revista bula
POR EM 19/09/2012 ÀS 08:10 PM

A ética de Don Corleone

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É plausível considerar que as duas narrativas iniciais de Francis Ford Cop­pola sobre a família Corle­one estão entre as melhores criações cinematográficas do mundo. O plano detalhe so­bre a mão do “Poderoso Pa­drinho” que afana um gato enquanto ele ouve atentamente as queixas da comunidade ítalo-americana, denotam, na mesma mesa, dois planos do enredo sofisticado do livro de Mario Puzo: o senso de justiça na terra nova e a ética brutal da máfia.

As tomadas frontais que se sucedem no mal iluminado escritório de Vito Corleone são a materialização visual dos conceitos filosóficos da teoria base de Emmanuel Kant sobre a razão prática e a liberdade. Usando a condição representativa de patriarca e núcleo da célula familiar que ele considera vital à continuidade moral e material de sua “profissão”, Vito transita – ora por um ou pelo outro – nas três interpretações do imperativo categórico.

Quando dá lições aos filhos que se desprendem dos caminhos de sua fundação normativa, Vito crê que, mantendo todos sobre seu raio de influência, eles trilharão a lei universal do poder. É assim com Santino Sonny (James Caan), uma das esperanças de Vito para restabelecer a paz entre as famílias sicilianas, e Michael Corleone (Al Pacino), o instruído oficial da Marinha que havia servido a América na guerra contra Hitler e Mussolini.

A intenção unificadora do patriarca é visível quando ele evita que uma foto familiar seja registrada sem a presença do “filho sucessor” e na virulência ao impedir que Sonny expresse sua opinião na presença de Sollozzo, o mafioso que oferece aos italianos a parceria no tráfico de drogas. “Nunca deixe que ninguém de fora da família saiba o que você está pensando”, diz ele.

O evento inicial do filme (o casamento da filha, Connie Corleone) é a vitrine que expõe a relação normativa que a família detém sobre a comunidade local, os políticos, a imprensa, a polícia (no caso o FBI, sintetizado por um policial que mostra um distintivo a Sonny e este lhe cospe no emblema) e a arrecadação dos cassinos, bingos e, posteriormente, o tráfico de entorpecentes.

Nesta gênesis, Don Corleone entrega sua axiologia. Ela é erguida, sobretudo, por respeito e temor. Eis a frase do protagonista para explicar sua condição moral ao pioneiro homem que aparece na tela louvando o “modo de vida americano”: “Eu não me lembro da última vez que você tenha me convidado para tomar um café em sua casa, mesmo minha mulher sendo madrinha da sua única filha. Mas agora você vem até mim e diz: Don Corleone faça justiça. Mas não pede com respeito, não oferece amizade. Você nem mesmo pensa em me chamar de Padrinho. Ao invés disso, você entra na minha casa, no dia do casamento de minha filha e me pede pra matar por dinheiro”.

Quando Vito é baleado por se abster de fornecer proteção política e policial ao cartel de drogas, cabe a Michael assumir o vácuo deixado pelo irmão Sonny, o desajeitado Fredo, e investigar o homem de confiança do pai, o advogado Tom Hagen (Robert Durval). Suspeita-se que ele é um agente duplo na guerra das máfias.

Michael segue a mesma trajetória do pai para vingar aqueles que atentaram, sucessivamente, contra a vida do chefe da família Corleone. A saraivada de tiros que atinge Vito enquanto ele compra frutas e a tensa tentativa de invasão ao hospital despertam em Michael Corleone o desejo de, ele próprio, seguir o imperativo prático de Kant que o pai lhe transmitia. É a forma que o primogênito tem para suceder o pai com dignidade.

Depois da vingança construída a sangue contra o policial e o mafioso das drogas Sollozzo, o exílio na Sicilia dá a Michael o senso binário que ele precisará para ocupar o trono do pai: o amor a família, a dor de perdê-la e a capacidade de confiar no próximo.

Veja como ele se expressa ao homem que fora fiel ao pai e a ele: “Eu confiaria a você toda a minha fortuna. Eu confiaria a você a minha vida e o bem-estar dos meus filhos. É inconcebível para mim que você alguma vez pensasse em me enganar ou em me trair. Todo o meu mundo, toda a minha fé em meu julgamento de caráter humano ruiriam por terra. Naturalmente tenho meus próprios apontamentos a respeito disso para que se algo me acontecer, os meus herdeiros saibam que você tem em seu poder alguma coisa que pertence a eles. Mas sei que, mesmo que eu não estivesse aqui neste mundo para guardar os interesses dos meus filhos, você seria fiel à necessidade deles”, diz Mi­chael a Tom.

Antes de assumir definitivamente os negócios da família Corleone, Michael ainda ouve de Vito de onde partiria os “atos de traição” daqueles que disputavam o tráfico de drogas e o controle dos cassinos de Nevada. Depois do pequeno neto ver o avô falecer enquanto brincavam no quintal, Michael tem que se batizar no sangue. E mentir para resguardar aqueles que ama. É a deontologia completa da máfia siciliana.

Notas Extrafilme

— Francis Ford Coppola não era a primeiro da linha de diretores que fariam o filme. O preferido era Sergio Leone, que optou por coordenar os trabalhos de “Era uma Vez na América”. Antes de Coppola, foram feitas ofertas a Peter Bogdanovich e Costas-Gravas.

— O próprio Coppola não aceitou a proposta de primeira. Sua preocupação era que um filme sobre a origem das máfias sicilianas mancharia seus antepassados italianos. Sua decisão para aceitar o trabalho foi baseada em criar uma “metáfora do capitalismo americano”.

— Marlon Brando também não era a opção principal para interpretar Don Corleone. O preferido era Ernest Borgnine, Coppola só conseguiu convencer os executivos da Paramount que Marlon era o nome do filme depois de assinar um termo em que ele se comprometia a receber salários menores e não atrasar o filme. O ator possuía fama de atrapalhar a entrega dos trabalhos. Marlon Brando recebeu um Oscar pelo papel, mas optou por não aceitá-lo.

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