revista bula
POR EM 22/08/2009 ÀS 11:42 AM

“Katyn”, de Andrzej Wajda e “Homicídio” de David Mamet

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Fidelidades dilaceradas em "Katyn” e "Homicídio" e um pequeno regresso a "O Leitor"

 


Um grupo de refugiados aproxima-se do meio de uma larga ponte sobre um rio qualquer da Polônia. É setembro de 1939. No sentido contrário caminha um outro grupo de refugiados. Inevitavelmente se cruzarão. Muitos deles se conhecem. São vizinhos, são parentes, amigos. Querem se prevenir uns aos outros, alertar sobre a fera que de ambos os lados os acossa. Qual decisão tomar? Retroceder? Avançar? Pressionados de um lado pela invasão nazista, de outro pelos soviéticos —  naquele momento ainda aliados. Que rumo tomar? Para onde ir?

Outra cena, a seguinte talvez, não me lembro. A mulher vai ao encontro do marido, oficial do exército polonês, refém dos soviéticos a poucos quilômetros dali com milhares de companheiros de farda. Pede que ele venha, que partam juntos dali, que ele precisa protegê-la e à filha deles. —  Você jurou a mim... perante Deus. Até que a morte nos separe, você esqueceu? Voltando-se na direção dos outros o homem responde: — Jurei a eles também.  O que fazer, então? Qual direção tomar? Uma ou outra fidelidade se verá dilacerada.

Estas são as cenas iniciais de “Katyn”, o filme de Andrzej Wajda acerca do massacre de mais de dez mil oficiais do exército polonês aprisionados pelo exército de Stalin, no início da II Grande Guerra. (Aqui no Rio esteve em exibição durante uns poucos dias num pequeno cinema escondido do grande público. Agora saiu em DVD.)

No entanto, há diferenças entre um e outro exército, como da mesma forma há diferenças entre os campos de concentração nazistas e o Gulag soviético, ao contrário do que parte significativa dos historiadores gosta de afirmar. É o que faz, por exemplo, a francesa Annete Becker no de resto excelente “História do Corpo —  As Mutações do Olhar. O Século XX”, no capítulo “Extermínios —O corpo e os campos de concentração”. Não que não fosse tanto ou mais abominável o Gulag que Auschwitz-Birkenau —  lembre-se que os campos stalinistas ajudaram a exterminar, além de vidas, a esperança de uma sociedade não-capitalista. Apenas eram fundamentalmente distintos, tanto nos métodos quanto nos propósitos —  como aponta Anne Applebaum em “Gulag —  Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos”. Nada há de inocente na ignorância de fatos do conhecimento como estes —  e também a sra. Appletbaun comete lá as suas inocências.
 
Um diálogo em “Katyn” 


A mulher de um dos oficiais poloneses executados conversa num parque com um dos sobreviventes quando uma dupla de oficiais russos passa por eles e o homem se levanta para bater continência. Ela vira-se para ele e diz:

—  Você cumprimenta os assassinos como se fossem vencedores.

— Não faz diferença se são soviéticos ou alemães. Ninguém ressuscitará os mortos. Temos que sobreviver, perdoar. Temos que viver.

—  Você é igual a eles. Pode pensar diferente mas é igual. O que importa pensar diferente?”

Duas mulheres polonesas na Polônia pós-guerra, ocupada pelos soviéticos. Uma delas trabalha na Universidade sob o novo regime. É a outra quem diz:

— Você encontrou um lugar nesse novo mundo, enquanto eu estou naquele onde Piotr (morto na luta contra a ocupação) está. Se tiver que escolher, eu fico com ele.

—  Você escolhe os mortos...
—  Não, eu escolho os assassinados, não os assassinos.

Aqui novamente do que se trata é de fazer escolhas, às quais não se deveria nunca abdicar.
 
Música dissonante
 
Às vezes pode valer a pena ceder ao culto televisivo das espetaculosas aberturas e festas de encerramento dos grandes aglomeramentos esportivos tipo Olimpíadas, etc. Um estupendo mau gosto, vazio e desinteressante que atrai a atenção e amesquinha a emoção de milhões de telespectadores. Além de disputarem-se medalhas, disputa-se intermitentemente o agigantamento da grandiloqüência do show, ad eternum.

Por uma espécie de acidente de um desses dias modorrentos assistia a abertura ou encerramento de uns tais Jogos de Inverno (solenemente narrada pelo locutor). Era o início da última década do século XX, 1992, para ser exato.

Alguma coisa prestava no show, imiscuindo-se contra o emburrecimento. Ao invés de amontoados concêntricos e repetitivos, movimentos de harmonia assimétrica, música dissonante, lúdica, percussiva —  na TV! Circense. Uma mecânica lindamente endoidecida, robótica inconclusa e quebrada rompendo as evoluções tradicionais de começo, meio e fim que correm atrás de um ápice catártico.

