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POR EM 24/11/2008 ÀS 07:55 PM

Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos de Goiás

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Após meses de uma angustiante espera, resolveram então se refugiar num lugar ermo, de todos desconhecido, inatingível ou, no mínimo, inalcançável pelos braços da repressão policial. E se estabeleceram nos vales encobertos da grande serra localizada no Nordeste goiano, onde somente os escravos, fugindo da implacável e feroz perseguição dos capitães de mato, conseguiram alcançar

1945. A segunda grande guerra que varreu o Planeta acabara de terminar, deixando um rastro de milhões de mortos.

De São Paulo, cinqüenta famílias japonesas pertencentes à Seita Shindo Renmei – Liga do Caminho dos Súditos, resolveram fugir para o interior de Goiás.

A seita era alvo de aguerrida perseguição. Implacavelmente, a polícia combatia seus integrantes em virtude dos assassinatos promovidos contra os que reconheciam como verdadeiras as notícias dando conta da derrota do império japonês.

A Shindo Renmei era uma organização secreta que exercia forte influência ideológica sobre a colônia nipônica radicada em São Paulo, mas diluída também nos demais Estados brasileiros. Com estruturação paramilitar e radical difusora das milenares tradições japonesas, a Liga do Caminho dos Súditos afirmava que a notícia sobre a derrota dos países do Eixo não passava de propaganda enganosa, produzida pelos países aliados. Na realidade, as ondas de rádio da BBC de Londres, divulgando ininterruptamente a rendição japonesa, não passavam de artifício rasteiro para minar o inquebrantável moral dos saldados leais ao imperador, contra-divulgavam os líderes da Shindo. E passaram a perseguir e assassinar todos os integrantes da colônia nipônica que acreditavam nas notícias emanadas da rádio londrina. Para os militantes da seita radical, era inadmissível duvidar da invencibilidade nipônica, ostentada em mais de 2600 anos de sucessivas vitórias, sem que o país tivesse perdido uma guerra sequer.

A Shindo preparou então seus esquadrões de matadores – os tokkotai - e foi à caça dos que acreditaram na vitória dos países liderados pela Inglaterra, EUA e URSS. Assassinaram quase 30 imigrantes, deixando feridos mais de 150.

A reação da polícia não demorou. O DOPS paulista encarcerou mais de 30 mil suspeitos e não menos de 400 foram condenados a penas que variaram de um a 30 anos de cadeia.

Por interferência direta do mais alto dirigente da República, um decreto presidencial deporta para o Japão 80 integrantes da seita. Todavia, no indulto do Natal de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek coloca todos em liberdade, no que imaginou estar virando esta página negra da história contemporânea brasileira.

Com a generosidade do ato, o presidente mais popular dentre todos já havidos, imaginou ter lançado uma pá de cal sobre a tragédia que assolou os 200 mil imigrantes japoneses. Ninguém percebeu - nem os serviços de inteligência das três armas, nem a CIA, a quem os policiais e militares brasileiros prestavam solícita obediência - que 50 dos maiores dirigentes e matadores da Shindo Renmei, migraram, com suas famílias, para o interior de Goiás.

No mínimo dois membros de cada uma das famílias que agora fugiam para o Planalto Central, foram impiedosamente torturados e mortos nos porões do DOPS paulista. Providencialmente, a polícia permitiu que poucos sobrevivessem à tortura, com o único objetivo de que – libertos – relatassem na colônia, as técnicas brutais de martírio e suplício. Afogamento, choque elétrico, estupro, pau de arara, garrote vil, simulação de fuzilamento, retirada de órgãos do corpo, era o mínimo que ocorria nos porões das delegacias de polícia.

Primeiramente as famílias vagaram a esmo pelos portos do Rio de Janeiro e Santos, esperançosos em encontrar os prometidos navios japoneses que os levariam de volta ao país do sol nascente.  Após meses de uma angustiante espera, resolveram então se refugiar num lugar ermo, de todos desconhecido, inatingível ou, no mínimo, inalcançável pelos braços da repressão policial. E se estabeleceram nos vales encobertos da grande serra localizada no Nordeste goiano, onde somente os escravos, fugindo da implacável e feroz perseguição dos capitães de mato, conseguiram alcançar.

