revista bula
POR EM 08/08/2009 ÀS 01:53 PM

Quanto vale ou é por quilo?

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Liberal, libertário e libertino. O escritor carioca Alex Castro fala sobre mercado editorial, literatura e internet. Nem José Saramago escapa

Alex Castro 

O escritor Alex Castro bolou um esquema incomum para o lançamento da edição impressa de seu primeiro romance, “Mulher de Um Homem Só”. Carioca, residindo atualmente em Nova Orleans, Estados Unidos, Alex fez uma campanha na internet para convencer leitores a comprar exemplares do livro, ao preço mínimo de R$ 24,40. A maioria dos investidores deu lances acima do valor inicial, garantindo a publicação. Em três semanas de pré-venda, o escritor conseguiu vender 117 exemplares, ao preço médio de R$ 33,90. O romance de Alex já havia causado boa recepção quando publicado na internet. Aliás, o autor tem uma relação de sucesso com o mundo virtual. O blog “Liberal Libertário Libertino” conquistou seguidores fiéis. O espaço, “anárquico” na definição do blogueiro, revela um criador ágil e multifacetado, atento e ousado. Para quem se interessou, é possível adquirir um exemplar do novo livro de Alex por meio do blog. Em entrevista a Revista Bula, Alex Castro afirma que a mágica de escrever um romance é poder sair um pouco de si e entrar no corpo de outra pessoa. O escritor também endossa o coro dos que acham José Saramago um chato e comenta sobre um de seus projetos vindouros, uma obra sobre sua intensa relação com a cidade do Rio de Janeiro. Confira.
 

Quais foram os desafios de publicar a versão “física” de “Mulher de Um Homem Só”, pela editora Os Viralata?

Alex Castro —  Desafio nenhum, na verdade. Desafio foi tentar publicar o livro pelas ditas editoras tradicionais. Lançar o livro como lancei foi fácil. Anunciei no blog que faria uma edição física de “Mulher de Um Homem Só”, que a pré-venda já estava aberta. Dei os detalhes sobre a data que o livro iria para a gráfica e que o lançamento seria feito. Falei que dependendo do dinheiro que conseguisse levantar, decidia a tiragem do livro, ou então, desistia e devolvia o dinheiro de todo mundo. Enquanto isso, minha amiga, a artista plástica Isabel Löfgren, criou várias capas lindas, e os leitores também ajudaram a escolher a melhor. O Albano Martins, editor da Os Viralata, editou e formatou o texto do livro. Os resultados foram além de qualquer expectativa. Cento e cinquenta pessoas compraram o livro na pré-venda. Várias pagaram muito mais do que o preço mínimo, viabilizando com folga a edição.

Apesar da propagação dos chamados e-books na internet, viabilizados pela facilidade de distribuição e baixos custos, você ainda acha importante publicar “à moda antiga”, no papel?

AC — Não acho, não. Não vejo a menor graça no objeto livro. É uma coisa pesada, difícil de carregar, difícil de manter, que junta bicho, fede, dá mofo, essas coisas. Eu adoro literatura e adoro o conteúdo dos meus livros, mas não papel em si. O problema é que ainda estamos na Era do Papel. No final dela, mas ainda nela. As pessoas tendem a confundir papel com literatura, o que é meio ridículo. Papel é apenas o suporte. Uma poesia de Whitman é tão literatura se estiver no papel, numa tela de computador, escrita num guardanapo, num livro em áudio, grafitada numa parede, etc. Quando inventarem um outro suporte, mais barato, mais leve, que dê pra ler num parque num dia de sol, que dê pra marcar e sublinhar, e estamos quase lá, então os livros vão se tornar como os cavalos hoje: não vão sumir, mas também não vão ser uma opção de massa. Serão lidos e cavalgados somente pelos mais entusiastas.

Você se vê inserido no cenário da “literatura independente” brasileira? Quais são as barreiras e dificuldades para os autores que se propõem a escrever assim?

AC —  Eu nunca me propus a escrever literatura independente. Eu me propus só a escrever literatura. Também não tenho fetiche por literatura independente. Se o Schwarcz (Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras) me ligar amanhã dizendo que me quer na editora dele, a única questão vai ser negociar o preço. O problema é o tal mercado editorial intransponível. A própria Companhia das Letras, li em algum lugar, afirmou que mantém um time de leitores pra ler os manuscritos submetidos, mas que nunca, nem uma única vez, publicou um livro que foi mandado assim na cara dura. Todos os livros que publicou vieram recomendados ou encomendados. Aí você vê que, verdadeira ou não, a história é emblemática. Se os caras nunca publicaram nenhum, o problema é provavelmente mais deles que dos autores, por um motivo simples. A Companhia é uma das maiores e mais prestigiadas editoras do Brasil. Provavelmente, muita gente que acabou saindo por outras editoras (e fazendo sucesso) também mandou seu livrinho na cara e na coragem para a Cia. das Letras, e nada. Será que eram mesmo livros tão ruins assim? Todos?

