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POR EM 26/12/2012 ÀS 10:29 PM

Drummond, Quintana, Cabral: diversidade no cânone

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O erótico, o malvado, o lírico: grandes poetas dão um tempo no que você acha deles

O Drummond erótico do livro “O Amor Natural”, o Quintana malvado, longe do farisaísmo a que foi condenado na era da internet, o Cabral lírico de “A Escola das Facas”, desafiando a secura dos seus epígonos: estranhas porções da diversidade literária, opostas à percepção consagrada nas obras de grandes poetas.

A civilidade do amor natural

Sexo, como tudo, é linguagem. Tem na palavra seu principal aliado. No fundo um ato erótico vai além do gemido, é também um acordo entre verbos afins. Nisso aproxima-se da poesia, por procurar a essência do que é dito, implicando às vezes mais silêncio do que grunhido. Mas a palavra pode se comportar mal quando entra na dividida com os sentidos da paixão carnal. O verbo, por ter vocação de liderança, não suporta a hegemonia do gesto e da vibração, da linguagem do gemido, que se basta, se fecha em copas, segreda. A vingança semântica é o palavrão, expressão delinquente da inveja do verbo, que nega grandeza ao ato sexual e reparte o corpo como um carrasco, dedicando às partes principais os piores ruídos do seu acervo.

A poesia, que joga com a palavra como gato diante da presa, precisa dupla atenção na hora de falar em sexo. Existe a solução romântica, onde carne e ligada ao pecado e prazer à culpa. Mas, para um escritor radical como Carlos Drummond de Andrade, o desafio é mais intenso, pois não pode revelar o universo do palavrão nem cair no romantismo velho de guerra.

Essa divisão faz com que percorra o fio da navalha com desenvoltura, mas cheio de dúvidas quanto ao resultado. Tanto, que reservou a difícil decisão de publicar a coletânea “O Amor Natural” para seus descendentes. Nela, Drummond não deixa de falar com toda a transparência possível — num momento em que esse tipo de assunto não deveria, em tese, provocar escândalos. Mas o medo de errar percorre o livro como um arrepio: “O que se passa na cama/ é segredo de quem ama”.

A preocupação é evitar que a palavra quebre a mágica criada pelo amor sexual. Magia longe da escola romântica, mas perto do romance natural entre duas pessoas: é possível falar sem trair o clima? Sim: “ Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas/ detêm a mão ansiosa: Devagar./ Cada pétala ou sépala seja lentamente/ acariciada, céu; e a vista pouse,/ beijo abstrato, antes do beijo ritual,/ na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado”.

Amor pagão, antes do pecado, sexo sem culpa, orgasmo como visão do paraíso, comunhão com deuses antigos: esse é o veio explorado pelo poeta na sua delicada incursão por um gênero que pouco aflorou em vida, já que a maioria dos poemas é inédita — alguns deles foram publicados em revistas masculinas. Sua poesia erótica, portanto, ficava entre quatro paredes, como lhe convinha.

A exposição proporcionada por este livro fez algumas baixas. As críticas negativas invocam a falta de “qualidade” dos poemas, o que é ridículo. Num país de muitos versejadores e raros poetas, um mestre é indispensável em todas as suas manifestações. Principalmente quando se trata de um dos pontos fortes de Drummond, falar claro: “Já sei eternidade/ é puro orgasmo”.

Entre as características explícitas do seu erotismo, destaca-se a identificação dos corpos (“Um só espasmo em nós atinge o clímax: é quando o amor morre de amor, divino”), a timidez do macho (“Tanta nudez me deixa naufragado”), e a prioridade dos sentidos (“O chão é cama para o amor urgente”).

O fracasso da relação não consumada ocupa pequeno, mas significativo espaço: “E não sei agora ao certo, se minha sede mais brava,/ era nela que pousava”. Também está presente a herança do brasileiro Carlos, que faz graça com a anatomia e manobra com sonetos que exorcizam toda uma literatura pornográfica apócrifa.

A pornografia — que está na moda há tempos com Madonna — é fruto e sustento da repressão. Não é por nada que a falta de pudor e o nazismo estão em evidência. São decorrências óbvias da barbárie.

Parafraseando célebre poema de Maiakóvski em homenagem a Iessiênin, “pecar” é fácil, difícil é a poesia erótica e seu ofício.

De volta à terra natal

Os 45 poemas de “A Escola das Facas”, de João Cabral de Melo Neto (lançado cinco anos depois de “Museu de Tudo”), mergulham no que existe de mais caro ao poeta pernambucano: as lições de sua terra natal. Nos diversos confrontos da natureza nordestina, entre o sertão e o litoral, entre a cana e o coqueiral, entre o vento e a chuva, ele retira, como sempre, sua poesia aguda e vertical, que de tão “antibrasileira” foi confundida, no início, como anti-lírica.

“A Escola das Facas”, que traz um poeta memorialista e inclinado a descobrir o açúcar de uma região de calamidades, prova como nenhum outro de seus livros que a geometria cabralina foi apenas uma reação contra as formas tradicionais do lirismo brasileiro.

Sua luta íntima, entretanto, provocou um dos mais graves erros de nossa história literária. Enquanto Cabral inaugurava sua obra, a partir de “Pedra de Sono”, em 1946, com um enfoque totalmente inédito e demolidor diante da melosa dramaticidade nacional, muitos dos seus seguidores transferiram-se para a nova “escola” com todos os seus equívocos. Aproveitando palavras como pedra, cal, relógio, vidro, faca, usadas por Cabral para dissecar a linguagem e o sentimentalismo estéril, os “alunos” acabaram por depositar um entulho monumental no já confuso universo poético do país.