O local era de difícil acesso, habitado por descendentes de escravos, os quilombolas. Se o inacessível lugar conseguiu assegurar liberdade aos negros, assegurou também – por outro lado – o completo isolamento dos remanescentes de escravos, como se o tempo tivesse abruptamente congelado. Os negros quilombolas, descendentes dos primeiros africanos que aqui aportaram, adentraram o século XXI vivendo como se estivessem em 1746.

Os quilombolas, de início, estranharam aquela gente de olho puxado que se mantinha arredia a qualquer tentativa de aproximação. Mas souberam compreendê-los e não criaram problemas. Sabiam que só estavam ali - naquela terra tão inóspita e inacessível – por estarem passando por uma implacável perseguição. E disso conheciam como ninguém. Por isso, os afro-descendentes respeitaram a dor de seus mais novos e únicos vizinhos, permitindo-os curtir em paz o isolamento escolhido.

Nas 50 famílias que agora dividiam com os quilombolas as serras inóspitas, havia mais de 30 cientistas. Eram pesquisadores famosos no Japão, respeitados e venerados pelo número de descobertas e invenções, sobretudo nas áreas da engenharia militar e da biomedicina.

Cinco desses cientistas foram os que desenvolveram o avião de caça militar Zero, que tantas baixas infligiu aos aliados nas homéricas batalhas aéreas travadas nos céus do Pacífico. Mas a maior parte dos cientistas migrantes destinava suas pesquisas para a área da engenharia genética.

Na China, quando o país estava subjugado pelo Japão, aqueles cientistas integraram o grupo que perpetrou todo o tipo de experimentações, utilizando seres humanos como cobaias, notadamente crianças e mulheres chinesas. Como receberam carta branca do imperador e do alto comando militar japonês, não havia impedimento ou limitação - fosse ético, moral ou religioso – à experimentação científica. A completa inexistência de limites levou ao sacrifício de 600 mil mulheres e de 1 milhão de crianças por experiências genéticas mal sucedidas.

Quando chegaram a São Paulo, já dominavam insumos suficientes para abrirem uma nova frente na pesquisa embrionária. Deram origem à partenogênese, técnica científica através da qual um ser vivo nasce a partir de um óvulo sem, contudo, haver fecundação.


O objetivo passava agora a conquistar o absoluto controle sobre a reprodução humana, de modo a gerar apenas seres plenamente sãos, com biotipos pré-definidos e já com o ordenamento cerebral estabelecido para se obter a máxima performance, o máximo fator de inteligência. Os cientistas não mais admitiam a casualidade dos relacionamentos do homem com a mulher que geravam filhos imprevisíveis, às vezes com ótima desenvoltura física, mas inadequado desempenho cerebral; outras vezes com alto desempenho cerebral, mas capacidade física comprometida. Muitos marginais e criminosos foram criados em berço de ouro, tiveram formação rígida, pais devotados, relacionamentos seguros e confiáveis.

Era então necessário fugir a esta lógica de incertezas e adentrar à lógica da previsibilidade matemática, rigorosamente exata, em que saberiam gerar filhos vitoriosos, física e mentalmente saudáveis, os únicos admissíveis, aceitáveis, aptos a conduzir o império japonês a um novo ciclo de conquistas e glórias.

Desde sempre, os cientistas japoneses consideraram o pleito de todo realizável, porque a partenogênese existe em profusão na natureza. Ocorre nas abelhas e formigas, que conseguem procriar por esse método solitário, sem que haja a necessidade da presença dos dois sexos para a fecundação do óvulo. Não por acaso, uma abelha rompendo o sol nascente era o símbolo da seita nacionalista, escolhida, dentre outras razões, pela impecável organização, estruturação hierárquica militar, e capacidade de reprodução pela partenogênese.  

Mas, se a partenogênese ocorre com extrema naturalidade no meio ambiente, nos mamíferos jamais ocorrera. Caso conseguissem emplacar o método em seres humanos, como intentavam, estariam os cientistas asiáticos revolucionando a biologia reprodutiva.

