Tetro, de Francis Ford Coppola
Coppola, gênio maldito que experimentou a glória, em “Tetro” explica porque cospe no reconhecimento da indústria
Toda arte é a sua contingência. Transcender não é ignorar os limites, ao contrário, é ter consciência deles. Um filme não existe fora do cinema. Antes de ser um gênero, é um filme e disso ele não escapa. Seu foco é a sua própria natureza: seja qual for o desdobramento, volta para si mesmo. É preciso abordar o cinema para fazê-lo. Grandes cineastas transformam esse destino, essa camisa de força, em grande arte. Como Francis Ford Coppola, por exemplo, tanto como diretor contratado em estúdio de “O Poderoso Chefão” quanto no independente “Tetro”. Entre esses dois polos, ele trafega entre a celebração e maldição procurando manter o foco. O gênio que acaba transgredindo faz filmes, não sucessos ou fracassos.
O que é Godfather? Cinema. Marlon Brando imita Eward G. Robinson, paradigma do chefão mafioso de Hollywood desde Little Cesar (1931), colocando bochechas falsas para convencer os chefões de que ele era o ator certo. Gestos étnicos como bater na cara do interlocutor e que são confundidos com a italianidade. O clipe do batismo coincidindo com a eliminação da concorrência. A música pontuando a narrativa. Assim também, “Tetro”, colagem cinematográfica em que o cineasta busca a própria identidade, que em vez de estar na família, está no próprio cinema.
As chamadas citações de filmes fazem parte da carne de que é feito “Tetro”. Duas obras da dupla inglesa Michael Powell e Emeric Pressburger , “Red Shoes” (1948) e “Os Contos de Hoffmann” (1951), fazem parte da memória doméstica, mas no filme é a substância da postura artística assumida pelos Tetrocini, em que a originalidade e o talento convivem com grandes obras, da música à dança, a literatura e ao cinema. O tempo presente é em preto e branco, origem do cinema, e a memória é em cores, a ilusão de uma vida equilibrada e perfeita que se estilhaça em acidentes, concorrência, retaliações, vinganças, separações, dor e morte.
Na interpretação, se sobressai o veterano Klaus Maria Brandauer em duplo papel, os maestros Carlo/Alfie Tetrocini, e a elogiadíssima Maribel Verdú, que procura costurar os cacos de um amor pressionado pela memória. Ela é Miranda, a mulher de Tetro, que gera uma dança nova no rodízio mofado da relação entre dois irmãos. Vincent Gallo é um ator intenso que faz um personagem aborrecido, ególatra e desaforado, como a encarnar o espírito transgressor de Coppola, gênio maldito que experimentou a glória e neste filme explica porque cospe no reconhecimento da indústria. Não preciso mais da sua opinião, diz Tetro para a importante crítica, Alone, interpretada pela carismática Carmen Maura.
O festival de teatro e literatura, que imita as premiações do cinema para debochar delas (peças focadas no parricídio é de um humor sinistro), é a apoteose desse trajeto que o talento percorre à revelia em direção à glória. Não adianta espernear contra o sistema que o sufoca, ou negar a herança familiar, sempre o artista estará às voltas com os parentes hegemônicos ou as câmaras e luzes formatadas pelo dinheiro. Resta então a consciência de que tudo está sendo decidido pela percepção do olho diante de um foco de luz. Não por acaso Tetro, escritor frustrado, vive fazendo bico de iluminador para o teatro.
É preciso fechar os olhos para essa tentação, pois nosso olhar é como a mariposa que morre atraída pela força desse imã. Fechar os olhos para poder se enxergar e encontrar tem uma vantagem: a câmara do cineasta está focada nesse ato final de defesa contra o massacre. Nós devemos ficar de olhos abertos para o desenlace, enquanto os protagonistas mergulham num abraço cego para lavar suas feridas.
O jovem Alden Ehrenreich, bom ator, não suporta a carga de importância que seu personagem tem no filme e fica um pouco catatônico o tempo todo. Não estraga o filme, mas não o eleva à altura necessária, principalmente no clímax, quando coloca fogo num funeral e sai para a rua em busca do suicídio. Lembra o jovem Alain Delon em “Rocco e Seus Irmãos”, de Luchino Visconti, que não desperdiçou a chance e jogou pesado no papel do garoto problemático. Mas não se pode comparar os talentos. Só fica o registro que uma oportunidade jamais é desperdiçada por quem tem gana de marcar seu tempo.
“Tetro” lembra um pouco “Coração Iluminado” (1996) de Hector Babenco, que trafega nas mesmas rodovias: a busca da identidade perdida na Argentina real e mítica. Acho filmes irmãos, não só pela abordagem, mas pelo esforço transgressor, ambos tendo problemas de aceitação de crítica e público. “Tetro” é importante: a dança, o cinema, a música, a literatura confluem para uma obra de pesquisa e ruptura, nos deixando frente a frente com as charadas propostas pelo autor.
“Tetro” resgata uma tragédia por meio da arte: a peça de teatro dançada, com elementos de ópera, mostra o crime de um pai famoso regente de orquestra e compositor que se vinga do filho (motorista do acidente que matou a mãe, mulher do maestro) e o afloramento do sentimento parricida. Matar a ancestralidade aparece como fórmula salvadora, mas isso aconteceria se o cinema se entregasse às evidências do comércio. É preciso fechar os olhos para a perversão da ilusão para encontrar o foco salvador, que está dentro do artista.

