosso diapasão. Nesses casos, não há lugar para a inveja da escrita, apenas um misto de temor e respeito diante do tamanho da tarefa que se obrou.

Pelo contrário, a escrita destes aqui parece célere e a leitura, comezinha. Como se o escritor, mestre em seu ofício, tivesse aceitado uma encomenda e nela investido algo de sua arte, mas sem que para isso canalizasse todas as suas forças e mesmo a sua vida. É claro que essa impressão é apenas uma ilusão construída com esmero, como quando o virtuose executa uma peça difícil, que lhe exige grande atenção e habilidade, e todavia o seu corpo e a expressão da sua face querem nos convencer de que o seu trabalho é feito sem esforço e que a peça não foi ensaiada dezenas de vezes, como sempre acontece nesses casos.

Olhando a lista, percebo que a forma romance prevalece mas as narrativas são, em geral, curtas. Há dois apanhados de contos (“Ficções” e “Feliz Ano Novo”) e três outros textos que poderiam ser lidos em um par de horas (“Memorial de Aires”, Coração das Trevas”, “O Dezoito Brumário”). As obras de maior fôlego podem ser lidas em um fim de semana chuvoso, com folga para o cochilo depois do almoço (“O Nome da Rosa”, “O Grande Gatsby”, “O Queijo e os Vermes”, “O Céu que nos Protege”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”).

A ficção é a norma, afrontada apenas duas vezes: A análise quase jornalística de Karl Marx sobre o golpe de Luís Bonaparte e a reconstituição de Carlo Ginzburg do processo de inquisição contra Domenico Scandella, um moleiro italiano que viveu no século16. Essa preponderância da ficção não deixa de ser curiosa pois para cada livro desses que percorri durante os meus vinte e poucos anos de leitura adulta, havia uns cinco ou seis que não poderiam ser classificados como obras de ficção.

Curiosa também é a presença de inúmeros títulos que já foram adaptados para o cinema: “O Grande Gatsby” foi filmado várias vezes, a mais famosa por Jack Clayton (1974), com roteiro de Francis Ford Coppola; “Coração das Trevas” já virou até game e inspirou “Apocalipse Now” (1979), dirigido pelo mesmo Coppola; “O Nome da Rosa” foi dirigido por Jean-Jacques Anaud (1986), com roteiro adaptado por Andrew Birkin; “O Céu que nos Protege” foi dirigido por Bernardo Bertolucci (1990), com adaptação de roteiro de Mark Peploe e a fotografia estonteante de Vittorio Storaro. Além desses, alguns dos itens da lista parecem gritar por um lugar nas telas: Certos contos de “Feliz Ano Novo” parecem feitos sob medida para o ritmo pulp de Quentin Tarantino e “Memorial de Aires” poderia muito bem ser dirigido pelo Clint Eastwood de “As Pontes de Madison”. Apenas seria difícil encontrar algum produtor com coragem suficiente para bancar a filmagem de “O Evangelho”.

Eis a lista (a ordem de apresentação respeita o tempo de cada leitura: Os livros que li primeiro aparecem antes daqueles que li depois):

1 — O Grande Gatsby (1925), de Scott Fitzgerald

Dizem que a passagem mais bela de toda a história da literatura ocidental é aquela da Ilíada em que o furioso Aquiles avança em uma biga na direção de Heitor, o inimigo a ser derrotado. Da minha parte, nunca li nada mais bonito do que isso. Na tradução de Breno Silveira ficou assim:

“O único objeto completamente imóvel no salão era um enorme divã, sobre o qual duas jovens mulheres flutuavam como se estivessem num balão ancorado. Trajavam ambas de branco, e seus vestidos ondulavam e adejavam como se elas tivessem acabado de pousar ali, após um breve voo em torno da casa. Creio que fiquei um momento a ouvir o vergastar do vento de encontro às cortinas e o gemido de um quadro na parede. Ouviu-se então uma batida, quando Tom Buchanan fechou as portas envidraçadas de trás, e o vento, aprisionado, se extinguiu pela sala, enquanto as cortinas, os tapetes e as duas jovens mulheres, flutuantes, pousaram, lentamente, no chão”.

Eu tinha uns 16 anos quando topei com esse trecho e devo tê-lo lido umas trinta vezes seguidas, naquela ocasião. Por vezes, fechava os olhos e tentava imaginar a cena (eu ainda não conhecia o filme) e o olhar de uma das mulheres esvoaçantes me transpassava com indiferença, como se meu corpo fosse feito de alguma matéria diáfana e mal definida.

2 — Memorial de Aires (1908), de Machado de Assis

Último romance de Machado de Assis, publicado no mesmo ano de sua morte, revela o autor em sua maturidade. Não há nota fora do tom e a narrativa morna casa muito bem com as reflexões sobre a saudade e a velhice, temas centrais nessa obra. A resignação machadiana diante da imperfeição humana, tão comum em seus romances e que por vezes revela uma atitude sobranceira, dá lugar a uma compreensão radical e simpática dos sentidos que cada personagem atribui aos seus atos e à vida.

