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POR EM 02/11/2010 ÀS 06:45 PM

“Raduan Nassar é o maior escritor brasileiro vivo”

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 Halley Margon V. Jr

Arquiteto e escritor, Halley Margon V. Jr., de 54 anos, nasceu em Catalão, Goiás. Morou em Londres e há duas décadas mora no Rio de Janeiro. Admirador do diretor de cinema Stanley Kubrick e leitor de Faulkner, James Joyce, Guimarães Rosa e Dashiell Hammett, Halley Margon desponta como um dos nomes promissores da literatura brasileira.  Seu livro de estreia, “Paisagem Com Cavalo” (Editora 7 Letras), recebeu menção honrosa do Prêmio Sesc de 2009, o mais importante prêmio literário, para livros inéditos, do Brasil. Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, concedida por e-mail, fala sobre livros, filmes, crítica literária, editoras, arquitetura, jornalismo cultural, sua opção ideológica pela esquerda, e sobre seu romance, que será lançado em Goiânia, na quarta-feira, 3, às 19 horas, na Livraria Saraiva, no Shopping Flamboyant. 

A prosa de Halley Margon V. Jr tem um quê de literatura inglesa ou, quem sabe, irlandesa — tem pouco a ver com a literatura brasileira, pelo menos a tradicional, e não é mais um filho, ao contrário do que alguns podem pensar, de Rubem Fonseca. Leitor infatigável dos autores que compuseram a literatura moderna — além de apaixonado por música erudita — e escritor obsessivo, sem a pressa do cometa, Halley faz uma literatura “sua”, malgrado as indefectíveis influências, como Beckett (com aquela sua zona de indefinição), Faulkner e Joyce. Ele escolheu um caminho e este não tem a ver com repetir o que já foi dito. Halley veio para ficar e tem outros romances no forno. 

Como caracteriza “Paisagem Com Cavalo”: é um romance moderno, na linha de Faulkner e Joyce, mas que também bebe em Raymond Chandler e Dashiell Hammett? Ou tem pouco a ver?

Não vejo como seria possível pensar a literatura sem ter passado por nomes como estes. Gosto de Faulkner, talvez mais do que de Joyce, ainda que não tenha o mesmo brilho atrativo, a mesma capacidade de influência. “Ulisses” é provavelmente o livro mais “solto” que li na vida. Ele respira o tempo todo. E nos faz respirar. Neste sentido, é extremamente prazeroso. Sobre Hammett [autor de “O Falcão Maltês”, clássico do romance policial], gostaria de contar uma historieta deliciosa. Dizem que, no período macarthista, o próprio senador McCarthy teria lhe interrogado: “No meu lugar, permitiria o senhor que seus livros estivessem nas bibliotecas americanas?” Ao que Hammett teria respondido: “Eu, se fosse o senhor, não permitiria a existência de bibliotecas!” Chandler, li muito pouco. 

Você diz que escrever é melhor do que lançar e cuidar do livro depois que é publicado. Por quê?

Porque o trabalho está no ato de escrever, o que vem depois, a circulação, pode ser importante para os outros. Quando essa fase se inicia, para quem escreve sobra só a vaidade. Pode até ser bom, mas o gozo mesmo está é no trabalho, no ato da escrita. 

Como vai ser o lançamento? O livro está vendendo?

O lançamento vai ser bacana, porque está sendo feito por pessoas queridas, que estão me dando o tempo e o carinho delas, e porque vou revê-las e a tantos outros queridos amigos, como o escritor Antônio José de Moura, que não encontro faz tempo. Vendeu a primeira edição — duzentos exemplares. Os livros que estão vindo para Goiânia já são da segunda leva.  

Quais são seus novos projetos literários?

Na verdade, o lançamento deste primeiro romance foi um pouco tardio. O livro já estava pronto há muito tempo e só consegui publicá-lo por conta da premiação (concurso do Sesc). Enquanto isso, continuei escrevendo e já estão concluídos dois novos romances, cujos títulos (provisórios) são: “No Inferno os Ventos Sopram de Todas as Direções” e “Na Companhia de Assassinos”. Agora estou trabalhando num romance que é anterior a “Paisagem Com Cavalo” e que é, desde a origem, um texto mais ambicioso e difícil, cujo título (também provisório) é “Derivações de Ana”.  

