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POR EM 11/12/2008 ÀS 01:32 PM

O destino de Otto Maria Carpeaux

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A contribuição de Carpeaux ao acervo nacional não residiu naquilo que trouxe de fora para nós, mas naquilo que, desde o Brasil, ele deu à cultura do mundo, ajudando a elevar o nosso país da condição de importador passivo e discípulo beato à de criador e mestre

Ouvi falar de Otto Maria Carpeaux um punhado de vezes, antes de ler seus escritos. Sempre achei sugestivo este nome, “Carpeaux” – penso, aliás, (o que é inteiramente subjetivo) que certos nomes só existem mesmo para seus donos. Um dia, finalmente, fui à livraria e adquiri uma obra deste que se consagrou entre os mais fecundos historiadores e críticos literários do país. Torrei oitenta paus no volume I dos seus Ensaios Reunidos, um catatau de 928 páginas. Tão logo sai dali comecei a folheá-lo a caminho, no ponto e dentro do ônibus. O que em primeiro lugar chamou minha atenção nesses textos foi a densidade das análises e a abrangência de uma cultura pessoal aparentemente inesgotável. É difícil, em vida, alguém ler tanto, saber tanto. Ao cabo de alguns poucos ensaios – Visão de Graciliano Ramos, A idéia da universidade e as idéias das classes médias, Max Weber e a catástrofe, A política, segundo Shakespeare... - foi inevitável a conclusão de que eu perdia (este é o verbo) uma parcela importante do que de melhor a cultura já produziu em qualquer lugar do mundo. Repito: do mundo. Eu finalmente havia descoberto Otto Maria Carpeaux.

Pois bem, repisemos algumas informações biográficas a seu respeito. Este homem admirável nasceu em Viena em 1900, fugiu para a Antuérpia (Bélgica) com a anexação austríaca por Hitler e veio terminar, inclusive seus dias, no Rio de Janeiro, Brasil. Tinha completado 39 anos de idade quando aportou em nosso país, onde faleceu em 78, do coração. Entre nós foi dedicado jornalista, tornando-se redator e editor (Correio da Manhã), ao infatigável trabalho de pesquisa, tendo dirigido duas importantes bibliotecas (as da Faculdade Nacional de Filosofia e da Fundação Getúlio Vargas) e, por fim, à militância política: era, como não bastasse, também um abnegado. Sua singularidade, no âmbito da crítica e da historiografia literária, consistiu para alguns em ter transcendido a cultura brasileira para lhe acessar às águas profundas da tradição ocidental. A ele assim se refere outro crítico exponencial, Alfredo Bosi:

“...aparece hoje como um divisor de águas entre modos de ler menores e, não raro, provincianos, e uma consciência crítica poderosa da literatura como sistema enraizado na vida e na história da sociedade.” (cf. História Concisa da Literatura Brasileira, Vozes, p.496)

Mas essa consciência é “poderosa” – e importante - principalmente por encarnar uma pedagogia, uma concepção, um método, algo que, segundo o prefaciador Olavo de Carvalho, no começo quase ninguém percebeu ou soube valorizar. Segundo o filósofo paulista, por pouco não limitaram, na pátria-refúgio, a rebaixar Carpeaux à condição-síntese de “jornalista erudito”, ainda que cercado pela nata cerebral do país. Voltaremos a esse ponto. Acho que não se deve contextualizar o ensaísta apenas no tempo: a rigor, sua relação com o espaço é bem mais interessante e digna de apreciação. Carvalho se limita a desfazer alguns mal-entendidos e incompreensões, relembrando entre outras coisas a recepção equivocada que no Brasil teve Carpeaux – que o diga Alceu Amoroso Lima. Conviria pegar esse gancho, da recepção apática, ampliar o raio de abrangência e colocar a seguinte questão: que significado tem a obra de Carpeaux para o mundo? A pergunta, que me parece inevitável, é uma desculpa para dizer que, de uma maneira ou de outra, o que se coloca em certa medida é o problema do ostracismo intelectual de um gênio, e estamos falando daquele que o mesmo Carvalho não titubeou em colocar em pé-de-igualdade a um De Sanctis, um Hipólite Taine, um Arnold Hauser. Ora, e por que não?

Particularmente, não vejo problema nisso. Acho sinceramente que o maior exagero do intelectual brasileiro é a modéstia muitas vezes complacente e satisfeita de ser um zero à esquerda – quando muitas vezes é algo mais que isso! Eis em que não precisamos ser exagerados. Problemática, a meu ver, é certa ignorância sobre alguém da estatura intelectual e humana de Carpeaux, mas menos ainda em nosso país do que no mundo.

