revista bula
POR EM 22/09/2011 ÀS 01:28 PM

Quando ouço alguém falar em Eisenstein, saco logo o meu Looney Tunes do coldre

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Era uma vez um não-cinéfilo: ensaio ensina como não agir em um jantar inteligente à lá Pondé (se seu objetivo for sair com a Bela da Tarde que gosta de filmes iranianos)

Não sou exatamente um homem de cinema. Para mim, os melhores anos de nossas vidas não são aqueles passados numa sala escura com projetor. Gosto mais de certas cenas, que sempre revejo, do que propriamente de filmes. Aquela dos beijos excluídos dos filmes em “Cinema Paradiso” (ao que me consta, atualmente cotada como kitsch). O tango em “Perfume de Mulher”. O duelo entre Lee Marvin e James Stewart em “O Homem que Matou o Facínora”. Do mesmo filme, a cena em que John Wayne conta ao iludido Jimmy Stewart que foi ele quem matou Liberty Valence: “Assassinato a sangue-frio. Posso viver com isso”. A famosa porta dando para o deserto em “Rastros de Ódio”. A abertura de “Patton”. O reencontro do casal em “Paris, Texas”. A cena final de “Reflexos da Inocência”, que mescla passado e presente ao som de “If There Is Something”, clássico do rock da banda Roxy Music. Aquela vingança de Tom Hanks contra Paul Newman em “Estrada Para a Perdição”. Também a despedida do herói em “Os Brutos Também Amam”, quando a mulher que Shane ama (em silêncio, como deve ser a paixão dos fortes) lhe pergunta “Nunca mais vou vê-lo?”, ouvindo como resposta um adequado “Nunca é tempo demais”. Cenas de atores e atrizes que aprecio, como Robert Duvall, Al Pacino, Vanessa Redgrave, Audrey Hepburn, Tommy Lee Jones, Peter Sellers, Jack Nicholson. Alguma coisa de Almodóvar, outras de Juan José Campanella. Muitas cenas de westerns e de filmes de guerra, mas dos clássicos, aqueles sem preocupações sociais — mas onde estais, westerns de outrora? (Há pouco descobri, feliz, que o grande escritor espanhol Javier Marías é também adepto do faroeste, o que ele conta no seu blog.  Nestes estranhos tempos modernos, até Marías tem um blog.) Vocês pegaram o espírito da coisa: algumas tomadas especiais, poucos filmes inteiros. E a ver certos filmes idolatrados, como os da Nouvelle Vague ou do Cinema Novo, prefiro assistir a um documentário. Na verdade, admito que assisto aos mais estranhos documentários: na semana passada, venci feliz as nove horas de “Shoah”. Portanto, sou, de um modo geral e por assim dizer, mais Moniz Vianna do que José Lino Grünewald. Quanto à eterna discussão sobre o caráter artístico do cinema, fico com Mário Sérgio Conti, que o classifica como esporte ao lado da sinuca, do futebol e da natação.

Ocorre que gosto mesmo é de desenhos animados e séries de TV, preferência que me causa dissabores sociais (antes que me critiquem, li em algum lugar que Rubens Ewald Filho — outro que tem blog — acha que as séries de TV são a grande novidade do “cinema” americano). E não nego que também gosto de filmes bobos, como comédias românticas e afins (para minha sorte, sempre há um crítico francês disposto a atestar que um filme B é uma obra de arte). Mas vejam vocês: como hoje todo mundo é cinéfilo, em qualquer festinha — os “jantares inteligentes” do filósofo Luiz Felipe Pondé — a conversa descamba para o cinema. Conversas inteligentes para abrilhantar o discreto charme da burguesia. O problema é que alguém cita Tarkovsky e eu lembro o Pernalonga. Vou a um almoço e, quando a mulher mais linda do pedaço (a bela da tarde, que costuma ser a mulher do lado: é sempre verdade que o pecado mora ao lado) menciona o novo cinema asiático, eu faço a apologia do Patolino (a propósito: dou-me conta agora de que Pernalonga e Patolino merecem uma análise freudiana). Quando ouço alguém falar em Eisenstein, saco logo o meu Looney Tunes do coldre. E também fico perdido, por não me recordar nem mesmo quando foi a minha última sessão de cinema, se comentam — sempre comentam — o último filme do Lars von Trier, aquele chato adepto do cinema como doutrinação. Claro que diretores como Von Trier são cultuados (melancolicamente, eu diria) por essa turma, são verdadeiros deuses do Olimpo. Nonada: filmes que os senhores viram foram criação de mente de homem não, Deus esteja. E a ira, como se sabe, é o pecado dos críticos de cinema. Mas sigo também opinando e, entre gritos e sussurros, todos se escandalizam e sempre soltam os cachorros em cima de mim quando ouvem meus comentários: todo cinéfilo é um cinófilo. Um dia na companhia de um cinéfilo radical é um dia de cão. Vivo acossado, tenho medo de que logo um tipo mais raivoso me convide para um duelo ao sol (o ódio deles será minha herança? Se for, dou-lhes meu desprezo: o vento será a herança deles). Bem, o jeito é não reclamar, já que agora essa é a regra do jogo. (Confesso? Confesso: gosto até de séries de “mulherzinha”, como dizem; se meu apartamento falasse, contaria que eu e R., levada da breca, passávamos horas vendo temporadas completas de “Gilmore Girls”.)
 