Você é goiano de Catalão. Mora no Rio há quantos anos? Como foi morar na Inglaterra?

Eu nasci em Catalão, minha família mora ainda toda lá e eu a visito com frequência [o escritor é filho do ex-deputado federal Haley Margon Vaz]. Estou no Rio desde 1989, se não me engano. A ida para a Inglaterra foi a última ou penúltima etapa de uma transição dolorosa que vai da tentativa de mudar o mundo até o reconhecimento de que o mal, o capeta, a mercadoria (ou o capitalismo), venceu definitivamente qualquer projeto que não tenha como cerne a própria lógica exclusivista da forma mercadoria. A partir da volta da Inglaterra, eu me voltei pra dentro, tive minha filha [Lívia] e comecei a escrever livros. Mas tenho muita vontade de voltar a Londres, aos bairros pobres do sul da cidade, onde morei. Era para ter ficado mais tempo, mas fui expulso. 

Quais autores mais influenciaram sua prosa?

Juro que não saberia dizer. Eu imagino que todo mundo que li e leio influenciou e influencia o que escrevo, sem que eu saiba nunca onde ou como. É possível que prefira assim, e que não seja possível de outra maneira. 

Quais os livros que influenciaram sua formação?

Tem aqueles livros que surgem na memória da gente como tendo sido imprescindíveis para a nossa própria feitura. Eu me lembro de um livro do Jack London com o qual adorava presentear amigos, “O Lobo do Mar”, que no Brasil foi traduzido por Monteiro Lobato e editado como livro de aventuras [o romance, filmado pelo menos duas vezes, é o mais filosófico de London; é uma discussão sobre o poder]. Há livros e escritores que fizeram muito minha cabeça em momentos particularmente significativos: “Mulheres Apaixonadas”, de D. H. Lawrence (junto com “A Serpente Emplumada”), “Trópico de Câncer” e “Trópico de Capricórnio”, de Henry Miller. Muito mais recentemente entrei em contato com a literatura do austríaco Thomas Bernhard e me senti profundamente tocado, modificado ou iluminado por dentro, ampliado, algo assim! 

Como avalia a literatura goiana?

Não posso avaliar detidamente, pois não sou especialista. Mas há prosadores e poetas de bom nível, como Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Élis, José J. Veiga, Afonso Félix de Sousa, Antônio José de Moura (do qual conheço mais a prosa), Heleno Godoy (um artigo de Luiz Costa Lima chamou a minha atenção para sua obra), Miguel Jorge, Flávio Paranhos, Wesley Peres, Valdivino Braz e Edival Lourenço. Leio cronistas e críticos no Jornal Opção e na “Revista Bula” e aprecio.  

Por que não tem simpatia pela prosa mais atual do nobelizado Mario Vargas Llosa? É uma discordância política ou literária ou as duas coisas?

Eu não sei se não tenho simpatia pela prosa mais atual do Vargas Llosa! Simplesmente não o leio faz bastante tempo. Talvez, e erradamente, tenha criado uma certa rejeição por conta do papel político que resolveu desempenhar a partir de um certo momento, claramente de direita e liberal, coisas das quais eu procuro manter distância. Mesmo reconhecendo que fomos derrotados, e fomos por nossas falhas e nossos crimes, não porque o projeto adversário seja melhor para o homem, eu sigo sendo de esquerda, o mais a esquerda possível. O que significa dizer que acho nefasto o projeto do mundo próspero (termo da Susan Sontag que adotei para me referir ao universo da mercadoria). Eu não ia votar na Dilma Rousseff (muito menos no José Serra ou na Marina Silva, é claro). Só decidi votar por conta da posição canalha da grande imprensa (“Folha de S. Paulo”, “Estadão”, “O Globo”, “Veja” e “Época”). Mas voltando ao Llosa, poderia dizer, lembrando a pergunta anterior, que “Batismo de Fogo” (“La Ciudad y los Perros”) me deixou em estado de comoção e arrebatamento durante uns bons anos. 

Na sua opinião, qual é o maior escritor vivo?

