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POR EM 22/11/2012 ÀS 08:27 PM

Especial Alain Resnais

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A relação tempestuosa do tempo na sétima arte em dois clássicos de Alain Resnais: “Hiroshima Mon Amour” e “O Ano Passado em Marienbad”

O amor pode perdoar sem esquecer, nos diz o diretor Alain Res­na­is e a roteirista Mar­gue­rite Duras no filme fundamental de 1959, “Hiroshima, Mon A­mo­ur”. É, como todos, um filme so­bre cinema: a mulher francesa participa de um documentário sobre a necessidade da paz depois da hecatombe nuclear, mas ela mesma é a protagonista do filme que estamos vendo, e que vai mais fundo do que os falsos apelos pacifistas, já que joga pesado com a necessidade real de convívio depois do massacre e a única saída para isso é resgatar o amor perdido e abrir-se para uma nova relação.

Ela precisa ficar em dia com uma dívida com o passado. Tinha soterrado na memória o episódio em que amou um soldado alemão na Segunda Guerra, em plena Fran­ça ocupada e por isso foi punida com o encarceramento e a loucura. Por ter essa ferida aberta dentro de si, tornou-se incapaz de amar. O encontro com um arquiteto japonês, que tem tudo para ser um momento descartável de sexo, se transforma numa sessão psicanalítica, em que o amante/doutor encarna o personagem assassinado, o soldado alemão, e faz com que ela re­cupere cada instante do desejo que enfrentou barreiras e preconceitos e jogou-a na condenação por parte dos seus conterrâneos.

Não se pode falar em paz se existe retaliação. Todo apelo para o fim das guerras e conflitos cai no vazio se o ódio continua comandando o espetáculo depois do cessar fogo. Nevers, a cidade onde aconteceu o amor proibido entre a francesa e o soldado alemão, é como a mítica “Paris, Texas”, de Wim Wen­ders, o lugar terminal de uma peregrinação rumo à autodescoberta. Algo existe lá, pulsando e que está oculto e confuso, pois o tempo, o medo e o sofrimento cuidaram para colocar uma nebulosa em cima. O sofredor, a vítima procura o caminho de reconciliação com essa presença perdida e para isso conta com a ajuda de quem o cerca. No caso da personagem de Resnais, ela tem no amante japonês o guia em direção a esse vulcão de dor e ressentimento.

Quando a memória é capaz de amar, ou seja, quando recuperamos o amor perdido, por mais sofrimento que ele tenha desencadeado, estaremos prontos para uma reconciliação com os sentimentos. Não viveremos em paz se não existir esse amor recuperado, esse mergulho no tempo sofrido e a coragem de assumir a chance que se apresenta mais uma vez. No filme, o casal roda por Hiroshima, pois não estão certos de que ficar juntos seria a melhor solução. Ao mesmo tempo, não conseguem se desgrudar um do outro, como se houvesse uma missão a cumprir, como se trair novamente aquela oportunidade de amar fosse a real tragédia humana. Podem cair mil bombas sobre todas as cidades do mundo que nem tudo estará perdido se houver condição de duas pessoas se amarem.

Eis o cinema que civiliza, humaniza, torna o coração humano um lugar habitável. Da mesma forma que Nevers, o filme “Hiroshima Mon Amour” também sofre com o esquecimento. Se vimos há tempos, se nem vimos ou se vemos e não entendemos o que significa, então é porque Hiroshima, o amor proibido da memória continua lá, enterrado. Precisamos trazê-lo à tona novamente. E mostrar como pode existir um cinema que está à altura das maiores obras da literatura, um filme que justifica a existência da sétima arte como manifestação do talento humano.

Cruzamos a madrugada insone e o sol está alto, e não sabemos se embarcamos numa viagem sem volta para esquecer tudo ou ficamos em Hiroshima, nosso amor. Vamos permanecer aqui, nessa dor que continua intensa, nessa paixão que renasce, nesse lugar feito para o abraço, o encontro, o coração capaz de superar qualquer violência. É nossa única salvação.

Assombrações e ruptura

“Ano Passado em Marienbad”, filme de 1961 de Alain Resnais, com roteiro de Allan Robbe-Grillet, é sobre a ruptura da me­mória provocada pela morte. No caso, um assassinato, do marido traído, que atinge a mulher que se apaixona por outro. Ela é eliminada exatamente quando decide fugir com o amante, depois de voltar atrás de uma decisão: tinha proposto ficar um ano longe dele, uma espécie de teste, para ver se o caso era para valer, se o cara estava realmente a fim dela. Mas foi convencida a fazer as malas e deixar o marido, que praticava tiro e não permitiu a desonra.

