revista bula
POR EM 06/06/2009 ÀS 12:10 PM

Um cão de lata ao rabo

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Durante uns três dias os mongóis ficaram ensebando aqueles milhares de cães, do lado de fora do muro, às portas da cidade.  E os chineses comemorando a solução pacífica e fazendo conjecturas sobre o arraigado apego, quase inocente, daqueles guerreiros aos caninos

(Um exercício, com base em conto de Machado de Assis, com o mesmo título)

Gengis Khan — que quer dizer homem valente, invencível — nasceu miserável, numa comunidade pobre, perdeu o pai ainda criança e tinha o destino traçado: morrer anônimo, como era costume acontecer com outros mongóis de seu tempo. Mas ele se rebelou contra seu destino medíocre. Dotado de uma coragem invulgar e um tirocínio espantoso, o jovem Gengis, no início do século XIII, unifica várias tribos turco-mongólicas, organiza uma cavalaria devastadora, e parte para a conquista de toda a região da Pérsia, Índia, China etc. e forma o grandioso império Mongol.

Não se sabe o que era mais relevante em Gengis Khan. Se a capacidade organizativa, se o exercício da liderança, se a fúria guerreira, se a intuição ou o repente criativo que lhe permitia se adaptar às novas circunstâncias, por mais adversas que se apresentassem. Teve, porém, um azar: seu povo desconhecia a escrita e assim não teve um Homero, um Virgílio, um Luis de Camões para lançar na posteridade a epopéia de sua saga imperial. Sobraram de suas façanhas alguns vestígios materiais, algumas crônicas escassas escritas por outros povos e alguns causos orais que, no fluxo das gerações, de tanto serem contados e recontados, ganharam ares de lenda. Muito pouco, talvez, para um conquistador tão feroz e fulgurante.

Recorro a um desses causos remanescentes. O exército de Gengis Khan vinha de uma seqüência gloriosa de conquistas. Sua cavalaria afoita passava a fio de espada todo aquele que esboçasse a mais pálida contrariedade em se submeter aos poderes do grande guerreiro. Deixava para trás destruição, morte e subjugados. Levava em seus alforges, frutos da rapina, toda sorte de tesouros: ouro, prata, roupas, escravos, cavalos, alimentos. E a confiança sempre crescente de que nada, nem ninguém poderiam barrar a sanha conquistadora.

Foi com esse ânimo exaltado e justificadamente confiante que Gengis Khan chegou aos portões da cidade de Pequim. Com seus generais a postos, com os soldados aprumados em seus ginetes empinadiços, com as armas adequadas em punho, com seus pesados aríetes prontos para arrombar os portões e ver a tropa entrando e quebrando tudo, como as águas turbulentas de uma represa desmantelada.

Qual não foi a surpresa da tropa ante a inusitada ordem do comandante:

— Dispersar!

Poderiam todos levar seus palafréns ao ribeirão a sorver água, ou então deixá-los a pastar no bem-bom do verde. A excitação da eminente luta, agora desautorizada, criou um começo de tumulto. Mas o chefe se explicou para os generais mais chegados.

Ele tinha um plano.

Afinal, Pequim era uma cidade preparada demais para se enfrentar assim, simetricamente. Iria negociar com o comandante das tropas inimigas, que deveriam estar postadas logo atrás dos portões, armadas até os dentes, prontas para o mais duro combate. Além dos ardis que por certo teriam preparado pelos quatro cantos da cidade.  Então, aquela que se desenhava a luta mais sangrenta e temerária, nem precisaria acontecer.

Os comandados não entenderam bulhufas. Será que o impávido guerreiro, assim não mais que de repente, estaria afinando?  Mas não se dilataram em questionamentos. Afinal, quem tem um comandante do naipe de  Gengis Khan, não é preciso entender direito para prestar obediência.

O poderoso rei dos mongóis, solitário, desarmado e a pé, bateu às portas de Pequim, modesto como um menestrel ou um beato. Disse que buscava entendimento e paz. Propôs ao chefe dos chineses: para que não haja batalha, me tragam um cão de cada residência, ou melhor, me tragam todos os cães que existem nessa progressista cidade (há uma versão que diz que ele pediu gatos, mas os cães servem melhor ao nosso propósito).

Animados com a possibilidade de uma solução pacífica, nem perguntaram para que tanto cão. 

Aceita a primeira condição, combinaram o horário. Os chineses se aliviaram e imediatamente, de altivos guerreiros, se converteram em modestos e risonhos laçadores de cachorros. Os generais agora se misturaram às mulheres, aos velhinhos, às crianças à cata dos titius. E deles se despediam com ternura de quem se despede de um ente querido que parte para uma missão redentora. Intuitivos como são, arrepiados, de rabo enfiado entre as pernas (travando o sorriso), os cães pareciam ter maus pressentimentos.  Mas no horário combinado, estava lá toda a matilha, atrelada e ajoujada.

Durante uns três dias os mongóis ficaram ensebando aqueles milhares de cães, do lado de fora do muro, às portas da cidade.  E os chineses comemorando a solução pacífica e fazendo conjecturas sobre o arraigado apego, quase inocente, daqueles guerreiros aos caninos. Diante de tanta benevolência, até levaram, entre vênias e risos, presentes para os invasores: vasos de porcelana, bonequinhos de terracota, cachaça de arroz, guisado de cobra...

Mas na sexta-feira, início da tarde, quando o sol é mais abrasador, a tropa mongol, sem doçura, quebra os portões de Pequim na porretada. Solta a cachorrada, cada cão com uma pequena lata atada ao rabo. A lata continha um material de lenta combustão, composto de cal virgem, potassa e estopa de linho, já impregnado por uma mecha de fogo. Tudo devidamente acondicionado e protegido por uma tela delgada.

Gengis Khan, pessoalmente, rumou contra as pedras umas canas-da-índia assadas na fogueira, e berrou como um danado. As canas estouraram como bombas e os cães saíram em disparada, que desde tempos imemoriais, cachorro tem medo de foguetes (antes mesmo de alguém os ter inventado). Entraram tresloucados pelos portões caídos, ganindo cãe-ãe cãe-ãe pelas estreitas ruas de Pequim e os chineses, sem entender que armação era aquela, ficaram paralisados, em seus risinhos sem quê nem por quê.

Os cães enfurnaram em suas casas e se esconderam onde costumam se esconder ao ouvir qualquer explosão: debaixo da cama de seus donos.

Em minutos, a cidade era uma só labareda.

Foi então que os poucos sobreviventes de Pequim entenderam, tardiamente, que o apego dos guerreiros mongóis ao mais antigo companheiro do homem, não era assim tão inocente.
 

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