revista bula
POR EM 03/11/2008 ÀS 09:17 PM

Crime e castigo

publicado em


A polifonia e a diversidade de vozes estão nos personagens dostoiévskianos, muito mais complexos do que os de Woody Allen, tendo Dostoiévski inspirado o existencialismo, Nietzsche e Freud, entre outros





Flávio Paranhos escreveu na edição anterior desta Revista Bula, taxativo: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Crime e castigo”. A frase pode muito bem ser lida como uma mera “opinião de torcedor”, segundo ele próprio critica a respeito dos comentários ao artigo dele postados no mural da Bula. Portanto não é de se admirar que os comentários tenham sido, naquele momento, no mesmo nível. No texto publicado depois, melhorou um pouco, mas está muito longe de ter convencido.
 
O problema maior talvez esteja já no título, bem geral, “Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski”. Pura provocação, e a Bula dá sempre o maior destaque para as polêmicas. (Como critico isso, peço ao editor que não cometa o mesmo erro, colocando meu texto em primeiro plano, mas sim no espaço que ocupo normalmente na minha coluna). Dentro do artigo de Paranhos, isso já fica mais atenuado. É o final do filme de Woody que é superior, filosoficamente, porque “aberto” a várias teorias morais, em relação ao Epílogo, “fechado” de Crime e Castigo. Mas depois, a afirmativa vira de novo generalista -e por isso mesmo empobrecida- de que “o filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a ‘correta’” (grifos meus). Algo que é repetido na chamada do artigo da revista.
 
Sem querer discutir neste momento a validade do argumento enunciado, que elege a variedade de teorias morais como critério para decidir se uma obra é mais rica (ou “filosoficamente superior”) a outra, algo em si bastante discutível, a minha oposição é que: primeiro: o livro não pode ser considerado “fechado”, pois dá expressão a várias vozes. Abstraindo-se o final moralizante, as personagens de Dostoiévski sempre são polifônicas. Algo implícito até mesmo no nome Raskólnikov, personagem principal de Crime e Castigo.Raskol”, em russo, significa “cisão”, “fragmentação”, caracterizando o personagem como cindido e atormentado. Trata-se de uma “consciência fragmentada”.
 
A esse respeito remeto o leitor ao ensaio de Boris Schnaiderman, “Dostoiévski: a ficção como pensamento”, publicado na coletânea Artepensamento, organizada por Adauto Novaes. Schnaiderman cita dois trabalhos russos: “Dostoiévski e Hegel (Sobre o problema da ‘consciência cindida’”), de V. A. Batehínin, e “Sobre a problemática ético-filosófica do romance Crime e Castigo”, de I. F. Kariákin.
 
O tradutor para o português de Dostoiévski, nascido na Ucrânia, afirma que ambos fazem referência ao item “A lei do coração e o delírio da presunção” do capítulo “Certeza e verdade da razão”, da Fenomenologia do espírito de Hegel. O item contém uma análise da revolta do indivíduo, que afirma sua lei em oposição à lei a que todos se submetem e, ao mesmo tempo, apresenta esta sua lei como algo necessário ao bem estar da humanidade. Schnaiderman então se pergunta: “Não se tem aí algo muito próximo às lucubrações de Raskólnikov sobre o ‘direito’ que teria de matar a velha usurária, uma criatura que não faria falta ao mundo e graças a cuja morte ele poderia fazer o bem a tantas pessoas?”.
 
O importante, contudo, de acordo como arremata o próprio Schnaiderman, não é tanto “pesquisar uma possível influência de Hegel sobre Dostoiévski, mas sim mostrar como as mesmas preocupações levaram Hegel àquela reflexão e se corporificaram na personagem Raskólnikov”. Ele ressalta ainda que foi preciso esperar por Mikhail Bakhtin e seu livro Problemas da poética de Dostoiévski, de 1963, para que se tivesse uma abordagem realmente em profundidade do embate de idéias na obra do romancista -que Schnaiderman chama de “o romancista-filósofo por excelência”-, do estudo das vozes que as expressam, e do que este embate representa como princípio estruturador. Cito integralmente a opinião de Schnaiderman sobre o texto de Bakhtin (também tratada por ele em dois outros livros):
 
“Segundo Bakhtin nos mostra com grande riqueza de pormenores, Dostoiévski não constrói seus romances e contos em torno de sua ideologia, mas joga-a em meio às demais, discute com suas personagens, dá maior força de convicção ao oponente, em suma, realiza o tipo mais elevado do romance de idéias, aquele em que as personagens encarnam princípios e concepções de mundo, sem perder nada de sua extraordinária vitalidade”.
 