Digressão sobre a cinefilia: conto aqui duas ou três coisas que sei dela. Um tipo qualquer assiste a alguns filmes, passa anos sem ver filmes antigos, não lê absolutamente nada — os livros sempre ficam debaixo das axilas — e resolve virar crítico. Frequenta mesas-redondas depois de sessões longuíssimas de cinema iraniano e usa expressões como “imagística fílmica” e “estilística imagética”. O passo seguinte é a criação de um blog para divulgar ao mundo, com bravura indômita, os seus pensamentos sobre cinema. E nem mesmo faz isso por uns dólares a mais ou para curtir a doce vida, o que quer é apenas a glória — não feita de sangue ¬— de ser considerado um “intelectual”, chave para entrar numa igrejinha com rituais próprios de fala e escrita e para ser um rosto na multidão. A cada novo dia, nasce uma estrela nos blogs de cinema da internet. Parece até que há um padrão no processo: quando vemos um cinéfilo, somos tomados por uma sensação de déjà-vu total. Os casos mais graves são os de pessoas com o comportamento moldado — corrompido? — nos superestimados anos 60. Ocorre que, por falta de uma, digamos, educação sentimental, os “soi-disant” críticos mal conseguem ir além dos chavões: quantos, por exemplo, conseguiram ligar o recente “Meia-noite em Paris”, de Woody Allen, com “Les Belles de Nuit”, de René Clair? Digressão dentro da digressão: tenho certeza de que a proliferação de blogs é uma das armas do Segundo Cavaleiro do Apocalipse. Confiram na Bíblia. Ah, sim, tomei conhecimento da publicação do livro de Antoine de Baecque, “Cinefilia: Invenção de um Olhar, História de Uma Cultura, 1944-1968”, mas o cara foi crítico da revista “Cahiers du Cinéma”, a mesma que sacralizou o cinema, daí porque não se pode levar muito a sério esse tipo de coisa. Melhor ficar com a crítica de Alex Ross contra a sacralização da música clássica no seu livro “Escuta Só”, o que estendo a todos os tipos de manifestações culturais (opa, contradição! Cinema não é arte!). Aliás, costumo apelidar esse tipo de cinéfilo de “Filmofânico Diegético”, pois topei com esta incrível passagem no “Dicionário Teórico e Crítico do Cinema”, de Jacques Aumont e Michel Marie: “24 imagens filmográficas representam um segundo de duração filmofânica (e podem representar vários anos de duração diegética)”. Fim das digressões.

Releio o que escrevi e percebo que, à maneira de Nelson Rodrigues, perdi o fio da meada. O que é mesmo que eu queria contar? Já sei. Há poucos dias, fiz uma pequena viagem do tipo sem destino. Viagens me dão ideias e, como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Goiás, pedregosa, pus-me a pensar. À moda de Poirot, exercitei a minha massa cinzenta e — eureca! — tive uma ideia. Nada de grandioso, nada sobre como roubar um milhão de dólares. Sim, aconteceu naquela noite: sentindo-me iluminado por volta da meia-noite, perguntei-me: já que a turma da “Bula” gosta de cinema, por que não propor que cada um dos colaboradores escreva um artigo sobre um único filme? “Aquele” filme. O filme, por assim dizer, da vida de cada um. Gostei da ideia, fiz uma anotação mental sobre ela, mas, como não sou editor da revista, não pude propô-la a ninguém. Restou-me escrever o meu artigo — não se descarta uma convicção quando um homem é homem.

(Outra digressão: sempre haverá alguém, com a marca da maldade ou o estigma da crueldade, para dizer que fazer listas — lista de um ainda seria lista? — é uma contabilidade desnecessária. Ou para dissertar sobre a ideia de elitismo canônico embutida numa lista. Claro, claro, já sabemos, mas é divertido pra caramba. “Por que só dez livros e não vinte? Qual o critério?”, outros se perguntam quando leem listas. Ora, o critério é que foi pedida uma lista de dez e não de vinte.)

Divago mais uma vez. Adiante. Editor e copy desk de mim mesmo, proponho-me então a escrever sobre o filme que mais me marcou. Incluo-me, sem convite, entre os articulistas da “Bula” — afinal, de repente, no último verão, pus-me a publicar textos e ganhei o meu lugar ao sol.

Estabeleço o meu critério: qual o filme que mais revejo? Há alguns que não me impressionam somente com poucas cenas e que consigo ver de ponta a ponta. Geralmente são filmes a que posso assistir várias vezes sem me cansar. “Casablanca” e “Manhattan” (deste, muitas vezes também revejo apenas a cena final, Woody Allen pensando no que vale a pena na vida e depois correndo para encontrar a belíssima Mariel Hemingway, que está de partida para Londres). Os três “O Poderoso Chefão” e alguns poucos mais — talvez “A Ponte do Rio Kwai”, “Victor ou Victoria”, “A Época da Inocência” e “Bird”. Gosto de quase todos do Woody Allen, excluindo apenas alguns dos seus filmes dos anos 80, época em que ele se esforçava para ser um cineasta sueco. Já achei que gostava de Amadeus, mas agora desconfio que gosto mesmo é da música de Mozart e da interpretação de F. Murray Abraham como Salieri. Mas, fundamentalmente, sempre revejo “Era Uma Vez na América”. 

Por que o filme me marcou? Bem, vamos por partes. Antes de comentá-lo, friso que não entendo e não quero entender de técnica cinematográfica. Expressões e palavras como “raccord” e “travelling” me dão calafrios. Para mim, todo movimento de câmera é um “travelling”. Mas aí é onde começa o inferno: a linguagem técnica é usada hoje por todo mundo, mais ou menos como acontece com os vinhos. O cara vai beber um vinho e fica comentando o “terroir”. Do mesmo modo, o sujeito vê um filme domingo à noite e sai da sala falando sobre a influência felliniana. Aliás, até com o café e a água a coisa degringolou. Eu, como Balzac, tenho motor de explosão à base de café, e agora tenho de ouvir preleções intermináveis — e não solicitadas — dos entendidos de café (que querem ser chamados de “baristas”, uma estranha compulsão) sobre o melhor grão colombiano ou a máquina mais adequada para um “espresso” perfeito. E andam promovendo degustações de água, aquela mesma que, nos meus tempos de infância, era insípida, inodora e incolor. A continuar assim, com certeza os próximos anos serão os anos em que viveremos em perigo de sucumbir ao poder dos chatos. Sim, deu a louca no mundo, mas nada há que se possa fazer: assim caminha a humanidade. Em suma, tentarei fugir de termos que não compreendo bem.

(Mas o mundo pode ser divertido para quem procura, ainda que eu saiba que a felicidade não se compra. Mesmo não querendo entender de linguagem técnica, leio bastante sobre cinema. E assim como aprecio o crítico Harold Bloom, que gosta de literatura e não de teorias literárias, gosto de ler críticos como Ruy Castro ou Pauline Kael, durante muitos anos crítica da revista “The New Yorker”, pois nenhuma teoria estraga o prazer que eles sentem com o cinema e que sabem nos transmitir. Ruy Castro me faz querer ver os filmes que comenta, e Kael era seca e ferina, mas sempre precisa — sobre “Aliens”, por exemplo, escreveu: “a imagística tem muito poder gráfico, mas há demasiada umidade claustrofóbica verde-azulada.)

De novo eu me perco e preciso voltar à vaca fria. Ao filme, então. Ou antes: o autor! o autor!

