revista bula
POR EM 10/11/2008 ÀS 10:23 PM

Se não mata aleija

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Deve ser insuportável pra eles que a revista cresça e apareça e eu os entendo perfeitamente, coitados. É sempre mais fácil passar a mão na cabeça de fracassados do que cumprimentar e solidarizar-se com vencedores. Dói menos nos invejosos


A natureza humana parece que não muda nunca, é absolutamente previsível e observá-la é sempre um grande exercício. Sabe-se que, infelizmente, nem tudo no bicho homem são sentimentos de grandeza, convivemos com os pequenos homens e os muitos conteúdos mesquinhos que vão armazenando nos corações vida afora.

De todos eles o pior é a inveja, um dos sete pecados capitais para os católicos e o mais maléfico para quem o carrega na cabeça e no coração, ensina a psicologia.

Surgiu no mundo através de Caim, enfurecido de inveja de seu irmão Abel.

Foi o primeiro invejoso, mas há outros famosos como o músico e maestro Salieri que se roeu e definhou a cada nova partitura de seu desafeto genial chamado Mozart que ele considerava um cretino.

Como é que um menino levado e produtivo podia, com as mesmas sete notas musicais, criar obras celestiais enquanto que ele, Salieri, vivido e experimentado, produzia apenas convencionalismos musicais mediocres?

Invejosos sempre existiram e eles é que criaram os preconceitos agredindo seus alvos com palavras que foram se modificando no decorrer da história como: boêmio, cachaceiro, drogado, esquizofrênico, maconheiro, preto, bicha, etc... —  é preciso desqualificar seu objeto de inveja para sentir-se alguém.

Como críticos criticam obras geniais e põem em dúvida sua qualidade pra parecerem melhores que a obra criticada.

Uns tolinhos infantis enquadrados no beabá do caráter humano.

Os tratados de psicologia sabem que o invejoso deseja mesmo é ser seu objeto de inveja, mas como isso é impossível ele quer que o outro não produza nada que possa ser comparado consigo para não ampliar ainda mais o fosso que os separa.

Invejosos querem estancar a fonte criadora do objeto que invejam e produzem bílis corrosiva em quantidade suficiente pra se autodestruir e acabam se tornando cada vez mais secos e áridos de vida. Invejoso transa mal, é obeso mental, é covarde, cínico, mal amado, nada criativo, tem a pele macerada e são os maiores consumidores de antiácidos.

Invejoso não vive, gravita em torno de si mesmo e seus minúsculos sentimentos, mas, principalmente gravita em torno de quem inveja.

Amam o que invejam.

O maestro Tom Jobim, quando foi reconhecido pelo mundo convidado a tocar e cantar com Frank Sinatra conheceu bem a inveja dos músicos brasileiros que o atacavam e cunhou uma frase famosa: “Sucesso no Brasil é considerado ofensa pessoal”. Mais sintético e preciso impossível.

Carmen Miranda, no auge do sucesso nos EEUU chegou a ser considerada traidora da pátria pelos invejosos de plantão permanente.

Ambos causaram muito mal involuntário aos sempre alertas invejosos.

Carmen e Tom ficaram na história, mas cadê os invejosos? Que nomes tinham?

Os árabes também inventaram uma sentença para este tipo de gente:  “Os cães ladram e a caravana passa”.

Pois nesta última semana muitos cães ladraram entupindo a caixa de comentários da revista Bula com mensagens furiosas e agressivas contra alguns dos articulistas.

Um bom sintoma de que a revista melhorou mais ainda e é de fato um êxito na sua categoria.

Se despertou a ira dos invejosos — e isso pode ser comprovado pelos comentários de alguns homúnculos que usam pseudônimo, tempo e palavras pra agredir pessoas que escrevem aqui — é porque é sucesso de fato.

Apesar de ser lugar comum a frase é batata: “Não se atira pedras em árvore que não dá fruto”.

Deve ser insuportável pra eles que a revista cresça e apareça e eu os entendo perfeitamente, coitados. É sempre mais fácil passar a mão na cabeça de fracassados do que cumprimentar e solidarizar-se com vencedores. Dói menos nos invejosos.

Qualquer artista goiano sabe do que falo, muitos são objetos da inveja paralisante dos néscios. Mas isso acontece em quase todos os campos de atividades humanas, não é privilégio dos artistas — só que com eles repercute mais, têm mais tambores.

Há uma lógica doentinha usada pelos invejosos, uma lógica invertida e aleijada: “Se eu não consigo ninguém mais pode conseguir”.

O mundo ideal pra eles seria a paralisação absoluta onde só o mal teria importância e vez. Uso esse espaço pra informar a eles que esta é uma doença sem cura: nem a psicologia, nem as novenas, nem a água benta, nem o pó de hóstia, nem o dente de alho são capazes de reverter a inveja, seu portador acaba sempre pálido, amarelado, sem viço, bilioso, amargo, limitado a xingamentos vazios, envolvido pela teia venenosa secretada por sua própria bílis.

Enfim, se antropofagizam. (Corram ao dicionário!)

Minha sugestão aos invejosos escrevinhadores agressivos é que recorram ao amargor de nossa jurubeba tida como de grande valia para os males do fígado, porque vão ficar ainda mais biliáticos quando se derem conta de que os objetos de suas invejas não se abalaram e continuam seguindo em frente.

Haja jurubeba!

Pessoalmente gosto que eles existam e me invejem e me detestem porque são como combustível e impulso e me causam muita graça quando expressam seus baixos sentimentos por mim. Gosto de provocá-los como se provocam perus pra ouvir o glu-glu inútil, rio deles, os ignoro e vou adiante.

Sugiro a todos da Bula que os ignorem também — eles existem pra isso e nada os destrói mais que serem ignorados e reduzidos à sua verdadeira dimensão.

Afinal, que problema há em ser agredido por reles pseudônimos?

Que não esperem de mim nenhuma resposta às suas ironias ou agressões — escolho meus interlocutores a dedo e sou exigente como todo objeto de inveja.

Mas, pra compensá-los de sua doença digo que invejosos também são úteis: dão ânimo e incentivo para criadores criarem e, indiretamente, deflagram o prazer de produzir artigos como este.

Sim, são migalhas, mas eles sabem que ser coadjuvantes é o máximo que podem almejar na vida.

O resto é silêncio. 

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