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POR EM 06/07/2010 ÀS 05:37 PM

Rebelde que Stálin matou renasce como poeta

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Isolado por Stálin no campo de Versonej, Ossip Mandelstam morreu, de fome, aos 47 anos.

"Em nenhum lugar do mundo se dá tanta importância à poesia: é somente em nosso país (a extinta União Soviética) que se fuzila por causa de um verso", escreveu o escritor judeu 

Ossip Mandelstam Durante anos, na União Soviética, dizer o nome de Óssip Mandelstam (1891-1938) publicamente era uma ofensa grave ao “guia genial dos povos”, Stálin. Aquele que o citasse podia ser preso ou, mesmo, assassinado. A polícia política fez uma varredura cultural e limpou o nome do escritor russo Mandelstam (nascido em Varsóvia) — que o político Nicolai Ivânovitch Bukhárin amava e, enquanto pôde, protegia — dos livros de história de literatura russa ou qualquer outra. Na União Soviética, “ninguém” sabia, ou podia saber, sobre o escritor Mandelstam. Era terminantemente proibido. Seus livros, como os de Boris Pasternak, não eram editados. 

Mandelstam era um poeta de formação clássica, não engajado politicamente. Num dos melhores estudos da Revolução Russa de 1917, “A Tragédia de um Povo: A Revolução Russa — 1891-1924” (Record, 1106 páginas), o historiador inglês Orlando Figes diz que Maksimilian Voloshin, Mandelstam e Andréi Biéli (ou Belyi) “mostravam-se ambivalentes quanto à violência revolucionária; entendiam-na como uma força justa e primitiva, mas revelavam horror diante de tamanha crueza selvagem” (página 503). Figes conta, na página 746, que Máximo Górki ajudou Mandelstam. 

Há um belo livro no mercado, que poderia ter sido chamado de “O Livro Negro do Comunismo — Cultura”, mas o autor Boris Schnaiderman (um dos mais qualificados tradutores do russo), ucraniano nascido em 1917 e que mora no Brasil desde os 8 anos, não o permitiria. Por isso, o título é outro: “Os Escombros e o Mito — A Cultura e o Fim da Soviética” (Companhia das Letras, 306 páginas). 

Depois de contar a história do desespero do artista russo, sobretudo daquele que não se adequava ao realismo socialista de Stálin-Jdanov, Schnaiderman escreve: “É bem conhecido o caso do grande poeta Óssip Mandelstam, que não desenvolvia nenhuma atividade política mais foi retirado em 1934 de uma casa de repouso (sofria de crises nervosas) e preso por causa de um poema sobre Stálin, em que este aparece com enormes bigodões de barata [leia o poema nesta edição, em duas versões]. O poema evidentemente não pôde ser publicado, mas o poeta leu-o para os amigos mais chegados e parece que nem chegou a anotá-lo, o que não impediu sua circulação. Depois de preso, ele teve residência forçada em Vorôniej, antes de ser mais uma vez encarcerado e morrer na enfermaria de um campo de trabalho. Pois bem, em meio às condições terríveis de sua vida em Vorôniej, sujeito a privações extremas, quando sua mulher, Nadiejda, muito doente e debilitada, decorava os versos que ele escrevia, para que não se perdessem, ele criou um poema ‘positivo’, em que fala de um tempo em que Stálin faria despertar a vida e a razão. Parece muito claro tratar-se de uma tentativa de se salvar. Mas depois, também nos ‘Cadernos de Verôniej’, aparece um poema nada canônico e bem sensual, dirigido a uma mulher morena (que não era Nadiejda; esta, aliás, em sua faina desesperada de conservar tudo o que ele escrevera, fazia questão de guardar os poemas e cartas que dirigia a outras mulheres), que profere com carinho e suavidade o ‘nome tonitruante de Stálin’. Ora, é claro que o nome neste contexto não se destinava a manifestar subserviência. Seria ‘identificação com o agressor’, numa escala desmedida? Talvez”. 

No início de sua guerra contra os escritores, Stálin adotou a política de não matar, mas de isolar. Se não tinha tanto medo dos principais líderes bolcheviques, que foi matando um a um, até submeter toda a elite política e militar, Stálin tinha pânico de ver-se “mal” descrito pelos escritores, sobretudo pelos poetas. Tanto que, ao saber que Mandelstam o havia caricaturizado num poema, entrou em contato com Boris Pasternak, que admirava (sem conseguir controlar; pouco depois da perseguição a Mandelstam, chegou a vez de Pasternak, que, proibido de publicar, passou a traduzir, especialmente Shakespeare), para saber da importância do poeta. Stálin telefonou para o poeta, mais conhecido como autor do romance “Doutor Jivago”. 

