revista bula
POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

Don´t call me nigger, whitey

publicado em

Marcinho VP não teve caixão metálico do brother Michael Jackson, teve latão de lixo do Complexo Penitenciário de Bangu. A estrela desceu

 Michael Jackson e  Marcinho VP (abaixo)

— E aí, negão, subindo agora?
— Não deu mais, brother...
— Senta aqui do lado. Olha só a baía de Botafogo.
— A gente vai demorar aqui? Podia passar logo.


Representação

Carlo Ginzburg escreveu um ensaio para investigar a noção de representação, um tema muito caro às ciências humanas em geral. Segundo ele, o termo era usado na época em que os corpos de soberanos mortos na França e na Inglaterra precisavam enfrentar longos funerais. Enterrava-se o cadáver, e um boneco de cera ou madeira, com a reprodução dos traços do monarca, era colocado para visitação nas cerimônias. O que se sepultava, por último e com todas as honras, era a representação do rei. Representar é ter um objeto no lugar de outro.

O velório de Michael Jackson teve muito de representação. No lugar do corpo à vista de todos e das câmeras de televisão, havia um caixão metálico, ao que parece, e encoberto de flores. Será que o corpo do cantor já havia sido enterrado? Ninguém viu nada, não tinha cadáver para ver e comprovar que ele realmente morreu. O palco, além do caixão, abrigou artistas, parentes, atores famosos, esportistas, todos ali ocupando seus papéis de celebridades, de pessoas públicas – essa a outra definição para o ato de representar, estar no lugar dos outros.

— Te lembra, negão, quando nos encontramos, aqui mesmo, no Dona Marta?
— Mais ou menos, brother.
— Pô, fevereiro de 1996... Gravação do clipe, teve o rolo para gravar aqui.
— Ah, eles ainda se importavam comigo.
 

Encontro inesperado

O cineasta Spike Lee bolou um clipe de Michael Jackson com filmagem no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro. Coisa de 13 anos atrás. Teve uma história de negociar com Marcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, que seria o representante do tráfico local e poderia liberar aquele trampo. Bandido pé-de-chinelo virou manchete de jornal e de televisão. Esse é o cara, o mais perigoso da cidade e que deixou a estrela mundial baixar na favela. Michael desceu e subiu de helicóptero, parecendo sequência de “Apocalipse Now”, com norte-americano invadindo país bárbaro.

Após a filmagem de “They don´t care about us”, Marcinho deu entrevista para o “Jornal do Brasil”, “O Dia” e “O Globo”. Lascou tudo. Como é que um mané daqueles, que nem peixe grande era, sai dando uma de bonitão? Sem noção demais. O jornalista Caco Barcellos sacou que era a “hora da estrela” e propôs o romance “Abusado, o dono do Morro Dona Marta”, lançado mais tarde em 2003. O livro diz esconder as identidades de pessoas, mas conta as histórias do tráfico carioca. Deu a maior bandeira. Vacilão, Marcinho parecia querer ser o dono de tudo.

— Você gosta de holofote, brother.
— Negão, que papo é esse? Gosto de pensar. Estratégia.
— Tu canta funk, conta a verdade aí.
— Nada rapaz. Negócio meu é ler.

O banqueiro e o traficante

Em 1998, o documentarista João Moreira Salles enfiou na cabeça que deveria subir um morro carioca e fazer “Notícias de Uma Guerra Particular”. Foi ,junto, Kátia Lund. Deu de cara com Marcinho VP. Perguntou se a vida dele era traficar. Que nada, disse o cara, negócio meu é estratégia, pensar a logística da coisa, imaginar outra vida para a comunidade. Foi tanto palavrório que o cineasta tirou do filme as duas horas de depoimento. Trechos vieram a público em 2003, quando o abusado morreu.  

Marcinho VP para João Moreira Salles: "Minha luta será sempre pelo povo (...) Eu queria fazer filosofia, ser professor. Aqui, para não ser morto, você tem de tomar uma atitude. (...). Não existe possibilidade do morro sem tráfico. Ou você é traficante ou escravo do capitalismo. O povo brasileiro é totalmente omisso, escravo. (...). Eu quero conscientizar o meu povo de que não pode continuar assim. Eles têm que brigar".