A palavra ostracismo pode soar inadequada, mas não pretendo lançar mão de outra. Explico-me, portanto. Ninguém em nossa terra agiu no sentido de obscurecer Carpeaux, pelo contrário: aqui ele foi carinhosamente recebido e conquistou suas melhores amizades e sua glória merecida. Não é para censurar este acolhimento solidário, com efeito, que recorremos àquela palavra, que importa pelas conotações de fato políticas e suas conseqüências. Afinal, tudo começou realmente como um ostracismo motivado por medo, e as conseqüências existenciais um tanto injustas para a missão de Carpeaux remontam a esse acontecimento. O que queremos dizer é que, mesmo indiscutivelmente universal, o autor parece alguém que ficou no meio do caminho, penalizado pela guerra, pelo destino geográfico e a ignorância de uma vasta parcela da cultura ocidental. Tal circunstância suscita outra, de ordem diversa.

Carpeaux é expoente de um caso interessante. Não foi o único europeu a se exilar ou radicar na América. Por razões diferentes - econômicas, políticas e principalmente para escapar do flagelo da guerra -, acorreu para este canto do mundo uma plêiade de pensadores, artistas e cientistas dos mais brilhantes nascidos na Europa, incluindo aí a União Soviética. Podemos lembrar alguns artistas plásticos e escritores, áreas de nosso interesse: Lasar Segall, Frans Krajkberg, Franz Weismmann, Mira Schendel, Mark Rothko, Willem de Kooning, Arshile Gorki, Vladimir Nabokov, Isaac Singer, Clarice Lispector e, entre eles, Otto Maria Carpeaux. Carpeaux, como se vê, é parte de um acontecimento de envergadura na história do continente americano, no século XX: a imigração de cérebros europeus para as Américas. Como indica nossa lista, nos limitaremos a falar de Brasil e Estados Unidos. Um caso e tanto.

A epopéia dos imigrantes (a rigor, braços para a lavoura e a indústria) é contada nos livros de história, mas, que eu saiba, ainda não se escreveu uma história tão relevante quanto aquela iniciada por volta de 1870. Refiro-me à “fuga” desses artistas e eruditos do Velho Mundo na primeira metade do último século para o nosso continente, bem como a influência – às vezes decisiva - que exerceram entre seus pares americanos. A primeira leva teve impacto econômico fundamental, particularmente no Brasil, quando substitui o braço escravo nas lavouras de café pelo trabalho assalariado. Trouxe consigo, além da força física, ideiais políticos como o anarquismo e o socialismo, com formidáveis desdobramentos na organização classista operária e na vida nacional. A leva seguinte impactou sobre a cultura, contribuindo na difusão de idéias e, em alguma medida, na visão de mundo dos povos que os acolheu, a ponto de alguns de seus expoentes figurarem de forma marcante na história literária ou artística dos países em questão. É o caso de Otto Maria Carpeaux, para sempre integrado ao nosso acervo literário. Mas, aí é que está.

O destino geográfico implica também o destino histórico, salvo raras e conhecidas excessões. De maneira que a sorte de uns, dos personagens mencionados, não foi a sorte de outros, em que pese o alcance e repercussão de suas obras, mesmo quando essa produção tem, de lugares distintos de atuação, equivalência em termos de qualidade. Se não tiveram a mesma sorte, a explicação parece simples e plausível, e não tem nada a ver com a qualidade intelectual de suas obras, portanto.

Penso que a escolha dos países de adoção espiritual fez toda a diferença, contra ou a favor desses imigrados. De sorte que aqueles intelectuais que decidiram fixar nos Estados Unidos alcançaram uma projeção internacional significativa, certamente muito maior do que aqueles que optaram em viver no Brasil. Quem escolheu o Brasil se condenou a uma glória que, normalmente, não ultrapassa as fronteiras do país, independentemente do valor intrínseco de seu projeto cultural. Olavo de Carvalho menciona que sequer em nosso país Carpeaux obteve uma reciprocidade intelectual digna de seu merecimento. Foi recebido no paraíso com risos e afagos, está bem, mas quando morreu não poucos o trataram como simples divulgador cultural. Não seria exagerado imaginar o desespero íntimo do grande ensaísta ante o destino selado de sua brilhante realização, contida, talvez para sempre, nas fronteiras de um país periférico, e que e tese mal o havia compreendido.

A língua portuguesa não terá sido o maior desafio à sobrevivência e imortalidade de Carpeaux, antes, talvez, a realidade histórica da pátria adotiva. Este é um fenômeno digno de atenção, que provavelmente tem a ver com o papel exercito pelas nações sub-desenvolvidas no mundo, conceito útil para a realidade em que viveu. É a hipótese que temos em vista para explicar o ostracismo de que falamos: é um fato – incômodo, mas um fato.

