revista bula
POR EM 25/09/2012 ÀS 03:40 PM

Especial cinema argentino

publicado em

Filmes argentinos mostram como nossos vizinhos souberam enxergar-se em plena crise, expressando uma identidade nacional que combina tradição e ruptura por meio de obras primorosas que encantam o mundo

“O Segredo dos Se­us Olhos”, de Juan José Cam­­panella, é a composição de uma peça clássica em três movimentos. É um filme de amor dentro dos parâmetros conhecidos, ou seja, um casal próximo demais que não consegue se tocar durante o filme todo e só encontra uma solução no final. É um filme policial seguindo os trilhos do filme noir, onde um investigador solitário procura saber algo que todos querem esconder. E é um filme político, na linhagem das grandes obras do gênero, pois denuncia a origem da injustiça nas tramas do poder, e não na natureza humana.

A demonstração de força de um assassino estuprador diante de dois funcionários da Justiça, num elevador fechado, é a cena mais assustadora do filme. O bandido foi descoberto numa investigação criminal, mas está solto graças aos bons serviços de deduragem para a ditadura argentina. Quem treme não é o criminoso, mas as pessoas pagas pelo Estado para fazer valer a lei. Essa é a fonte da tragédia: o país condena as vítimas e estimula os algozes. O resultado é uma sociedade amordaçada, amores frustrados, casamentos partidos, processos arquivados.

Essa três viagens estão imbricadas de tal forma que não se distinguem os limites de cada gênero funcionando na trama. Assim como não existe hegemonia de um vetor cinematográfico sobre o outro, não existe também o vício fatal de focar tudo num só protagonista. Mesmo que a sobriedade, a seriedade, a gravidade e o carisma desse ator fundamental que é Ricardo Darin, no papel do investigador Espósito, costure todo o filme, ao lado da performance avassaladora de Soledad Vilamil no papel de sua chefe Irene, cada personagem ganha status de protagonista no carrossel de Campanella, que gira o prato diante da câmara e nos revela o quanto vale o indivíduo numa sociedade onde ele costuma sumir.

Guillermo Francella no papel do companheiro de Espósito, o bêbado Sandoval, é o “escada” que toma as rédeas da trama quando decifra o código do esconderijo do assassino. É o companheiro desesperado e fiel que assume a identidade do amigo tanto para escapar da vida insuportável como para livrar o outro de um assassinato. Pablo Rago como o viúvo Morales é o alter ego de Es­pósito quando este se aposenta e resolve escrever um romance sobre o caso da bela esposa violentada. Assume o comando várias vezes no filme, quando desperta em Darin a intensidade da sua concentração, em momentos de grandeza inigualável no cinema contemporâneo.

Javier Gondino como o criminoso Gómez é o bruto que, por vaidade, se entrega na hora do interrogatório, quando Irene, de propósito, faz pouco de sua macheza. Ele se trai quando mostra, nas fotos, sua obsessão pela vítima, pois os olhos falam e fazem Justiça quando tudo mais falha. José Luis Gioia, como o vingativo Inspetor Bañez, o corrupto que se beneficia da ditadura, assume a cara monstruosa da repressão no momento em que mais se precisava da lei.

Cada momento do filme, que se desdobra em três caminhos entrelaçados, ganha assim a riqueza de personagens diferentes, assumidos por grandes intérpretes. Os olhos são a pista que atrai o investigador, pois é a radicalidade do amor revelada no rosto do viúvo que o leva a perseguir o assunto até descobrir tudo sobre si mesmo.

Mas devemos abrir um claro para falar mais de Darin. Notamos como os mais notórios atores de hoje transparecem o esforço que fazem para trabalhar. De Niro extrai suas expressões no fórceps. Brad Pitt tem valor, mas basta se distrair um pouco para sua massa física se diluir na tela. Ben Affleck é um dos milhares bonecos de Hollywood que somem junto com o que faz. Phillip Seymour Hoffman é brilhante, mas deixa a afetação tomar conta dos seus papéis.

Em contrapartida, vejam Ri­cardo Darin neste e nos outros filmes, como “Nove Rainhas” ou “O Filho da Noiva”. Parece fácil fazer o que faz, mas tudo é fruto de vocação, talento e intensa elaboração. Quando medita, quando vê, quando aguarda, quando está indeciso e, especialmente, quando se ilumina, ficamos em frente ao grande ator do nosso tempo. É difícil de provar essa afirmação, num universo que tem Al Pacino entre outras estrelas. Mas voto em Darin. Nunca decepciona e sempre comparece com o melhor de sua arte. Não é pouco, neste mundo vazio que clama por espíritos habitados.

Solidão não é obra do acaso

Família é nação. Quando o núcleo familiar se dispersa, as fronteiras são invadidas, a soberania se esvai e o país pode desaparecer. Hoje, não existe nacionalidade sem desconforto. Violência, miséria, corrupção, migração, guerra desestabilizam a cidadania expulsa de suas origens. É preciso resgatá-las no continente desconhecido, ou livrar-se da carga do passado que engessa as relações e impede a renovação familiar. Esse contraponto, entre o jo­vem chinês que vai à procura do patriarca para poder ter um lugar no mundo, já que seu projeto de casar foi interrompido, e o argentino de meia idade, que usa a orfandade para fugir do casamento, faz de “Um Conto Chinês”, de Sebastián Borensztein, uma obra intensa.

O filme confirma o fato de o cinema argentino ser uma joia da cultura contemporânea, uma arte em busca da serenidade. Que procura costurar a nação despedaçada intervindo onde interessa: no coração tornado seco que um dia, por força do destino e da solidariedade vocacionada, aflora para colocar as coisas no lugar. Nele, Ricardo Darin faz o papel do solteirão solitário e rabugento, Muriel Santa Ana a mu­lher que o ama e tenta conquistá-lo e Ignacio Huang o mi­grante chinês que foge de uma tragédia pessoal no seu país e fica perdido na viagem à Argentina.

O personagem de Darin lembra o protagonista de “O Homem do Prego”, de Sidney Lumet, e que foi interpretado magistralmente por Rod Steiger. Sujeito metódico e irascível que trata mal a freguesia e que, ao contrário do filme de Lumet, tem um coração de ouro e é isso que o salva. Os pregos, as dobradiças, os metais de sua casa de ferragens representam a secura interior de alguém entregue a uma situação bizarra, a de se tornar desagradável para fornecedores e amigos. Órfão, o sujeito cresce mitificando os pais e se recusa a formar uma família, já que teve a sua destroçada. Mas seu conforto aparente será demolido pela presença do jovem migrante.

A aparição súbita do chinês no momento em que Darin curtia os aviões vira sua vida. Ele é empurrado para um convívio que detesta, mas aprende que essa busca por uma família que se perdeu desmascara as rotinas obsessivas que o aprisionam em horários rígidos para dormir e acordar, em refeições idênticas todos os dias, e o seu esforço para permanecer só com sua coleção de histórias bizarras. A fonte desse hábito está na guerra das Malvinas, tratada aqui com o desencanto e a dignidade merecidas, à altura do sofrimento do povo na época (1982).

A falta de sentido da vida está no fato de a guerra entre Argentina e Inglaterra ser um evento tão bizarro quanto a morte do casal que cai no precipício em pleno ato sexual devido ao entusiasmo e ao descuido provocados pelo êxtase. Ou a queda de uma vaca de um avião que interrompe uma sessão de noivado. Mas na vasta coleção de recortes de jornal, uma história está ligada ao migrante que dele se aproximou por obra do acaso. A coincidência aproxima os dois desenraizados e leva a um desfecho memorável .

A viagem do protagonista interpretado por Darin é de Buenos Aires em direção ao interior do país, ou seja, de sua aparência, de sua superfície gasta pela política e a economia destroçada para a grandeza da tradição e do prazer. Pular a cerca que o separa da felicidade é o gesto supremo de alguém marcado pelo sofrimento e que tem um olhar que mata, segundo a apaixonada admiradora, na mais contundente declaração de amor do cinema atual.

O diretor Sebastián Borensztein (nascido em 1963), que está na mesma faixa de idade de Darin (1957), é artista premiadíssimo, principalmente na televisão. Nos leva de uma situação tristemente hilária para a emoção avassaladora do reencontro de personagens com seus destinos. Nos faz rir, nos faz chorar. Faz do detalhe a base da narrativa: cada pormenor se sintoniza com vários outros, para que as imagens confluam para o poder crescente de encantamento do roteiro. A vaca, o avião, a foto, assim como o prato típico ou o doce que identificam uma nação, são representações dos passos das pessoas girando num mundo aparentemente sem sentido.

O cinema amarra tudo ao coração que percebe poeticamente a grandeza na escassez e a glória no que parece ser um fracasso sem fim.

Mulher é cinema

Implicaram com “La Señal” (“O Sinal”), dirigido pelo Ricardo Darín (em parceria com Martin Hodara), ator fundamental do cinema argentino contemporâneo, que brilha em vários filmes de Juan José Cam­panella. Considerado confuso em sua trama onde entram todos os elementos clássicos do noir, o filme precisa ser visto, para ser entendido, na sua natureza, ou seja, uma obra sobre cinema. Se existem dúvidas sobre a validade desse enfoque que costura meus ensaios, neste não deve pairar nenhuma, pois em cada segundo está explícito o foco narrativo: tudo aqui é sobre a sétima arte.

