revista bula
POR EM 22/07/2012 ÀS 01:43 AM

O novo velho Woody

publicado em

“Para Roma com Amor” é mais desonesto e o mais embaraçosamente abominável filme de Woody Allen

Recentemente, em mesa redonda sobre o filme “Crimes e Pecados”, na Universidade Federal de Goiás, fui apresentado a todos pelo professor Lisandro Nogueira como “especialista em Woody Allen”. É claro que a intenção foi a melhor possível, mas confesso que aquilo me incomodou um pouco. Achei estranho, até então não havia me dado plena conta disso.

De minha parte, não me considero tanto. É verdade que vi todos os seus filmes pelo menos duas vezes. Também é verdade que alguns eu vi incontáveis vezes (como “Crimes e Pecados”, “Stardust Memories”, “Annie Hall”, “Manhattan, “Love and Death”, “Tiros na Broadway”, “Shadows and Fog”, “Hannah e Suas Irmãs”, “Interiores”, “Setembro”). Continua sendo verdade que li e ouvi todos os seus contos, crônicas e peças (“ouvi” porque há um audiobook com a coleção completa de sua prosa, lida por ele mesmo). Todas as suas biografias, entrevistas e um bocado da literatura crítica a seu respeito. E, ok, confesso, meu livro sobre ele está empacado até hoje.

“Especialista” talvez não seja o caso. Fixação mórbida, talvez? Seja lá o que for, será, antes de tudo, uma maldição. Como ele está vivo e produzindo, como sempre, um por ano, todo ano sou presenteado por uma grande decepção. Que só está piorando. Desde “Cassandra’s Dream”, em Londres, até hoje, o único bom exemplar produzido foi realizado justamente em Nova York. “Whatever Works” é um Woody puro sangue. O único. Todos os outros foram concessões a quem está pagando. Alguns chegaram a ser inacreditavelmente ruins. É o caso do último, “A Roma, com Amor”. Mas voltamos a este daqui a pouco.

“Cassandra’s Dream” e “Matchpoint” cometeram o pecado inaceitável de revisitar “Crimes e Pecados”. Apesar d’o primeiro ter sido um fracasso comercial e o segundo, um sucesso (“sucesso” pros padrões de Woody, ou seja, pelo menos não deu prejuízo), ambos foram tentativas em torno de um mesmo tema que, pra azar de seu criador, já tinha um padrão inalcançável  “Crimes e Pecados”, o melhor filme já realizado por alguém, a obra de arte mais perfeita já engendrada, o tratado de filosofia mais profundo que já existiu, de deixar Dostoiévski, seu inspirador, morrendo de inveja.

“Scoop” foi uma mistura de “A Maldição do Escorpião Jade”, com sua peça “The Light Bulb”, e pedaços de outros filmes e contos. Constrangedor. “Vicky Cristina Barcelona” compete com “Meia-Noite em Paris” o título de propaganda turística mais descarada. E a cena final, do tiro, é digna do cinema brasileiro da década de 70, ou seja, coisa de amador (o cinema brasileiro se traía em cenas de violência e que exigiam um pouquinho que fosse de efeito especial). Alguém disse, se não me engano Luís Fernando Veríssimo, que Woody deve ter escrito o roteiro de forma displicente, com um notebook no colo (se ele usasse notebook). “Meia-Noite em Paris”, com o batido tema do bloqueio de escritor (vide sua peça “The Writer’s Block”, os filmes “Tiros na Broadway”, “Desconstruindo Harry”, “Celebridade” e alguns contos), é o mais desonesto em termos de propaganda descarada e enganosa. Reconheço, entretanto, que tem seu charme, particularmente na cena em que o protagonista dá a ideia do filme “O Anjo Exterminador” a Buñuel. Apesar de trabalhar com os clichês associados aos escritores e artistas famosos (o que só ajuda a reforçar a o carimbo que Woody tem para alguns críticos, de Sophomore Philosopher).

Mas o pior de todos, o mais desonesto, o mais embaraçosamente abominável foi esse último. “Para Roma com Amor” não é somente uma propaganda turística descarada (não posso dizer — ainda — enganosa pois nunca estive lá). Está certo que um homem, por mais genial que seja, por mais original, a fonte seca com os anos. Está certo também que todos temos uns temas que nos são caros, que a eles sempre voltamos. Está certo que Woody já fez isso outras vezes.  Mas dessa vez ele exagerou.  

Pra começo de conversa, que diabos é isso de quatro estórias que não se encontram? É seu “Decamerão”, dizem. “Decamerão” coisa nenhuma! É incompetência mesmo. Ou senescência. Isso para alguém que já conseguiu fazer, várias vezes, de forma brilhante, estórias paralelas se encontrarem (o exemplo mais perfeito sendo, claro, “Crimes e Pecados”) é deprimente. Não seria tão ruim se cada estória não fosse plágio de algum filme e/ou peça, conto seu. Não há outra palavra, é plágio mesmo. Particularmente no caso da estória de Roberto Benigni e a de Alec Baldwin, respectivamente “Celebrity” e “Anything Else”. Sendo que os próprios “Celebrity”e “Anything Else” também já eram retornos a temas abordados antes, mais de uma vez, só que de forma mais sutil, mais rica.

Os outros dois são menos descarados. O empresário musical (Woody) é o turista americano (Woody ) de “Don’t Drink the Water”, mas o tema (empresário obstinado com clientes originais) teve seu momento magistral com “Broadway Danny Rose”.  A estória do casal de caipiras na cidade grande também já foi melhor trabalhada. A bobinha deslumbrada com o artista famoso, nem preciso dizer, está um zilhão de vezes melhor na pele de Mia Farrow, em “The Purple Rose of Cairo”. Marcelo Costa, do site www.screamyell.com.br publicou uma ótima resenha no caderno Cultural do “Jornal Opção” dizendo que esta estorinha é baseada em “Abismo de um Sonho”, de Fellini. Eu até tenho o DVD desse filme, mas confesso que não vi ainda (comecei certa vez, parei, não me lembro do motivo).

Pelo visto, acabei por me tornar um personagem de “Stardust Memories”, aqueles chatos que ficavam pedindo pra ele “voltar a fazer filmes engraçados”. Só que no meu caso eu não me iludo, ele não voltará a fazer os filmes que eu quero, engraçados ou não. A fonte secou. Mas, ao contrário de Marcelo Costa, apesar de tudo, não acho que “Para Roma com Amor” seja “dispensável”. A despeito de toda essa minha malhação, ainda espero ansioso todo ano um filme dele. Sentirei imensa falta quando ele se for. É um gênio. E eu tenho a honra de ter vivido na mesma época.

PS: Ele está com uma ptose (pálpebra caída) no olho esquerdo e, tive a impressão, algum XT (olho desviado pra fora). Pode ser que ele esteja com uma baixa visual importante. Estará dirigindo no escuro?

PS 2: Vi agora “Abismo de um Sonho”. Maravilhoso! E Marcelo Costa tem razão.

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