O diálogo entre Pasternak e Stálin é, embora também trágico, hilário. A conversa está registrada no prefácio (do tradutor e crítico literário Paulo Bezerra) do livro “O Rumor do Tempo” (Editora 34), de Mandelstam: 

Stálin — Mas ele [Mandelstam] é um mestre, não é? Não é um mestre?

Pasternak — Sim, mas esse não é o problema.

Stálin — E qual é então?

Pasternak — Gostaria que tivéssemos uma entrevista. Para conversar.

Stálin — Sobre o quê?

Pasternak — Sobre a vida e a morte. 

Boris PasternakStálin não gostou do que considerou petulância de Pasternak, um “simples” poeta, e bateu o telefone. Paulo Bezerra escreve: “Era muita petulância de um poeta grande porém mortal querer conversar sobre semelhante tema com o senhor da vida e da morte de milhões, principalmente da morte. Mas Stálin não telefonou a Pasternak por acaso: queria saber de fonte autorizada o real valor de Mandelstam na bolsa da poesia. Estava repetindo uma tradição que Marcel Detienne estudou em ‘Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica’: o poeta é um mestre da verdade, sua palavra perpetua na memória das gerações futura os feitos dos reis, podendo projetar deles uma imagem positiva ou negativa. E Stálin sabia que a opinião que as gerações futuras teriam dele dependia muito do que os poetas viessem a dizer dele. Mas tinham de ser poetas que se destacassem por aquela qualidade estética que assegura vida longa à sua obra. Por isso ele insistiu com Pasternak: ‘É um mestre’? E mestre é aquele capaz de exaltar com o mesmo virtuosismo com que desmascara, e então os versos que exaltam superam e apagam os que desmascaram. Portanto, em vez de fuzilar logo Mandelstam, era mais inteligente levá-lo a usar o seu grande talento para engrandecer a ele, Stálin. Manter o poeta vivo e não mandá-lo para um campo de trabalhos forçados, mas para um lugarejo isolado e depois para a cidade de Vorôniej, era preservá-lo na condição de ‘devedor’”. 

Mandelstam entendeu o recado de Stálin: não tendo sido assassinado, deveria agradecer a gentileza. Escreveu uma “Ode” a Stálin, mas sem muita qualidade. “Nome glorioso... para a honra e o amor, o ar e o aço”, mentiu Mandelstam. “Mais verdadeiro que a verdade”, acrescentou. “Talvez Mandelstam esperasse com isso salvar a própria vida. Mas em vão: acabou novamente preso e morrendo na enfermaria de um campo de trabalhos forçados, vítima da fúria de um período funesto da história do seu ‘século-fera’”, relata Paulo Bezerra. Na introdução de “Guarda Minha Fala Para Sempre”, Nina Guerra diz que Mandelstam “morreu de fome [em dezembro de 1948, aos 47 anos], de distrofia. Não existe o túmulo dele”. 

Poeta, prosador e crítico

Mandelstam escreveu “600 poesias, ensaios autobiográficos e filosóficos, artigos de crítica literária e traduções poéticas (Mallarmé, Racine, Barbier, G. Duhamel, Jules Romain, a “Chanson de Roland”, Petrarca, entre outros)”. (Paulo Bezerra conta que Mandelstam lia intensamente a poesia de Dante, François Villon e André Chénier.) Mandelstam é um poeta à parte, autônomo, por isso é difícil filiá-lo a uma corrente. “Em 1911 foi criado um grupo literário em que entraram, entre outros, Nikolai Gumiliov, Anna Akhmátova, Serguei Gorodetski e Óssip Mandelstam. Um ano depois, a nova corrente literária foi batizada de ‘acmeísmo’ (do grego acme — ponta aguda). A nova corrente tornou-se uma superação lógica do simbolismo. Voltar à terra: da eternidade para a história, da feminidade eterna para o princípio masculino, dos espíritos incorpóreos, sejam anjos ou diabos, para a força animal, do além para o quotidiano, da idéia para as manifestações concretas”. A crítica de Mandelstam ao simbolismo: “O simbolismo russo gritou tanto e tão alto sobre o indizível, que o indizível começou a circular como papel-moeda”. O primeiro livro de Mandelstam, “Kamen” (Pedra), foi editado em 1913. “É muito marcante a imagem da pedra na poesia mandelstiana”, avalia Nina Guerra. 