Se para todo o mundo científico a tentativa soava uma aventura ficcionista e lunática, para a seita, revolucionar a Ciência com a comprovação da pesquisa em fase conclusiva, era questão de dias, semanas quando muito. Para chegar a esse estágio, muito contribuiu o fato de terem substituído, nos laboratórios, camundongos, lagartos e chipanzés por crianças e mulheres chinesas capturadas quando da guerra entre a China e o Japão.

De 1 milhão de crianças chinesas sacrificadas, quase a totalidade ocorreu por terem nascidas defeituosas, com todo o tipo de distorções: algumas com cinco olhos, outras com várias cabeças, muitas sem tronco, só com braços, pernas e cabeça.  Houve um grupo de crianças que nasceram com treze pernas. Num outro “lote”, originaram crianças com a cabeça cujo diâmetro media 1,05 metro. Certa vez se debruçaram sobre uma encomenda do Comando Supremo do Exército Imperial Japonês. Produziram 87 exemplares de uma espécie destinada a ocupar o lugar dos kamikases nos aviões-bomba, destinados a atingir alvos inimigos. A espécie era um mutante constituído unicamente de uma minúscula cabeça, do tamanho de uma laranja – seu cérebro só comportava as instruções para a missão militar – e dois fortes braços para segurar o manche do avião, de modo a dirigí-lo com segurança em direção ao alvo determinado.

A eclosão da 2a. Guerra Mundial obrigou os cientistas da Shindo Renmei a redirecionar os experimentos para a indústria armamentista, deixando em segundo plano as pesquisas genéticas, o que comprometeu sobremaneira o cumprimento das metas estabelecidas para área.

Mas o golpe quase de misericórdia ocorreu quando os paises do Eixo amargaram a derrota militar. Humilhados e derrotados, os cientistas tiveram que se haver por conta própria, sem a proteção do Império e de sua rede de apoio e financiamento.

Sozinhos, largados no mundo, caçados pelo serviço de inteligência militar dos EEUU e URSS, passaram a vagar, disfarçados, pelo mundo. Os que caiam, capturados, eram de imediato integrados à elite dos cientistas dos países que, agora, se constituíam nas novas superpotências hegemônicas. Seus crimes foram ignorados e passaram a gozar de todo tipo de privilégios como nova cidadania, altos salários e posição social.  O único preço cobrado foi que se dedicassem ao máximo – e com exclusividade - para levarem suas novas pátrias ao ápice das inovações científicas e tecnológicas, e naturalmente, renegassem por completo a antiga nacionalidade japonesa.

Os cientistas que conseguiram se refugiar no Brasil imaginaram que a distância dos grandes centros os manteriam protegidos, possibilitando que retomassem as pesquisas genéticas, por tanto tempo obstaculizadas. Era vital que assim fosse. Dar prosseguimento às pesquisas significava resgatar da humilhação o heróico povo japonês.

Mas novamente a descoberta das atividades secretas da Liga do Caminho dos Súditos os colocaram na mira da polícia. Mais: quando se certificaram que o imperador havia mesmo capitulado, assinando uma rendição que consideraram humilhante, intitularam como traidores da pátria Hiroito e todos os generais japoneses. Envergonhados, abriram mão da cidadania japonesa, resolvendo constituir uma nova nacionalidade, uma nova raça, a partir do marco zero, baseada no que de melhor havia na raça japonesa, com o que de interessante conseguissem encontrar nas demais raças, incluída aí a brasileira.

Por isso a pressa em dar continuidade às pesquisas. A meta agora era constituir, a partir das 50 famílias originárias, uma nova raça que, em curto prazo, dominaria Goiás, o Brasil, a América Latina e depois o mundo.

Nos rincões do Nordeste goiano, protegidos pelas muralhas naturais das serras escarpadas, abrigados pelo mais completo e solitário isolamento, iniciaram a conquista da nova missão.

