revista bula
POR EM 24/09/2012 ÀS 08:36 PM

Intocáveis, de Oli­vier Naka­che e É­ric To­le­­dano

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“Intocáveis” (In­tou­chables), de Oli­vier Naka­che e É­ric To­le­­dano, foi o fenômeno absoluto de bilheteria na França em 2011, um dos filmes mais vistos na história do cinema francês, levando às salas de exibição mais de 20 milhões de pessoas. Garantia de sucesso no resto do mundo? Não necessariamente. Fenômenos comerciais, como “A Riviera Não É Aqui” (2008) e “Os Visitantes” (1993), passaram quase batidos em outros países. Os americanos, por exemplo, preferiram assistir ao horrível remake hollywoodiano de “Os Visitantes” a ver o original.

Com “Intocáveis”, a história é outra. Talvez por conta do gênero cinematográfico. Comédias francesas sempre foram melhores do que filmes de ação. “In­tocáveis” é uma comédia? A julgar apenas pela sinopse do filme a resposta é não. Afinal, no centro da história — baseada em fatos reais — está um tetraplégico. Vitimado por um acidente com parapente, ele se vê obrigado a contratar um cuidador, que vem a ser um vigarista de primeira. Digamos então que o filme está mais para uma tragicomédia do que comédia. A verdade é que “Intocáveis” apresenta uma versão otimista sobre as limitações e desafios vividos pelos dois personagens principais e é, ao mesmo tempo, humanista, tocante e muito engraçado. Tudo bem que a produção tenha uma vocação para o politicamente incorreto, mas tem o mérito de ser conduzida num tom surpreendentemente justo.

Não conheço ninguém que tenha assistido ao filme e feito um comentário negativo. Elogios não faltam e foi essa propaganda boca-a-boca que levou a produção a se transformar em campeã de bilheteria. Todos se encantam com a história de Philippe (François Cluzet, excelente). Ele é o aristocrata parisiense que fica tetraplégico depois de um acidente. Sua condição exige que ele tenha um cuidador quase em tempo integral, mas, por conta de seu temperamento explosivo, os contratados duram muito pouco tempo. Até que entra em cena Driss (Omar Sy, vencedor do César de melhor ator por seu desempenho), um jovem de origem senegalesa que vive na periferia da capital francesa. Driss, na realidade quer apenas um atestado para solicitar auxílio desemprego do governo. O jovem é recém-saído da prisão e tem uma conduta no mínimo suspeita. Mesmo assim, Philippe o contrata e os dois passam a desenvolver um vínculo forte, marcado pela soma de valores e descobertas valiosas mediante conflitos de dois mundos distintos.

Logo na primeira cena os espectadores são levados à adrenalina com a dupla. Driss está dirigindo um automóvel de luxo velozmente e no banco ao lado está Philippe. Os amigos são perseguidos pela polícia e nesta cena percebe-se a profundidade da amizade entre os dois. A cena apenas é um quadro introdutório que será no desenrolar da história.

A falta de experiência de Driss no trato de pessoas com deficiência é compensada pela alegria de viver, a espontaneidade e a rebeldia do cuidador. Assim ele faz com que seu patrão saia da posição de vítima e repense sua vida. O encontro também acaba mexendo com os valores de Driss, que passa a prestar mais atenção a sua família e a assumir responsabilidades antes desimportantes para ele.

O que mais chama a atenção no filme é a ênfase dada a superação das fraquezas de cada um por meio da amizade. No gênero de drama, o filme poderia enfatizar o sofrimento de um homem condenado à cadeira de rodas e de um pobre sem teto. Ao invés disso, Philippe proporciona um lar, trabalho, família e condições para uma vida mais digna a Driss, enquanto este auxilia com bom humor no resgate de sonhos e da autoconfiança que o Philippe perdeu após seu acidente.

As cenas cheias de humor e diversão servem para abordar o lado humano dos dois protagonistas. Philippe escreva cartas de amor platônicas para uma correspondente e é encorajado por Driss a ligar e tornar seu amor re­al. Driss leva o milionário para passear ao redor da orla na ma­drugada, um gesto altruísta para com alguém que tem seus movimentos e dias limitados a quatro paredes de sua mansão. Esses e outros fatos emocionam e dão uma lição de como pequenas atitudes e trocas sinceras de experiências podem fortalecer e desenvolver grandes amizades.

O filme tem ainda o mérito de funcionar como uma excelentre crônica parisiense. Um retrato da França contemporânea, multicultural e em processo de transformação por conta da forte presença de imigrantes no país. Tudo bem que os personagens do filme não saiam da esfera da caricatura, que a empatia entre os dois extremos que o filme desperta não resista a um choque de realidade. E que ele desfile as melhores caricaturas de anedotas e personagens que a gente vê e escuta todos os dias. Quando a piada é boa, é possível rir toda vez que é contada. O fato, na ver­dade não diminui a força do filme que está mais para a diversão do que para análises sociológicas. E como diversão, funciona bem à beça.

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