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POR EM 06/09/2009 ÀS 10:43 AM

Cora, mulher eterna

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Comemorações pelos 120 anos do nascimento da poeta Cora Coralina demonstram a força de seu legado literário

Cora Coralina

Os versos de Aninha — a das pedras — continuam ultrapassando as fronteiras da antiga Vila Boa. Em breve, ecoarão pela Estação da Luz, em São Paulo. A voz mais conhecida e festejada da poesia goiana (e um dos principais nomes da produção nacional) será tema de uma exposição no Museu da Língua Portuguesa, instalado na lendária estação metro-ferroviária da capital paulista. Cora Coralina é a quinta personalidade da literatura brasileira a receber a homenagem (antes, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Gilberto Freyre e Machado de Assis). Um espaço especial no segundo andar do museu estará reservado à obra da escritora.

A mesma Estação da Luz que recebeu Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas no distante 1924 será palco para a consagrada obra da mais ilustre doceira e poeta de Goiás. O diretor do Museu da Língua Portuguesa, Antonio Carlos Sartini, afirma que comemorar os 120 anos de nascimento da poeta (20 de agosto de 1889) é uma forma de reconhecer sua trajetória heroica, por ser uma artista que surgiu fora dos grandes centros e alcançou grande destaque ainda em vida.

A exposição, patrocinada pelo governo de Goiás por meio da Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (Agepel), em parceria com a Associação Casa de Cora Coralina, será aberta no dia 28 de setembro e permanecerá no museu até o dia 13 de dezembro. O grande objetivo das exposições temáticas do Museu da Língua Portuguesa é criar o hábito de leitura, principalmente entre os estudantes. O museu recebe, diariamente, uma média de mil estudantes. Sartini reconhece que o número de leitores de poesia no Brasil ainda é pequeno, mas acredita que ações como as exposições promovidas no museu podem despertar o interesse do público.

Natural da antiga capital goiana, Cora Coralina viveu em cidades do interior paulista após o casamento com o advogado Cantídio Bretas, chegando à metrópole paulistana em meio a um período conturbado de conflitos de poder. Por quase cinquenta anos, ela permaneceu no estado de São Paulo, até retornar a Goiás aos 67 anos de idade, duas décadas após a morte do marido. O primeiro livro, intitulado “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, foi publicado quando a poeta já alcançava os 76 anos.

O poeta Carlos Drummond de Andrade é apontado como um dos responsáveis pelo reconhecimento literário de Cora Coralina. Foi o mineiro que avaliou a produção da goiana como “poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado”. A partir daí, a figura simultaneamente frágil e forte de Cora, exprimindo sabedoria e carinho por meio da voz firme e das palavras cuidadosamente escolhidas, tornou-se ícone da histórica cidade de Goiás. Seu lirismo singular e bem-vivido, pungente e nada comedido, transformou-se no hino da poesia goiana.

Assistir a entrevistas gravadas com a poeta na década de 1980 é um exercício de delicado prazer, por suas opiniões convictas e até mesmo polêmicas, ao tratar de sentimentos, do papel social do homem e da mulher ou de política. A Associação Casa de Cora Coralina mantém um bom acervo da poeta na internet. No site da associação (www.casadecoracoralina.com.br) é possível acessar biografia, curiosidades, vídeos, poemas e uma relação dos livros produzidos pela escritora. Além disso, o Museu Casa de Cora Coralina, mantido pela associação na casa da ponte onde viveu a escritora, às margens do Rio Vermelho, é uma das paradas obrigatórias dos turistas que visitam Vila Boa.

A presidente da associação, Marlene Gomes Vellasco, explica que um dos desafios é expandir o legado de Cora para além das fronteiras goianas. Por isso mesmo, a exposição que começa no fim do mês em São Paulo será levada, em 2010, para Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. A associação também se volta para a realização de ações que aliam educação, cultura e turismo, como forma de conquistar e cultivar novos leitores para a poeta. A entidade não deixou o marco dos 120 anos do nascimento de Cora Coralina passar em branco. O Festival Cora Viva Coralina, realizado no final de agosto, foi pontuado pelo lançamento de estudos literários sobre a obra da escritora, pela declamação de seus poemas, por um espetáculo baseado em um conto de sua autoria e até mesmo por um circuito gastronômico com pratos inspirados em versos de Cora.

Fascinar todas as esferas da arte é um dos poderes da poeta vilaboense. Imortalizada por seus versos surgidos de uma aptidão natural para a poesia e marcada pela experiência de viver “nas asas impossíveis do sonho”, Cora Coralina foi festejada em outros setores da cultura. Na música, o maranhense Zeca Baleiro citou a goiana na canção “Meu Amor, Minha Flor, Minha Menina”: “Minha Cora, minha Coralina / Mais que um Goiás de amor carrego / destino de violeiro cego”. O cantor foi um dos destaques do Festival Cora Viva Coralina.

O impacto de Cora Coralina na cultura goiana perdura até hoje. A simplicidade de um poeta engrandece sua poesia, e nesse sentido, a poeta é a “abelha operária, mestra e silvina”, conforme versa o conterrâneo Marcos Caiado no poema “Sempreviva”. Para quem ainda não está convencido da importância de Aninha — a das pedras — na literatura brasileira, Antonio Carlos Sartini, o diretor do Museu da Língua Portuguesa, garante: “Penso que só uma coisa seria melhor que ler seus versos: ler seus versos comendo seus doces! Os versos eu devoro; os doces, infelizmente, não tive o prazer de provar”. Sorte a poesia — e não os doces — ser o melhor alimento para a alma.
 

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