revista bula
POR EM 24/04/2012 ÀS 08:20 PM

Qual é a idade do gênio?

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Haverá uma idade para o gênio revelar-se? Por trás da pergunta trava-se uma guerra milenar, cujo prêmio é a morte ou a eternidade
 
 
Cheguei na livraria e procurei por autores contemporâne­os brasileiros. Não tinha em mente nenhum deles em especial. O primeiro que apareceu na minha frente, em forma de lombada, foi Miguel Sanches Neto, cujo título era uma pergunta: “Então Você Quer Ser Es­critor?” “Sim, eu quero”, pensei comigo e o tirei da estante. Sentei-me num sofá e abri direto no conto que dá nome ao livro. As primeiras palavras me puseram diante do espelho: “Antes eu olhava as orelhas dos livros dos autores mais velhos para ver com qual idade haviam escrito suas obras-primas, sofrendo ao saber que muitos surgiram quando eles eram bem mais jovens do que eu”.

Tal qual a protagonista des­se conto — Lúcia de Sousa —, o nome “Miguel Sanches Ne­to” não me parecia ainda mais especial do que João das Couves. Era apenas um nome como qualquer outro. Mas eu me identifiquei completamente com sua frase: poderia tê-la escrito, eu. Percebi que a angústia que me consome — a mim, que desejo ser escritor — não é exclusivamente minha. Não comprei o livro naquele mo­mento; dirigi-me a um vendedor e pedi emprestado papel e caneta, para copiar o trecho transcrito. Seria a abertura desse breve ensaio, que eu já supunha terminado.

O que Sanches chama de “autor mais velho”? Por outras palavras, qual é a idade que justifica qualificar um escritor estreante de temporão? Há casos excepcionais, entre eles o de uma poeta goiana, Cora Coralina, o que foi digno de referência de um conterrâneo seu, Flávio Carneiro, em “O Leito Fingido”: “a poeta, apesar de ter começado a escrever aos 14 anos, só publicou seu primeiro livro aos 75!” É um exagero, condicionado pelas circunstâncias da autora. Pode significar também uma esperança!

A resposta mais comum veio providencialmente na mesma semana em que li San­ches, e quem a deu foi Otto Maria Carpeaux. Em “Visão de Graciliano Ramos” o ensaísta é im­piedoso: o autor alagoano teve “uma estreia excepcionalmente tardia, com mais de 40 anos de idade...”. O adjetivo “tar­dia” fere como lâmina. Se 40 anos é a idade referencial do temporão, há de existir, em contrapartida, uma “idade precoce”, que seria então a idade pretensamente normal para as coisas acontecerem. Caso contrário não justificaria o predicado utilizado. Que idade é essa?

Constatamos com um pouquinho de observação que, nas mais diferentes atividades (não só na literatura), o gênio humano costuma se manifestar precocemente, quando existe. O fato é copiosamente demonstrável pela biografia. A manifestação de espíritos superiores, no mundo, parece ser absolutamente necessária, muito embora outro ensaísta, Montaigne, advirta-nos para, o quanto antes em nossas vidas, cuidar de si e de seus interesses, de sorte que nosso futuro é imprevisível e, em último caso, pertence à morte. Eis o drama, para muitos o terror: pois, de resto, até os gênios morrem. Devemos então incitar este espírito, apressá-lo, não perder tempo. Montaigne reparou outras coisas interessantes. Para o desconsolo de alguns de nós, deu-nos aquela resposta: “as mais belas ações que conheço, deste século ou dos séculos pas­sado, foram praticadas antes dos 30 anos e não depois”. E mais: “Sou da opinião que aos 20 anos nosso espírito já se desenvolveu completamente, já é o que será e mostra o de que é capaz. O espírito que até essa idade não deu demonstração evidente de fortaleza, nunca o dará mais tarde. As qualidades e virtudes e nossa natureza já revelaram, então, o que têm de vigoroso e belo — ou nunca o revelarão”.

Fatalmente, os 20 anos de idade são os mais fecundos de nossas vidas. Os séculos futuros só reforçaram a angustiante tese, embora as exceções existam. Só que exceções são exceções, daí o justificável “tardio” carpeauxiano. A “regra”, se assim se pode dizer em relação ao gênio, é que é na chamada flor da idade — expressão tão romântica — que se tem criado as obras mais importantes desse mundo. Exemplos abundantes do que o homem é capaz de realizar de notável encontram-se, de fato, na casa dos seus 20 anos. Somos contemporâneos de um caso: a revolução das redes sociais e, por trás delas, toda uma revolução de costumes capitaneada por jovens como Mark Zu­cker­berg e Larry Page. Mas priorizemos alguns exemplos apenas no terreno militar (e não por acaso).