Seria muito simples se a narração obedecesse à mesmice. Mas este filme, perfeito em todos os detalhes, revolucionou a linguagem cinematográfica e criou as bases para uma nova sétima arte, gerando soluções e recursos mais tarde aproveitados por todos os grandes cineastas. A começar com Stanley Kubrick, que usou todo o ambiente do hotel luxuoso onde estão os esnobes da elite para compor sua trama terrível em “O Iluminado” (até aquele corredor na véspera da inundação de sangue está em “Marienbad”).

Kubrick também usou uma cena do jogo de damas com um tabuleiro ao fundo, e o quarto branco impecável da mulher que vai morrer, no seu clássico “2001”, naquela cena final aparentemente incompreensível do astronauta que acorda num quarto de luxo com móveis antigos. É o quarto de “Marienbad” e ele joga num tabuleiro idêntico ao do filme de Resnais. Mais ainda: Kubrick usou todas as sequências dos jardins suntuosos de “Marienbad”, junto com a fachada do castelo, para criar o clima em outra obra sua, “Barry Lindon”.

É infindável a quantidade de influências geradas por Resnais. Dá para citar algumas: “O Sexto Sentido”, sobre a investigação de uma fantasmagoria que no fim é o próprio narrador; “Uma Mera formalidade”, de Giuseppe Tornatore, em que o delegado Roman Polanski procura fazer com que o suicida Gerard Depardieu lembre de sua morte. Filmes como “Orgulho e Preconceito”, de Joe Wright, usam os esquemas de cenários de Resnais. E há muito mais exemplos.

“Marienbad” é narrado pelo amante que tenta lembrar a mulher do acordo que fizeram um ano antes, o de ficar um ano separados para que as coisas se resolvessem. Ela, fantasma, que vaga pelo cenário da sua morte, não lembra de nada e pede que o deixe em paz. Mas ele a persegue e a atormenta com as lembranças, exigindo que reencontre aquele momento em que poderiam fugir juntos, talvez para que fosse possível a fuga inspirada pelo amor. Mas o hotel/castelo visto à noite no plano final, sem vegetação, só granito e pedra, é a representação de uma tumba. Lá está enterrada a mulher que ousou amar e fugir de um casamento estéril. E jaz uma elite que treina o tiro enquanto convive de maneira impassível, indiferente e criminosa, isolada do resto do mundo. A imagem em que todos aparecem imobilizados no jardim, totalmente fundada no pintor italiano Giorgio de Chirico, expressa essa classe social morta.

O deslumbre visual, a complexa trama, a qualidade poética do texto, as situações de conflito (como a do jogo em que o marido traído sempre ganha), a presença de personagens que não possuem fala, mas ocupam a tela com a força das histórias inesquecíveis fazem de “Marienbad” um filme de mestre, como poucos, que deve ser visto e revisto para que nos civilizemos cada vez mais, para que possamos habitar as altas esferas do espírito, compartilhar com a grande criação do nosso tempo. Não podemos ficar alheios a essa revolução permanente da arte, que desmoraliza a mediocridade e deixa no chinelo imensidão de porcarias que despejam no público a cada segundo.

A memória fragmentada, precária, escassa, rodeando um sentimento, uma promessa, as dúvidas, levam a vanguarda do pensamento e da criação para os mais altos níveis da expressão artística. Precisamos resgatar a memória para que lembremos aquele instante em que fomos assassinados. Só a partir dessa revelação é que poderemos romper com a armadilha. O filme acena com essa possibilidade, ao mostrar o marido, desolado, vendo o casal se afastando. Cha­mam esse recurso de obra aberta. Prefiro dizer que houve o desenlace, o crime, e a mulher vaga, morta, pelos corredores e quartos. A chance de fugir daquilo é nossa, dos espectadores que depois do final terão apenas a lembrança do filme como companhia. A memória é um fantasma que precisa saber o que aconteceu conosco.

Ao filmar a estátua do casal no jardim de luxo, o grande diretor influenciou também Godard, que usou a gramática visual de Resnais em “O Desprezo”. Ou seja, Resnais é mestre dos mestres. Ignorá-lo ou fazer pouco dele em função de narrativas “claras” é um hábito não apenas perigoso (pois erradica a cultura da vida diária), mas criminoso, pois impede que as novas gerações tenham acesso a essas obras-primas que foram feitas para ficar entre nós, eternamente.

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