revista bula
POR EM 21/11/2008 ÀS 11:02 PM

Encontros com Daniel Dennett e Woody Allen

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Daniel Den­nett nem pa­re­ce que é mun­di­al­men­te fa­mo­so nas áre­as da Fi­lo­so­fia da Men­te, da Ci­ên­cia e das Neu­ro­ci­ên­cias. É sim­ples, cor­dial e edu­ca­do. Já com Wo­ody Al­len só con­se­gui di­zer: “Es­tou es­cre­ven­do um li­vro so­bre vo­cê”, ao que ele re­tru­cou, qua­se sem me olhar: “Que se­ja ver­da­dei­ro” 
 

 Da­ni­el Den­nett

Nem pa­re­ce que é mun­di­al­men­te fa­mo­so nas áre­as da Fi­lo­so­fia da Men­te, da Ci­ên­cia e das Neu­ro­ci­ên­cias. É sim­ples, cor­dial, edu­ca­dís­si­mo e sem­pre pre­o­cu­pa­do com seus "sa­té­li­tes" (eu, en­tre os mui­tos que or­bi­tam em sua vol­ta). Con­vi­da­va-me pa­ra al­mo­çar na ca­fe­te­ria da uni­ver­si­da­de (úni­ca oca­si­ão em que eu co­mia sa­la­da) com fre­qüên­cia, sem­pre que­ren­do se in­tei­rar de meu pro­gres­so. Saí da­li com óti­ma im­pres­são.

É um ma­te­ri­a­lis­ta-ateu-evo­lu­cio­nis­ta con­vic­to. De dar gos­to. Sua te­o­ria da con­sci­ên­cia, que se va­le o tem­po to­do de ex­pe­ri­men­tos em neu­ro­fi­si­o­lo­gia vi­su­al (daí mi­nha es­co­lha), aca­ba se en­tre­la­çan­do com sua te­o­ria evo­lu­cio­nis­ta das re­li­gi­ões e seu darwi­nis­mo xi­i­ta (quan­do xi­i­ta era si­nô­ni­mo de ra­di­cal). Opor­tu­na­men­te fa­la­rei aqui a res­pei­to, mais apro­fun­da­da­men­te.

Bos­ton

Sou um apai­xo­na­do pe­la ci­da­de. Mo­rei ali quan­do fiz meu dou­to­ra­do-san­du­í­che (não é dou­to­ro­da­do "em" san­du­í­che, an­tes que al­guém fa­ça a pia­di­nha, mas, sim, um ti­po de bol­sa do CNPq) em 1994—95 e de­ci­di que, se vol­tas­se, sem­pre que o fi­zes­se, se­ria du­ran­te o ou­to­no, quan­do to­da a re­gi­ão da No­va In­gla­ter­ra fi­ca lin­da com ár­vo­res in­do do ama­re­lo ao ver­me­lho, pas­san­do por di­fe­ren­tes tons de la­ran­ja. Além do tem­po que é agra­dá­vel ("agra­dá­vel" em Bos­ton é al­go en­tre 15 e 20°C). O in­ver­no é ge­la­do de­mais, a pri­ma­ve­ra ain­da é fria e o ve­rão, por in­crí­vel que pa­re­ça, é quen­te de­mais.

Pe­lo vis­to, não sou o úni­co apai­xo­na­do pe­la ci­da­de. Há 14 anos ha­via uma co­lô­nia de bra­si­lei­ros se for­man­do em Mas­sa­chu­setts. Ho­je tem bra­si­lei­ro que não aca­ba mais. Co­mo bra­si­lei­ro é meio co­mo ame­ri­ca­no, ou se­ja, nem sem­pre tem "ca­ra de bra­si­lei­ro", po­de acon­te­cer de vo­cê con­ver­sar bem uns 5 ou 10 mi­nu­tos an­tes de per­ce­ber que es­ta­vam, vo­cê e seu in­ter­lo­cu­tor, va­len­do-se de sua se­gun­da lín­gua. Bi­zar­ro. (Ou­tra ca­rac­te­rís­ti­ca de bra­si­lei­ro é o so­ta­que in­de­fi­ni­do. Um ori­en­tal ou his­pâ­ni­co fa­lan­do in­glês vo­cê re­co­nhe­ce ime­di­a­ta­men­te, de olhos fe­cha­dos, mas, bra­si­lei­ros, nem sem­pre).