Certa vez, um de meus mestres na academia argumentou que esse tipo de problema reflete traços de um estima pouco elevada que o Brasil tem de si mesmo, como se o país sempre dependesse da “aprovação” alienígena para ter certeza de seus valores. Na época considerei sua opinião, mas hoje discordo: não basta nossa mudança de humor para, de um dia para o outro, uma realidade imanente e sedimentada tornar-se outra coisa diferente de si mesma. Em outras palavras, estou convencido de que o problema é mesmo histórico e não de temperamento – a menos que passássemos a se mais afirmativos quando o caso o exigisse. E é por ter certeza desses valores – e amor próprio -, é que não devemos ignorar certas verdades, um tanto quanto óbvias mas que, por alguma tola razão, temos dificuldade em proclamar.

Um pouco de fatos para clarear as idéias e sairmos da especulação vazia. Desde 1914 que os EUA vêm gradativamente exercendo um papel de liderança mundial, em substituição à Grã-Bretanha; liderança que se consolida inquestionavelmente depois da vitória de 45 sobre o nazi-fascismo. A cultura nacional local se projeta em consonância com a importância crescente daquele país, prova disso é que Nova Iorque passa a dividir com Paris a condição de centro irradiador mundial das novas tendências estéticas, em particular nas artes plásticas. É de lá que emanam, por exemplo, o expressionismo abstrato de Jackson Pollock e a pop art de Andy Warhol. É possível que os organizadores de um livro, Teorias da Arte Moderna, em particular Herschel B. Chipp, não tenham pensando no tipo de abordagem que propomos, mas o que declaram é apenas um dos muitos casos, aliás sintomático, que reafirmam nossa intuição:  

“O surgimento de uma escola vigorosa e independente em Nova York resultou da emergência dos Estados Unidos no final da guerra, não só como influente centro cultural mas também como força política e econômica. Pela primeira vez um movimento artístico originado nos Estados Unidos se viu reconhecido no cenário internacional como um significativo marco do desenvolvimento da arte contemporânea. A corrente internacionalista a partir de então tem sido, sem dúvida, a predominante. Mas o internacionalismo passara agora a ter novo significado: o de que a arte americana era uma força no cenário mundial e de que esta palavra já não servia meramente para designar certos artistas que iam buscar fora as suas idéias.” (ob.cit, p.515)

A história norte-americana se assemelha em muitos aspectos à brasileira, e certamente partilhou, como nós, a condição de periferia cultural e, mais que isso, de reles consumidora de idéias vindas da Europa. Mas isso mudou com a ascenção dos Estados Unidos a superpotência, até meados do século XX – ainda que a arte local continuasse dialeticamente sintonizada com a européia. Salvo por este último aspecto, não é o caso do Brasil, um país que atravessa o século XX inteiro na periferia do sistema: não nos tornamos uma “força política e econômica”, nos termos de H. B. Chipp. A condição de país subdesenvolvido possivelmente forneça elementos de análise capazes de esclarecer por que, numa perspectiva inversa – isto é, em que analisássemos a trajetória de alguns artistas nascidos no Brasil – muitos de nossos talentos não galgaram o justo reconhecimento no exterior. Tudo indica ser o caso do concretismo, na poesia.

O inverso também acontece: artistas como o argentino Lucio Fontana e o chileno Roberto Matta, destacados respectivamente por críticos como Giulio Carlo Argan e o mencionado Herschel B. Chipp, indicam que a escolha de uma carreira em um dos “centros”, a Europa, já foi fator determinante para a consagração no grande circuito internacional.

Com efeito, a visão de que o gênio artístico e intelectual independe da realidade social para se sobressair pode até ter sentido – Carpeaux é inteiramente realizado, a despeito do Brasil - mas não satisfaz o questionamento aqui proposto. Não responde o porquê de determinadas presenças e ausências naquilo que poderíamos chamar de cânone internacional em qualquer âmbito criativo. Voltemos à literatura, ao caso emblemático de Carpeaux. Fosse o contrário do que acabamos de dizer, suspeito que, com justiça, esse crítico literário teria no exterior glória parecida à do já mencionado Arnold Hauser. Sua História da Literatura Ocidental poderia, quem sabe, figurar nos debates mundo afora ao lado da História Social da Literatura e da Arte, com a diferença, aliás oportuna, de oferecer uma contra-leitura de natureza historicista. A obra brasileira seria uma espécie de resposta ao materialismo hauseriano, se o Brasil fosse também, como Carpeaux, uma potência mundial. Por quais motivos alguém diria que estamos exagerando?

