revista bula
POR EM 02/02/2009 ÀS 05:35 PM

Vaidade e imortalidade matam. Leituras também

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Tratando-se de ficção, em todas as temáticas as solucionáticas não chegam nem aos pés das que o Dadá Maravilha apresentou no futebol. Ignoramos tudo a respeito de determinados assuntos — tempo, medo, solidão, vida, morte —, contudo não hesitamos em continuar poluindo as mentes e a Terra com montanhas e mais montanhas de volumes sobre eles

Vem aí um livro, bom até dizer chega, de arrebentar mesmo, posto que destinado a desfazer mitos e pulverizar ilusões. E com tiragens enormes e traduções simultâneas para mais de três dezenas de países, incluindo o Brasil — desde, claro, que tudo transcorra conforme o combinado, aliás de modo mais ou menos sigiloso, entre os maiores editores do mundo, na última Feira de Frankfurt. Pelo que o autor, o franco-haitiano Pierre Bélier, adiantou acerca desta obra em conclusão, em recente entrevista a uma revista francesa, talvez até pudesse ser o único livro digno de leitura — e, principalmente, de reflexão — não apenas durante o período de férias, seu Zé, mas no decurso de todo o 2009, já festivamente caluniado de Ano-Novo. Após exibir no alto da página uma linha solta dizendo “Quand l´homme trahit son véritable Être” (Quando o homem trai seu verdadeiro Ser), a entrevista do grande Bélier se abre como uma linda flor, cor rosa-choque, letras enormes, sesquipedais, com as corolas tomando a forma do seguinte título, igualmente chocante: VANITÉ ET “IMMORTALITÉ” TUENT. Tradução óbvia: VAIDADE E “IMORTALIDADE” MATAM. A seguir, aparece um “olho” (olho, em jornalismo, eu acredito que madame sabe o que seja) terrível, sinistro, esbugalhado, a dardejar esta advertência ao leitor: “La souffrance inexprimable de cette maladie est responsable d´un nombre de décès supérieur à celui que provoque le SIDA”. Calma, amigo monoglota, que já vou traduzir, e de forma bem simples: “O sofrimento inexprimível desta doença é responsável por um número de óbitos superior ao da Aids”.

Pierre Bélier, com efeito, parece coberto de razão quando, ao abordar sumariamente a etiologia da perversa enfermidade, afirma tratar-se de uma doença mental — como de resto todas as existentes ou por existir —, com um porém: ela se somatiza, isto é, atinge as funções orgânicas (o boneco do corpo) de forma espantosamente avassaladora e rápida, às vezes instantânea. Nenhuma partícula da anatomia humana permanece imune à sua infiltração, suspeitando-se que o seu poder de destruição e metástase tenha dado origem às mais variadas formas de câncer — e não somente de câncer — já diagnosticadas ou por diagnosticar no mundo. Conquanto se acredite que a causa da qual deriva seja única, no campo da sintomatologia, e em outros campos e cidades também, o diabo desta enfermidade abrange tudo de ruim que grassa na humanidade: dor, medo, angústia, revolta, ansiedade, cólera, orgulho, frustração, delírio, mania de grandeza, desejos insatisfeitos, inveja, crueldade, cupidez, ciúme, culpa, sofrimento, etc. etc. etc., tudo isso redundando numa palavra da qual não compreendemos bulhufas mas que, impotentes, desolados, rejeitamos de bate-pronto — morte. Segundo Monsieur Pierre Bélier, não passamos de mortos-vivos e nossas invenções — incluindo as aparentemente boas, como, p.ex., a imprensa, a automação, as artes, a literatura, as religiões etc. e tal — de há muito se encontram pervertidas, deformadas, devido à promiscuidade e ao mau uso que fizemos delas, transformando-as em drogas, variantes de fuga e outros malefícios que ajudam a intensificar e disseminar a grande doença humana supracitada, cujo grupo de risco principal seriam os intelectuais, os enfermos mais perigosos ou de difícil recuperação na Terra. Entre eles, os escritores, que, dotados das mentes mais barulhentas e confusas do orbe convertido em hospício, tudo confundem e a todos buscam confundir, trocando as bolas, as belas e as balas. Escritores não se conhecem, ignoram até mesmo o mínimo de suas próprias pessoas, mas querem desvendar os outros, repetindo, sem tirar nem pôr, a mesma velha história ou “estória” que escreveram e vivem reescrevendo desde o início dos tempos. Das mais chinfrins, tal “estória”, conforme gostava de grafar o Sr. Guimarães Flor, autor do “Grande Sansão do Campo: Varedas” (o nome do autor inclui Rosa e o título do livro é outro, porém tive que despistar, de medo que alguma parenta dele queira me pegar num processo e me pinchar na cadeia, conforme me disseram que estão fazendo com o meu amigo Alaor Barbosa. Deus me livre e guarde!).