3 — Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad

Conrad era um polonês que escrevia em inglês, numa prosa simples e ligeira. Seus personagens se movimentam em lugares exóticos retalhados pelo colonialismo europeu. Em “Coração das Trevas”, Charles Marlow é o comandante de um vapor, a serviço de uma grande companhia belga, cuja missão é descer o rio Congo e resgatar o enigmático Kurtz da região de sombras em que este se embrenhou.

4 — Feliz Ano Novo (1975), de Rubem Fonseca

No mesmo ano de sua publicação, o ministro da justiça Armando Falcão proibiu a circulação desse livro, comentando algum tempo depois: “Li pouquíssima coisa, talvez uns seis palavrões, e isto bastou” (“O Estado de São Paulo”, 07.01.1977) . Por sorte, mais de 30 mil exemplares já haviam sido vendidos ao público antes da censura encaixotá-lo.

Zuenir Ventura, menos bitolado, foi incisivo: “Feliz ano novo é, do ponto de vista temático, uma coletânea de faits divers da vida diária: mesquinhas ocorrências, histórias sem glória e sem heroísmo que nos jornais ganhariam um canto das páginas policiais. O que inquieta no livro é que esse mundo marginal distante se vai aos poucos revelando como nosso próprio mundo, onde os desvios são cada vez mais a norma” (“Visão”, 10.11.1975).

5 — O Nome da Rosa (1980), de Umberto Eco

Meu primeiro contato com a obra de Umberto Eco foi no início dos anos 1990. Na época, eu era um leitor voraz e estudante aplicado e um dia tomei emprestado na biblioteca da UERJ os livros “Obra Aberta” e “Apocalípticos e Integrados”. Embora me recorde as teses de cada um, lembro que a leitura deles não me causou maior impacto.

Mas um dia o Luís Fernando (meu amigo, por onde andarás?) me emprestou o VHS de “O Nome da Rosa”, dirigido por Bertolucci e estrelado por Sean Connery. Qual não foi a minha surpresa quando descobri que aquela erudita trama sherlockiana, passada em um mosteiro medieval, regada a sexo, heresia e inquisição, era baseada em um romance daquele semiólogo italiano?

6 — O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte (1852), de Karl Marx

Esse pequeno livro de Marx é ímpar. Nele, tanto as classes quanto os indivíduos fazem história, e uma história de revoluções. Escrito num estilo jornalístico, analisa as condições materiais e a conjuntura política que tornaram possível o golpe de estado de Luís Bonaparte contra o parlamento francês, em 1851.

7 — Ficções (1944), de Jorge Luís Borges

Descobri Borges justamente por essa coletânea de contos e a minha concepção de literatura nunca mais foi a mesma. Borges explode os gêneros: sua crítica literária parece ficção e sua ficção parece crítica literária. As metáforas de inspiração matemática, os espelhos que multiplicam os homens, as bibliotecas sem fim e as enciclopédias que criam mundos estão todos ali, reunidos por esse mestre da narrativa curta.

8 — O Queijo e os Vermes (1976), de Carlo Ginzburg

Mais um livro da minha antiga biblioteca que virou cinzas. Quando o li fiquei espantado com a facilidade com que esse historiador italiano conseguia retratar o mundo em um grão de arroz, e este naquele. Pesquisando os arquivos da Inquisição, Carlo Ginzburg um dia se deparou com um processo extraordinário: Domenico Scandella, vulgo Menocchio, um simples dono de moinho da região do Friul (nordeste da Itália) espanta os inquisidores que o interrogam no curso de um processo que acabaria por condená-lo à fogueira, em 1599. De sua inteligência bruta, germinava uma cosmologia sofisticadíssima e argumentos que exasperavam seus algozes formados na melhor das teologias.

9 — O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), de José Saramago

O livro de Saramago é um soco no estômago dos setores conservadores da sociedade portuguesa. Jesus é retratado como um homem comum que não entende o sacrifício exigido pelo pai. O estilo de Saramago é inconfundível: períodos longuíssimos, desrespeito às regras escolares de pontuação e uso inusitado do sentido de certas palavras. Tudo isso aliado a uma imaginação ímpar e a um profundo senso ético fazem dele a melhor prosa da língua portuguesa na atualidade.

10 — O Céu que nos Protege (1949), de Paul Bowles

Paul Bowles uma vez escreveu, não me lembro se nesse livro, que o turista parte com data marcada para o seu retorno, enquanto o viajante nunca sabe se irá voltar. Não é de se espantar que tantos antropólogos (esses viajantes modernos) vejam na sua obra um exercício radical de aceitação das diferenças entre os homens, mesmo quando a compreensão do sentido das ações do outro nos escapa, dando azo a todo tipo de violências e mal-entendidos.

Fico por aqui. Foi um prazer lembrar essas leituras com vocês. Até a próxima.

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