revista bula
POR EM 25/04/2012 ÀS 11:10 PM

Vocação de brasileiro

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Estou cada vez mais convencido de que somos um povo cuja principal vocação é a pobreza. Nelson Rodrigues dizia que temos complexo de vira-lata. Mas o assunto dele era outro. E não adianta resmungar, dizendo que tem muito dinheiro. A maior pobreza não tem nada a ver com economia. Apesar de que, em muitos aspectos, seja filha desta. Legítima ou adotiva, suas relações são familiares. 

Vocês já repararam o que faz uma mulher pobre quando não aguenta mais olhar sua sala? Ainda não? Primeiro ela vai ao marido e, gritando, exige que ele arranje dinheiro, seja de onde for, porque ela não aguenta mais olhar aquela sala. Três anos, entendeu? Três anos olhando para a cara da mesma sala é castigo que ninguém merece. Ela chora, ameaça voltar para a casa da mamãe, mas, depois de algumas carícias, relaxa e dorme.

No dia seguinte, o marido sai para o trabalho madrugada ainda. Ela o espera ansiosa o dia todo. Os programas do rádio perdem uma ouvinte, que não consegue se concentrar em nada. Não ouve, não canta, não ri. À noite ele se chega com o nariz escorregando no chão e se confessa imensamente cansado. Só depois de muita insistência da mulher, informa que a situação está difícil, que não pode arriscar perder o emprego, e que, por fim, nem pensar em dinheiro. Ela senta: os olhos nas mãos, as mãos no regaço e assim fica até a hora de dormir.

No fim de semana os dois se atracam com os móveis existentes e ao cabo de uma hora a sala é outra. Os móveis foram todos mudados de lugar.

É exatamente isso que tem sido feito com muita coisa em nosso país.  Saúde, educação, política, economia. Quando não se podem mudar as coisas, mudam-se os nomes, e ficamos todos felizes.

Vocês já repararam que o ensino fundamental agora dura nove anos? Não? Pois então saibam que o antigo pré agora se chama primeira série. Desculpem, primeiro ano. É fundamental um, fundamental dois, ensino médio, que no meu tempo se chamavam primário, ginásio, clássico, científico, depois primeiro grau, segundo grau e não me lembro mais quantos nomes tiveram nossas séries. Desculpem, nossos anos. Uma revolução em todo o sistema educacional. E agora temos EAD. Não é um luxo? 

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