Ah! Continua sendo Shakespeare! [Halley é irônico ao sugerir que, de alguma forma, o escritor inglês está “vivo” e, como quer Harold Bloom, “inventou” o homem moderno]. 

Qual é o maior escritor vivo do Brasil?

Raduan Nassar! — e não importa que tenha parado de escrever. 

Há algum escritor brasileiro da atualidade que pode ser comparado a Guimarães Rosa?

Acho difícil. Talvez Raduan Nassar. Agora mesmo, por conta do prêmio Nobel para o Llosa, eu estava me perguntando sobre a nossa literatura, que, do meu ponto de vista, é atualmente muito acanhada (e não sei explicar porquê, nem aventar hipóteses), e me lembrei do Guimarães Rosa. Não tem três meses que reli o “Grande Sertão: Veredas” pela quarta vez. E não é que a cada vez parece que o livro fica maior! Deixa contar outra historinha. Está na edição das obras completas dele. Respondendo ao jornalista e crítico alemão Günter Lorenz sobre a razão de, como diplomata brasileiro lotado em Hamburgo no período nazista, se arriscar para salvar judeus das mãos da Gestapo, Guimarães Rosa respondeu assim: “Eu, o homem do sertão, não posso presenciar injustiças. No sertão, num caso desses, imediatamente a gente saca o revólver”. Não é uma maravilha? 

Existe algo em literatura que ainda não tenha sido feito?

Muito! A literatura é a mais lenta, a mais conservadora das artes. Tem muito pauzinho ainda para ser mexido. 

Quais os cinco principais livros que precisam ser editados no Brasil?

O primeiro e destacado na lista é bem fácil: “A Destruição dos Judeus Europeus”, de Raul Hilberg. O livro é de 1961! Não há justificativas para não ter sido publicado aqui. É o mais importante documento já feito sobre a mais significativa tragédia da história da humanidade. É um calhamaço de mil e poucas páginas minuciosamente documentado. Aliás, não sei se existe alguma edição em língua portuguesa. O meu tive que importar. Está em espanhol. Outro que também tive que importar da Espanha é “O Caso do Camarada Tulayev”, de Victor Serge, um importantíssimo romance que joga luzes sobre os crimes do regime stalinista na União Soviética. Além desses, e tratando basicamente da mesma época, tem a biografia do Hitler feita pelo historiador britânico Ian Kershaw, em dois volumes, cada um com mil páginas. A Companhia das Letras está preparando o seu lançamento, mas até agora nada. Há edições portuguesa e espanhola. 

Qual filme é melhor do que o livro do qual foi adaptado?

“O Poderoso Chefão”, um grande filme, dirigido por um cara [Francis Ford Coppola] que à época [1971] acho que não tinha nem 30 anos de idade, partiu de um livro dos mais simplórios. Posso lembrar outros: “2001: Uma Odisséia no Espaço”, “Barry Lyndon”, “O Iluminado” (o livro é do superbestseller Stephen King), todos de Stanley Kubrick. 

Procede que você é um grande leitor de romances policiais? Quais são seus preferidos?

Dashiell Hammett e, depois, os outros, com destaque para David Goodis [autor de “A Lua na Sarjeta”]. Mas gosto muito de Patrícia Highsmith [autora de “O Amigo Americano” e “O Jogo de Ripley”] e, dos mais recentes, o Dennis Lehane [“Ilha do Medo” e “Naquele Dia”] e John Dunning [“Assinaturas e Assassinatos” e “Edições Perigosas”]. Os crimes cometidos por personagens de Dunning envolvem sempre questões livrescas. 

Por que seu interesse pelo pintor holandês Rembrandt (1606-1669)?

É muito recente, não tem mais que um ou dois anos e ainda não sei direito de onde vem. Talvez tenha a ver com meu interesse pelo Renascimento (e no projeto humano que, tendo tomado um grande impulso ali, nos nossos dias vive seus estertores), que, do meu ponto de vista, pode e deve ser estendido até o Setecentos, ou com as peculiaridades da economia holandesa no século XVII, com o barroco na pintura, ou, finalmente, com um personagem do livro que estou (re)escrevendo e que nasceu quando eu estava dando uma estudada em “A Lição de Anatomia do Dr. Tulp” [pintura de Rembrandt, de 1632]. 