Bos­ton Symphony Or­ches­tra

Alu­guei um apar­ta­men­to na Mass Ave., ao la­do do Bos­ton Symphony. Mas não deu pra fi­car in­do em tan­ta coi­sa as­sim. Fui à Sex­ta do Mahler (que nun­ca ti­nha ou­vi­do), con­du­zi­da por nin­guém me­nos que Ja­mes Le­vi­ne (ex-Me­tro­po­li­tan de No­va York) e a uma apre­sen­ta­ção do trio do Keith Jar­ret (ele, Gary Pe­a­cock e Jack De­Johnet­te). Em­bo­ra eu se­ja um ado­ra­dor de am­bos (Mahler e Jar­ret), o se­gun­do su­pe­rou o pri­mei­ro em mui­to. Não sei se é por­que to­da vez que ou­ço uma sin­fo­nia do Mahler eu ten­do a com­pa­rar com a ter­cei­ra, que é di­vi­na, e a ou­tra aca­ba per­den­do for­ça, ou se é por­que o Jar­ret é mes­mo sen­sa­ci­o­nal. Con­ce­deu vá­rios bi­ses (é as­sim mes­mo?), pra de­ses­pe­ro de mi­nhas fi­lhas (uma de 9 e ou­tra de 5, co­mo não ti­nha com quem dei­xá-las, acom­pa­nha­vam-nos, a mim e a mi­nha es­po­sa, em tu­do. En­gra­ça­do, que de mi­nhas es­qui­si­ti­ces, elas só não gos­tam de jazz. Até ópe­ra elas su­por­tam).

Bro­adway

Em com­pen­sa­ção, lá fo­mos nós ver “Pe­que­na Se­reia” e “Rei Le­ão” na Bro­adway de No­va York (di­go "de No­va York" por que há os shows que vi­a­jam — vi­mos “Cho­rus Li­ne” em Bos­ton, por exem­plo). Em­bo­ra se­jam in­fan­tis, são mui­to ri­cos e dá pra um adul­to gos­tar. Par­ti­cu­lar­men­te o “Rei le­ão”. Es­se é im­pres­sio­nan­te, ri­quís­si­mo. Re­co­men­do, se al­guém es­ti­ver com pla­nos de vi­si­tar a ci­da­de.

Wo­ody Al­len no Carlyle

De to­da a ban­da, Wo­ody é o que to­ca pi­or. O ca­ra do ban­jo é fe­no­me­nal. Mas... quem se im­por­ta? Es­tá to­do mun­do ali pra ver Wo­ody (se em vez de to­car ele plan­tas­se ba­na­nei­ra da­ria na mes­ma). Jazz de New Or­le­ans (Di­xi­e­land Jazz) é meio que nem o nos­so cho­ri­nho. Bo­ni­to, de gran­de va­lor his­tó­ri­co, mas se exau­riu. Wo­ody pas­sa o tem­po olhan­do pro chão, quan­do não es­tá to­can­do, ou de olhos fe­cha­dos, quan­do to­ca. De vez em quan­do olha pro ca­ra do ban­jo pa­ra con­ver­sar. Só olhou pra pla­téia du­as ve­zes, as du­as na di­re­ção de mi­nhas fi­lhas, que eram bi­chos es­tra­nhos por ali (es­tá­va­mos sen­ta­dos na tur­ma do gar­ga­re­jo, a me­nos de 1 me­tro de dis­tân­cia de­le). O lu­gar é bem pe­que­no, en­ten­di por­que as re­ser­vas são res­tri­tas. A me­lhor coi­sa do mun­do foi che­gar lá e pas­sar na fren­te de uma fi­la de ar­gen­ti­nos que não ti­nha fei­to re­ser­va e pe­dia pe­la­mor­de­deus pro mai­tre dei­xá-los en­trar. Fiz a mi­nha com mes­es de an­te­ce­dên­cia. No dia do show, pas­sei nu­ma li­vra­ria de pe­ças de te­a­tro, com­prei umas pe­ças de­le pra au­to­gra­far. Com­prei tam­bém “No­vem­ber”, do Da­vid Ma­met, mas não le­vei. Pois quem es­ta­va lá na­que­la noi­te? Ele mes­mo, o Da­vid Ma­met, que deu uma can­ja no pi­a­no.

Con­tei pro mai­tre que es­ta­va es­cre­ven­do um li­vro so­bre Wo­ody, e pe­di sua aju­da pa­ra ver se ele au­to­gra­fa­va o li­vro (não meu, mas o de­le). O mai­tre pro­me­teu me aju­dar. E aju­dou mes­mo. Só que aju­dou mais um bo­ca­do de gen­te. Aca­ba­do o show, pos­tei-me on­de o mai­tre me in­di­cou, mas, as­sim co­mo eu, mais uma dú­zia de pes­soa. Quan­do Wo­ody des­ceu deu de ca­ra co­mi­go e já sa­cou a ca­ne­ta pa­ra au­to­gra­far os li­vros (to­do mun­do te­ve a mes­ma idéia bri­lhan­te que eu). En­quan­to ele au­to­gra­fa­va e mi­nha es­po­sa se es­for­ça­va por ba­ter uma fo­to de­cen­te (ne­nhu­ma!), só con­se­gui di­zer: "Es­tou es­cre­ven­do um li­vro so­bre vo­cê", ao que ele re­tru­cou, qua­se sem me olhar: "Que se­ja ver­da­dei­ro". Quan­do eu ia ex­pli­car que não era bi­o­gra­fia, que era so­bre a fi­lo­so­fia de­le, um ban­do de mu­lhe­res co­me­çou a bei­já-lo na bo­che­cha e gri­tar "We lo­ve you Wo­ody", e... Pron­to. Em me­nos de 30 se­gun­dos ela já ia em­bo­ra.

En­fim, é uma ex­pe­ri­ên­cia da qual so­men­te fãs bo­bo­cas de Wo­ody (co­mo eu con­ti­nuo sen­do) são ca­pa­zes de gos­tar. Se qui­ser ou­vir jazz de New Or­le­ans vá a ou­tro lu­gar mai­or e mais ba­ra­to. Se qui­ser jan­tar bem, lá não é o lu­gar (foi o pei­xe mais in­sos­so de to­da mi­nha vi­da). Ar­re­pen­di­do? De jei­to ne­nhum. Sou fã bo­bo­ca, se es­que­ce­ram?

Bos­ton Bal­let

Fo­mos ver “Cin­de­rel­la”, do Proko­fi­ev. Con­fes­so que te­nho um cer­to blo­queio com Proko­fi­ev des­de que as­sis­ti “Lo­ve and De­ath”, do Wo­ody (que usa Proko­fi­ev o tem­po to­do). Nun­ca mais con­se­gui le­vá-lo a sé­rio (mes­mo não ten­do “Cin­de­rel­la” for­ne­ci­do qual­quer mú­si­ca ao “Lo­ve and De­ath”). Ain­da as­sim, bo­ni­to, ri­co. Na fal­ta de ópe­ra, vai bal­let mes­mo (não con­se­gui fla­grar ne­nhu­ma ópe­ra en­quan­to es­ti­ve lá).

Me­tro­po­li­tan ou Fi­ne Arts

Sou sus­pei­to, mas pre­fi­ro o Fi­ne Arts de Bos­ton do que o Me­tro­po­li­tan de No­va York. A ga­le­ria com os im­pres­sio­nis­tas do Fi­ne Arts é de fa­zer per­der a res­pi­ra­ção. Mas sou sus­pei­to.

Li­vros

A li­vra­ria da Har­vard Co­op, na Cam­brid­ge Squa­re, em Cam­brid­ge, é um ver­da­dei­ro pra­zer se­xu­al. Com­prei um mon­te, mas a mai­o­ria a res­pei­to do te­ma de mi­nha pes­qui­sa, não ca­be dis­cu­tir aqui. Mas com­prei al­gu­mas pe­ças que pre­ten­do dis­cu­tir aqui sim, opor­tu­na­men­te (“Equ­us”, “The Tri­al of God”, “No­vem­ber”, etc, ain­da con­ver­sa­re­mos a res­pei­to opor­tu­na­men­te). Tam­bém uns fil­mes da BBC Films, de pe­ças do Ib­sen, Tchekhov e Becket, que eu na­mo­ra­va há mui­to tem­po na Ama­zon e que ago­ra to­mei co­ra­gem pra com­prar (quan­do se im­por­ta DVDs é uma apor­ri­nha­ção, pois vo­cê tem de bus­car no cor­reio pra pa­gar o im­pos­to, e a Re­cei­ta Fe­de­ral, es­per­ta­men­te, con­si­de­ra o to­tal do re­ci­bo, e não o va­lor do bem. Por exem­plo: se vo­cê com­pra uma cai­xa de DVDs por 50 dó­la­res e pa­ga 20 dó­la­res de cor­reio, a Re­cei­ta te co­bra o im­pos­to dos 70, e não dos 50).

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