Do japonês extrairiam o cérebro, a inteligência e suas tradições culturais milenares. Não havia no mundo uma nacionalidade com cultura tão rica e singular, caracteristicamente disciplinada, componente fundamental na nova raça que deveria conquistar o mundo. A tão próxima presença dos quilombolas nos arredores era, por demais, providencial. Os negros guardavam ainda as nobres características dos africanos de 1.500. Braços longos e fortes, pernas rígidas, corpo musculoso, esguio e bem torneado, além de resistente, devido aos séculos de trabalho escravo e condições adversas. Não sabiam ainda o que extrair dos brasileiros brancos, raça que consideravam servil, raquítica e subnutrida.

Como o objetivo primordial era gerar a raça superior, acabaram se contentando em extrair dos brasileiros tão somente a característica espacial, ou seja: o simples fato das pesquisas estarem se realizando no Brasil já era de todo suficiente para contemplar a nacionalidade brasileira. Consideram-se, com este arranjo, devidamente protegidos, convencidos de que o novo homem não emergiria maculado, eivado de vícios e defeitos.

Não demorou e o século inteiro de suor e esforços no campo das ciências, pura e aplicada, resultou em retumbante êxito. Os cientistas conseguiram equacionar os problemas até então insolúveis, e todos foram chamados a conhecerem os 100 primeiros bebês originados pela partenogênese. A maior dentre todas as realizações humanas.

Em êxtase, nenhum dos presentes conseguiu conter as lágrimas. Estavam diante da nova era. Testemunhavam o novo mundo que se descortinava e, orgulhosos, perceberam-se Deus, eis que desvendaram os mistérios da criação.

Ali estavam 100 bebês absolutamente lindos, inteligentes e saudáveis. Beleza inigualável; resistência física que os imunizavam contra todas as doenças, inclusive câncer e Aids; e inteligência descomunal, só possível de ser alcançada pelos demais humanos por volta de 3005. Em homenagem aos antepassados, a safra de bebês sobrenaturais, a safra de super-homens, foi denominada tokkotai.

No momento em que a descoberta foi anunciada, os membros das famílias japonesas que em 45 migraram para Goiás, estavam todos velhos, muitos morrendo. E a velhice – como que a anunciar a morte iminente - é senhora da razão, de modo que os princípios primeiros, que os levaram a se esconder qual escravos, foram mudando com o tempo.

O tanger dos anos, além das marcas indeléveis que empresta à vida, costuma distribuir também equilíbrio e generosidade. O radicalismo nacionalista, a ideologia imperialista, a arrogância autoritária, tudo isso foi, paulatinamente, carcomido pelo tempo. Continuavam sonhando em dominar o mundo, mas agora, para disseminar outros princípios: ética, democracia e justiça social.

Apesar de isolados, os raros e fugazes contatos havidos com os goianos do Nordeste do Estado os fizeram conhecer uma atroz realidade. Descobriram a capacidade da miséria e da injustiça social dar conformação a uma sub-raça de humanos, uma sub-raça de viventes, uma sub-espécie de gente tão sofrida que as características  humanas já lhes escapavam. Paulatinamente, os japoneses foram percebendo que todo o Brasil estava mergulhado num injusto sistema em que ao povo restava o papel de boiada a ser tangida, massa ignara a ser manobrada.

Em todos os milênios jamais haviam se deparado com algo parecido. A descomunal riqueza produzida pela nação, estupidamente apropriada por escassas ratazanas, uma elite cruel e sem caráter.  

Reprogramaram, então, as metas, e o grande objetivo passou a ser buscar – a todo custo – o desenvolvimento equilibrado entre o homem e a natureza.

Imediatamente, os 100 bebês foram encaminhados para todas as partes do País. Em 25 anos estariam dominando as mais relevantes esferas do poder político brasileiro, Executivo, Legislativo e Judiciário.

Nesse ínterim, estaria sendo despachada a segunda remessa – agora de 300 bebês – para todos os países do mundo, de modo a se repetir o ciclo justiceiro no Planeta.

Quando, porém, a primeira safra dos bebes da nova era atingiu a idade adulta e já gerenciava, com inusitada desenvoltura, os altos cargos da república, Tokuiti Eiit Sakane, o ultimo remanescente vivo das 50 famílias que haviam migrado para Goiás, chorava copiosamente.