Bem, esse negócio de cinema de autor é simplesmente complicado. Como se sabe, ou não se sabe, diz a lenda que a teoria do diretor como autor foi inventada na mítica revista “Cahiers du Cinéma”. Ora, no caso de “Era Uma vez na América”, o diretor é Sergio Leone. Mas a fotografia, impressionante, é de Tonino delli Colli (“Toninho das Montanhas”, que diabo de nome é esse?). A trilha sonora é de Ennio Morricone, e ela ajusta-se perfeitamente ao filme, tanto que ouvi-la em CD nos emociona justamente porque nos lembra do filme (Morricone é um caso raro de artista que consegue a perfeição no limite da pieguice, como fica claro em outro filmaço de Sergio Leone, “Era Uma Vez no Oeste”). O roteiro é do próprio Sergio Leone e mais um punhado de coautores, baseado em “The Hoods”, livro de Harry Grey, pseudônimo de Harry Goldberg, um gângster que virou informante. Portanto, uma obra coletiva, sem dúvida. (Sim, meus poucos leitores, também li o ensaio de Truffaut sobre o diretor como autor, mesmo sendo um filme, como ele reconhece, uma obra coletiva.)

O filme tem várias camadas. Trata de imigração, liberdade das ruas, gângsteres, corrupção nos Estados Unidos, Nova York, destruição do sonho americano. Pode ser visto como uma história de amor ou como uma alegoria do capitalismo. Para mim, é uma reflexão sobre estar no mundo e sobre o equipamento necessário para isso (toda arte é sobre estar no mundo? Nem toda, mas deixo esse tema para outra hora. Ou para o Flávio Paranhos). Também é sobre o preço que se paga pelas escolhas que se faz na vida. Sobretudo, o filme é sobre amizade e amor, mas amizade e amor destruídos pelo tempo. Ou melhor: é sobre o tempo, que machadianamente matamos e que nos mata. (Pode-se argumentar que o personagem de Robert de Niro, apesar da traição dos amigos e do afastamento da mulher que ama, permanece fiel a eles, mas isso é uma questão de perspectiva: se essa amizade e esse amor somente existem nele, então não existem verdadeiramente. “Damnosa quid non imminuit dies?”, perguntariam meus velhos professores de Direito na época, ela própria já destruída pela passagem dos dias, em que se sabia que essa frase é de Horácio sem se precisar ir ao Google.) Conto o enredo (quem não viu o filme que continue por sua conta e risco: este texto é um “spoiler”). A história se passa em três épocas distintas, com flashbacks para amarrar a trama. Inicia-se com gângsteres matando uma mulher e agredindo um homem (que depois saberemos ser Fat Moe, vivido por Larry Rapp) em busca de David Noodles, personagem interpretado por Robert de Niro, que está escondido numa casa de ópio. O ano é 1933. Saindo do local, Noodles vai ao “speakeasy” que mantém com seus amigos fora-da-lei, onde Fat Moe está sendo surrado para contar o seu paradeiro; lá, ele mata um dos agressores. Deixando o “speakeasy”, vai a uma estação (o Grand Central Terminal, se não me engano), onde procura, como já se sabe por causa de uma conversa sua com Fat Moe, dinheiro escondido numa mala guardada num depósito, mas a mala, para sua surpresa, está vazia. Vai então a um guichê e pede uma passagem só de ida para “qualquer lugar”, deixando Nova York. Corte para a década de 60: o envelhecido Noodles volta à cidade e procura Fat Moe no mesmo local do “speakeasy”, agora um bar como outro qualquer. Diz a ele que recebeu uma carta falsa da sinagoga cuja mensagem verdadeira seria “apesar de você estar se escondendo no fim do mundo, sabemos onde está: fique pronto”. Alguém, portanto, conhece o seu passado. Instalado por Fat Moe num quarto, ele entra num banheiro e procura um buraco na parede, encontra-o e aproxima-se para olhar do outro lado. Há então um novo corte, agora para a década de 20, e o Noodles adolescente está olhando pelo mesmo buraco e espiando Deborah (Jennifer Connelly), irmã de Fat Moe, a garota por quem era (e sempre será) apaixonado. Conta-se a partir daí a história de Noodles, de seu amor por Deborah e, sobretudo, de Noodles e seus amigos ensaiando os primeiros passos no mundo do crime: Max Bercovicz, Philip Stein, Patrick Goldberg e o pequeno Dominic, que será morto ainda criança. Todos são judeus no “Lower East Side”.