Em 1918, escreve a ode “Trevas da Liberdade”, na qual, segundo Nina Guerra, “introduz um novo elemento na poesia russa: uma atitude ativa para com o mundo independente da posição política, um imperativo ético de ter a ‘coragem do homem’, que para ele é maior que a ‘coragem do cidadão’”. “Glorifiquemos, irmãos, as trevas da liberdade —/O grande ano das trevas./Glorifiquemos o fardo sombrio do poder,/Seu jugo insuportável”, escreveu Mandelstam. Era uma forma, conforme nota Nina Guerra, de glorificar o inglório. “Mandelstam, como poeta e como pessoa, era contra qualquer derramamento de sangue. E não em teoria: em 1918, em Moscou, o socialista-revolucionário Bliumkin gabava-se-lhe de que tinha nas mãos a vida de muitas pessoas; Mandelstam, indignado, arrebatou-lhe das mãos as listas dos condenados ao fuzilamento e rasgou-as ali mesmo.” 

Quase tudo do que se preservou de Mandelstam deve-se à sua mulher, Nadiejda. Ela guardou o que foi possível, até poemas de amor para outras mulheres. Deve-se a essa mulher sagaz e desprendida a “salvação”, em grande parte, da poética de Mandelstam. Certa vez, o poeta escreveu para sua mulher: “Baralharam-me, sinto-me como na prisão, não há luz. Quero limpar-me das mentiras e não sou capaz, quero lavar-me da sujidade e não posso”. É o que as ditaduras fazem aos inocentes, mesmo com aqueles que, poetas, têm o dom da palavra. Os ditadores não perdoam a rebeldia da palavra — encarceram, humilham e matam. 

O gigante Stálin, no enfrentamento com o julgamento histórico, hoje é anão. Mandelstam, que era pequeno (até no físico), agora é um gigante. E, quanto mais passa o tempo, Stálin vai ficando ainda menor e Mandelstam, cada vez maior. Os ditadores, que devoram os homens que resistem, acabam por serem devorados pela história. 

Falta, agora, traduzir a poética de Mandelstam. Parte da prosa foi decentemente traduzida por Paulo Bezerra. Os irmãos Campos traduziram quatro poemas e cometeram um erro: dizem que Mandelstam nasceu em 1892. O livro “Guarda Minha Fala para Sempre” foi editado em Portugal. É uma edição caprichada, mas muita cara. 

O armário de livros 

ÓSSIP MANDELSTAM 

Como um nadinha de almíscar enche uma casa inteira, a mínima influência do judaísmo enche uma vida inteira. Oh, como esse cheiro é forte! Acaso eu podia não notar que em casas judias de verdade o cheiro é diferente do das arianas? E não é só a cozinha, mas as pessoas, as coisas e as roupas que têm esse cheiro. Até hoje eu me lembro de como esse cheiro judeu adocicado me envolvia na casa de madeira dos meus avós na rua Kliutchevaya, na Riga alemã. O gabinete doméstico do meu pai já não parecia o paraíso de granito dos meus passeios regulares, ele já conduzia para outro mundo, mas a mistura do seu ambiente e a seleção dos objetos ficavam ligadas a minha consciência por um ponto forte. Antes de mais nada, a poltrona rústica de carvalho com uma balalaica e uma luva e as inscrições no braço “Devagar se vai ao longe” são um tributo ao estilo pseudo-russo de Alexandre III; depois vem o divã turco, apinhado de livros de contabilidade, com suas filhas de papel de seda escritas em letras góticas miúdas de cartas comerciais alemãs. Primeiro eu pensei que o trabalho do meu pai fosse imprimir suas cartas em papel de seda, apertando a prensa da máquina de copiar. Até hoje me parece cheiro de jugo e de trabalho o odor de couro curtido que penetra todo o ambiente, as películas palmípedes da pelica espalhadas pelo chão e as tiras de camurça roliça, vivas como dedos — tudo isso junto e mais uma escrivaninha de estilo pequeno-burguês com um calendário em mármore flutuam na fumaça do fumo e impregnados do cheiro dos couros. E, no clima árido da sala de comércio, um envidraçado armário de livros fechado por uma cortina de tafetá verde. É desse depósito de livros que quero falar. Um armário de livros em tenra infância é companheiro do homem para toda a vida. A disposição das suas prateleiras, a seleção dos livros e a cor das lombadas são consideradas a cor, a altura e a disposição da própria literatura universal. Aliás, os livros que não estavam no primeiro armário nunca iriam abrir caminho à literatura universal como ao universo. Querendo ou não, no primeiro armário todo livro é clássico e não se bota fora nenhuma lombada. 