Para lançar “Mulher de Um Homem Só”, você recorreu às pessoas que gostam de investir em cultura. Apesar do velho senso comum de que a maioria da população brasileira é avessa às coisas do ramo, como você avalia o resultado do apelo, no caso do seu livro?

AC — No meu caso, foi tranquilo, pois tenho um blog há muito tempo, com leitores já cativos, que gostam de mim e me lêem diariamente. Muitos deles ficaram felizes de pagar para ler um livro inédito e também de retribuir as boas horas de leitura gratuita que tiveram. Quase todos os leitores pagaram mais do que o preço mínimo de R$ 24,40.

Você acredita que “livro é pra circular”. Qual é o tipo de leitor ideal para você? Como o leitor deve exercer o papel de propagador da obra literária?

AC — O meu leitor ideal não mantém uma estante cheia de livros que ele nunca mais vai abrir, como se fosse um caçador mostrando seus troféus:  “Olha o antílope que eu cacei! Olha o Kuarup que eu li!” Acho muito esnobismo. Se já leu o livro e não vai ler de novo, passe adiante. Venda para um sebo. Doe para a biblioteca. Passe na universidade federal mais próxima e distribua entre os estudantes mortos de fome. Não deixe eles mofando entre os seus “troféus”.
 
O meu leitor ideal sabe também que sua relação com um autor vivo pode e deve ser interativa: ele pode interpelar o autor, interferir na obra, fazer ou destruir sua reputação. Não é a mesma relação que teria, digamos, com “Dom Casmurro” ou “Moby Dick”. Quando gosto do livro novo de alguém assim, eu faço post, escrevo no blog, conto pra todo mundo, dou o livro de presente, empresto, faço um escarcéu e uma divulgação muito maior do que faria se descobrisse um escritor morto e enterrado, porque sei que o autor precisa desse boca-a-boca pra existir. Ao mesmo tempo, quando odeio o livro de um autor vivo, eu fico calado e me auto-censuro muito mais do que no caso de um autor morto, que não está aí pra chorar de tristeza ou, pior, vir na minha porta me bater. Para que vou falar algo pra magoar um menino que está começando e cujo único pecado é ser incompetente e inábil? Eu sei que tenho liberdade de expressão. Eu sei que quem sai na chuva é pra se molhar. Sei que posso, mas, mesmo assim, não me sinto bem escrevendo algo que sei que vai fazer mal a alguém.

Um leitor comprou sete exemplares do meu livro, porque disse que adorou, queria conversar sobre o livro com os amigos, eles não conheciam, e achou que presenteá-los era um bom jeito de ajudar tanto a eles quanto a mim. Claro que esse homem é o meu leitor ideal, mas não precisaria ir tão longe. Basta colocar o livro de novo em circulação. Livro é pra ser lido. Se você já leu (e não vai usar ou precisar dele de novo), repasse para outra pessoa que vai lê-lo também.

Seu livro esteve disponível na internet para baixar até 2006, fazendo sucesso entre os internautas. Com o lançamento da versão “física”, você acha que a recepção de público e crítica pode ser diferente, comparada à versão digital?

AC — O livro teve uma recepção muito boa na internet, foi resenhado dezenas de vezes e obteve muito feedback. Via de regra, as leitoras se empolgaram mais do que os homens, a maioria se viu muito na personagem da narradora, a Carla. Não vejo porque a reação off line seria diferente. Minha grande esperança é poder atingir um público que não está na internet, que não teria acesso ao livro de outro jeito.

Fale um pouco sobre a sua formação cultural. Quais autores fizeram sua cabeça? Em que contexto você se interessou pela literatura?

AC — Sempre me interessei por literatura, mas nasci numa casa anti-literata, com poucos livros, e os poucos eram best-sellers, policiais, essas coisas. Tínhamos uma coleção da Britannica Great Books, o cânone do cânone, e me formei lendo esses livros, os grandes clássicos universais. Não tenho muitos autores que me formaram, não, porque sempre li muito, e desordenadamente, então, a graça é justamente ler muito, demais, sacudir aquilo tudo na cabeça e ver o que sai. Um escritor precisa ler muito por um único motivo: para saber o que já foi feito. Para não repetir livros velhos. Para ser capaz de detectar quando está inconscientemente roubando a voz de alguém. Essas coisas. Uma influência mais negativa do que positiva mesmo. Por exemplo, essa nova geração só repete Rubem Fonseca até hoje porque não leu o suficiente para saber como seus livros são repetitivos e velhos.