Façamos uma troca simbólica, a título de provocação: o que seria do russo Nabokov no Brasil e do austríaco Carpeaux nos Estados Unidos? Óbvio, não posso pretender uma solução razoável para um questionamento dessa natureza. Dada a impossibilidade, não é uma resposta objetiva que pretendo obter: apelo então para uma resposta da imaginação – o que ainda pressupõe se valer das referências concretas que temos. De minha parte, imagino que a escolha do país faria toda a diferença contra Nabokov, ainda que entre nós houvesse escrito Lolita. Basta olhar para a tendência dominante para concluir por seu confinamento e redução cultural. De sua parte, olhando para as mesmas tendências – que também ampliam os horizontes dos homens e de suas obras -, Carpeaux teria um auditório que provavelmente alcançasse a sua Europa estimada, repercutindo no circuito da crítica mundial como infelizmente não logrou ao escolher o Brasil e o idioma do país. Olavo de Carvalho (advirto que não me interessam, aqui, suas posições ideológicas) faz uma declaração surpreendente sobre Carpeaux e, nos parece, inteiramente justa:

“A História da Literatura Ocidental não é só uma contribuição da Geisteswisseschaft à cultura brasileira: é uma portentosa contribuição da cultura brasileira à Geisteswisseschaft. Logo, a contribuição de Carpeaux ao acervo nacional não residiu naquilo que trouxe de fora para nós, mas naquilo que, desde o Brasil, ele deu à cultura do mundo, ajudando a elevar o nosso país da condição de importador passivo e discípulo beato à de criador e mestre.” (Carpeaux, Ensaios Reunidos, p.50)

Olavo de Carvalho merece um elogio pela ousadia e originalidade de suas palavras. À maneira de Capistrano de Abreu em relação a Varhagen, o filósofo inverte a perspectiva e brada a verdade íntima, porém sem aquela empáfia vazia dos retóricos que no Brasil fazem festa. Mas a pergunta persiste: o mundo deu conta dessa contribuição à sua cultura? A resposta parece ser negativa, pois, salvo engano, a única obra sua traduzida na Europa é um texto menor no conjunto de sua significativa produção, A missão européia da Áustria (1941), dedicado ao chanceler austríaco Engelbert Dolfuss, contemporâneo seu. Já nos EUA, foi preciso que um brasileiro do Portuguese Literary & Cultural Studies, João Cezar de Castro Rocha, da Universidade de Massachusetts, Dartmouth, dedicasse uma página ao ensaísta num estudo dedicado às influências estrangeiras na formação da cultura nacional (cf. site Sapietiam Autem Non Vincit Malitia). E é tudo, salvo melhor juízo.

Extrema injustiça, pois Carpeaux, além de ser um ensaísta gigantesco, não se enquadra na categoria de importador cultural. Admitir o contrário legitimaria nossa própria atitude, ou seja: se ele bebeu no italiano Croce e no belga Burkhardt, porque não poderíamos beber nas fontes do francês Breton e do italiano Marineti? É uma questão de perspectiva. Julgamos que o empreendimento de Carpeaux é distinto, até porque – não parecesse indelicado de nossa parte – poderíamos lembrar que é austríaco. O quero dizer chamando-o de austríaco é que as influências intelectuais que recebeu pertencem ao berço europeu, portanto não importou nada, tendo em vista que a Europa é vista como uma grande unidade pelos olhos alienígenas (é claro que para um europeu isso é um mito, ao menos político, como periodicamente fazem lembrar os conflitos separatistas na Espanha, Irlanda e ex-Iugoslavia, sem contar as repúblicas soviéticas).

Na pele de tais alienígenas, podemos afirmar que Carpeaux é um original cuja vicissitude foi ter escolhido o Brasil para viver e trabalhar. Em outras palavras, é a condição do país e da língua que escolheu que, aos olhos mesquinhos do estrangeiro, não permitem que se lhe façam a devida justiça, no mundo. Se dependesse exclusivamente da obra que realizou, há muito deveria ecoar em todos os meridianos; há muito deveria ser estudado, consultado e citado.  

Minha conclusão pessoal é de que é preciso relativizar algumas de nossas percepções. O termo “os maiores” está inapelavelmente associada a uma realidade que extrapola o indivíduo e o carrega consigo, de roldão. Estamos rodeados por cânones, e o maior é sempre o maior com o auxílio de uma realidade histórica, quando certamente seríamos mais justos, talvez, se reconhecêssemos a contribuição intelectual sem levar em conta fatores de ordem política e econômica, francamente legitimistas. Há uma dialética nisso aí. A impossibilidade de fazermos isto, no entanto, é que obriga os homens a tomar um partido, e o meu é o de Olavo de Carvalho. O destino potencial de Otto Maria Carpeaux é bem maior do que o Brasil, que a ele deve ser profundamente grato. Seu destino é, sem sombra de dúvida, o dos talentos universais da espécie.

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