revista bula
POR EM 01/12/2008 ÀS 05:58 PM

O que é que a banana tem?

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O desejo de Míster Fortes era ser todinho uma bananeira. Todos ali ficavam encabulados com isso e não se satisfaziam apenas com o dito de que "toda livuzia tinha sua mania". A cidade comportaria tranquilamente esse tresvariamento, se Míster Fortes não fosse à TV anunciar seu desejo inusitado. Os pais de família se preocupavam, não sabiam ao certo, com essa mania anunciada, se continuaria ou não o regime atualmente cultivado por todos, que dizia ser a virgindade essencial e fundamental para um bom casamento. Ainda mais  que começavam, subversivamente e à sorrelfa, é claro, por uns  insuspeitos "comunas bananistas", as discussões para a retirada, do Código Servil da Banana, do artigo que defendia o marido caso ele constatasse, até dois meses após o casamento, que sua mulher "já era", conforme  designava literalmente o artigo 3º , parágrafo II, do Código, o que para os mais gaiatos significava dizer que ela "estava embananada".

Era costume entre os homens lavar a honra não com chifres pontiagudos e escarnecedores, mas com a água limpa de dois rios, para refrescar a cabeça e lustrar a pontas. O corno perdia prestígio e era motivo para chacotas. Só era socialmente reconsiderado após arrancar a bananeira nupcial dela  e  enterrar no lugar os bagos de um boi curraleiro, bem chifrudo, ainda virgem.

As mulheres, como a de Míster Fortes,  Danda Fraca Fortes,  tinham de manter indubitável fidelidade à sua bananeira, sob pena de ficarem presas durante o período menstrual na Cadeia Pública dos  Dias Vermelhos, tendo de assistir, religiosa e bananeiramente, todos os dias, durante cinco horas, às pregações dos pastores bananas da Igreja do Evangelho Sextangular. A essa fidelidade denominavam de "sina bananeira" e todos já nasciam com ela, era como um pecado original. Só que aos homens a pena pelo desfrute com a carne proibida era branda. Assim mesmo, até aquele momento, praticamente não se ouviu falar de punição ao do sexo masculino, a não ser quando, por um distúrbio qualquer, aparecia algum legalista babaca querendo consertar o que não tinha mais jeito.

Para cada filho que nascia, os pais eram obrigados a plantar uma bananeira, em solenidade com banda de música e tudo mais. Também os noivos, antes das núpcias, plantavam cada qual sua bananeira. Tido com intelectual do mais alto gabarito e conhecimento, Míster Fortes era respeitadíssimo pelos representantes políticos do sistema. Acreditavam ser o único capaz de desenvolver a "Tese Bananeira", que no fundo defendia a continuidade de todos os conceitos e preconceitos, como quando reafirmava o poeta dizendo em um dos intertítulos: "Cada macaco na sua bananeira/ Chô chuá..."

Míster Fortes não era subversivo. Já o provara a milhares e melhores. Tinha idéias. "Mas idéias todos temos", filosofava. O maior complicador da situação social era o de que ele nunca explicitava com clareza sua tese bananeira e daí sobrevinham as dúvidas, deixando embananada a elite constituída. Ficava num "chove não molha" de entediar qualquer vivente. Como era intelectual, e consequentemente autoridade, quando aludia a algum ponto da tese em público, necessário e até imprescindível se tornava o aplauso, mesmo se ninguém quisesse ou até se discordasse e o achasse o maior embromador do lugar.

Os grupos feministas ameaçaram uma reação, indo para a televisão. Sem encontrar respaldo, não souberam esclarecer um ponto de vista contrário e que convencesse. Por via de inexperiência e ingenuidade, uma delas, que antes havia rasgado e queimado o sutiã em praça pública e fugido por causa da lei e da repercussão, no meio do programa ameaçou com a possível invasão de todas as plantações de bananas da região. Orientação assaz insubordinada e muito mais embananada, rebatida veementemente pelas colegas ali presentes, dando clara demonstração de insegurança. Foi motivo de orgia para os homens.

O rebate intempestivo intrigou Míster Fortes, que passou a escrever com mais autoridade ainda sua "Tese Bananeira", tendo para ele o mesmo significado de  "Memórias", pela intimidade com o assunto e também porque a considerava da máxima importância aos estudos das gerações futuras, para fortalecer as tradições e para deleite próprio.

Danda implicou com o tópico onde afirmava que as mulheres  podiam, teoricamente, ter os mesmos direitos do homem, caso conseguissem atingir com facilidade o orgasmo bipolar trifásico, "uma coisa de louco", que aos homens era comum, em função justamente da liberalidade inerente ao macho e de uma maior afinidade com a libido bananeira.