O que você aprecia na literatura atual, brasileira e internacional? E o que você preferia não ter lido nunca?

AC — Os dois melhores autores vivos na língua portuguesa são, sem dúvida alguma, Mia Couto e António Lobo Antunes. Ambos sempre me ensinam muito e fazem coisas com a língua portuguesa que eu achava que não poderiam ser feitas. Dos brasileiros vivos, tem pouca gente que eu gosto de verdade. Ariano Suassuna é provavelmente o melhor autor brasileiro vivo, só pelo “Romance d'A Pedra do Reino” e pelo “Auto da Compadecida”, mas ele não escreve faz tempo. Como todo mundo, gostei muito de “O Filho Eterno”, do Cristóvão Tezza . E meu irmão-marginal-escritor-independente Luiz Biajoni está escrevendo alguns dos livros mais originais, inovadores e empolgantes que já li em muito tempo, apesar de ninguém estar vendo – por enquanto. Fora da língua portuguesa, eu conheço muito pouco da produção contemporânea, mas o último livro sensacional que li, de me deixar boquiaberto e estupefato, foi “As Partículas Elementares”, do francês Michel Houellebecq, um autor completamente ensandecido e iconoclasta.  

Não há nada que eu tenha lido que eu gostaria de não ter lido. Os livros ruins são muito importantes, pois servem de exemplo negativo, mostram o que já foi dito, o que já virou clichê, por onde não ir, o que não fazer.

Sobre “Mulher de Um Homem Só”, o que esse livro representa na sua obra? Como e onde ele está inserido no conjunto de seus trabalhos?

AC — Representa o fato de que ela existe. Minha obra, se é que podemos chamá-la assim, é composta de quatro livros. “Liberal Libertário Libertino” é uma coletânea das melhores crônicas que publiquei no blog de mesmo nome e na minha coluna na finada Tribuna da Imprensa, entre 2003 e 2007. “Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas” é um livro de crônicas de viagem sobre Cuba, um país que amo e adoro. Ao contrário do outro, não são crônicas coletadas, nem tiradas da internet, mas inéditas e escritas especificamente para formar esse livro. Devo ter feito algo de muito certo, porque os fidelistas me acusam de agente da CIA e os reacionários me acusam de lambe-botas do Fidel. O livro de contos “Onde Perdemos Tudo” reúne contos unidos pelo tema comum de perda. Nunca gostei muito de livros de contos sem um projeto unificador. Parece que o autor simplesmente passou a limpa na gaveta. A ordem dos contos também é importante: um livro de contos tem que ter uma sequência, algum tipo de narrativa. Nesse caso, começo com um conto sobre o processo de perda, sigo com um conto sobre o momento da perda em si, depois um conto sobre a perda relembrada e, por fim, um conto mais otimista, para não fechar o livro em uma nota desesperadora.

O romance “Mulher de Um Homem Só” desenvolve o tema de um dos contos: questiona se é possível haver uma amizade de verdade, não-sexual, digamos, entre homem e mulher, e como inserir isso dentro do seu casamento. Em outras palavras, como conciliar sua melhor amiga e sua esposa. Mas essa é só a premissa básica, claro. Como bom romance literário, foi escrito para poder ser lido em camadas. Para quem só quiser isso, pode ser um romance sobre amizade homem-mulher. Para quem quiser, ou puder, ir mais fundo, espero que o romance ofereça muito mais.

Conte sobre o futuro. O que você está arquitetando?

AC — Atualmente, estou trabalhando em um romance chamado “Empregadas & Escravos”, tentando falar, de forma ficcional e não-esquemática, sobre essas nossas relações de poder tão ingratas. Já estou bem avançado nele. Além disso, como carioca expatriado, também tenho um projeto bem desenvolvido na minha cabeça de escrever um romance sobre toda essa questão de “sair do Rio”. O título de trabalho é “Rio Cidade Aberta” e a narrativa faria um paralelo com a Eneida, com aquele momento terrível em que Tróia está desmoronando, Enéias não quer sair mas acaba sendo obrigado a abandonar a cidade. A história se passaria em três momentos: 1711, quando a cidade foi tomada pelos franceses e a população, mesmo querendo lutar, foi obrigada a evacuar a cidade sob uma chuva torrencial; 1893, quando a nossa própria Armada começou a bombardear nossa própria capital, muitos moradores abandonaram a cidade em pânico e a situação só se resolveu quando o Rio foi declarado “cidade aberta”; e 2002/2003, quando por duas vezes Fernandinho Beira-Mar fechou o comércio e as escolas do Rio, a primeira vez que uma ação criminosa afetou a cidade como um todo.

Ao longo de todas essas épocas e situações, as questões serão basicamente as mesmas: vale a pena ficar no Rio e lutar pela cidade? Quando é a hora certa de sair? Existe isso de hora certa de sair? Eu amo o Rio obsessivamente, mas saí da cidade faz quatro anos.  Ainda assim mantenho um apartamento lá e passo cerca de cinco meses por ano no Rio, então eu moro e não moro, saí e não saí. É uma posição que me permite, ao mesmo tempo, ver a cidade de fora e de dentro.

Como você utiliza seu blog para apresentar suas ideias e criações?

AC — O blog acaba se tornando o espaço do Alex-pessoa-física, em oposição ao Alex-escritor-de-ficção. No blog, exponho minha vida real, minhas opiniões, quem eu sou. Já a ficção é o mundo de ser outras pessoas, viver outras vidas. Nesse ponto, a grande função do blog, em relação aos meus livros, acaba sendo criar um grupo cativo de leitores que gosta do que eu escrevo e que se interesse em conhecer a ficção também. O único problema é que chegam na ficção procurando o Alex do blog, que é uma persona exuberante e polêmica, e ele está lá muito escondidinho, caladinho, deixando dar espaço para os personagens crescerem e encontrarem suas próprias vozes.

Não entendo esses autores que sempre escrevem sobre si mesmos, cujos protagonistas sempre são alter-egos disfarçados, cujos enredos são sempre baseados em coisas que lhes aconteceram. A mágica da ficção é justamente poder ser outra pessoa. Que graça teria escrever um romance sobre mim mesmo e sobre minha própria vida? Eu já me conheço, ora bolas. Já vivo comigo o tempo todo. Já vivo a minha vida o dia inteiro. Em “Mulher de um Homem Só”, eu, homem, ateu, libertário, artista, solteiro, sem filhos, poliamoroso, quis me metamorfosear em uma mulher, conservadora, casada, dentista, mãe, católica, ciumenta. Quem é essa pessoa? Como ela pensa? De que maneira reage às situações?  Para mim, a mágica do romance é justamente esse processo de descoberta do outro. De sair um pouco de mim mesmo e de entrar no corpo de uma nova pessoa.

Recentemente, o jornalista Luís Antônio Giron, da revista “Época”, afirmou que a blogosfera se tornou o “paraíso dos chatos”, à exceção de blogueiros como José Saramago, citado pelo jornalista. Seu blog tem como lema “Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.” Como conquistar espaço num lugar tão “anarquizado” como a blogosfera?

AC — Nunca imaginei que iria ver as palavras “Saramago” e “chato” na mesma frase sem ser para dizer que ele é o rei absoluto dos chatos. Sensacional. Tem mesmo gosto pra tudo. O Saramago é bom ficcionista, mas seu blog é chato, suas opiniões são chatas, ele é uma pessoa chata. Saramago se tornou aquele típico ancião ranzinza que reclama de tudo que é novo e que ele não compreende direito. Apesar de tudo, existe um mérito de ele fazer essas reclamações em um blog (ou seja, ele entrou para ver como é), ao contrário de tantos outros velhos ilustres que reclamam de tudo sem nem saber sobre o que estão falando.

O blog tem sido um sucesso, ainda mais que ele é de fato totalmente anárquico. Não tem pauta, não tem tema, segue a esmo minhas obsessões. Via de regra, o blog fica travado em um assunto enquanto eu estou mentalmente travado nele, e quando mudo de interesse, o blog muda de tema, e assim vai indo. Invariavelmente, os leitores reclamam: “se ficar falando só de casamento aberto/racismo/teatro/etc, você vai espantar todo mundo, daqui a pouco ninguém mais te lê!”, mas não percebem que a graça de um blog é justamente não ter pauta, é justamente eu poder falar do que quiser, sem rédeas, sem editor, sem manual de redação.

Então, enfim, para um blog tão caprichoso e nada focado, é impressionante o seu sucesso, ainda que bastante limitado. Hoje, o blog paga o aluguel do apartamento que mantenho no Rio, ou seja, me permite manter uma presença na cidade que amo tanto, e só por isso eu já seria grato a ele. Na prática, o blog me permitiu realizar algo que sempre sonhei: viver de escrever. Em 2005, quando saí do Rio, eu dava aulas o mês todo em uma escola e ganhava mais ou menos o que o blog me rende hoje. Isso é muito gratificante. Não me vejo como blogueiro profissional, mas como escritor. Esse é um dinheiro que ganho dos meus leitores, em função dos textos que escrevo. Ser escritor é isso.

Afinal, quem vai levar o exemplar número 0001?

AC — Foi para uma leitora da Turquia que pagou R$ 200.



 

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