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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:17 PM

Poesia: o futuro como origem

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O poeta não tem o direito de autodefesa, pois sua obra já era a resposta e fora seqüestrada pelo mundo enquanto ele mesmo fora abduzido por ela. A crítica literária é aquele apêndice enorme, protuberante, um rabo de papel que se cola à obra literária na presunção de que ela necessite de complementos

“Só é possível transformar-se na medida em que já se é”.
Georg Novalis, poeta alemão

“Sua obra traduz a visão de um individualista comprometido com a realidade social”... “Predomínio da individualidade”... “A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias” etc. e tal...: são fragmentos de uma das múltiplas biografias resumidas de Carlos Drummond de Andrade acessáveis em dezenas de sites da Internet. O crítico não deve ter-se apercebido de que sua colocação arbitrária contém uma contradição intrínseca, a mesma contradição que ele identifica na obra do poeta: “individualista comprometido com a realidade social”. O “indivíduo” do poeta revela aquele perfil futuro que nem exatamente é o perfil que ele terá, mas aquele que é a forma futura e vir-a-ser do humano. O mundo foi construído de pergaminhos, papiros e papel e a tela do processador de texto os imita. Seu cenário é o lugar onde ainda se viverá ou se viveria, mesmo quando ele fala do passado. Poemas da infância costumam ser poemas da velhice. Passado e futuro são litorais distantes e fora de alcance para o homem, pois existem como memória e expectativa. Antes do cientista, o poeta sabe que o futuro é a nossa origem. A filosofia é a mãe das ciências, mas a poesia é a mãe da filosofia. E a mitologia a ancestral de todo o conhecimento. Freud reconhecia que muitas de suas teorias, que demoraram meses ou anos para serem gestadas, já tinham sido intuídas na obra de poetas que só mais tarde ele chegaria a conhecer. 

O poeta norte-americano Wallace Stevens acreditava que na modernidade a arte substituíra a religião, porque esta se volta para o passado enquanto o tempo da arte é o futuro. O poeta britânico Ted Hughes, que teve sua obra eclipsada pela de sua esposa, a norte-americana Sylvia Plath , acreditava que o poeta tem o papel de um moderno xamã ou sacerdote. Como “antenas da raça” definiu Ezra Pound os poetas numa eloqüente autoproclamação, sendo ele próprio um fabro.

A importância que tiveram as obras de William Sheakespeare, Dante Alighieri e Luís de Camões para a consolidação do sentido de nacionalidades mediante a consolidação de idiomas evidencia que uma civilização nasce e amadurece primeiro na alma do poeta. A obra de Dante foi um testemunho e um testamento entre sublime e grotesco da individuação de toda a Europa, que emergiu da idade média para o renascimento em meio e graças à peste negra. A obra de um poeta, escritor ou artista o interpela severamente: como um fantasma familiar evocado por ele mesmo ela lhe propõe questões esfíngicas que ele não ousa responder, mensageiro mais ou menos consciente de uma voz mais oracular e abissal que a sua própria, anjo torto inseguro das mensagens que traz ao mundo: em recitações e gravações fonográficas a voz de Drummond soava como a de um eterno adolescente.Se o poeta silenciar diante de sua obra é porque ela é que é a sua locução fundamental e essencial, que transubstancia e transcende sua voz comum de homem, preservada para os comentários gerais da vida comuns à espécie. A obra é a resposta apresentada antecipadamente àquela pergunta que se insinua na alma dos outros homens que são chamados injustamente de “comuns”. Que outros respondam a si mesmos, se considerarem a obra escrita para ser lida uma indagação edípica, narcísica até, a exigir um eco, sem o qual nenhuma obra é completada, se o próprio mundo e a condição humana são obras abertas.

Na poesia de Fernando Pessoa, outro grande mensageiro do idioma humano, o estranhamento do autor em relação à sua obra é freqüente e quase uma constante, sutilmente intercalada entre os versos como vocábulos translúcidos, linhas de grifo ou entrelinhas que talvez sejam tão reveladoras quanto os versos, porque o poeta suspeitava constantemente existirem outras palavras por trás das suas, uma mão magra e mais antiga da qual a sua foi todo o tempo um  mero reflexo, feito um outro mundo que existisse por trás do mundo, vagamente sugerido aos olhos e de certa forma temido: “Mensageiro de um rei desconhecido/Sigo informes instruções do além...”.

Haverá aqueles para quem a obra de um poeta representará aquela que ele gostaria de ter escrito - uma resposta que considerarão um decreto, reconhecendo no bardo sua condição subliminar de profeta. Clarice Lispector declarava ter nascido sabedora de uma resposta: toda sua obra e o transcurso de sua vida teriam constituído a procura pela pergunta que a ela correspondia.

Resta ao bardo aceitar a inevitabilidade de ser devorado pelo monstro tão enigmático quanto transparente que é seu duplo ou sombra projetada, pois nela ele se fez espelho para outros homens. Sua obra, que veio nascendo de sua própria natureza como o fio de seda do bicho ou o rastro da lesma sobre as paredes do espaçotempo apinhado de pessoas e coisas, pode representar para ele mesmo um mistério indecifrável, um Graal a quem ele, como o Parsifal do mito arturiano, não saberá ao certo a quem serve. Ela caminhará passo a passo ao seu lado por toda sua vida como uma leoa de estimação que sobreviva ao seu dono e que secretamente compartilhava sua natureza primordial; escalará com ele escarpas e montanhas ou o seguirá a vales bíblicos de sombras de morte na noite escura da alma, exibindo um semblante ora mais jovem, ora mais antigo do que o dele; sorrirá em sua e agonia discreta enquanto ele até se permite rir de um programa idiótico da TV – como Os Trapalhões, que Drummond apreciava;  ela estará taciturna e meditabunda a respeito de coisas graves como a vida, a morte ou a hipoteca da casa. O autor está em trânsito na moldura-limite constituída do tempo e espaço comuns que fluem pelos relógios e folhas dos calendários de todos os outros homens, mas seu golem ou homúnculo alquímico feito de papel será seu avatar virtual, um duplo que alcançará as paisagens imaginadas pelo seu criador como no programa Second Life. O poeta vive duas vidas, talvez várias ao mesmo tempo.

Nota bene, como o personagem de James Joyce em Ulisses, Leopold Bloom, um irlandês mediano, homem-massa de suspensórios que pressentia estar no seu íntimo vivendo a aventura do rei Ulisses, ou como o Jean Valjean, ex-boxeador e motorista de caminhão do filme de Claude Lelouch que se identificava com seu homônimo de “Os Miseráveis” de Victor Hugo e percebia estar vivendo a vida do personagem, o poeta vive secretamente uma existência mais extensa em tempo e espaço do que a dele, que o transcende mesmo enquanto vai entre os vivos.  Em tempos passados, quando existiam bondes, ele tomava um deles - sempre o mesmo- para a repartição pública; agora, desce aos infernos subterrâneos da cidade para tomar o metroviário em meio à multidão anônima e ele solitário, espécime de uma fauna subjacente à humana. Paga seus impostos; sai à tarde com o cachorro para o passeio; vai à praia de bermudas, constrangido por causa das pernas demasiado finas, porque, como receita e recita o verso de um poema cujo autor eu esqueci, pois me parece tê-lo lido em outra vida em que eu era outro: “um poeta nunca faz ginástica”. No íntimo do aedo, nesse ínterim, transcorre A Odisséia da qual o resto da humanidade também é coadjuvante, como numa daquelas superproduções de Cecil B. de Mille do tempo em que não existiam efeitos digitais para facilitar as coisas.

O poeta não colora necessariamente a paisagem atual e urgente que ele compartilha com seus semelhantes dessemelhantes, mas desenha um cenário futuro, enquanto diagnostica o Pathos de sua era que nos dilacera e a ele como um Minotauro no labirinto ocidental ou como um deus Baal ou Moloque de fauces arreganhadas e em chamas a exigir sacrifícios:  

Esse ceticismo de quem se esconde atrás de si mesmo como de uma coluna de mármore branco é tanto mais revelador quanto uma confissão agostiniana quando tenta fazer da poesia seu próprio ambiente, um espaço-tempo auto-replicado. “O poeta é um fingidor” – (Pessoa) Ele – estou falando dos poetas maiores ou dos grandes poetas menores - reelabora o idioma mítico - consciente ou não do que faz feito pássaro que execute automaticamente seu ofício de cantar - de uma maneira genética e genérica de que o mito é linguagem e a linguagem é mito, como a história é roteiro. Mitologias: Grandes Aurélios de “nadas que são tudos” (Pessoa).