Como uma estratificação geológica, essa biblioteca pequena e estranha não por acaso foi encadernada durante decênios. Nela o que era do meu pai e da minha mãe não se misturava, mas existia separadamente, e esse pequeno armário era, em uma seção, a história da tensão intelectual de todo um clã inoculado com sangue estranho. 

Lembro-me da prateleira inferior sempre caótica: os livros não ficavam com suas lombadas enfileiradas, mas espalhados como ruínas: os ruivos penteteucos com as capas em frangalhos, a história russa dos judeus, escrita na linguagem desajeitada e tímida de um talmudista que falava russo. Era o caos judeu rolando na poeira. Aqui mesmo logo veio parar a minha cartilha do hebraico antigo, que eu acabei não aprendendo. Num acesso de arrependimento nacional contrataram para mim um professor judeu autêntico. Ele veio diretamente da sua rua do Comércio e me dava aula sem tirar o barrete, o que me deixava sem jeito. Seu russo correto soava falso. O alfabeto hebraico com ilustrações representava de todos as formas — com um gato, um livro, um balde, ou um regador — o mesmo menino de quepe e com um rosto muito triste e adulto. Nesse menino eu não me reconheci e com todo o meu ser eu me rebelei contra esse livro e a ciência. Uma coisa surpreendia nesse professor, embora soasse artificialmente: o sentimento do orgulho nacional judeu. Ela falava dos judeus como a francesinha falava de Victor Hugo e Napoleão. Mas eu sabia que ele escondia o orgulho quando saía à rua e por isso não acreditava nele. 

Sobre as ruínas judaicas começava a ordem de distribuição dos livros, encabeçada pelos alemães Schiller, Goethe, Kerner e Shakespeare em alemão, em velhas edições de Leipzig e Tubingen, curtas e espessas com encadernações vinho estampadas, com caracteres miúdos destinados à vista aguda dos jovens, com gravuras leves, um pouco ao gosto inglês: mulheres de cabelos soltos torcendo os braços para trás, um candeeiro desenhado como uma luminária, cavaleiros de frontes altas e cachos de uvas nas vinhetas. Era meu pai que dos labirintos talmúdicos abria caminho para o mundo alemão como autodidata. 

Mais acima ficavam os livros russos de minha mãe: um Púchkin em edição Issakov de 1876. Até hoje acho magnífica essa edição, que me agrada mais que a edição da Academia. Nela não há nada supérfluo: a disposição dos caracteres é harmoniosa, as colunas de versos fluem livremente como soldados de batalhões volantes e, como chefes militares, anos racionais, precisos os conduzem até o ano de 1837 (1). A cor em Púchkin? Toda cor é fortuita: que cor escolher para o murmúrio dos rios? Ah, esse idiota alfabeto das cores em Rimbaud! 

Meu Púchkin de Issakov vinha com uma sobrecapa reticulada de uma cor imprestável, numa encadernação ginasiana de percalina, e aquela sobrecapa castanho-escura, com um matiz arenoso tirante a terroso, não temia nem manchas, nem tinta, nem fogo, nem querosene. Durante um quarto de século, a sotaina de som arenoso escuro absorveu tudo com amor: tamanha é a nitidez com que sinto a singela beleza espiritual, o encanto quase físico do meu Púchkin materno. Sobre ele as inscrições: “À aluna da terceira série, pela aplicação”. Com o Púchkin de Issakov combina-se a história dos mestres e mestras ideais com seu rubor tísico e seus sapatos furados: os anos oitenta em Vilno. Minha mãe e especialmente minha avó pronunciavam com orgulho a palavra “intelectual”. A encadernação de Liérmontov era em amarelo-dourado e com um matiz militar: ele não era hussardo por acaso. Ele nunca me pareceu irmão ou parente de Púchkin. Já Goethe e Schiller eu considerava gêmeos. Neste caso eu reconhecia o estranho e fazia uma distinção consciente. Porque depois de 1837 até os versos murmuraram diferente. 

