revista bula
POR EM 08/08/2012 ÀS 08:57 PM

O Falcão Maltês, de John Huston

publicado em

O cinema noir criou uma nova estética fílmica. A definição, criada a partir do idioma francês para definir o gênero do "filme preto”, retrata o submundo das grandes cidades e como os personagens complexos intercalam boas e más qualidades distribuídas ao longo de um roteiro sofisticado cheio de reviravoltas. Outra característica noir é o uso simbólico de sombras. 

O filme “O Falcão Maltês”, de John Huston —  citado por muitos como o criador do gênero noir — guarda para o final o teatro de espectros, como exemplo, um elevador que lança sombras em forma de grades de cadeia no rosto da dissimulada heroína.  

Em uma tendência completamente inovadora para o gênero, o filme é feito em cenários impecavelmente arrumados, como quartos de hotéis e escritórios, muito diferente da decadência apresentada nos noir seguintes, como “Até a Vista, Querida”, de 1944,  e “À Beira do Abismo”, de 1946. O excelente protagonista, Humphrey Bogart, evolui de um cruel vilão para o durão herói na pele de Sam Spade, um detetive particular de São Francisco contratado para solucionar um misterioso caso. Sua personagem cheira a genialidade investigativa misturada a charlatanismo. Perceba a apresentação das personagens, aqui

No meio da história, Spade se vê obrigado a auxiliar na conclusão de outro mistério, o assassinado de seu parceiro — não tão amado assim – e correr atrás de uma trupe de aventureiros traiçoeiros. 

Todos eles estão empenhados em encontrar o “falcão maltês”, peça descrita no letreiro inicial do filme como relíquia valiosíssima de ouro maciço cravejada de pedras preciosas e, há muito, desaparecido depois do furto a uma galé espanhola que o transportava há centenas de anos. 

O pássaro magnífico é o “MacGuffin” perfeito para levar todas as personagens vis ao encontro inevitável com o erro. Entenda a função dele, aqui

Por considerar todos a sua volta como tacanhos e gananciosos como eles próprios, a jornada em busca do objeto com alto valor histórico — e principalmente, financeiro — se transforma em uma busca implacável, tão difícil de solucionar quanto um algoritmo matemático. Cada mudança na variável representará um desfecho completamente diferente. 

Se Humphrey Bogart passa, a cada minuto, a fama de um embusteiro durão, a atriz Mary Astor parece mais uma singela senhora da década de 1950 com terninhos e cabelos comportadíssimos. Ao contrário da fama de famme fatale que acumulara ao longo dos anos como pin-up de companhias de cinema, Astor deixa a tendência artística sexualmente adolescente para interpretar uma mulher que exibe seus dotes quando lhe convém e que, sedutoramente, sabe jogar e tirar cartas da manga. Veja, parte do ludíbrio dela, aqui

Há ainda participações esporádicas memoráveis (Sydney Greenstreet como o obeso, tagarela e narcisista Kasper Gutman e o já famoso à época Peter Lorre, um bem educado, mas resmungão farsante chamado Joel Cairo). Juntos, ambos foram apelidados pela plateia e crítica daquele tempo como o “gordo e o magro” do cinema noir. 

O diretor Huston — que já havia labutado no duro ofício de escritor antes de se posicionar por detrás das câmeras — resolveu, portanto, se esbaldar na fonte do romance de detetives de Dashiell Hammett. 

O texto intrigante já havia sustentado dois filmes anteriores, sendo eles o homônimo de 1931 — com Ricardo Cortez como Sam Spade — e o de 1935 — com Warren William no papel principal de “Satan met a lady”. Entretanto, nenhum é tão emblemático ou contém tantas falas do romance quanto “O Falcão Maltês”. 

A história de Hammett é  melhorada com a inserção do que o cinema norte-americano faz com primazia desde meados do último século: inserir fortes elementos de realismo para prender o espectador à trama.   

Nas histórias de mistério que fizeram — e fazem — parte do imaginário popular americano, perdem espaço as personagens eivadas como “superinvestigadores” para dar lugar aos profissionais detetivescos de verdade. O Spade interpretado por Humphrey Bogart é tão vívido que, ao espectador, parece que pode ser encontrado facilmente em qualquer anúncio de jornal. 

O livro base — que é usado quase na integra, desde o cerne do enredo até as falas dos coadjuvantes — também se parece com um bizarro teatro jacobiano. Cheio de referencias a tramas doentias, o “MacGuffin” não passa de uma farsa, bem como toda a clássica sequência em que Spade admite amar a assassina, e ainda assim, deixá-la ir para o xadrez. 

“O Falcão Maltês” é um filme referência que inaugurou a era noir do cinema e, ainda assim, reaproveitando os elementos reais do cinema policial, como a dezenas de filmes protagonizados por James Cagney no futuro, tais como: “Heróis Esquecidos”, “Inimigos Públicos”, “Fúria Sanguinária”, “Anjos de Cara Suja”, “G-Man” — e até o histórico — “Rua 13 Madeleine”. 

Além disso, é um filme para entender o aprimoramento do diretor John Huston até obras raras como “O Tesouro de Sierra Madre”, em 1948; “O Segredo das Joias”, em 1950; e, muitos anos depois, “Cidade das Ilusões”. 

“O Falcão Maltês” é um filme pioneiro, tanto em estética, quanto na adaptação de roteiro.  

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2013 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio