revista bula
POR EM 10/12/2008 ÀS 09:49 AM

Ciúmes, Viagra e tiros dentro da noite

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Meus amigos nunca entenderam. Meus pais nunca aceitaram. Até bem pouco, eu mesma nunca chegara a compreender direito quais forças me arrastaram para o núcleo trágico da vida do Coronel Ubiratan.

Aparentemente não temos nada em comum: nasci de uma família bem-estruturada, num bairro grã-fino, ele de uma família em ruínas, numa periferia lascada. Tive educação esmerada na Europa, ele se ralou na caserna. Nem à mesma geração nós pertencemos. Sou 23 anos mais nova que ele. Nada temos a comungar, a não ser esta pulsão fatal e incontrolável pela tragédia.

Meu analista diz que fui atraída por ele em razão de sua aura de poder violento, que ele passou a empunhar depois que apagou tantas vidas de uma só vez. E o mesmo motivo que provocou a minha aproximação me levou a matá-lo, pois era como se eu tomasse para mim a força poderosa que nele eu via. Pode até ter uma certa lógica, mas não tem nada de verdadeiro.

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia, como disse o bardo inglês, com muita propriedade. No fundo, o que existe é um liame secreto e inquebrantável. Ocorre que, desde muito cedo, eu soube que minha vida seria regida pelo número 11, que é a plenitude do 10+1, o transbordamento, a desmesura, o viver em seu teor máximo, no limite, na raia da ruptura, já alcançando a falha universal, entre o factível e o fugaz.

Agora há pouco, porém, numa pausa que construí no meio desse burburinho, peguei lápis e papel e levantei alguns dados sobre o Coronel Bira e eu nessa situação aberta em escâncaras. Pude constatar o que eu já desconfiava: que a vida dele, assim como a minha, está toda entremeada pela exuberância do número 11.

Senão vejamos: Coronel Bira, como é tratado na intimidade, tem 11 letras. Ele nasceu no mês 4 do ano de 43, cuja soma dá 11. A marca maior de seus feitos são os 111 mortos sob seu comando, no episódio que ficou conhecido como a Chacina do Carandiru.

Vejam só: o número 111 carrega a fatalidade potencializada. É como se fosse um 11 entrelaçado com outro 11, com o algarismo 1 do meio servido aos dois numerais, numa conexão nefasta, em seu máximo grau.

O tumulto que desaguou no massacre foi iniciado pelos líderes de duas facções internas rivais. De um lado o “Barba”, de outro o “Coelho”, cuja soma das letras dá 11. A situação fugiu do controle às 14h51, na qual a soma é 11. A invasão foi comandada por 1 coronel (Ubiratan) mais 325 soldados, números que tendo seus algarismos adidos redundam em 11. A hora provável do tiroteio foi às 18h20, que é igual a 11. O número de disparos contabilizado pela perícia foi de 515 (5+1+5=11). O massacre, propriamente, aconteceu no pavilhão 9, portão 2, um local conflagrado pelo número 11.

Seu julgamento pelo massacre começou no dia 20/6/2001, com a soma resultando em 11. No primeiro júri foi condenado a 632 anos de reclusão (6+3+2 = 11).

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino.

Quando nos aproximamos, fomos conduzidos pelas forças ocultas do número cabalístico, que é ao mesmo tempo divino e libidino, sacro e escroto. Nós nos conhecemos num evento militar em que eu representava minha mãe, no dia 1/7/2001, data que, somada em seus algarismos, resulta em 11. Ubiratam + Carla Cepovilla tem exatamente 22 letras, que, divididas por dois titulares, dão a parcela de 11 para cada um. Inicialmente marcávamos nossos encontros no “clube de tiro”, que tem 11 letras.

Essa coincidência de número 11 segue numa sucessão tão assombrosa quanto enfadonha.

Com esta breve demonstração eu quis apenas dar uma pista de que nem o Coronel Bira nem eu temos qualquer culpa ou dolo em toda essa sucessão de tragédias. Tudo já estava desenhado pelos propósitos do além. Forças descomunais e irresistíveis impuseram as situações, apontaram as armas e premiram os gatilhos. Fomos instrumentos involuntários de desígnios insondáveis.

Quem tem um mínimo de cultura teosófica sabe que o número 11 é o desequilibrador dos elementos constitutivos do universo, determinante de suas doenças e erros. É esse número cabal o símbolo da luta interior, da rebelião, do extravio, do pecado original, da revolta dos anjos, enfim.

Se nem os anjos, que são assessores diretos de Deus, puderam resistir a seus efeitos desagregadores e decaíram, como poderíamos nós, simples mortais, resistir à imposição desse império?

Saibam todos que, visto de um modo superficial e simplista, fui eu quem matou o Coronel Bira, quando ele disse que não ia mais desperdiçar Viagra comigo, que determinada fulana fazia melhor e tal. Mas se olharem a realidade mais profunda, como deve ser, como rogo que façam, tanto o coronel, na realização do massacre, quanto eu, no seu assassinato, não tivemos culpa nem dolo. Fomos, repito, apenas instrumentos de uma determinação superior, simbolizada pelo número 11, à qual ninguém é dado resistir.

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino

 
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