revista bula
POR EM 27/02/2008 ÀS 09:06 PM

A importância das pequenas coisas

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O debate cultural foi atingido nos últimos anos por uma avalanche de cânones literários, clássicos, gênios e heróis. Os exemplos mais populares são as idéias de um Harold Bloom e a elevação dos museus como centros da cultura contemporânea. Fora dos grandes, segunda essa visão, não existe vida. Há apenas vulgarização e ideologia na arte moderna, conforme martela o autor de “O cânone ocidental”, que vê o centro do mundo em Shakespeare. Com a repetição exaustiva na mídia, essa interpretação tornou-se um dos mais sólidos lugares-comuns.

A reação em favor dos clássicos ofusca outras possibilidades de entender os movimentos culturais de hoje. Nos anos 1980, o historiador norte-americano Robert Darnton iniciou um trabalho de analisar a subliteratura do Iluminismo francês. Fez isso ao lado das leituras dos enciclopedistas. Mais recentemente, o italiano Franco Moretti vem elaborando mapas e gráficos com a vasta produção literária do século XIX. Ele descobriu, por exemplo, que o popular romance histórico é ambientado em regiões de fronteira e de contato com o “outro”.

Conhecer a vastidão das ditas obras menores permite entender como se constrói o imaginário e as formas de representação de uma época. A arte é um campo aberto e fértil para essa tarefa. Atualmente, um grupo de pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) está mapeando a produção literária e cinematográfica desde os anos 1970 no Brasil. O objetivo é saber quem escreveu, filmou, onde vivem os autores, qual o gênero, cor e profissão dos personagens. Trata-se de um trabalho gigantesco que vasculha desde as grandes produções até o mais singelo.  

Nas próximas semanas, a TV Globo exibirá mais um desses trabalhos pequenos e ricos para discussão. A minissérie “Queridos amigos”, de Maria Adelaide do Amaral, recria a pós-ditadura militar e focaliza um período de 20 dias em dezembro de 1989. Baseado no livro da autora, “Aos meus amigos” (1992), a narrativa trata da situação de antigos militantes de esquerda na época da redemocratização. Desde 1989, uma série de filmes brasileiros e a minissérie de TV “Anos rebeldes” remexeram as memórias dos chamados “anos de chumbo”. 

Beatriz Sarlo diz que a ficção sobre a ditadura na Argentina ajuda a colocar as coisas no seu devido lugar no imaginário. Mostra quem torturou quem, os responsáveis por acobertou crimes, o papel do futebol para a manutenção do poder dos militares. Os relatos memoriais, diz Sarlo, serviram até de provas processos de reparação para os prisioneiros políticos. Em tempos de neoliberalismo, por sinal, tornou-se de bom tom dizer que as ditaduras da América Latina não passaram de um incidente ou um processo necessário para extirpar a doença do comunismo.

Nos filmes brasileiros recentes, é possível ver o isolamento da guerrilha (“Lamarca” e “Cabra cega”); os fetiches da identidade nacional (“O ano em que meus pais saíram de férias”); a fratura social à brasileira (“Quase dois irmãos”); a destruição do sujeito (“Batismo de sangue”); a relação documento/memória (“O que é isso, companheiro?” e “Conspiração do silêncio”); o esquecimento impossível (“Ação entre amigos” e “Benjamin”); e a construção de heróis (“Zuzu Angel”). Cria-se assim um amplo painel de como o Brasil do século XXI enxerga o passado recente.

 

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