Filho de banqueiro e irmão de dono de uma grande editora, João jogou a isca. Marcinho poderia escrever um livro. Para isso, teria um adiantamento. Topou e fugiu da polícia. Foram mil dólares mensais, durante três meses.

A casa caiu no dia em que a polícia descobriu a mesada, lá pelo ano de 2000, e decidiu vazar a história para a imprensa. Joãozinho dava dinheiro pra traficante escrever livro? Conta outra. O jornal “O Globo” nem quis saber e chutou o balde. Deu um rolo danado. O coordenador de segurança pública caiu, o documentarista apareceu mal na foto. E o cara que negociou com Spike Lee a filmagem do clipe de Michael Jackson virou estrela de vez. Aqui, seguimos de perto o ensaio “Marcinho VP (um estudo sobre a construção do personagem)”, de João Camillo Penna, publicado no livro “Estéticas da Crueldade” (2004). 

— Conta aí, dá vontade de ser negão de novo?
— Brother, é tudo representação. Eu não sou mais eu, sou um outro.
— Também senti isso. Achavam que eu era o monstro, o fodão, e até me colocaram numa Comissão Parlamentar de Inquérito. Virei personagem
— Precisa de muito culhão para agüentar.

Crueldade

João Camillo Penna faz um inventário de como Marcinho VP vai da história do clipe de Michael Jackson à imagem de mega-traficante. Sobe na vida, fala muito, porém é destituído de voz, é editado. Vira objeto e nunca sujeito. O pior foi na época quando alguns acreditaram nas viagens do personagem Abusado. O traficante preso em 2003 ligou para o autor e pediu para ler a obra porque saíram umas coisas na imprensa e tinha neguinho puto da vida.

De tanto acharem que se tratava de bandidão, Marcinho foi em cana. A galera do presídio detestou a coisa do livro . Mario Amaro de Oliveira voltou a ser de carne e osso, pois os colegas presos decidiram matá-lo e colocá-lo na lixeira. Morreu como despojo do biopoder à brasileira. Não teve caixão metálico do brother Michael Jackson, teve latão de lixo do Complexo Penitenciário de Bangu. A estrela desceu. 

Vida nua

O poder penetra os corpos vistos apenas em seu aspecto biológico. Perdem o nexo político. O corpo de Marcinho VP precisava, na ótica da mídia e do governo, ser extirpado da sociedade para assim fazer a purificação. Eliminação é faxina social. Dito e feito: acabou na lata de lixo porque falou demais e não soube qual era o seu lugar. Onde se viu falar uma coisa dessas em CPI no Congresso Nacional: “Ele [João Moreira Salles] teve a oportunidade de ver que estava lidando com uma pessoa que é povo que nem ele. Porque o senhor [o deputado Robson Tuma] está dividindo as classes, a ideia dele não foi dividir classes, foi lidar com problema de ser humano pra ser humano. Por isso houve essa necessidade no coração dele”. 

A biopolítica invadiu o corpo de Michael Jackson por meio de próteses. O nariz afinou, a pele ficou branca. A mídia foi implacável: era a degeneração, pois não poderia ser coisa de gente normal. Porém, a mesma mídia estimula a insatisfação com o corpo e produz a montanha de programas com médicos que sugerem como ter um corpo melhor e bonito. É ela que espalha a onda do bodyfitness, para em seguida tratar como auto-mutilação. Michael Jackson virou representação do monstro. The star is dead.

Francisco Ortega: “A mídia se apropria com frequência do discurso médico da auto-mutilação e o dissemina na sociedade, apresentando-o como um problema social emocionalmente provocativo que faz surgir um sentimento que mistura medo, repugnância e horror nos leitores diante das descrições sensacionalistas de práticas de modificação corporal. Constitui-se um discurso moralista que compreende as práticas unicamente como regressões inumanas ou comportamentos de desvio”. 

— Agora, negão, é vida eterna.
— Nua e crua, brother.

 


 

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2019 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio