revista bula
POR EM 15/03/2008 ÀS 02:26 PM

Vida vazia

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Reencontrei um amigo que há tempos eu não via. Cabisbaixo, abatido, fisicamente deplorável, o sujeito, que é médico dos bons, daqueles à moda antiga, profissional que olha dentro dos olhos dos pacientes em busca de pistas, das chaves dos mistérios, que se preocupa mais com o doente do que com a doença, confessou andava desanimado e até depressivo por causa da condição atual da prática médica. Reclamou do excesso de trabalho, da má remuneração, da insegurança profissional, da desconfiança mútua entre médicos e pacientes. Para emendar, contou-me uma estória ocorrida com um seu colega de trabalho, também doutor, e que agora reproduzo, é claro, camuflando os nomes, azeitando o enredo, fermentando a verdade, inventando um bocadinho, aproveitando ao máximo a gostosura de um episódio real e deveras curioso. Em tempos de relação médico-paciente moribunda, o fato espelha bem esta condição. Foi mais ou menos assim que a coisa se deu...


Belinda, de linda mesmo, tinha de resto apenas o nome. Nos seus tempos de juventude e glória, foi muito cortejada e cobiçada pelos homens. Musa inspiradora de punhetas e noites mal dormidas. Escolheu para marido um burguês elegante, porém, tosco e de caráter menor, filho de um fazendeiro muito rico, criador de gado, ofício que hoje em dia muitos denominam empresário rural, que é para dar mais glamour, como se a roça não prescindisse disto. Não importa. O noivo nadava, ou melhor, cavalgava em dinheiro. Dizia-se, inclusive, à boca miúda, que o camarada limpava-se com cédulas de cinqüenta. Atraída pelo dote do mancebo, Belinda entregou-se ao mesmo de corpo e alma (muito mais corpo do que alma). Fisgou o ricaço e garantiu a aposentadoria aos vinte e poucos anos de idade. Até que tinha alguma afeição pelo moço, mas gostava muito mais do dinheiro e da mordomia que ele proporcionava. O rude garanhão desposou a donzela, pois a pressão familiar se avolumava. Ele não poderia romper os trinta anos sem contrair matrimônio. Naquela época, solteirões estavam fadados à maledicência da sociedade. Escravo das aparências, ele desposaria, sim, a fogosa virgem, mas não abandonaria as amantes, raparigas e até moçoilos modernos com mentes e meatos descolados, provenientes da capital e de outras metrópoles. Movido pela química desinibida da maconha, o rapaz encontrava nos iguais e nos opostos território propício para a vazão de taras e estripulias sexuais as mais bizarras.


Ao contrário das previsões paroquiais, o casamento não durou até que a morte os separasse. Advogados mal intencionados e bem remunerados cuidaram da tarefa com desprendimento e competência. O tempo, infalível a todo ser que respira, não se apiedou de Belinda. Aos quarenta anos, o seu tão cobiçado corpo havia deteriorado além da conta, às custas de três gravidezes, do sedentarismo e da gula. Sentindo-se feia e infeliz, ela buscou na ciência e no charlatanismo a cura para as suas dores e frustrações. Usou e abusou dos cremes, fórmulas milagrosas, agulhas, dietas de A a Z, garrafadas e simpatias antipáticas, porém, valiosíssimas para os desesperados.

Até que um dia, Belinda cismou de procurar um ginecologista para fazer uma desnecessária cirurgia vaginal, a fim de corrigir um inexistente defeito na sua pouco usada fenda genital, uma suposta rotura que a fazia se sentir “larga” na hora do vamos-ver, embora estivesse abstinente desde a separação do marido. Para se ver livre da insistência da paciente, o doutor acabou cedendo e, mesmo sem precisão, aplicou dois ou três nozinhos cirúrgicos em seu períneo, deixando o que já era muito bom melhor ainda. O ato cirúrgico foi o início de um calvário para o desavisado médico.

Logo após a cirurgia, ainda no período de convalescença imediata, a mulher foi tomada de um surto psicótico que criou um verdadeiro alvoroço dentro do hospital. Sabe-se lá como, a mulher fez entrar na enfermaria dezenas de revistas pornográficas, recortou algumas páginas e as pregou nas paredes, formando um mosaico libertino que ninguém aprovou. Como se não bastasse tamanha esquisitice, a pobre diaba ficava o tempo inteiro mirando a vulva com um espelho de mão, desaprovando o resultado final. Desacostumadas à insanidade, as enfermeiras da maternidade entraram em parafuso. O renomado ginecologista foi chamado às pressas para resolver a encrenca. Nem com a interferência de um psiquiatra, a coisa teve conserto. Para alívio de todos a paciente recebeu alta hospitalar e se mandou com uma revistaria toda embaixo dos braços e muita bravata pelos corredores mal iluminados.


Durante várias semanas, a mentecapta visitou a clínica do cirurgião para lhe dizer poucas e boas, insultos e verborragia impossíveis de serem citados nestas linhas. Prepotente, a mulher prometeu processar o médico, mandá-lo para a cadeia, destruir sua reputação por aquelas bandas, arrancar dele bastante dinheiro (de preferência, tudo), ainda que às custas de fórceps e chantagem. Apavorado, o doutor catou a família e sumiu da cidade. Com doido não se brinca. Melhor dar tempo ao tempo.


Mergulhada em loucura, a mulher desembestou num comportamento para lá de inconveniente, masturbando-se em locais públicos, vestindo-se de maneira claramente imprópria e vulgar, utilizando palavreado chulo, incomodando qualquer ser humano que por ela cruzasse, fosse ele adulto, criança, parente ou estranho. Sua derradeira aventura foi deitar-se com um catador de papéis e de tranqueiras que perambulava pela cidade. Fizeram do matagal de um lote baldio a cama mais perfeita para a conjunção carnal. Foi ali mesmo que o andarilho estreou a vagina seminova da criatura e a liquidou com mãos de unhas encardidas. Analfabeto, despreparado para crimes perfeitos, o sujeito foi rapidamente capturado pela polícia e jogado numa masmorra moderna chamada cadeia. Aliás, pelo que descreveu Dante Alighieri em sua Divina Comédia, os presídios brasileiros estão mais para sucursais do inferno. Difícil acreditar que um ser humano saia daquele purgatório recuperado de seus males e pronto para reingressar na sociedade. O povo, entretanto, não dá a mínima. Bandido tem mais é que sofrer...


Enfim, a extinção de Belinda deixou mais leve o cotidiano de todos naquele lugarejo, fazendo com que a vida retomasse o seu curso natural e hipócrita. A sua morte, portanto, foi de pouca ou nenhuma valia praquela gente. É assim mesmo que acontece nas tragédias, até que uma delas nos bate à porta sem pedir licença. Daí é chorar, implorar pela justiça dos homens e botar a culpa em Deus. Afinal, não foi Ele quem quis assim?!


 

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