Seu trabalho no mundo é feito da essência e substância do próprio mundo e a sua obra pode expressar uma sabedoria que não se deve esperar que ele mesmo já possua – não seria justo - pois um eu futuro - que nem é o dele, mas um eu coletivo – é quem faz proclamações ou sussurra por meio de seu verbo: um eu autônomo, um pequeno ditador a quem o poeta serve como o judeu hesitante que concorda em carregar a cruz do estranho vindo de outro mundo por algumas centenas de metros. O poema interrompe o sono do poeta, que desperta e se dirige à escrivaninha - onde agora existe uma estranha máquina que extraviou o mundo - para obrigá-lo a despertar de olhos pesados e mal-humorado na manhã seguinte. Sua obra ainda poderá vir a assombrá-lo no Hades negando-lhe o destino comum dos homens: volumosos ensaios pós-morte lhe são escritos com exegeses e hermenêuticas que sempre são projeções e expectativas dos seus autores à revelia do poeta, como é exemplo este texto. Ele não poderá defender-se com réplicas a certos críticos movidos pela inveja que, em conformidade com o dito de que “o diabo não sabe para quem trabalha”, apenas contribuem para eternizar os autores que criticam.Costuma ser o oponente quem reconhece seu primeiro seu talento.

O poeta não tem o direito de autodefesa, pois sua obra já era a resposta e fora seqüestrada pelo mundo enquanto ele mesmo fora abduzido por ela. A crítica literária é aquele apêndice enorme, protuberante, um rabo de papel que se cola à obra literária na presunção de que ela necessite de complementos. A obra já é a resposta-proposta; contudo, de toda resposta emerge uma pergunta inquieta e o mistério se auto-replica, uma ameba de enigmas disfarçados em sua clareza fotônica. O pensador nunca conseguirá abdicar de seu papel de tornar a realidade mais complexa. A literatura não tem compromisso apenas consigo mesma, porque deve ao mundo sua natureza.

Talvez seja erguida uma estátua ou escultura do poeta, por se presumir seja uma homenagem digna imobilizar o seu ser (que consistia num ser-poeta) num único gesto do soma, recortado em pedra ou bronze, ele que fora volátil e mercurial e andava apressado pelas calçadas de vários mundos paralelos com o saco de pães sob uma axila. Seu gesto e aceno ao mundo com dedos magros e alma plena, fora a poesia. Faz-se justiça: todo ídolo precisa de uma estátua. Na escultura de Drummond ele é mostrado com as pernas cruzadas, no colo o livro que ele não está lendo, pois o poeta não precisa ler sua própria poesia. O volume em metal ou pedra simboliza sua opus inteira, as órbitas metálicas  fitando um horizonte que já estava indisponível ainda em vida e agora talvez represente mais um paraíso inalcançado, não de todo perdido. Escrito no banco o verso que poderia ser grafado em todos os bancos, por revelar a natureza das urbes: “no mar estava escrita uma cidade”.  Tudo é oceano, e na cidade está escrito um mar. Alguém pode passar e, num gracejo desgraçado, colocar-lhe um boné de brim sobre a cabeça, tirar uma foto e veiculá-la na internet, como de fato fizeram com o Drummond estatuário. Alguém outro lhe quebra os aros dos óculos, como também aconteceu; pombos se sentam e defecam-lhe sobre os ombros, como também muitas vezes aconteceu. Pouco importa. O poeta já havia acontecido ao mundo, enquanto o mundo acontecera a ele e nele.
 
“As melhores coisas não podem ser ditas porque transcendem o pensamento... O verdadeiro artista é aquele que aprendeu a reconhecer e a expressar o que Joyce chamou de “radiância” de todas as coisas, como epifania ou revelação da sua verdade” – escreveu o bardo Brasigóis Felício a respeito da obra de Yêda Schmaltz (Portal UEG). Felizmente para nossa perecível espécie também as piores coisas não podem ser ditas. Umas como as outras fazem parte de um não-mundo, um além-mundo em que o sublime e o teratológico se fundem na alma. Fatos como a Shoah - o Holocausto Hebreu ou a Capela Sistina são vagas mensagens dos paradoxos heraclitianos que o inconsciente pode revelar.


 

1 A obra de Sylvia Plath foi ela mesma eclipsada pelo escândalo de seu suicídio com gás de cozinha, que provocou um interesse algo mórbido em torno de seu nome. 
2 “Ir Entre os Vivos” é o título de um livro de poemas do poeta e professor de literatura Esmerino Magalhães Jr., residente em Brasília.
3 V. “Lúcifer e a Besta”, de Peter Hinkelaemmert, Ed. Paulus
4 Não estou certo de que matéria bruta foi forjada a escultura...

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