Pausa para respirar. Eu disse que a história é longa — ou não disse? Continuo: sob a liderança de Noodles e Max, os garotos seguem a vereda do crime organizado. Então, chega-se novamente à década de 30, e Max (agora interpretado por James Woods) vai ficando cada vez mais megalomaníaco a ponto de planejar um assalto suicida, do qual Noodles discorda. Nesse meio-tempo, Deborah (na fase adulta vivida por Elizabeth McGovern) já desistira de Noodles para seguir a carreira de atriz. Em certo momento, explica-se a cena inicial: Noodles, para salvar Max e seus amigos da morte certa no assalto suicida, resolve traí-los para que sobrevivam e os denuncia à Polícia. Mas eles acabam morrendo de qualquer modo, e é aí que Noodles é perseguido e foge da cidade, sentindo-se culpado. A mala vazia na estação continha dinheiro que ele e seus amigos guardavam, mas alguém já o pegara. Durante todo esse andamento, contado em flashbacks, acompanhamos o Noodles da década de 60 tentando desvendar o mistério. Por fim, as pistas o levam a Deborah, agora uma famosa atriz que vive com um homem poderoso, o Secretário Bailey. Noodles a confronta no camarim de um teatro e, ao sair, vê um garoto extremamente parecido com Max (o mesmo ator que interpreta o jovem Max da década de 20); Deborah diz a ele que é o filho do Secretário Bailey, chamado David em homenagem a Noodles. O clímax ocorre numa festa na mansão do Secretário Bailey, que, como se imagina, é o próprio Max, que não morreu e havia planejado tudo: tomou a vida de Noodles, ficou com o dinheiro da mala e tirou dele até mesmo a mulher que amava. Max/Bailey conta a Noodles que, por conta de problemas em que se meteu (corrupção política), será morto como queima de arquivo. Oferece a Noodles a chance de vingar-se e matá-lo, pois prefere que Noodles faça o que é certo que outro fará. Mas Noodles o trata apenas de Secretário Bailey, como se Max realmente tivesse morrido, e se recusa a matá-lo. Por fim, Noodles deixa a casa desejando a ele boa sorte. Há um final estranho: vemos Max, ou uma pessoa que parece ser Max, saindo da mansão e sumindo atrás de um caminhão de lixo, como se tivesse se jogado no seu compactador. Depois, volta-se ao passado de novo e à cena inicial, e vemos Noodles novamente na casa de ópio, logo depois de saber que os amigos estavam mortos e antes de deixar Nova York, rindo às gargalhas. É isso. Por falta de engenho e arte, sei que não consigo narrar condignamente as sensações que toda essa história me causa. Não importa: elas existem e são poderosas, por isso creio que a palavra “épico”, tão gasta em análises de filmes, certamente merece ser usada com “Era Uma Vez na América”.

Mas confesso que os temas nostálgicos invariavelmente me comovem. Por exemplo, “O Amor nos Tempos do Cólera” e “Tomates Verdes Frito”. Se há reencontros de velhos amigos ou de amantes, então o filme já começa ganhando de mim de dez a zero. Nunca falha: caminhos que não foram seguidos, mortes, sobreviventes amargurados, desgostos, ódios sepultados e repentinamente revividos, gerações que se sucedem — aí está a matéria-prima para grandes obras (já leram “Absalão, Absalão”, de Faulkner, no qual tudo isso é narrado de maneira retrospectiva? Se não, corram à livraria mais próxima. E leiam também as fantásticas memórias de Pedro Nava).

Quase tudo no filme se encaixa. Imaginem esse enredo contado com grandes atuações, imagens grandiosas e música perfeita (muitas vezes usada com mestria para demarcar as mudanças temporais da narrativa). James Woods está soberbo; Robert de Niro é mestre em transmitir sentimentos apenas com os olhos (principalmente melancolia e raiva). E também muitos dos atores que interpretam os personagens na juventude estão magníficos, como Jenniffer Conelly, então com 12 anos, e Rusty Jacobs, que vive Max. Talvez Elizabeth McGovern esteja um tanto rígida como a Deborah mais velha, mas não importa: a sua beleza, criminosa de tão grande, é um deleite (lembra Ana Paula Arósio).