Múltiplas danças fragmentárias, incontáveis polifonias instrumentais e harmônicas. A deliciosa tentação da irregularidade torta e aparelhos geométricos quase-não-geométricos, engraçados jogos de equilíbrio e desequilíbrio.

Um palhaço escala uma espiral metálica de cabeça para baixo, o vértice voltado para o espaço, a boca querendo engolir a terra.
 
A Floresta Negra
 
Entretanto, da floresta formam-se filas na direção dos holofotes do stadium. A engenharia das câmaras e da transmissão televisiva exige um centro focal. O círculo opressivo e repetitivo que engole a polifonia devora como um funil implacável para que todos finalmente possam se enlaçar fraternalmente e destruir a fragmentação democrática e discêntrica. Vitória do folclore e do apelo demagógico onde se dissolve a intenção derivativa da coreografia: retorno da festança boçal natalina infantil familial circular.

A tocha no meio das evoluções que parecem querer escapar da prisão, lançar-se para fora do círculo e da própria ideia de círculo —a tocha se apaga e a roda é agora centro, circo morto, palco onde se desfaz e concentra-se apesar da música ainda mais atonal (quase) se confundindo com os estouros da encenação pirotécnica.

Confraternização universal, afirma o locutor, universalizante: o stadium se move, mistura atletas, bailarinos, público e a democracia torna-se demagogia, uma grande quermesse, festejo fantasiado de celebração dionisíaca legitimando a disputa cronometrada e concêntrica. Esvaziamento. Buraco negro. Apologia do esporte como cerimônia unificadora.

Reunificada, a Alemanha, de novo grande potência, detém a maioria das medalhas.
 
O Danúbio
 
 E o Danúbio [1]  que é azul e muito mais que azul, policromático, Donau, Dunaj, Duna, Dunay, Dunárea, Dunáv, Dunárea de novo nas grafias de um mapa Michelin, até desembocar no Mar Negro três mil quilômetros após uma nascente controvertida na Floresta Negra. A psicopatia da Grande Alemanha que volta e meia quer submeter a Mitteleuropa, “Hofmannstahl, Musil, Freud, Richard Wagner, Kafka, Holderlin, literatura húngara, austríaca... As terras dos Nibelungos, de Mefistófeles, do Conde Vlad Dracul, da música, da construção e destruição permanentes...” (do livro “Danúbio”, do triestino Cláudio Magris). Os laços comunais, as grandes Repúblicas autoritárias se compõem tendo como base a coerção e a lealdade dos cidadãos. Mas são tantas e muitas vezes tão dilacerantes essas lealdades!

Magris escreve que em “18 de outubro de 1944 aconteciam os solenes funerais do marechal de campo Rommel”, em Ulm, quase na nascente do Danúbio. Rommel comete suicídio após a condenação pelo envolvimento na “conjuração de 20 de julho” para assassinar Hitler (verOs Nazistas Estão de Volta”). Magris afirma que sua “educação não lhe permitia distinguir claramente entre seu país e o regime que o pervertia e o traía. Aquela educação alemã para o respeito e a fidelidade que é por si mesma um grande valor, a lealdade para os que estão ao lado e para com a palavra dada, mas que está tão profundamente arraigada que não se consegue arrancá-la nem quando o torrão natal se tornou um pântano podre”. Rommel suicida “dilacerado pela cisão alemã entre fidelidade à pátria e fidelidade à humanidade”.
 
México – 1968
 
Em 1968, os conflitos raciais nos EUA se intrometem atrevidos contra a corporação da fraternidade encenada e o atleta tem que escolher entre duas fidelidades: a obrigatória à bandeira do seu país ou à sua raça e aos parceiros de infortúnio. Quando ergue o punho cerrado e declara sua escolha, sua opção de fidelidade. A nação está em guerra porque a nação são múltiplas nações.
 
Gold, um judeu sem casa  

A primeira fotografia de “Homicídio” de David Mamet mostra a linha de uma escada. Quando se inicia o movimento da câmara forma-se uma dicotomia: enquanto o olhar desce acompanhando a linha diagonal homens encapuzados e armados sobem os degraus. Subir e descer são ambos movimentos lentos e harmônicos, um parece estar amarrado ao outro por uma linha escondida no set de filmagem flagrando as direções opostas ou dissonantes. Mais conflituosa será a trajetória do detetive Gold, um judeu sem casa (é na delegacia que ele troca de camisa, lava o rosto...) na polícia de Nova York.

Até o momento em que acidentalmente se depara com o assassinato de uma velha senhora judia os problemas de Gold são estritamente funcionais. Antes, quando um prisioneiro que fuzilara a mulher e três filhos pergunta se ele não quer resolver o problema do mal, Gold responde: —  Não. Se resolver, perco meu emprego.