O que significam Turguêniev e Dostoiévski? São suplementos de ‘Campo’. São de aparência idêntica, como irmãos. Capas de papelão, revestidas de película. Sobre Dostoiévski recaía o veto como uma lápide de sepultura, e dele se dizia que era “pesado”; Turguêniev era todo permitido e aberto, com sua Baden-Baden, suas ‘Águas primaveris’ e as conversas indolentes. Mas eu sabia que em nenhum lugar havia ou poderia haver uma vida tão tranquila como a de Turguêniev. 

Não quereis a chave da época, o livro incandescido de tanto contato, o livro que não queria morrer por nada nesse mundo e jazia como se estivesse vivo na sepultura estreita dos anos noventa, o livro cujas folhas amarelaram antes do tempo não se sabe se de tanta leitura, se do sol dos bancos das casas de campo, livro cuja primeira página revela os traços de um jovem com um penteado inspirado, traços que se tornaram ícone? Olhando para o rosto do eternamente jovem Nádson (2) fico maravilhado ao mesmo tempo com a verdadeira incandescência desses traços e com sua absoluta inexpressividade, com sua simplicidade quase campônia. Todo o livro não é assim? Toda a época não é assim? Se o mandassem a Nice, se lhe mostrassem o Mediterrâneo, ele continuaria do mesmo jeito a cantar o seu ideal e a geração sofredora, talvez acrescentando uma gaivota e a crista de uma onda. Não riais do nadsonismo; é um enigma da cultura russa e, no fundo, é incompreensível a sua sonoridade porque nós não entendemos e nem ouvimos como entendiam e ouviam eles. Quem é ele — esse monge campônio com traços inexpressivos de um eterno jovem, esse ídolo inspirado da juventude estudantil, precisamente da juventude estudantil, isto é, de uma gente escolhida em determinados séculos, esse profeta dos saraus colegiais? Quantas vezes, já sabendo que Nádson era ruim, ainda assim eu reli o seu livro e procurei ouvir a sua sonoridade como ouvia a geração depois de abandonar a presunção do presente e a ofensa pela ignorância desse jovem no passado! Neste caso, como me ajudaram os diários e as cartas de Nádson — a mesinha do leitor com um copo d’água. Como insetos de verão sob o vidro de uma lâmpada quente, toda essa geração se queimava e se consumia no fogo das festas literárias com guirlandas de rosas ilustrativas, e as reuniões tinham o caráter de culto e sacrifício expiatório pela geração. Ali acorriam aqueles que desejavam partilhar o destino da geração até à morte, os presunçosos ficavam de fora com Tiúttchev e Fet (3). No fundo, toda a grande literatura russa deu as costas a essa geração tísica com seu ideal e Baal (4). O que ainda restava? As rosas de papel, as velas dos saraus colegiais e as barcarolas de Rubinstein. Os anos oitenta em Vilno, como minha mãe os exprime. Em toda a parte era a mesma coisa: mocinhas de dezesseis anos tentando ler Stuart Mill, viam-se personalidades radiantes com traços inexpressivos e apertando o grosso pedal, morrendo num arpeggio (5) e tocando em festas públicas novas composições do leonino Anton (6). No fundo, acontecia o seguinte: com Buckle (7) e Rubinstein e conduzida por belas almas, a intelectualidade, em sua sagrada idiotice e sem distinguir o caminho, guinou decididamente para a auto-imolação pelo fogo. Com altas tochas alcatroadas, os populistas da “Vontade do Povo” (8) ardiam publicamente com Sófia Pieróvskaya e Jeliábov e todos os outros, toda a Rússia provinciana e a “juventude estudantil” consumiam-se lenta e solidariamente: não deveria restar uma só folha verde. 

Que vida de escassez, que cartas pobres, que brincadeiras e paródias sem graça! No álbum de família me mostraram uma foto daguerreótipa do tio Micha (9), melancólico com traços rechonchudos e doentios, e explicaram que ele não só havia enlouquecido como “ardido”: era assim que falava a linguagem da geração. Era assim que falavam de Gárchin (10), e muitas mortes se constituíam em um ritual. 