Nem precisaria dizer, pois está na cara dos atores, dividida pela linha de sombra entre claro e escuro, nos cenários, personagens, situações, sequências, imagens, diálogos, que brotam diretamente daquele tipo de filme que era considerado de segunda categoria, por serem pobres na produção em preto e branco e que viraram cult pela grandeza que atingiram, se transformando em momentos ines­quecíveis. Pode-se dizer que “O Sinal” é o excesso dessa evidência, desse resgate, dessa memória cinematográfica em tempos bicudos, pois hoje o que se faz é destruir o que foi feito, para no seu lugar ser entronizado um monumento ao obscurantismo.

Não foi a vanguarda que fez esse serviço, foi a própria indústria, que devorou as transgressões e desconstruiu a herança outorgada pela maestria de grandes cineastas. “O Sinal” poderia ser visto como uma volta ao passado, um anacronismo, um trabalho fake em todos os sentidos, pois o que aparece não é a América da depressão ou dos gloriosos anos 1940 e 50, nem as personagens parecem verossímeis nessa Buenos Aires de 1952, quando Juan Perón estava no poder e Evita, sua mulher, agonizava lentamente en­quanto a multidão em desespero rezava pela sua impossível recuperação. Mas, como é sobre cinema, o filme dribla essa má vontade da percepção, e se impõe como um trabalho de ruptura contra o eterno presente a que fomos condenados.

“A mulher pesa 40 quilos e não a deixam morrer” diz o detetive Corvalán, interpretado por Ricardo Darín, referindo-se a Evita. A primeira dama argentina é o rádio, a mulher a ser evitada pelo pragmático profissional que ganha a vida fotografando pequenos crimes domésticos, traições em sua maioria. Cor­valán não quer ser traído pelas ilusões que tomam conta da política e da sociedade. Ao contrário de seu sócio (interpretado por Diego Peretti) do escritório de detetives, que é engajado na partido do governo e considera o mito Evita como uma coluna do templo nacional, Corvalán quer distância desse circo, e também das armadilhas da tradição, outra ilusão encarnada pelo pai doente tocador de bandoneon, aposentado de uma atividade sinistra, talvez a de matador, talvez a de detetive particular.

Afastando-se de tudo o que lhe parece falso, Corvalán procura manter uma relacionamento frio com a amiga, professora de piano, com quem vai para a cama e que o trai com seus alunos. Amargando o impacto dessa revelação, quando flagra o namorado da amante numa volta pela sua rua, Corvalán não tem nem o consolo da ilusão do jogo, já que aposta nos cavalos errados e nada ganha com os números da loteria. É nesse quadro de decepção que vê o elemento obrigatório das histórias de detetive: a mulher fatal (interpretada por Julieta Diaz), que o contrata para uma missão misteriosa e complicada. Ela é aquele sinal que muda tudo e faz com que os protagonistas se comportem de uma outra maneira.

Essa é sua perdição. Não entenderam como um sujeito pragmático, lúcido e que não se deixava impregnar pelas ilusões, pode ter caído de maneira tão completa nas tramas da fêmea que o enganava e o levou para um ciclo de conflitos extremos, com o desfecho previsível. Acenou para ele com a mais radical das ilusões, o dinheiro farto e acessível num cofre do mafiosos. Para lá se dirigiu Corvalán, pois estava condenado na opção que fez. “Ninguém me obrigou a nada” disse, quando se viu perdido. Ele foi atraído pela penumbra de um cinema, onde deu o primeiro beijo na sua cliente, ao som da música envolvente, dessas de filme de matiné, que embalam o sonho, mas oferecem inapelavelmente a ressaca na hora de sair da sala.

Eis uma composição de elementos cinematográficos que se oferecem ao espectador como uma charada e deve ser decifrada pelo que é, filme sobre cinema. Podemos escapar de tudo, ser donos de nossas vidas, cumprir formalmente nossos destinos, formatar hábitos, ficar distante das armadilhas, já que estamos preparados e usamos esses chapéus, vestimos esses ternos, dirigimos essas carros lustrosos, por ruas chuvosas e acendemos um cigarro atrás do outro. Mas não devemos cair na tentação de entrar numa sala de cinema, pois esse será a tragédia mais prazerosa que poderá nos acontecer, quando enfim nos livramos da casca dessa realidade insuportável e morremos nos braços de um amor inatingível.

O que fizemos de nossas vidas, prezado e brilhante Ricardo Darin? Tu, que és do ramo, sabe como ninguém. Fomos ao cinema.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2017 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio