revista bula
POR EM 27/06/2009 ÀS 09:05 AM

Estilhaços do bagaço — Entrevista com Nicolas Behr

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"nem tudo que é torto é errado, veja as pernas do garrincha e as árvores do cerrado"


A poesia reunida de Nicolas Behr rendeu um ótimo refresco de laranja (com toques de vodka e outros ingredientes mais excitantes…), que poderá ser desfrutado pelos leitores goianos a partir do dia 1º de julho, quando será lançada a coletânea "Laranja Seleta", finalista do Prêmio Portugal Telecom de 2008. O livro, publicado pela editora Língua Geral, é um apanhado da vigorosa obra de uma das lendas da poesia brasileira. Trata-se do primeiro lançamento de Behr, que vive em Brasília, por uma editora – seus mais de 20 livros anteriores foram inteiramente produzidos e comercializados pelo próprio poeta. O lançamento ocorrerá na quarta-feira (1º/7), a partir das 19h, no Café Cultura do Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro (Rua 3, Centro). Na ocasião, o poeta goiano Carlos Willian Leite lança o livro "Noves Fora: Nada". Poesia em dose dupla que requer apreciação atenta por parte dos leitores daqui. Leia a seguir uma descontraída entrevista feita com Nicolas Behr (detalhe: no meio do encontro, o poeta arrancou o microfone das mãos do repórter e passou a fazer, ele mesmo, as perguntas).
 
(Recomenda-se: antes de ler a entrevista, dê uma passadinha no site de Behr, www.nicolasbehr.com.br, misture bem todos os ingredientes e sirva ainda frio.)
 
 
 
Bula: O que o leitor deve fazer com o bagaço depois de ler "Laranja Seleta"?
 
Nicolas Behr: Ler O bagaço da laranja, que deve sair em breve. Poesia é pra ler com os dentes e mastigar bem. Com os dentes de Dante, aquilo que era poeta. Nós somos apenas bardos. Ai é só engolir, ou deglutir. Ou ruminar. E transitar sossegado entre o gado manso, evitando prêmios e famas. E administrar esse latifúndio literário onde os críticos berram e os leitores pastam.
 
 
Bula: Por que você construiu Braxília?
 
Construí Braxília porque Pasárgada fica longe demais. Braxilia é uma cidade não-capital, não-poder, não-Brasília. A utopia dentro da utopia. Braxília é o nome que Brasília vai ter quando deixar de ser capital, em 2066. Qualquer um pode criar sua cidade imaginária. Uma outra Brasília é possível.
 
 
Bula: Brasília é uma cidade marginal?
 
O Brasil é um país marginal, que começou com uma grande invasão. Aqui a lei é como as virgens. São feitas para serem defloradas, disse um ascensorista do Senado. Brasília é uma cidade que me traumatiza e por isso que gosto dela. Aliás, a ultima coisa que quero fazer em Brasília é morrer.
 
 
Bula: Existe poesia ecologicamente correta?
 
Não. Como não existe poesia poeticamente correta. Nada faz mais mal à poesia que um versinho bem feito.
 
 
Bula: Aonde o poeta não pode entrar?
 
O poeta não pode entrar no hospital para se matar. Se quiser se matar tem que ser no pátio, no estacionamento, do lado de fora da cerca, perto dos containeres de lixo hospitalar.
 
 
Bula: De qual revolução somos filhos?
 
Somos filhos da revolução do eu.
 
 
Bula: Por que você escreve?
 
Escrevo para ser amado. (Sim, García Márquez já o disse. Repito.)
 
 
Bula: E a poesia em Goiás?
 
Cora Coralina e José Godoy Garcia. Quem ler, saberá.
 
 
Bula: O que é preciso para ser poeta?
 
Lápis, papel e imaginação. Papel e lápis, você pode pegar emprestados. Imaginação, não.
 
 
Bula: Qual a melhor coisa que pode acontecer para um poeta no Brasil, hoje?
 
Morrer. Poeta bom é poeta morto. Mas eu quero viver muito. E bem.
 
 
Bula: Suas últimas palavras...
 
Amai-vos uns aos outros e o resto que se foda. 
 

 

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