Alguma coisa na experiência - não conseguia identificar o problema - saíra errado. Os homens criados para construir a nova história adquiriram no percurso um vício horrendo, terrífico, que destruía irremediavelmente, qual chaga invasiva, o plano do novo mundo. Todos, invariavelmente todos, enveredaram para a corrupção, o clientelismo e o jogo de interesses.

Conquistado o Poder, envolveram-se em negociatas, chantagens, conspirações, desvio de recursos públicos, jogatina e prostituição. Chegaram a criar bancos oficiais, federal e estaduais, cuja principal função era promover jogos, surrupiando do povo os parcos trocados que mal pagavam o pão amanhecido.

Os tokkotai - batalhão em sua segunda versão criado para redimir o mundo - como que resgatando as origens históricas, dos idos de 45, transmutaram-se em paladinos da injustiça, em matadores, jagunços de fraque, cartola, Harlley Davidsons e iates luxuosos. Atuavam com tal desenvoltura que passaram a ter ascendência sobre os demais cidadãos, sobre os que levavam suas vidas de maneira justa e honesta. Era como se conseguissem hipnotizar a todos, conseguindo, inclusive, desvirtuar o pensamento, o ideário e a ação política de religiosos, lideranças e políticos corretos.

Por mais que esforçasse, escapava à compreensão do povo simples e humilde, o fato de políticos sérios, quando eleitos, passassem a defender tudo o que, por toda a vida, haviam combatido. Esses políticos passavam a considerar aliados e correligionários, uma marginalia de senhores que, até bom pouco tempo, repugnavam como o que de pior pudesse existir na sociedade. As instituições financeiras internacionais, que antes responsabilizavam pela fome endêmica do povo, agora eram tidas como parceiras privilegiadas, idolatradas, a quem generosamente, entregavam as riquezas do País na forma de juros escorchantes, num volume jamais visto em toda a história da humanidade.

Sakane, antes de se recolher, tivera o cuidado de conversar, por horas a fio, com Toshiko Shinai, a única dentre todos os super-seres que permitiria sobreviver. Estava já mulher formosa, estonteantemente bela, pele morena, cabelos longos ondulados. Detalhou os sonhos primeiros da colônia, os problemas havidos na travessia, detendo-se sobre a missão que a única sobrevivente da nova raça deveria perseguir. Vagaria como um ronin, um samurai sem senhor, à caça de cada um dos 99 tokkotai encastelados nas instituições da República. Deveria matar todos, livrando os brasileiros da fonte da corrupção e do entreguismo.

Após tudo acertado, liberou-a para a missão solitária. Pode vê-la ainda de relance, como um bólido, saindo em direção a Brasília, onde iniciaria o justiçamento.

Tokuiti Sakane não conseguiu dormir. Resoluto, atravessou o silêncio denso da madrugada esquadrinhando a névoa seca e fria. Ativou, em cada um dos 27 laboratórios, uma bomba sub-atômica. Repetiu o procedimento em todas as casas, alojamentos e instituições edificadas pela colônia japonesa. Quando o sol anunciava desvirginar o que restava da noite, programou o mecanismo para que tudo explodisse no minuto seguinte. Era preciso destruir tudo. O povo brasileiro levaria muitos anos para se livrar dos tokkotai infiltrados em todas as instituições do País. Urgia não perpetuar o mal. Era imperativo estancá-lo.   

Enquanto contava o correr do minuto fatal, Tokuiti, passava a vida. Em fração de minuto relembrou a infância, o casamento, os sete filhos, as guerras contra a China e contra os aliados, a tortura no DOPS de São Paulo, a fuga para Goiás, a esperança de um Japão imperialista e invencível, substituído pelo sonho de um Brasil melhor e um mundo mais justo para todos, as lideranças políticas brasileiras hipnotizadas pelos tokkotai...                          

Antes que a explosão eclodisse, levou o revolver à cabeça e desferiu o tiro fatal. Ainda se lembrou de, em pensamento, implorar desculpas aos brasileiros, povo que generosamente assentira em lhes dar guarida.  Como num capricho da natureza, as rajadas de sangue que, com o tiro, escaparam atingindo a parede branca do quarto, ali desenharam a figura de um vigoroso sol nascente, como a querer iluminar as trevas que historicamente tornavam os dias em noites..

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