A polifonia e a diversidade de vozes estão nos personagens dostoiévskianos, muito mais complexos do que os de Woody Allen, tendo Dostoiévski inspirado o existencialismo, Nietzsche e Freud, entre outros. “Dostoiévski, o único psicólogo, seja dito de passagem, do qual tive algo que aprender” (Nietzsche). Nem Woody Allen, que costuma fugir dessas comparações, teria a pretensão de ter “superado filosoficamente” o mestre russo, por mais criativo que seja o seu cinema e apesar dos filmes dele estarem muito acima da média dos atuais. Qual personagem de Woody tem a mesma força marcante do “personagem-ideólogo por excelência” Raskólnikov?
 
Em Crimes e Pecados, o personagem Judah Rosenthal é uma sombra do princípio que rege Raskólnikov, uma mera variação, pálida e superficial, deste. Ele, ao contrário do russo, não se arrepende de ter mandado, por sugestão de outro, mais “malvado” do que ele, matar a sua amante e não se entrega. Ele não aspira a nada mais do que manter a sua estabilidade de homem bem-sucedido e casado. Raskólnikov, afirma Dostoiévski, no epílogo do romance, estava disposto a dar sua vida “por uma idéia, por uma ilusão, até por um sonho. A simples existência sempre tinha significado pouco para ele; sempre aspirara a mais. Talvez só pela força do seu desejo chegara a sentir-se então um homem ao qual era permitido mais do que os outros”.
 
A propósito da influência de Dostoiévski -e mais especificamente do personagem Raskólnikov, “germe do ‘espírito livre’ nietzschiano”, contrário ao sujeito ressentido- sobre o Nietzsche, a professora de filosofia da Universidade Caxias do Sul Jaqueline Stefani assinala, em artigo intitulado “Nietzsche e Dostoiévski: A unidade e o limiar”:
 
“As personagens de Dostoiévski são, como afirma Bakhtin, polifônicas, ou seja, há múltiplas vozes que falam, não havendo uma consciência, mas várias que coexistem num diálogo constante dentro de um mesmo ser numa profunda tensão psicológica. É um esforço demasiado perigoso tentar caracterizar seus protagonistas quanto ao caráter ou à personalidade, de modo unívoco. Neste sentido vejo o primeiro encontro com a teoria de Nietzsche: a crítica à unidade da consciência.”
 
Ainda segundo a professora, mestre em filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), “Dostoiévski, em suas personagens, brinca com as várias perspectivas, com essas múltiplas vozes, das quais, nenhuma tem a ‘palavra final’, é a dialogicidade e a polifonia, características que, ao que parece, Dostoiévski foi pioneiro. Na obra Memórias do subsolo, percebe-se um constante movimento dialético sem síntese. De uma afirmação segue sua própria negação. É a descrição da própria inconstância de um sujeito que não consegue afirmar seu próprio ser.”
 
É nos personagens, portanto, e na obra inteira, não ancorando-se apenas no epílogo de Crime e Castigo -assim mesmo, muito superior, em filosofia, densidade dramática e poesia ao final do filme de Woody Allen- ou no cristianismo de Dostoiévski, que se deve procurar pela polifonia de vozes, internas aos personagens, que são multidimensionais. Não se deve confundir o autor com a obra. Assim como em Os Irmãos Karamazov, há quem se identifique com o pensamento de Aliocha, outros, o meu caso, com o de Ivã. Podemos perceber no homem “extraordinário”, representado em Crime e Castigo por Raskólnikov, vestígios do “além-homem” de Nietzsche. Por isso, entre outras razões que já citei e outras que não preciso destacar agora, a tese de que Crime e Castigo seria “filosoficamente inferior” a Crimes e Pecados, em razão do seu final “fechado”, é fundamentalmente errada.

 
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