Por largos anos, a crítica ajudou a cristalizar o erro e em consequência houve um período onde a esterilidade poética era confundida com o rigor e a exatidão. Ori­ginalmente intitulado “Poemas Pernam­bucanos”, o livro passeia pelos engenhos, os rios do Recife, as casas de Olinda, o cordel. Além disso, fornece detalhes de sua infância, confirmando a observação de Carlos Drummond de Andrade de que as impressões mais profundas são as que mais custam a vir à tona.

“A Escola das Facas” serve como um emocionado roteiro de seus amigos, como Ariano Suassuna, Joaquim Cardozo e Cícero Dias, com poemas que acusam o esquecimento de pessoas importantes e, em cada um, descobre íntima relação entre a personalidade e as paisagens urbanas. Cabral também prova que aprendeu lições amargas no seu duro exercício poético.

Nos poemas finais, “De Volta ao Cabo de Santo Agostinho” e “Autocrítica”, ele confessa a inutilidade de sua denúncia sobre o sofrimento do Nordeste (popularizada principalmente depois da transposição de “Morte e Vida Severina” para o teatro) e conclui que sua poesia se alimenta de apenas duas realidades: Pernambuco (de onde veio) e Andaluzia (para onde foi co­mo diplomata).

Do sertão para Sevilha. Cabral agora empreende a doce viagem de volta, num gesto profundamente lírico, antítese perfeita para a esterilidade que ajudou inconscientemente a desencadear.

O flagelo do senhor

A longevidade de Mario Quintana é a sua melhor vingança. Ele sobreviveu aos passadistas escandalizados com o verso livre, aos modernistas que vaiavam o soneto, aos concretistas alérgicos ao discurso, aos épicos que odiavam o lirismo, aos românticos chocados com a crueza. Enfrentou também os engajados que confundiam ironia com alienação, os pretensos cosmopolitas que o acusavam de provincianismo, além dos entendidos que procuraram segurar o anjo pelas asas, quando tentaram enquadrá-lo num xadrez historicista, estruturalista, marxista, reacionário ou simplesmente pedante. Ao mesmo tempo, precisou lembrar a toda hora que não é “gaúcho”, no sentido fanático do termo.

Por isso, a melhor homenagem que se pode prestar a ele é resistir à última das tentações: a de tentar endeusá-lo. Uma das formas de colocá-lo no pedestal é esgrimir uma falsa intimidade, como se fosse muito próximo, o “Mario” de todos nós, o poetinha da Praça da Alfândega, o orgulho de nossos regionalismos mal resolvidos. Quintana parece ser sempre um bom motivo para nos derramarmos em poetices, pelo simples fato de o brasileiro, apesar das evidências em contrário, pouco entender do assunto.

O maior desafio do poeta no Brasil é, em primeiro lugar, aturar a proliferação do vício: todos “são” ou viram poetas ao longo do tempo. E o que é pior: publicam sem parar. Em segundo lugar, é enfrentar o sorrisinho diagonal das pessoas “práticas”, os que confundem poesia com frescura. É costume ignorar os ossos desse ofício maldito. Como depende de luzes raras e pulso firme, a criação poética é obrigatoriamente para poucos, já que contraria o senso comum. Como é impossível enquadrar o poeta, passa-se a transformá-lo em “prata da casa”, adereço, bibelô. É difícil convencer os cínicos profissionais de que a casa da sogra fica em outro endereço .

Muitas histórias folclóricas que contam a respeito de Mario Quintana expressam — normalmente, de uma forma velada — repulsa ao farisaísmo e à mesquinharia. Só que são confundidas com excentricidades, “coisas de poeta”. Mas um poeta não é nada do que imaginamos. Sua voz é que está com a última palavra. Para quem consegue vê-lo por meio dos seus disfarces, sabe que ele é o flagelo do senhor na forma de anjo. Sua espada veio para cortar-nos a língua.

 

Poemas de “O Amor Natural”, de Carlos Drummond de Andrade

Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

A castidade com que abria as coxas
A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Poema de “A Escola das Facas”, de João Cabral de Melo Neto

Descoberta da Literatura

No dia-a-dia do engenho,
toda a semana, durante,
cochichavam-me em segredo:
saiu um novo romance.
E da feira do domingo
me traziam conspirantes
para que os lesse e explicasse
um romance de barbante.
Sentados na roda morta
de um carro de boi, sem jante,
ouviam o folheto guenzo ,
a seu leitor semelhante,
com as peripécias de espanto
preditas pelos feirantes.
Embora as coisas contadas
e todo o mirabolante,
em nada ou pouco variassem
nos crimes, no amor, nos lances,
e soassem como sabidas
de outros folhetos migrantes,
a tensão era tão densa,
subia tão alarmante,
que o leitor que lia aquilo
como puro alto-falante,
e, sem querer, imantara
todos ali, circunstantes,
receava que confundissem
o de perto com o distante,
o ali com o espaço mágico,
seu franzino com o gigante,
e que o acabassem tomando
pelo autor imaginante
ou tivesse que afrontar
as brabezas do brigante.

Poemas do livro “A Rua dos Cataventos”, de Mario Quintana

Escrevo diante da janela aberta...

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

A rua dos cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

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