Por que o título “Paisagem Com Cavalo”, que lembra um quadro do impressionismo?

Pode ser que de fato lembre um quadro impressionista, mas a cena da qual o título foi tirado nada tem de impressionista, muito menos de idílica ou campestre. Aliás, talvez não seja mal alertar aos eventuais leitores para o sentido irônico do título, já que o texto como um todo nada tem de idílico ou pastoril. 

Numa espécie de Fla x Flu, quem escreve para a permanência: António Lobo Antunes ou José Saramago?

Eu gosto da literatura do Saramago. Mas não me agradam esses tipos que tiveram elos fortes com o stalinismo e jamais fizeram uma ruptura pública e explicitada com isso, nem denunciaram os crimes políticos (e morais) do stalinismo, como é o caso do Saramago. Por favor, não me venham com a história de que o cara se aproximou do PC [Partido Comunista] após o fim do stalinismo. Só cretinos muito arrematados para dizer que o stalinismo acabou com a morte de Stálin. Esquecem, com a facilidade do grande mau caráter, o longo período do qual o próprio Nikita Kruchev fez parte do primeiro círculo dos criminosos mandatários stalinistas, no qual teve papel de destaque.  

A quem você não daria o Nobel de Literatura?

Winston Churchill, que foi laureado em 1953, é imbatível! 

Entre os britânicos Martin Amis e Ian McEwan, você ficaria com qual autor? 

“Reparação” é um romance muitíssimo bom, já não penso a mesma coisa dos outros livros de McEwan que li, como“Sábado”, “O Inocente” e “Ao Deus-Dará”, título estrambótico para “The Confort of Strangers”. E no caso desse último ocorre uma situação como aquela que vocês perguntaram acima: o filme, dirigido pelo roteirista de “Taxi Driver”, Paul Schrader, é dezenas de vezes melhor que o livro. 

O americano Thomas Pynchon permanece como grande autor?

Acho que sim.  Pelo menos continua tentando reinventar a literatura. Mas eu, pessoalmente, tenho dificuldade de terminar a leitura dos livros dele, e por uma razão: ainda que quase milagrosamente elaborados, celestialmente literários, me soam ao mesmo tempo como excessivamente cerebrinos — e isso é algo que a mim não encanta. “Mason & Dixon” li umas trezentas páginas, parei, li mais cem, e larguei de vez. 

Há algum escritor brasileiro que conseguiu interpretar bem as elites e as classes médias?

Eu não sei se as elites e as classes médias deveriam ser tema de literatura, tampouco o proletariado. Tenho um certo receio dessa categorização sociológica quando remetida à literatura. De todo modo, embora ambientado na Bahia do século 17, o belíssimo “Boca do Inferno”, de Ana Miranda, nos traz, entre outras coisas, um retrato bastante justo das elites brasileiras. Mas talvez ainda nos falte um Thomas Mann para um painel tão amplo e agudo quanto o de “Os Deuses Malditos” — ou quem sabe sejam nossas próprias elites que não tenham dimensão para merecer um amplo painel sobre si mesmas. Sobre a classe média, seu grande retrato como categoria universal foi feito pelo americano Sinclair Lewis, em “Babbit”. 

Na sua opinião, qual é o maior crítico literário brasileiro de todos os tempos? Qual o maior em atuação?

O maior em atuação deve ser o Otto Maria Carpeaux, que escreveu a “História da Literatura Ocidental” (aliás, já está mais que na hora de alguém reeditar, em sebo ainda se consegue um ou outro volume, mas a edição da gráfica do Senado parece que está esgotadíssima). Mas tem também o [poeta] José Paulo Paes, que, além de ser um crítico notável, era um tradutor absolutamente genial. Quem já leu “O Declínio e Queda do Império Romano”, de Edward Gibbon, sabe do que estou falando. É possível que a tradução seja até melhor que o original.  

Costuma-se dizer que a crítica literária de jornal, pelo menos a de peso, acabou. Você concorda?

