revista bula
POR EM 04/07/2009 ÀS 06:59 PM

Dançando no escuro

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A invencível ironia é que todos conhecem o pôster de Michael Jackson e ninguém o conheceu na intimidade mais escondida

Michael Jackson morreu na esteira da ressurreição. O menino pobre seguiu o ABC da cartilha americana, enriqueceu e enlouqueceu. Não conciliou – como tantos outros – o prazer doado às multidões com a realização pessoal. Debitou o caro preço da fama na conta da infâmia. Submeteu-se à dissecação de seu cadáver ainda respirando. Consagrou-se como um débil rufião abilolado.

A genialidade artística não foi suficiente para um ego monstruoso. Ele sentiu a necessidade de contribuir com o anedotário do grotesco. Suas atitudes, valorizadas por moralistas de todos os quilates, merecem análise acurada de um psicólogo dos bons. Agora, é muito fácil prantear o mito. Difícil é aceitar as inconsistências do homem encolhido atrás da cortina espessa.

A encarquilhada figura paterna virá à tona para assombrar, de novo, a infância do Michael serelepe e castrado da irmandade Jackson Five. Talvez, alguns se incomodem com a figura do astro maquiado como pai que reserva um legado preocupante aos filhos, numa espiral com noção de continuidade. As mães são, curiosamente, reflexos pálidos e distantes de uma saga repleta de confusões traumáticas.

A teoria mais leviana diz que Michael Jackson não desejava crescer. Seu destino anunciado era ser Peter Pan. Ele morou, durante muito tempo, na Terra do Nunca. Não chegou a imaginar que o autêntico Peter Pan sempre foi Steven Spielberg, até quando ele brinca de adulto sério e compenetrado? O problema, ou a chave do problema, é que Steven Spielberg dá vazão ao seu lado infantil no cinema.

Por que Michael Jackson não conseguiu fazer o mesmo através da música ou dos clipes que ajudou a transformar, não em uma picotada forma de arte, mas numa imensa possibilidade de comunicação imediata com fãs do mundo inteiro? Será que alguém não sabe quem foi Michael Jackson no cantão da Malásia ou nos confins do Azerbaijão?

Será que a máquina insidiosa de propagação de imagens forjadas para o sonho multifacetado foi responsável, de alguma forma, pela tritura do arcabouço que mantinha de pé uma personalidade fragilizada? A invencível ironia é que todos conhecem o pôster de Michael Jackson e, provavelmente, ninguém o conheceu na intimidade mais escondida.

E estamos a falar de Michael Jackson com nenhuma autoridade, exceto a de preencher espaço no papel e na tela do computador sobre um fantasma que ainda rodopia e faz rodopiar na TV, cujas músicas estão, mais do que nunca, circulando o planeta como doidas. Estamos a falar sobre o que ele representa.

O negro que empalideceu. O adulto atormentado por uma fixação púbere. O artista que pariu um híbrido original de soul, funk, rock, hip hop e baladas entorpecentes, que não ultrapassou a marca de seu maior troféu, Thriller, e se reinventou como terrível matéria-prima das piores badalações da imprensa faminta por escândalos sexuais.

Ávidos momentos que soube suprir com um vasto repertório de calamidades. Negar que Michael Jackson tenha capitalizado os elementos que o perseguiam com deslumbre e nefasto rancor seria, simplesmente, incorreto. Embalado desde cedo com o vigor dos holofotes, como poderia prosseguir na ausência deles? Sua morte iluminará sua vida?

Não tenho nenhuma dúvida sobre o lançamento precoce de biografias inúteis. A máquina da popularidade não admite estancar a produção de artefatos de culto messiânico. Mas a grandeza da existência é que ela não comporta respostas definitivas. Estamos, todos, fadados a ruminar nossas pérfidas, inocentes conjecturas, com ares doutos de fajuto sabe-tudo. Melhor comentar a excelência dos discos.

Thriller é um espanto! Uma insuperável coleção de hits. Porém, Off the Wall é seu embrião subestimado. Tivesse gravado apenas essa dobradinha brilhante, Michael Jackson teria material para ser festejado como ídolo pelos séculos afora. Don´t Stop ´Til You Get Enough, enorme sucesso de Off the Wall, do tempo em que Michael Jackson ainda posava de negão, anunciava o caminho que seria desbravado a seguir.

Mas nada, na produção do artista, supera Thriller, ordenado pelo maestro Quincy Jones. Este disco é uma fábrica de impossibilidades. A começar pela faixa título, com a narração improvável do ator classe B Vincent Price. E, sobre isso, estamos conversados. Não há o que acrescentar ao tema clipe dirigido por John Landis, referência até para comercial de refrigerante.

Wanna Be Startin´ Somethin´, que expande as dicas encontradas em Don´t Stop ´Til You Get Enough, abre o disco em altíssimo astral. The Girl is Mine (improvável dueto com Paul McCartney), Beat It (com a improvável participação do guitarrista Ed Van Halen), a indefectível Billie Jean (balanço contagiante e interpretação comovente, porque livre de arroubos), Human Nature e a plácida The Lady in My Life deixam claro que não se gravam mais discos como antigamente (1982).

Digamos que apenas Baby Be Mine e P.Y.T (Pretty Young Thing) não ganharam o mundo com a intensidade das demais. Isto é o que se chama um disco cheio, que transborda. Nenhuma faixa passa batido. Feito raro! Tanto que, sim, nem Michael Jackson conseguiu superá-lo.

Com Bad, Dangerous, Invincible, os clipes ficaram cada vez mais cheios de efeitos e megalomaníacos. As canções, aparatosas, não tinham mais a célebre febre que as deixavam inesquecíveis. Salvo uma ou outra, aqui e acolá. Black or White? Unbreakable? Man in the Mirror? Os fãs de carteirinha têm preferências idiossincráticas.

Acostumamo-nos, porém, a esperar de Michael Jackson gestos meramente tresloucados, como o casamento (com pinta de armação irredutível) com Lisa Presley. A filha do rei do rock casada com o rei do pop? O delírio e a fantasia ganhavam contornos perigosamente fortes e contrastantes.

E com o imenso poder de sua imagem em ponto de mutação, não seria insensato afirmar que Michael Jackson refugiou-se num planeta insólito, de onde era chamado a comparecer a Terra pelo martelo da justiça ou pela ação dos credores. Sempre fantasiado como um príncipe de contos fantásticos e permitindo a transparência de boatos.

A ressurreição de que fala o começo deste texto refere-se aos 50 shows (um por cada ano de vida) que faria na Inglaterra, este ano, a título de uma despedida que abonasse a suposta aposentadoria. Tudo devidamente registrado em alta definição para futuros lançamentos. O que livraria a cara do astro de uma falência ultrajante.

A morte imprevista afundou o barco de muitos investidores no cais da bolsa de valores. A lotação do retorno, afinal, estava esgotada com fulminante antecedência. O Michael Jackson resgatado da apatia melancólica voltaria a luzir. Na tempestade, o lucro vem do que sobrou. Poucos discos fulgurantes, inclusive da imberbe fase black power, serão explorados à exaustão. A escalada de malogros estupendos será colocada à sombra.

O falecimento de Michael Jackson não representa o encerramento de uma era. Depois de Madonna, outra ativa perfeccionista do improvável, quem sabe a internet pulverize, de uma vez por todas, o sistema de castas amparado no vácuo das estrelas. Não será sem tempo.
 

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