Gold pertence a uma corporação e deve lealdade a ela. Ele, o parceiro e sua equipe estão trabalhando numa importante investigação para a municipalidade, envolvendo questões raciais numa cidade cujo prefeito é negro. A comunidade exige que ele a represente. Gold, no entanto, é afastado do inquérito porque os parentes da mulher assassinada, ricos judeus, exigem que ele, um judeu, investigue o crime.

O chefe imediato do detetive garante: —  O judeu quer gente sua para cuidar do caso.

—  Gente dele?! Eu pensei que eu fosse gente sua, Lou, responde Gold.

Ele não tem casa, mulher, filhos, raça. Deve lealdade unicamente ao grupo com o qual trabalha: sua comunidade são seus parceiros de cotidiano e ofício. Pelo menos até ali. A partir daquela exigência, será ele quem vai se dilacerar no enfrentamento das fidelidades.

Quando, por acaso, investigando o novo caso, encontra-se com um rabino na biblioteca judaica que lhe exibe um texto em hebraico, Gold diz, encabulado: —  Não sei ler... —  Mas você não é judeu? —  Não sei ler. —  É judeu e não sabe ler hebraico? Que tipo de judeu é você?!, repreende o religioso. Mas o detetive quer tornar-se parte do seu povo e está disposto a fazer sacrifícios para isto. Retira e esconde o distintivo e sob o manto da noite explode um aparelho nazista. Os líderes judeus, no entanto, exigem que ele lhes entregue um documento probatório, evidência legal encontrada na cena do crime. —  Não posso. Sou um policial. —  E sua lealdade?!, perguntam, irritados.

Lealdade com quem ou o que, afinal?

Gold, preso ao ataque contra a loja nazista perde a hora marcada pelo seu grupo de trabalho e o parceiro é morto na ação para a qual o aguardavam. Ferido logo depois, ele conversa com o negro que deveria prender e gostaria de matar porque tirou a vida do parceiro (à mãe do criminoso, no entanto, Gold prometera prendê-lo impedindo que fosse morto):

—  Randolph, foi sua mãe que o entregou.
—  Você é um merda.  
—  Certo. Eu sou um merdinha. Tudo é merda. Matei meu colega e sua mãe te entregou.

—  Não morra mentindo.
— Olhe, sua mãe te entregou, cara (mostra alguma prova do fato). Olhe!
—  Meu Deus! Deus me ajude...”, geme Randolph.

Quanto ao detetive Gold nada, Deus, seu povo, a corporação, ninguém pode dar fim à sua abismal solidão no centro da tempestade de fidelidades fracassadas e antagônicas.
Lealdade, ele a deveria a quem?

Quando se recupera do ferimento dias depois, é o chefe quem lhe comunica:  —  Você não é mais da Homicídios. Você está fora.

É isso. Ele está só. Exilado da humanidade.
 
Regressando a “O Leitor”
 
(Detalhe de “O Leitor”, livro e filme: o que estudam os alunos secundaristas na Alemanha pós-guerra? Latim, grego. Homero. Por que o ensino passou a prescindir de matérias como essas? Terá algo a ver com as novas necessidades das novas técnicas e da hiper-especialização do processo produtivo? Estamos, então, junto com o progresso técnico, caminhando para trás, nos estupidificando? Ou não é de se supor que deixar de ler Homero e latim e grego no secundário seja um passo atrás?)

Entretanto, ler Homero ou aprender latim e grego clássico talvez não nos salve da vileza, não nos exima de cometer atrocidades contra nosso semelhante (basta que os classifiquemos como diferentes, não-semelhantes, não tão belos ou não tão amarelos ou vermelhos ou). É possível, então, que nada nos garanta que não sejamos capazes daquilo que Hanna foi capaz — simplesmente porque aquele era o seu trabalho ou, menos que isso, sua função naquele instante.
 
Diálogo entre juiz e ré
 
O juiz interroga Hanna:

—  Por que não destrancaram as portas?
—  Não podíamos.
—  Não podiam por quê?
—  Éramos guardas. Nossa tarefa era vigiar as prisioneiras. Não podíamos deixá-las escapar.”

Note-se a singeleza da resposta: não podiam porque o trabalho delas era manter presas as prisioneiras.

Em algum momento Hanna vira-se para o juiz e interroga:

— O que você faria?

Hanna, na verdade, nos interroga, a cada um de nós. E não tratamos nós de cumprir bem nossas tarefas e deveres funcionais (profissionais), sejam eles quais forem? Frente ao quê, cabe perguntar: que natureza de ética é esta (típica do mundo próspero, embora não originária dele) que conduz as ações da nossa sobrevivência?
 
 
 
[1] Para o qual também escorrem os esgotos de Viena através de galerias fantasmáticas onde fidelidades se dissolvem em “O Terceiro Homem”.

 

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