Acabar de todo não acabou. Vez ou outra ainda aparece um ou outro texto analisando algum livro que eventualmente pode até lembrar um Antonio Candido ou um Roberto Schwarz. Mas é vez ou outra. Ou algum que, mesmo não sendo exatamente um crítico literário, tem uma percepção iluminadora da literatura. A mim agrada muito quando o Marcelo Coelho, da “Folha de S. Paulo”, escreve comentando livros. Ou Luiz Costa Lima, este, sim, um autêntico crítico. Mas que falta por aqui aparecer um Alberto Manguel, isso falta, mesmo! A crítica de cinema, essa, está praticamente extinta. As pouquíssimas exceções, vide Inácio Araújo, só confirmam a regra. Sobre a falência da crítica no mundo das artes plásticas e sua subordinação ao mercado há um livro imperdível lançado no ano passado pela Civilização Brasileira: “A Grande Feira — Uma Reação ao Vale Tudo da Arte Contemporânea”, do jornalista, escritor e tradutor Luciano Trigo. 

Há algo de positivo no fato de a crítica literária concentrar-se nos meios acadêmicos?

Até pode existir. “Algo de positivo”, assim genericamente, pode mesmo haver. Eu não consigo atinar. Seria preferível que não fosse assim... algo que se concentra tende a se restringir e a emular a si mesmo, tornar-se estéril. 

Teoria literária é algo ultrapassado?

O conhecimento que a gente tem das coisas é sempre insuficiente. Portanto, qualquer gesto ou impulso que produza qualquer forma de conhecimento, que ilumine ainda que muito parcialmente o que quer que seja, precisa continuar sendo feito. A burrice é produzida cotidianamente em escala industrial e está sempre sendo renovada. Então, teorias, literárias ou de outro tipo, acadêmicas ou não, são sempre bem-vindas. Eu não acompanho quase nada. É preciso ler, sobretudo, a própria literatura. 

Qual o melhor caderno cultural entre os publicados nos jornais brasileiros?

A “Folha de S. Paulo” tinha o “Mais!”, aos domingos, que na recente reforma do jornal deixou de existir, sendo substituído por uma coisa meio esquisita, amorfa, insossa, talvez pretensiosa que, de qualquer modo, nunca consegui ler [trata-se da natimorta “Ilustríssima”]. Os jornais, a meu ver, acompanham os movimentos produzidos pelo mundo próspero e, tanto quanto a humanidade em geral, ou os resíduos dela, estão se estupidificando (para usar o termo do filósofo alemão Theodor Adorno) aceleradamente, encurtando os textos, reduzindo as falas e comendo as palavras. O mundo letrado e a inteligência na forma como a conhecemos desde Homero está passando por um acelerado processo de desaparecimento. É tamanha a virulência dessa extinção que ninguém parece estar sequer se dando conta. De fato, não há quem dê a menor importância a ele. O que estamos presenciando é um féretro que nem lástima provoca — a derradeira tragédia. 

O que lê na internet?

Eu dou umas pesquisadas na internet, ler, mesmo, não leio. De uns tempos para cá, passei a acompanhar uns jornais especificamente da internet, além de um ou outro blog — no caso destes, foi a partir do papel infame que os grandalhões da imprensa brasileira resolveram desempenhar nas últimas eleições. Aliás, essas eleições serão lembradas não pelas diferenças políticas dos projetos concorrentes que, a meu ver, embora existam, são relativamente pequenas, mas pela calhordice da grande imprensa que, se não foi decisiva, muito contribuiu para que o nível fosse rebaixado como nunca desde a redemocratização. Mas nós também, todos nós, temos culpa nesse cartório. Parece que nos agrada chafurdar na lama e transformar o que deveria ser um debate político, uma disputa aberta em torno de projetos e da organização de interesses, numa verdadeira catarse coletiva. 

Procede que algumas editoras poderosas controlam alguns cadernos culturais do país?

Acho que sim. Porque editoras poderosas são produto do capital concentrado. E é o capital que controla os jornais e seus cadernos, na maioria das vezes. Mas também porque, de fato, algumas delas fazem um trabalho editorial de primeira. Veja-se o caso da Companhia das Letras e da Cosac Naify. 

O que querem as editoras?

Ganhar dinheiro. 