Entre os gênios, os de índole militar me enchem de especial admiração. É claro: o que fazem implicam em muitas desgraças e sofrimentos; logo, não é por essa razão. O que atrai no soldado, entendido como símbolo, é um componente especial: a postura bélica, a capacidade de abrir o peito e avançar em direção à morte, arrostando-a corajosamente. Expostos a situações limites, eles a enfrentam como “dever”, dig­no do ritual de continência: “England expects everyone to do his duty”, “A Inglaterra es­pera que cada um cumpra o seu dever”, dirá o almirante de esquadra Horatio Nelson, antes de partir para a batalha. A mesma que lhe tirou a vida.

Chamar essa postura de desprezo seria exagero, mas ela é a prova de um respeito desafiador. Um soldado não pode ficar atônito; seu equipamento mental está preparado para conduzi-lo à frente e ele, efetivamente, vai. Isaac Babel inspirou-se nisso para criar um soldado não menos destemido do que Aquiles, o mujique Pachka Trú­nov. O personagem memorável do contista russo, em “O Exército de Cavalaria”, escreveu numa folha de papel, no momento crucial do combate em que, como Nelson, perderá a vida: “Tendo de morrer ho­je”, escreveu, “considero meu dever tentar dois disparos para abater o inimigo, e, ao mesmo tempo, passo o comando ao comandante de pelotão Se­mion Gólov...”.

Com estas palavras, aparentemente superficiais, Babel flagrou a frieza heroica dos condestáveis, na qual não se surpreende nenhum terror aparente. A ponto de Trúnov recomendar em seguida que aproveitem as suas botas, de sorte que “são novas”! O ges­to remete à ataraxia e à im­passibilidade de Sócrates. O filósofo grego lembrou a Crí­tão, com desvelo perfunctório, que o amigo devolvesse o galo ao vizinho, um segundo antes de morrer, sob o efeito da cicuta. A atitude militar serve de paradigma, assim como a dos santos, diante do destino inexorável. É uma boa justificativa para que os exemplos a seguir sejam de guerreiros, embora haja à disposição tantos outros de poetas, músicos, pintores.

1 — Quando muitos ainda começam a se estabelecer na vida — felizes, por exemplo, com a aquisição de um simples imóvel —, Napoleão Bonaparte já havia se sagrado Imperador da Europa. 30 anos de idade foi a moldura com que revestiu seu triunfo pessoal. Os dez anos anteriores passara intensamente à frente de batalhas ininterruptas. Seus sucessos foram tan­tos e tais que foi promovido a general do exército francês aos 25. Viçoso ainda, teve tempo de sobra para contemplar a própria grandeza nos quadros em que Davi legou sua fisionomia, sua aura e sua juventude à posteridade. A vida de Napoleão foi curta — morreu com 52 anos —, mas já não havia rigorosamente do que se lamentar. Tinha dobrado a história aos seus desígnios (talvez, como queira Emerson, confundiu-se com ela). Seria forçosamente lembrado. Quando a morte o encontrou, numa ilhota fastidiosa, deu de ombros.

2 — Outro caso, tão emblemático quanto o do corso, ocorreu em Roma, em 1801. Em visita à Cidade Eterna, um jovem criolo subiu ao Monte Sacro e repetiu Aníbal. Simon Bolívar, desconhecido ainda, jurou daquele altar destruir a opressão espanhola contra metade da América, colonizada e espoliada. Atrevido, o rapaz contava 22 anos. Dir-se-ia, outro menino, aos olhos de um contemporâneo incrédulo. A mesma testemunha duvidaria que, apenas seis anos depois, esse jovem miúdo e magricela teria cumprido literalmente sua promessa. Bolívar protagonizou a independência da Venezuela, dando em seguida liberdade a mais três nações andinas. Extravasara a própria glória para um continente inteiro. No auge, tinha apenas 30 anos, como seu consorte Napoleão. Sonho e juventude são irmãos. Outra vez um homem, na quadra em que Mon­taigne surpreendeu o gênio, mudara a história de uma parte do mundo. Outra vez um jovem vencera o esquecimento.

