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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:33 PM

Llosa diz que Onetti inventou a literatura moderna espanhola

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O mundo literário de Onetti "nos entristece, nos desmoraliza. Porém, ao mesmo tempo, há tanto talento que é possível pensar que o mundo não deve ser tão mal nem a negatividade tão profunda, quando se dedica a escrever e o faz com tanta excelência"
 

 
Espécie de John Udpike do Peru, pelo menos em termos de quantidade de livros publicados, Mario Vargas Llosa lança novo livro, “El Viaje a la Ficción”, um estudo da literatura do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994).
 
Em entrevista à revista “Ñ”, do jornal argentino “Clarín”, no sábado, 7, Llosa, um crítico literário de primeira — tão bom quanto o prosador (que, estranha e desonestamente, tem sido criticado por conta de suas posições políticas) —, diz que Onetti “foi um contista extraordinário. Pelo menos meia dúzia de contos de Onetti são verdadeiras obras-primas”.
 
Onetti, segundo Llosa, “é um dos primeiros, senão o primeiro escritor de língua espanhola, a fazer uma literatura absolutamente moderna, uma narrativa moderna (...). Onetti inventa uma prosa a partir de uma linguagem oral, uma prosa que simula a oralidade. E isso desde seu primeiro romance”. Depois de Onetti, cita o crítico, está Borges, “um escritor absolutamente universal”.
 
Joyce, Céline e Faulkner influenciaram Onetti, rastreia Llosa, que realça, porém, sua autonomia. “Me impressiona muito o mundo tão pessoal de Onetti; ele cria um mundo de uma grande autenticidade.” O autor uruguaio era pessimista em relação à condição humana.
 
Na versão de Llosa, “Onetti era um desses escritores em que a imaginação nasce da autobiografia. Eu acredito que ele inventava, fantasiava, a partir de sua experiência de vida. (...) Era um homem muito inteligente, muito culto. Por outro lado, era um homem muito desvalido. Onetti era uma pessoa, digamos, muito mal preparada para isso que chamam de luta pela sobrevivência. Era um homem que não fazia concessões”.
 
A obra de Onetti, explica Llosa, “tem uma autenticidade que é bastante infrequente. Nele não havia nada empostado”.
 
Entre seus melhores contos, Llosa cita “Um sonho realizado”, “As feras” e “O inferno tão temido”. “Las Fieras” e “El Infierno tan Temido” contêm “extremos de crueldade e de maldade que”, se apresentadas “com menos talento literário, seriam simplesmente inverossímeis”.
 
O entrevistador diz, com acerto, que na literatura de Onetti há uma galeria de derrotados e Llosa responde muito bem: “O interessante, no caso de Onetti, é que esses derrotados ao final escapam por intermédio da ficção. Todos vivem experiências de derrota efetivamente radical no mundo tal como é. A alguns isso leva ao suicídio — há uma grande quantidade de personagens suicidas em Onetti —, mas os que não se suicidam escapam pela fantasia. Inventam mundos puramente imaginários nos quais se refugiam e podem sobreviver. Acredito que essa é a origem da ficção; creio que nós começamos a inventar porque o mundo não nos resultava suficiente (...). Ao final encontramos essa fórmula, que era inventar outros mundos para viver a ilusão do relato, do relato oral a princípio, e depois, o relato escrito, ou filmado. Me parece que uma das originalidades de Onetti consiste em que praticamente toda a obra dele mostra este processo, em distintos indivíduos, homens, mulheres, que depois de viver experiências atrozes de frustração, de derrota, escapam por meio da fantasia”.
 
O mundo literário de Onetti "nos entristece, nos desmoraliza. Porém, ao mesmo tempo, há tanto talento que é possível pensar que o mundo não deve ser tão mal nem a negatividade tão profunda, quando se dedica a escrever e o faz com tanta excelência".
 
O entrevistador diz que as influências do francês Céline e do americano Faulkner "são facilmente identificáveis" na prosa de Onetti e quer saber sobre as conexões com James Joyce. Llosa, que parece ter resposta para tudo, anota: "O mundo de Joyce é de uma conexão total entre conteúdo e forma; uma forma criada absolutamente para expressar esse mundo complexo, diverso, fragmentado, totalizante, donde o exterior, o interior, as condutas, as motivações, os atos e os sonhos se mesclam em uma grande totalidade. Pois eu acredito que é o que faz Onetti dentro de sua própria, digamos, realidade. Há textos de Onetti no quais é muito difícil saber se o que está narrando ou o que estamos lendo está ocorrendo, ou está simplesmente sendo fantasiado pelos personagens. Em muitos casos, as fronteiras se eclipsaram. Essa lição vem claramente de Joyce. Joyce é o primeiro que fez isso".
 
Depois de ler Onetti, qual o consolo que nos resta, quer saber o entrevistador de o "Clárin". A resposta esperta de Llosa: "Nos resta o consolo da ficção. A obra de Onetti parece destinada a ilustrar como, por intermédio da ficção, nós seres humanos não somente nos recompensamos de tudo aquilo que nos faz sofrer ou nos desmoraliza na vida, mas também, ao mesmo tempo, vivemos mais, enriquecemos nossa experiência, amamos, vivemos aventuras extraordinárias. A função da ficção não é somente compensatória, é também enriquecedora da experiência".
 
O entrevistador observa que há um certo desencontro entre Onetti e os leitores, ou seja, não se trata de um autor popular. "Mas estou seguro que a obra de Onetti vai permanecer." Entre os escritores contemporâneos, Llosa diz que Onetti é um dos poucos que "vai sobreviver à terrível prova do tempo".
 
Llosa diz que tem vontade de escrever sobre Faulkner e Conrad.

 
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