Bélier e Bovary: ler o quê? — De acordo com Bélier, intelectuais (literatos, cineastas, pensadores e os mais tipos da mesma laia) desconhecem completamente, p. ex., o significado da palavra amor — que em geral confundem com prazer (sexual ou não), acasalamento, orgasmo, “paixão”, relações de troca, jogo de poder, controle, bajulação, posse, culpa, ciúme, adultério, “ménage à trois”, suruba e cornelaria medelin, coisas que freqüentemente desandam em impropérios, brigas medonhas, tiros ou facadas no peito, quando não em suicídio. Não sabem nada a respeito mas compõem e nos impingem histórias de “amor” (de amor que não é amor, e nem sequer o oposto de si mesmo, já que amor não comporta oposição). E à parte mudancinhas bobas no jeito de contar, envolvendo a técnica, o “estilo”, o ornamental, a forma (forma entra no que, com perdão da palavra, se chama de “criação”, mas não representa pissirica alguma de essencial), o que sobra? Um conteúdo de ovo podre, repetido à exaustão. Sobram “estórias” que desde sempre se resumem, todas, na mesma “estória”, sempre contrária ao Amor. Engraçado é que nelas o corno nunca é o autor, mas sempre o outro, tal qual o inferno de Sartre. Bélier pergunta: “Bovary é um romance de amor? Não”. E como que reproduzindo uma brincadeira de internet, resume o calhamaço de Flaubert: “Uma dona de casa mete o chifre no marido. Transa adoidado. Depois entra em depressão, envenena-se e morre. Fim.” Repetindo: o que isso tem a ver com amor? Nada. O homem usa a mesma galhofa da net com “Romeu e Julieta”, de Shakespeare: “Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proibem o namoro, as duas turmas saem na porrada, uma briga feia, muita gente se machuca. Então, um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de ingerir veneno, que era sonífero. Fim.” Neca de amor. “Romeu e Julieta” não contém um pingo de amor — é puro ódio.

E assim por diante. Tratando-se de ficção, em todas as temáticas as solucionáticas não chegam nem aos pés das que o Dadá Maravilha apresentou no futebol. Ignoramos tudo a respeito de determinados assuntos — tempo, medo, solidão, vida, morte —, contudo não hesitamos em continuar poluindo as mentes e a Terra com montanhas e mais montanhas de volumes sobre eles.

Com o espaço no fim, vejam agora um “pot-pourri” de coisas incômodas que o franco-haitiano (mora em Paris) destaca com clareza:

1. Literatura é retórica. Tudo no mundo virou retórica. Até mesmo o corpo. Pela própria definição, sendo a “arte” de persuadir, a retórica só tem um objetivo, uma única função: manipular, dominar, escravizar, submeter as outras pessoas. E, vergonha das vergonhas: ainda há gente no mundo pretendendo ser “formador de opinião”.

2. A palavra designa a coisa, mas não é a coisa designada. É preciso dessacralizar a palavra, hoje a serviço do embuste, do infortúnio, do medo e da morte. Nem se pode dizer que ela é uma faca de dois legumes, visto que ceifa mais vidas que todas as bombas que Bush atirou no Iraque.

3. “Apesar de tudo, é possível introduzir conteúdos novos na literatura?” — pergunta Monsieur Pierre. "Sim. Numa pequeníssima mas ainda assim significativa escala, sim", ele responde. E promete provar o que afirma na prática, com dois ou três romances. Mas, antes deles, teremos o VAIDADE E “IMORTALIDADE” MATAM. A “imortalidade” a que Bélier se refere naturalmente se prende à papagaiada de se querer transformar o transitório, o impermanente, em eterno. O restante fica fácil de matar.

Eu acredito no grande escritor franco-haitiano. Daí por que vou deixar para completar a lista de leituras de férias depois — quem sabe, nos idos de março. Até lá.

 

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