Há no filme toda uma tensão entre realidade e anseios de civilidade (desejo oculto dos Estados Unidos, sempre confrontado pela realidade da sua formação como país?), entre selvageria e civilização (tema clássico dos westerns, terreno no qual Leone também meteu a sua câmera). Por exemplo, Noodles compra todas as mesas de um restaurante à beira-mar para passar a noite com Deborah. Há romance e conversas civilizadas, mas depois Noodles a estupra dentro de um carro (ele a ama, mas também a odeia por ser fraco perante a força daquela que não consegue controlar, daí o estupro — ah, Freud ficaria orgulhoso de mim...). Noodles, na verdade, é o perfeito anti-herói que a cada encruzilhada escolhe o caminho da autodestruição, e, se as ruas do gueto são o seu mundo — ele nunca é mostrado em casa com a família —, Deborah anseia pelo mundo exterior (não por acaso, Noodles aparece lendo “Martin Eden”, de Jack London, romance no qual o herói, que se educa para sair da classe trabalhadora, comete suicídio). Não se perca o contraste das leituras que eles fazem um para o outro do “Cântico dos Cânticos”: enquanto Deborah lê o capítulo 5 para Noodles e o pontua com suas opiniões (“O meu amado é branco e corado,/A sua pele é como o mais puro ouro,/Suas maçãs do rosto são como especiarias,/Apesar de ele não lavá-las desde dezembro./Seus olhos são como os dos pombos,/Seu corpo, um marfim reluzente,/ Suas pernas são pilares de mármore,/Em calças tão sujas que param em pé sozinhas./Ele é absolutamente adorável,/Mas será sempre um imprestável,/Por isso nunca será meu amado,/Que pena!”), Noodles, na noite do restaurante, lê o capítulo 7 e termina por estuprar Deborah (“Que lindo são os seus pés em sandálias, filha do príncipe./Seu umbigo é uma tigela arredondada, cheia de vinho,/Seu ventre, um monte de trigo cercado por lilases,/ Seus seios, cachos de uvas,/Seu hálito doce recende a maçãs.”). Não há saída, eles pertencem a mundos diferentes, mas, tragicamente, sentimos que se amam de verdade (cupido não tem bandeira).

Há muita violência; contudo, não há uma moral do tipo o-crime-não-compensa ou vejam-só-do-que-a-América-é-feita. Na verdade, o que amarra a trama é a passagem do tempo e a nostalgia. Tanto que chegamos até a simpatizar com os gângsteres sofredores por causa das derrotas da vida dos preços que pagam por suas escolhas. Já se disse que “O Poderoso Chefão” dá respostas, mas “Era Uma Vez” faz perguntas. Sim, faz, e faz as perguntas certas de modo correto. As respostas, nós passamos a vida a procurá-las.

Essa nostalgia perpassa pela amizade e pelo amor mostrados no filme. A amizade de Noodles e Max (ou de Noodles por Max), que é do tipo devotado; o amor de Noodles por Deborah, este do tipo estoico (amor, vocês sabem, era aquele sentimento antigo que às vezes tomava conta de alguém: deve haver uma definição na Wikipédia). Há amizade e amor, mas a traição também existe, e ainda assim, como Noodles, pode-se permanecer firme com as próprias convicções. E a nostalgia é como um fluxo à moda de Heráclito (não se pode entrar no mesmo rio duas vezes etc. etc.). Se Woody Allen ecoa Dostoiévski, Leone, para mim, ressoa Sêneca e Montaigne.

A mudança contínua é também um dos focos do filme. É interessante notar as adaptações que todos são obrigados a fazer por conta da vida que corre, como, emblematicamente, Fat Moe se ajustando ao seu comércio: restaurante judeu na década de 20, “speakeasy” na década de 30 e pacato bar nos anos 60. Nenhum dos personagens pôde se banhar no mesmo rio duas vezes. Nenhum de nós pode.

E há a fotografia espetacular: muitas cenas são magníficas. Noodles entrando por uma porta e voltando, muitos anos depois, ao som de “Yesterday”. O velho Noodles se transformando no jovem que olha Deborah dançar (a dança claramente inspirada nas bailarinas de Degas) — aqui, um perfeito e sublime momento que, para muitos, é uma das grandes cenas do cinema: a combinação entre a melancolia nos olhos do velho Noodles (e depois o espanto nos do jovem), a música de fundo e a fotografia da dança, com o tule branco de Deborah entre os sacos também brancos de farinha. Há mais cenas memoráveis: aquele momento fugaz de pura amizade e alegria eufórica dos cinco amigos, com a “Manhattan Bridge” ao fundo, o qual será desfeito logo em seguida pelo assassinato de Domenic, que não consegue fugir do assassino e assim se explica ao transtornado Noodles antes de dar o último suspiro: “Eu escorreguei” (a sonoridade em inglês é melhor: “I slipped”). Gosto da cena porque também tenho escorregado muito vida afora, caros leitores, e sempre é bom poder dizer “eu escorreguei” (eu escorreguei, R.). Outras cenas são carregadas de humor ou drama. O garoto dividido entre o doce e a prostituta (infância/mundo adulto). A cena em que a jovem Deborah fecha a porta para Noodles e Max, que estão levando uma sova de capangas do famoso Bugsy (Deborah é a clara oposição a Max, que precisa que ela se afaste para dominar Noodles por completo. Nessa cena, o destino de Noodles está formado: ele pertence ao mundo de Max e não ao de Deborah. Os olhos de Jennifer Connelly — sempre os olhos —, quando também se decide a não abrir a porta para Noodles, mostram o quanto a vida, mesmo compósita, pode ser definida num único momento). O reencontro do envelhecido Noodles com Deborah, e a visão que ele tem do filho de Max, momento no qual conseguimos amarrar as pontas soltas e entender a traição que ele sofreu. O confronto entre Noodles e Max/Bailey, quando Max lhe mostra o relógio que furtou no dia em que se conheceram e Noodles se aferra ao passado: “Muitos anos atrás eu tive um amigo, um amigo querido. Eu o delatei para salvar a sua vida, mas ele morreu. Foi uma grande amizade. Não deu certo para ele, não deu certo para mim” (prestem atenção mais uma vez nos olhos de Robert de Niro, porque aqui ele finalmente deixa de pertencer a Max e a Deborah).

Quando o filme se encerra, passamos a carregar conosco a suprema autoconfiança da jovem Deborah, a melancolia de Noodles, a energia enlouquecida de Max, as duas traições: de Noodles, que trai Max por amor, e de Max, que trai Noodles por ambição e ganância. Tudo ressoa em nós e vivemos vicariamente essas sensações.

Não gosto, porém, do final enigmático, apesar de reconhecer que talvez não fosse possível um final com alguma certeza peremptória neste filme de dubiedades. Alguns dizem que Noodles ri porque teria realmente planejado a morte dos amigos; outros pensam que todo o filme se passa em 1933 e Noodles, chapado de ópio, apenas relembra o passado e tem alucinações sobre o futuro. Para mim, chapadão está quem gosta de estragar filmes com interpretações desse tipo.

De qualquer modo, cada um que procure os mitos e arquétipos reproduzidos no filme ou se empenhe na análise de suas metáforas, do tipo “Max se destrói no lixo por ter vindo do lixo” ou “O lixo é a América””. Eu fico com a história de amor e de amizade e com o lamento do passado perdido: ao fim e ao cabo, todos nós, como Noodles, Max, Totônio Rodrigues e Tomásia (ah, mais um salto triplo carpado hermenêutico!), estaremos dormindo profundamente.

Parece que vão lançar a versão integral do filme, com mais 40 minutos adicionados aos 229 do DVD atualmente no mercado (houve uma infame versão de 139 minutos em ordem cronológica). A “première”, dizem, será no Festival de Cannes de 2012. Bom, muito bom. Aguardo ansiosamente. Mas como sempre volto aos meus velhos gostos e hábitos (que descrevi ali atrás), acho que ficaria soberba uma versão com Pernalonga como Noodles, Patolino como Max e Hortelino Troca-Letras no papel de Fat Moe. Que tal?

Enfim, o fim. Como sempre, escrevi muito: é hora de encerrar. Não sei se disse tudo o que queria. Vejamos: contei sobre as cenas de filmes que costumo rever, falei da minha preferência por desenhos animados e séries de TV, fiz uma digressão sobre cinefilia, expliquei como tive a ideia deste artigo, escolhi “Era Uma Vez na América” como o filme que mais me marcou, citei Horácio... Ah, sim, Horácio. Falta dizer isto: “Brevis esse laboro, obscurus fio”. Ao Google, caros leitores.

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