revista bula
POR EM 08/12/2008 ÀS 06:55 PM

Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski

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O filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a “correta”. Isso foi visto como cinismo pelos críticos do cineasta. De minha parte, vejo-o como uma brilhante elaboração filosófica descritivo-moral (em contraposição à de Dostoiévski, que é normativo-moral, ou seja, moralizante, ou seja, empobrecida) 

Tive um professor no mestrado em Filosofia na UFG (Adriano Naves de Brito, que agora está na Unisinos, infelizmente, para a UFG), que, ao analisar as diferentes fundamentações da ética, costumava dizer que, por mais elaboradas que fossem as tentativas (kantiana, humeana, shopenháurica, etc), no fim, o que contava mesmo era nossa simpatia por uma delas para a aceitarmos como satisfatória. Na verdade, ele não dizia propriamente “simpatia”, isso digo eu. Mas algo equivalente, como podemos ver no seu recém-lançado “Ética – Questões de fundamentação” (Editora da UNB, pp.106-107):
           
“A justificação é sempre relativa a alguma coisa e, mais especificamente, ela é, para ele [o outro], sempre relativa ao meu desejo de participar de uma comunidade moral para a qual certos valores e normas são considerados legítimos. Ela é, por conseguinte, relativa ao meu desejo de que seja válida.” [Grifo meu]
           
Considero que exatamente o mesmo pode ser dito a respeito da apreciação estética. Pode-se elaborar toda sorte de teorias ricas, bem fundamentadas, por pessoas que passam a vida estudando o assunto, que dará na mesma. Gosta-se ou não se gosta, prefere-se ou não, a despeito de qualquer fundamentação aparentemente objetiva. Já defendi isso no
jornal Rascunho, contra Pedro Lyra e sua pretensão de objetividade crítica. E foi o que eu disse pra platéia de estudiosos da língua e da literatura russas, quando, sob o título de “Heresia”, apresentei meu último slide: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Crime e castigo”.
           
Para minha surpresa, minha provocação foi muito bem recebida. Ninguém se alterou, ninguém tentou me demonstrar o contrário. No máximo, travamos amigável discussão sobre o “Epílogo” do livro que, seguindo minha opinião, é o que o empobrecia filosoficamente, principalmente se o contrapuséssemos ao final de “Crimes e pecados”. Um, o livro, é fechado, o outro, o filme, aberto. É evidente que isso não equivale a dizer que “Crime e castigo” seja filosoficamente pobre, mas que seria mais rico sem o tal Epílogo.
           
O mesmo não pode ser dito, entretanto, a respeito de
alguns leitores e colegas colunistas da Bula. Sua reação foi a mesma de um torcedor. O que apenas serve para reforçar o que penso sobre apreciação estética. É como se, no meio da torcida do Corinthians, eu começasse a gritar: “Porco, porco!”. Feri orgulhos, ofendi, com minha opinião. Interessante. Parece que os especialistas no assunto estão vacinados contra provocações como a minha. Mas admiradores, não.
           
Eu poderia ter me defendido lembrando a todos que minha perspectiva é filosófica. Ambos, livro e filme, são verdadeiros tratados de filosofia moral. Mas o filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a “correta”. Isso foi visto como cinismo pelos críticos do cineasta. De minha parte, vejo-o como uma brilhante elaboração filosófica descritivo-moral (em contraposição à de Dostoiévski, que é normativo-moral, ou seja, moralizante, ou seja, empobrecida).
           
De nada adiantaria, entretanto, eu me defender com o dito no parágrafo anterior. Minhas argumentações racionais escondem algo mais importante. São minhas. A opinião é minha. Em outras palavras, e reescrevendo meu último slide: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Dostoiévski PARA MIM.” Ora, se admito que o PARA MIM é o que decide a parada, tenho de admitir o mesmo para meu interlocutor. PARA ELE eu estou dizendo um disparate. E a discussão ficaria vazia, sem sentido. Talvez daí o famoso “Gosto não se discute”. 
           
(Justiça seja feita,
Brasigóis Felício disse mais ou menos o que eu digo aqui)
           
Um ponto interessante, ressaltado por
Euler Belém no último Opção, é que um não existiria sem o outro. Woody Allen seria filho pródigo de Dostoiévski. É verdade. A apropriação de uma obra (genial ou não) e seu “melhoramento” é recorrente na história da arte. Shakespeare foi craque nisso, “roubando” idéias alheias e as melhorando (muito). O próprio Shakespeare foi vítima de um melhoramento, seu “Otelo, o mouro de Veneza”, ficou filosoficamente (olha a palavrinha mágica aí de novo) mais rico com a pena de Arrigo Boito, autor do libreto da ópera homônima de Verdi. Boris Godunov, poema histórico longo de Púchkin, só ganha vida por meio da ópera homônima de Mussorgsky. A sonata para violino “A tempestade” não faz jus à peça de Shakespeare que a inspirou (Prospero’s book, de Peter Greenaway, faz). Já a sonata para piano “a Kreutzer” é uma experiência estética mais interessante do que a leitura da novela de Tolstói, nela inspirada. Ambas de Beethoven. (Olha as comparações esdrúxulas aí, gente!). 
 
A tese que defendi na Abralic com meu “Dostoiévski vai ao cinema” foi justamente a de que quanto mais um cineasta se distancia do autor russo (e, pra todos os efeitos, de qualquer autor, em adaptações cinematográficas), mais rica é sua obra. Assim, “O Idiota” de Kurosawa é melhor do que o de Pyriev. “
Nina”, de Heitor Dhalia, é mais interessante do que “Crime e castigo” de Joseph Sargent. E por aí vai, até o distanciamento máximo, a ponto de não ser uma versão, mas, sim, uma subversão do original, “Crimes e pecados”, de Woody Allen, o segundo melhor filme já realizado por alguém (o primeiro é “O Anjo exterminador”, do Buñuel).
           
Por último, mas não menos importante, não é que Dostoiévski escrevia mal. Compreende-se e concorda-se com o defendido pela professora
Maria de Fátima Bianchi, que o estilo é “deliberada e calculadamente desleixado”. Mas isso não é o mesmo que deixar de reconhecer certos cacoetes do autor, o mais óbvio deles, o uso e abuso das palavras “de repente”, “de súbito”, “subitamente” e “num átimo”. É preciso ser cego para não ver. Ou não ter lido o livro.
           
Nota: O texto “Dostoiévski vai ao cinema” apresentado na última
Abralic, está disponível em minha coluna de Cinema & Filosofia no número 23 da revista Ciência & Vida FILOSOFIA (Editora Escala).
           
Nota 2: Segue abaixo uma lista de algumas das adaptações cinematográficas disponíveis, com minha (minha!) opinião a respeito (de uma a cinco estrelas, sendo cinco a melhor avaliação):
 
            “O idiota” de Ivan Pyriev **
            “O idiota”, de Kurosawa ***
            “Pickpocket”, de Robert Bresson *
            “Nina”, de Heitor Dhalia ***
            “Notes from underground”, de Gary Walkow ****
            “Os possessos”, de Andrej Wadja ***
            “Crime e castigo”, de Joseph Sargent **
            “Match Point”, de Woody Allen ****
            “O sonho de Cassandra”, de Woody Allen ***
           “Crimes e pecados”, de Woody Allen *****
 
 
 
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