Semión Afanássievitch Venguérov (11), meu parente pelo lado materno (família de Vilno e lembranças de colégio), não entendia nada de literatura russa e por questão de trabalho estudava Púchkin, mas “isso” ele entendia. Para ele, “isso” era o caráter heroico da literatura russa. Ele era bom nesse seu caráter heroico, quando batia pernas pelos subúrbios de apartamento em apartamento, pendurado no braço da esposa que envelhecia, dando risinhos com sua espessa barba de formiga. 

Notas 

1 - Púchkin é morto em duelo em janeiro de 1837. (Nota do tradutor Paulo Bezerra) 

2 - Nádson, Semión Yákovilievitch (1862-1887), poeta contraditório, cuja poesia foi marcada por um intenso dramatismo e pela oscilação entre o sonho com um ideal e a constatação da sua impossibilidade. (N. do T.) 

3 - Tiúttchev, F.O. (1803-1876), poeta russo clássico e romântico. A. A. Fet (1820-1892), poeta de forte expressão na literatura russa. (N. do T.) 

4 - Alusão aos versos de Nádson: “crede: chegará o momento, e Baal morrerá!. (N. do T.) 

5 - Em italiano, no original russo. (N. do T.) 

6 - Anton Rubinstein com seus cabelos meio fulvos. (N. do T.) 

7 - Buckle, Henry Thomas (1821-1862), historiador e social-positivista inglês, autor de “History of Civilization in England”, obra em dois volumes traduzida para o russo e publicada pela revista “Otiéchestvennie zapíski” (Anais pátrios) em 1861. Buckle foi muito popular entre os intelectuais liberais e os populistas russos no decênio 1860-1870. (N. do T.) 

8 - Vontade do Povo (em russo “Naródnaia Vólia”): organização política secreta, fundada em 1879 na Rússia por A. Jeliábov, Sófia Pieróvskaya e outros, que substituiu a luta política de massas contra a autocracia pela conspiração política e o terror individual, e decretou a morte do czar Alexandre II. No dia 1º de março de 1881 o czar foi morto em um atentado a bomba, e no dia 1º de abril do mesmo ano Jeliábov, Sófia e outros membros da Vontade do Povo foram enforcados. (N. do T.) 

9 - Diminutivo de Mikhail. (N. do T.) 

10 - Gárchin, Vsievolód Mikhailovitch (1855-1888). Escritor russo de grande talento, especialmente no conto, gênero em que se destaca pela narrativa breve de tom emocional, conteúdo filosófico e tensão dramática. (N. do T.) 

11 - Venguérov, Semión Afanássievitch (1855-1920). Historiador e estudioso da literatura, especialista em Púchkin, bibliófilo, fundador e primeiro diretor da câmara russa do livro. 

[A história “O Armário dos Livros” foi retirada do livro “O Rumor do Tempo e Viagem à Armênia”, de Óssip Mandelstam, traduzido do russo por Paulo Bezerra, Editora 34, 159 páginas.] 

POEMA DE ÓSSIP MANDELSTAM 

A Era 

Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue — dois séculos —
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas. 

Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância. 

Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O outro da idade, áurea medida. 

Vergônteas de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos. 

[Tradução de Haroldo de Campos. Do livro “Poesia Russa Moderna”, com traduções de Augusto e Haroldo de Campos, com revisões de Boris Schnaiderman. Editora Brasiliense. O poema é de 1923.)

POEMAS DE ÓSSIP MANDELSTAM 

Ainda não morreste, inda não estás sozinho:
A companheirinha-mendiga
No vale magnânimo e com a bruma, o frio,
A tempestade — estás contigo. 

Na pobreza opulenta, miséria poderosa,
Vive tranquilo e consolado.
Benditas são as noites e os dias, e o labor
Do belo-verbo é sem pecado. 

Desgraçado é quem de si mesmo é a sombra,
A quem assusta o ladrido,
O vento ceifa. É pobre quem pede esmola à sombra
Meio morto e ferido. 

[A “sombra” era uma das obsessões poéticas de Mandelstam. O poema é de janeiro de 1937. A tradução, de Nina Guerra e Filipe Guerra, está no livro “Guarda Minha Fala para Sempre”, de Óssip Mandelstam. Editora Assírio & Alvim, 237 páginas. A obra contém poemas e pequenos textos em prosa.] 

Inseparável do medo é a queda,
Medo é mesmo do vazio o sentimento.
Quem das alturas nos atira a pedra,
Rejeitando ela o jugo do momento? 

E tu, com teus passos hirtos de monge,
Mediste em tempos a nave empedrada:
Calhaus e sonhos rudes — não está longe
A sede de morte, a grandeza ansiada! 

Maldito sejas, gótico abrigo,
Quem entra é pelo tecto enganado,
Na ladeira não arde o lenho amigo. 

Vivendo eternidade poucos haja,
Mas, viver ao momento subjugado —
Que terrível sorte e que frágil casa! 

[Poema de 1912, cinco anos antes da Revolução Russa. A tradução é de Nina Guerra e Filipe Guerra. A “Revista Bula” mantém a palavra “tecto”, como está na tradução, e não teto, como se usa no Brasil. A tradução é anterior à reforma ortográfica.] 

O poema de Óssip Mandelstam que provocou sua prisão em 1934
(A “Revista Bula” publica duas traduções — a brasileira e a portuguesa)
 

Vivemos sem sentir o país sob os pés,
Nem a dez passos ouvimos o que se diz,
E quando chegamos enfim à meia fala
O montanheiro do Krémlin lá vem à baila.
Dedos gordurosos como vérmina gorda.
Riem-se-lhe os bigodes de barata,
Reluzem-lhe os canos da bota alta. 

À volta a escumalha — guias de fino pescoço —
Nas vênias da semigente ele brinca com gozo.
Um assobia, o outro geme, aquele mia,
Só ele trata por tu, escolhe companhia.
Como ferraduras, lei ‘trás de lei ele oferta,
Em cheio na virilha, olho e sobrolho e testa.
Cada morte que faz — crime malino
E o peitaço tem amplo, o ossetino. 

[Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra] 

Nós vivemos sem perceber o país sob nós,
nossos discursos não são ouvidos a 10 passos de distância,
Mas onde há apenas uma meia-conversa
sempre nos recordamos do montanhês do Kremlin.
Seus grossos dedos são gordos como vermes,
e suas palavras seguras como fios de mundo.
Riem seus bigodes de escaravelho,
e brilham suas polainas.
Rodeia-o um bando de chefetes submissos
E ele se diverte com a servidão dos semi-homens.
Há quem assovia, quem geme, quem choraminga
se somente ele fala ou aponta o dedo.
Como ferraduras ele forja um ukaz após outro
com os quais de um ele ferra a virilha, de outro a testa,
de mais outro as sobrancelhas, de outro
ainda os olhos.
Não há execução que não seja para ele uma festa. 

[Tradução de Luís Mário Gazzaneo] 

Ditador dos bigodes de barata não gostou 

StálinA tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, feita a partir do original russo, está no livro “Guarda Minha Fala para Sempre”, de Óssip Mandelstam, publicado pela editora portuguesa Assírio & Alvim. A “Revista Bula” mantém a acentuação portuguesa (Krémlin, vénia ) e a estrutura da versão. 

A tradução de Luís Mário Gazzaneo está no livro “Os Últimos Anos de Bukhárin”, de Roy Medvedev, Editora Civilização Brasileira (página 73). Ela foi feita a partir do italiano. 

O poema é de 1933, quando Stálin já era senhor absoluto da União Soviética. Mas as matanças dos “inimigos” pessoais do ditador começaram no ano seguinte. Esses adversários eram tratados (e apresentados à população) como inimigos do socialismo, da revolução, da União Soviética. Eram “terroristas” e “trotskistas”. Mandelstam teve coragem de desafiar Stálin quando os políticos e muitos escritores já buscavam a conciliação com o objetivo de sobreviver política e, sobretudo, fisicamente. Mandelstam fez o desafio supremo ao dizer que o bigode de Stálin era de barata e seus dedos gordos foram comparados a vermes. É um retrato sem retoque do ditador georgiano, Stálin, dos ditadores em geral e da submissão que os regimes de exceção produzem. Segundo Roy Medvedev, Mandelstam não escreveu os versos. Ele limitava-se a recitá-los “em várias ocasiões a alguns amigos”. A transcrição teria sido feita por um stalinista com o objetivo de indispor Mandelstam com Stálin. Como era recitado em vários lugares, com entonações e palavras diferentes, há outras versões do poema.

 

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