Quando adolescentes, os meninos eram iniciados na vida sexual usando os troncos das bananeiras. Aos 15 anos, em uma cerimônia denominada "estrujeição", os iniciados iam, à tardinha, com uns amigos mais velhos, os iniciadores, ao Largo da Onanibanana, do outro lado do rio, onde havia caules em abundância da Musa paradisíaca e a dança de muitas bundas das lavadeiras que sovavam roupas encardidas e, de pernas abertas e saias levantadas, deixavam à mostra o alimento da libidinagem adolescente. Furavam uma cavidade a contento e enfiavam o prazer. Regozijavam-se com os olhos, o pensamento e o doce pecado contra a castidade e a favor dos mistérios gozosos.

Em um dos parágrafos que se conseguiu sugar da tese, Míster Fortes dizia que a função bananeira, implícita hoje em dia principalmente nos relacionamentos sexuais, estava intimamente ligada à psiquê, determinando, assim, o comportamento social. Ele inseriu também o que não se cansava de afirmar: "Todos somos parte gente, parte bananeira" e que o instinto, acentuadamente o sexual, selava fraternal ligação à nossa parte bananeira. Um detalhe  que chamava atenção dizia que os órgãos sexuais masculino e feminino eram feitos à semelhança de bananas, frutas das bananeiras. O masculino com uma protuberância e, o feminino, com cavidade interna, como uma casca sem  banana.

Quando anunciou pela televisão seu desejo de ser todinho uma bananeira,  Fortes não deixou  bem clara ao público essa questão, porque estava na fase inicial da formulação da tese. Por isso, também, as indagações e polêmicas levantadas pelas feministas e por diversos pais de família. Estes, achando que o Governo devia censurar programas assim, que serviam apenas para provocar insegurança e ferir a moral da Tradicional Família Bananeira.

Preocupado com o desenvolvimento de seu bananal, Míster Fortes tratou de adubar a plantação que tinha na chácara. Por ironia agrícola, as bananeiras passaram a produzir umas frutas esquisitas, mais tarde reconhecidas como laranjas-da-terra.

Ficou assustadíssimo quando percebeu a estranha ocorrência. Imaginou que, pelo envolvimento com a questão, pudesse estar ocorrendo algo de errado com sua sexualidade. No entanto, nada percebia de anormal e, para assegurar-se da condição de macho, passou a utilizar  novos conceitos na tese, o  que, na certa, embananou mais o meio de campo. Talvez até conseguisse reafirmar a macheza, mas sua vida em casa e na sociedade decerto não seria a mesma dali em diante. Quem sabe aquilo tudo ocorria para colocar em questão a sexualidade advinda da bananeira, conforme expunha a tese na linha seguida por ele até ali, como que prenunciando a necessidade de mudanças? Abarrotou-se de dúvidas.

Abilolado e sem encontrar explicação plausível, saiu perambulando em busca de um pouco de paz e de alívio para, pelo menos, desanuviar a cachola.

- Ave, ou estou tresvariado ou o mundo está virado -, disse para si.

Intrigou-se. Sim, todas as pessoas estavam de cabeça para baixo, plantando bananeira.

Míster Fortes sempre achou que a loucura aparecia como um processo e não tão de repente. Ouviu na rua, sem querer, dois amigos cochichando sobre ele, dizendo que os frutos da bananeira seriam o prenúncio desse processo, uma de suas etapas iniciais.

"Não, não e não", inquietou-se. Precisava descobrir, com urgência, o que acontecia para que tudo fosse tão exótico.

Quando criança, ouvira do avô paterno que algo semelhante ocorrera com o bisavô Epitáfio Fortes, que teve sobressaltos horríveis e um final muito, mas muito triste. Chegou a perpetrar a formação de um exército bananicida, tirado única e exclusivamente de sua imaginação, para  arrasar as plantações locais. Por não lograr êxito na idéia estapafúrdia, já que a população saiu armada em defesa, comeu inúmeras dúzias de bananas e suicidou-se por empanzinamento.

Aos poucos e com muito exercício mental, Míster Fortes percebeu que nada era assim tão esdrúxulo e passou a conviver naturalmente com as pessoas de cabeça para baixo e as bananeiras que davam laranjas-da-terra, como ocorria agora com todas as que foram plantadas em sua chácara. Na tese, chegou à conclusão de que a inferioridade feminina, tão apregoada pela sociedade, reinava paralelamente ligada à questão bananeira. Essa situação fazia os ricos cada vez mais ricos e os pobres muito mais pobres, conforme comprovou mais tarde quando reuniu em praça pública todas as mulheres do Cabaré Martinica em um colóquio libidinoso e amoral, para mostrar à sociedade, na prática, o que tentava explicar em tese.

Foi um horror! As autoridades o prenderam e o condenaram a ficar dependurado de cabeça para baixo no meio da rua. Aos poucos recobrou a lucidez e se desculpou pelo que lhe contaram que havia feito. Quando o retiraram do castigo, que homem ali tinha certos direitos, novamente virou um "zetelo" e foi aquele "buzufu" com as mulheres na praça. O homem se desvirou numa "indroma", para desespero de todos. Por isso, foi condenado a viver plantando bananeira e não falou com mais ninguém, o que nos impediu de saber o que de específico, exótico e recôndito a banana tem.

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