O crítico literário e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Luís Augusto Fischer diz que o modernismo criou uma camisa de força na literatura do país: tudo aquilo que não é modernista não é bom. O que acha desta crítica?

Pode ser que sim, não acompanhei esse debate a que você se referiu. Mas, evidentemente, não gosto de camisas de força, seja o modernismo, seja o aparentemente hiper-permissivo pós-modernismo. Sabe a melhor frase do “Ulisses”? “Eu quero sims” — assim mesmo, “sims”, no genial achado do tradutor Antônio Houaiss. James Joyce, quando colocou a expressão na boca da Molly Bloom, parecia estar se referindo era, antes de mais nada, à própria literatura. Pelo menos foi este o recado que resolvi guardar. 

Se ocorresse uma hecatombe no mundo, e você, se incumbido de salvar cinco livros, quais salvaria?

As tragédias de Shakespeare, o romance “Grande Sertão: Veredas” e os livros de Samuel Beckett, que leria, então, sem medo da influência. Agora, veja como opera o insidioso egoísmo humano. Uma hecatombe e eu resolvo salvar os livros que seriam os mais importantes para mim. 

A “Bíblia” é um livro mais literário do que religioso?

Como eu não sou religioso, além de radicalmente anti-clerical, toda vez que leio a “Bíblia” o faço como literatura (e das boas!). 

Por que você não tem muito apreço pela poesia? Ainda assim, lê algum poeta?

Ah!, não é apreço, não! O que não tenho é competência ou aptidão para ler poesia. Só isso. 

Quais são os cinco maiores filmes de todos os tempos?

Não tenho a pretensão de dizer quais seriam os cinco melhores, mas posso dizer os cinco de que mais gosto, hoje: “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Kubrick, “Dogville”, de Lars Von Trier, “Violência e Paixão”, de Luchino Visconti, “Desejo, Perigo!”, de Ang Lee, “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, e, recentemente, vi o filme de um diretor argentino que é impossível não citar: “O Segredo dos Seus Olhos”, de Juan José Campanella.  

Cinema é a maior das artes ou Walter Benjamin estava errado?

O cinema é só uma forma a mais por meio da qual o humano pode se projetar para os homens. Ainda vejo muitos filmes, bons e ruins (gosto muitíssimo de filmes ruins, gosto, mesmo!), mas tenho visto cada vez menos cinema. Não sobra tempo. A literatura é mais importante. Isso está se tornando cada vez mais claro para mim. 

José Paulo Paes falou de talento. João Cabral de Melo Neto de trabalho. Como encara a escrita?

Como iluminação. Eu nunca domino completamente o que escrevo. Não quero dominar. E toda vez que faço isso a qualidade do texto cai. Não é que não trabalhe, trabalho muito, corto inúmeras vezes, faço inúmeras revisões, vou aos dicionários milhares de vezes. Evidente, isso para mim é imprescindível. Mas quando acabo o texto e, ao invés de revisá-lo e mexer e mexer de novo, quando essa compulsão finalmente cede, e ele fica lá fora, pronto, igual um objeto estranho, um bicho ou um inseto, que me ignora por completo, nunca sei de onde veio, de que lugar de mim ele saiu. 

Alguma influência lhe angustia?

Beckett [autor de “Esperando Godot”]. 

Você é arquiteto. Como avalia a arquitetura de Oscar Niemeyer? Quais outros arquitetos têm obras relevantes mas que, diante do “monstro sagrado”, não aparecem?

Os desenhos do Niemeyer são únicos e alguns, como o projeto para a Mesquita de Argel, me deixam em estado de êxtase contemplativo.  

Por que comparada com a arquitetura mundial, a brasileira é apontada como ruim?

Não sei se é ruim. A arquitetura, talvez mais que outros ramos da expressão humana, e principalmente aquela que chama mais a atenção do grande público, a dos grandes museus e dos edifícios monumentais e os das grandes corporações, projetados pelos arquitetos cujos nomes já se tornaram grifes, é toda ela feita onde estão as sedes do grande capital transnacional. Por mais que a economia brasileira tenha crescido e se integrado ao capitalismo mundial ainda é relativamente acanhada para que possa projetar sua arquitetura para o centro desses espaços extremamente visíveis e desejados.

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