3 — Mais impressionante ainda, entre os grandes generais, é a aventura de Alexandre Magno, o mais precoce dos gênios militares. Impetuoso, realizou um périplo por uma quarta parte da Ter­ra, a cavalo, arrastando um exér­ci­to atrás de si. Irascível, dominou o mundo com a idade es­plendorosa de 29 anos. Tão jo­vem, o herdeiro de Filipe já havia fechado o próprio círculo quando a febre e em seguida a morte o surpreenderam, antes de completar a idade de Napoleão e Bolívar. Hercúleo, já havia arrastado as fronteiras da Macedônia até o distante vale do Indo, atravessando montanhas, vales e desertos. No caminho, derrotou inacreditavelmente, com gana e tenacidade, os contingentes muitíssimos superiores de Da­rio, em Issus e Gaugamela. Só então fechou os olhos para sem­pre. Não devia nada a si mes­mo ou ao resto dos homens. Como o cor­so e o criolo, outra vez foi na idade dos 20 anos que um jo­vem resplandeceu.

4 — Um quarto exemplo significativo: Júlio César. Como nosso Sanches, o mais célebre dos cônsules romanos sentiu o peso do tempo e a angústia de não ter realizado, ainda, nenhuma obra digna de nota. O relato é de Suetônio, em “A Vida dos Doze Césares”: “E­xercia a questura ao obter a Es­panha Ulterior. En­quanto ali, por ordem do pretor, se realizavam as assembleias destinadas a administrar a justiça, ele foi a Gades. Nesta cidade en­con­trou, no templo de Hér­cules, uma estátua de Alexan­dre, o Grande. Diante dela lamentou-se e confessou sentir uma certa fraqueza por nada ter ainda feito de memorável, numa idade em que Alexandre já havia subjugado o mundo. Ime­diatamente pediu uma licença, para procurar em Roma a oportunidade de realizar as mais altas façanhas no menor prazo de tempo”.

Acredito que a data referida seja 69 a.C, quando tinha quase a mesma idade de seu inspirador (talvez com o prejuízo de um ano) e não quando governa a Espanha, entre 61 e 60, voltando a Roma em seguida, para estabelecer a famosa aliança com Crasso e Pompeu. Decidido a fazer va­ler a sua vida, César derrotou todas as adversidades e to­dos os inimigos. Estava as­som­brado com aquele sentimento capital: o medo de não ser ninguém, aos 30 anos de ida­de. Pressentira o que Mon­taigne relataria, século depois.

Evocar a história dos grandes capitães da história é conveniente para se pensar na ansiedade literária, em relação à morte. Em seu campo de batalha, o escritor tem a mesma ambição do condestável: a de, da única forma que é possível, vencer a morte e, em último caso, conquistar a imortalidade. A analogia é reforçada por Cervantes, que trajou seu comovente herói de uma armadura, empunhando lança e escudo. Clarice Lispector e Rim­baud foram excepcionalmente exemplares, mas a maioria, como Machado de Assis, como Shakespeare, como Drum­mond e centenas de outros, provam realmente que os candidatos à imortalidade dão frutos no esplendor da juventude, antes que lhes su­cumbam a idade e a morte. Em todos os domínios do conhecimento este fato se repete. Ocioso é aumentar uma lista tão grande quanto óbvia.

A preocupação em deixar uma obra digna de nota (todo homem culto quer a imortalidade) foi objeto de um conto de Machado de Assis, “Cantiga de Esponsais”. Romão Pires, protagonista e compositor, representa todos os homens que têm a vocação, mas não o talento. Por isso sofre e morre de desgosto. Se é certo que a dor é capaz de fazer brotar no espírito do artista a obra-prima, ainda assim tal sorte é privilégio dos vocacionados. É a vocação que, nas palavras de Machado, “têm língua” para se comunicar. Não bastam apenas os ingredientes óbvios — o sofrimento e a desdita —, para de­les emergir realizações as­sombrosas, capazes de impactar o mundo. É preciso ser gênio, o que é quase o mesmo que dizer: é preciso ser jovem, não apenas no espírito como também na carne. Estou com 40 anos e, infelizmente, ainda não publiquei uma vírgula.

Um mês depois eu voltei àquela livraria e adquiri o livro de Miguel Sanches Neto. Soube então que, na mesma idade que eu tenho agora, o angustiado escritor já havia publicado “Chove Sobre Minha Infância”.

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