revista bula
POR EM 19/12/2012 ÀS 09:28 PM

John Ford e o renascimento de uma nação

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Trata-se da América clássica, dos founders fathers, que se partiu na Guerra da Sec­essão e que em dois filmes de John Ford é recosturada por meio de princípios como a tolerância, a justiça, a paz e a coragem. Praticamente um é refilmagem do outro. Ambos têm como protagonista o judge priest (personagem do escritor Irving S. Cobb) disputando uma eleição em Kentuky, terra de linchadores e de intolerância racial. O primeiro é de 1935 e tem como título o próprio juiz, “Judge Priest”, e o segundo de 1953, com título tirado de uma canção do Sul, “O Sol Brilha” (The Sun Shines Bright).

Fiquei apavorado com a campanha difamatória contra John Ford por parte dos pseudo politicamente corretos na rede, que o acusam de tirano, invejoso e racista. É próprio da mediocridade tentar destruir o gênio, que a desmoraliza. Felizmente alguns ensaístas consideram “O Sol Brilha” mais uma obra-prima do grande cineasta. Confirmei vendo o drama de uma jovem adotada e alvo do desprezo social recuperando sua identidade e sua honra graças à ação enérgica do juiz e de todos que o admiram e seguem seus passos. Em “Judge Priest”, o foco está mais no pai da moça adotada, um herói do sul que ficou livre depois de lutar na guerra e consegue escapar de uma acusação de agressão numa briga de bar.

É preciso recosturar a nação eliminando a postura de derrotados e vencedores. Os confederados não admitem que foram batidos nas batalhas heroicas onde perderam seus melhores filhos. Velhos, alcoólatras, desempregados, vivem de lembranças e da celebração de seus feitos. O juiz faz parte desse grupo e corre o risco, junto com alguns companheiros, de perder sua fonte de renda se for derrotado por um hipócrita pomposo e demagogo, que o acusa de relapso e irresponsável. Temos então o prato feito das aparências a serviço da má fé, que precisam ser confrontadas pela legitimidade do senso de justiça humana, com todos os seus defeitos, menos o de tentar usar a lei para a discriminação.

A presença poderosa dos negros nos dois filmes foi acusada de um equívoco de Ford, como se o diretor compactuasse com a escravidão e retratasse os negros cordatos e felizes com seus senhores, expressando-se por meio de gestos caricaturais. Para recosturar a nação, era preciso mostrar a inclusão dos negros na vida pacífica. A perseguição e os maus tratos terão fim se houver justiça. O preconceito existe como fator histórico, e os negros no filme se comportam como caricaturas, assim como os veteranos brancos de guerra. Ford trabalha com estereótipos e os desveste para mostrar o que há de precioso neles. O adolescente que foi salvo dos linchadores pelo juiz mostra-se agradecido, o ex-escravo que tenta ganhar uns trocados fazendo transporte de gente, o tio preocupado com o futuro do sobrinho, todos são personagens negros de um John Ford que expressa o sul da América com todos os seus defeitos e qualidades.

Outra obra-prima de Ford, “Rastros de Ódio”, de 1956, também é tratada de forma indecorosa por alguns resenhistas, que se locupletam sobre o ódio racial de Ethan Edwars, interpretado por John Wayne. Não conseguem explicar ou tolerar a cena final em que Ethan aceita a sobrinha que virou apache. “Va­mos para casa, Debbie”, ou seja, o ódio é substituído pela to­lerância. Em “O Sol Bri­lha”, a cena tocante é a do funeral da mãe da moça adotada, cacifado pelas prostitutas da cidade. A citação bíblica é a de Maria Madalena. Não se trata de perdoar, o que implicaria uma ascendência sobre o outro, mas de reconhecer que não temos condições de julgar e por isso libertamos nosso semelhante da culpa e do crime.

John Ford é primus inter pares, cineasta maior entre os maiores diretores de cinema. Merece respeito. Não deu colher de chá para a mediocridade e a falsidade. É legítimo e emocionante. O final apoteótico nos dois filmes faz chorar as pedras. O novo pai fundador, eleito democraticamente pelo voto direto, que derrotou a demagogia, o juiz da inclusão e da coragem, protagonista do renascimento de uma nação, saúda todos os segmentos sociais que prestam homenagem desfilando na sua porta em uniforme de gala e no ritmo da sintonia e do garbo: os ianques e os confederados, os veteranos e os recrutas, os oficiais e os soldados, as mulheres e as bandeiras, o gris e o azul, as armas e as bandas. Ele vibra o chapéu no ar e está em prantos. Depois se retira para dentro de casa a passo lento e ao som dos coros da nação recosturada, como John Wayne em “Rastros de Ódio”, numa tomada célebre e canônica do cinema fordiano.

A cultura guerreira é o convívio que trabalha uma ferida em busca da cicatrização. É a religião dos camaradas de luta, a sinceridade a toda prova, a transparência absoluta. É bom que aprendam com o velho Ford com quantas qualidades se fazem seus filmes épicos, perfeitos e maravilhosos.

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